Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Aaron Dilloway – Modern Jester (2012; Hanson, EUA)

Aaron Dilloway é um músico experimental norte-americano, mais conhecido por fazer parte do grupo de noise Wolf Eyes ao lado de John Olson e Nate Young. Depois de uma prolífica passagem pelo Wolf Eyes, em 2005 Dilloway deixou a banda parar morar no Nepal com sua esposa, aonde inclusive realizou várias experimentações em field recording. Desde 1994 o músico mantém sua própria gravadora, a Hanson Records, por onde lança grande parte de seu trabalho solo, como também o trabalho de vários outros artistas. Modern Jester já teve uma versão em cassete lançada em 2008 com quatro faixas, das quais apenas uma permanece nesse lançamento de 2012. (AT)

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O que mais fascina na estética musical de Aaron Dilloway, e consequentemente do Wolf Eyes e invariavelmente de gente como Nate Young e John Olson, é uma certa delinquência sonora de origens quase sempre enigmáticas e até inusitadas, sempre ecléticas em suas referências extremas. Ouvir uma faixa do Wolf Eyes (que me parece é o grupo que melhor define essa utopia noise) é estar disposto a caminhar por círculos sonoros tão distantes quanto radicais, do hardcore ao industrial, do punk ao death metal. E se por um lado a carreira solo de Nate Young anda enveredando por um caminho mais pontual, econômico, limpo em certo sentido (Stay Asleep, disco de 2011, prova um pouco disso, e o próprio Regression de 2009 também já apontava nessa direção), por outro, Dilloway parece polarizar as coisas, ainda, para esse âmbito do despejo musical, fazendo questão de trabalhar com decibéis extremos, as vezes incômodos, timbres abrasivos e todo aquele chiado característico da fita manipulada. Sem falar na progressão instável de várias faixas, que ainda que sigam uma certa métrica misteriosa (e muitas vezes caótica), não deixam também de remeter a um certo minimalismo subversivo e às vezes até de uma qualidade meio ambient. “Eight Cut Scars (For Robert Turman)”, por exemplo, se utiliza de uma progressão até bastante didática, para através de repetições e chiados ir, aos poucos, tijolo a tijolo, decibél a decibél, construir uma sinfonia sônica de poder sem precedentes, uma engenharia precisa do vandalismo sonoro.

Além de todo esse escopo sônico mais extremo, o disco é cheio de pequenos detalhes perversos, sendo uma das facetas mais presentes é um uso obsessivo e altamente subversivo de loops. Uma faixa como “Body Chaos”, em seus quase 19 minutos, vislumbra padrões no mínimo bizarros e sombrios. A faixa começa com um loop de uma fita manipulada que lembra aquela fase pré-histórica de um jovem Daniel Johnston, mas no momento em que Johnston escolhe uma melodia e segue com ela, Dilloway arrasta sua faixa com outros loops que em um primeiro momento parecem não querer construir nada, ou pelo menos apenas uma experiência de som ambiente, com direito a um eco caseiro de latidos de cachorro e batidas irreconhecíveis, mas que lá pelo quinto minuto, uma espécie de drone explosivo, outra vez em loop, vai dando o tom anárquico e em certo sentido infernal da faixa. Depois disso, a coisa vislumbra vários mundos, sempre mantendo o timbre do chiado, da fita manipulada, do sampler hipnótico, com mantras e outros sons igualmente obscuros, uma experiência de imersão poderosa.

Toda essa manipulação inventiva, que mantém sempre um tom cru e agressivo, mas ainda assim altamente sedutor em suas repetições e construções enigmáticas, parece flertar, de maneira pouco antes vista na carreira de Dilloway, com todo esse imaginário noise do qual o artista se originou. É como o se artista buscasse uma espécie de mergulho máximo nessa utopia sonora que moldou sua geração, a fim tanto de um saudosismo saudável, como de uma renovação necessária. Nada mais funcional (e claro, de digestão nada fácil por parte do ouvinte) do que se jogar de cabeça nesse estética musical austera, bruta, selvagem mesmo. O passado recente pode ser só um monte de fitas, pedaços brutos de material magnético, mas é justamente nessa arqueologia grosseira que reside um dos momentos mais brilhantes e bonitos da música contemporânea. (Arthur Tuoto)

“Eight Cut Scars (For Robert Turman)” fez parte do Camarilha Podcast #73
Ouça um preview do disco.

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Um comentário em “Aaron Dilloway – Modern Jester (2012; Hanson, EUA)

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Publicado às 30 de março de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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