Anteriormente conhecidos como Hype Williams, o inglês Dean Blunt e a russa Inga Copeland começaram a lançar CD-Rs limitados por conta própria em 2009. No entanto, foi com o álbum sem título lançado pelo Carnivals em 2010 que despertaram maior interesse da mídia especializada. Até agora, com uma grande quantidade de EPs, singles, mixtapes e LPs, transitaram por selos como Hippos In Tanks, De Stijl e Hyperdub, fazendo aparições discretas nos catálogos Honest Jon’s e Rush Hour. Recentemente abandonaram o nome Hype Williams e optaram por utilizar seus nomes “reais”. Aliando uma atitude copy/paste com instrumentos baratos, o som da dupla pode ser definido como pop lo-fi hipnagógico. (IC)
* # *
De 2010 para cá, a partir do lançamento de Untitled – álbum que, se não era propriamente uma estréia, foi o primeiro e talvez maior destaque de uma já extensa discografia -, muito se divagou acerca da dupla Hype Williams. Divagar é um verbo apropriado primeiramente porque os próprios Dean Blunt e Inga Copeland, mesmo optando por escancarar suas identidades (ou pelo menos mostrar o rosto, muitas vezes em vídeos caseiros e íntimos) num cenário em que escondê-las por si só já seria garantia de burburinho, nunca deram uma entrevista a sério sobre seus métodos e influências, por exemplo; depois, porque seguem à risca a estética quebra-cabeça à qual se propuseram desde o início, seja no canal que mantêm no Youtube, nas imagens de divulgação ou nas apresentações ao vivo, semeando inclusive uma idéia de aleatoriedade cool – vide o discurso sobre pokémons na faixa que abre o Dior EP.
O lado bom dessa pose é que hoje temos, no máximo, peças soltas de quebra-cabeças misturados: se eles gravam versões de Sade ou Cassie e podem ser enquadrados na grande parcela da música underground contemporânea amante do R&B dos anos 90, também utilizam intensivamente timbres analógicos, muitas vezes com um pé no eletropop oitentista, sendo um prato cheio para os seguidores do Hippos In Tanks – selo no qual lançaram One Nation, em 2011. Ainda assim, não deixou de surpreender a parceria firmada com o Hyperdub a partir do Kelly Price W8 Gain EP, no ano passado, fato que abriu precedente para os posteriores lançamentos de King Britt e Laurel Halo.
A parceria continua em Black Is Beautiful, álbum que saiu há poucos meses. O senso de humor fica claro nos primeiros minutos: o loop de um homem tossindo abre a sessão no mesmo modus operandi utilizado para Untitled (disco que começava com um choro), como alguém limpando a garganta para anunciar solenemente a entrada da dupla – o que se confirma com o extenso solo de bateria que segue, funcionando como um rufar de tambores. “(Venice Dreamway)” é a única faixa propriamente nomeada, mas é colocada como introdução – em seu final abrupto, um reverse dá lugar a “2″.
Envolta em tape hiss, a segunda faixa escancara a verve melancólica que perpassava sutilmente toda a obra da dupla (lembremos novamente do choro abrindo o álbum de 2010), além de antecipar a limpeza que seguirá durante toda a audição – se Black Is Beautiful é o álbum mais contido de Blunt e Copeland, certamente “2″ é o maior exemplo dessa nova tendência. A dupla transforma o soul cult de Donnie & Joe Emerson – que acaba de ganhar também uma versão pastiche por Ariel Pink e Dâm-Funk – num pop noturno e solitário para o qual percebíamos a vocação dos dois desde “Rise Up”, “dior 2″ ou “The Narcissist”, além de anunciar a reinvenção de Copeland como vocalista nesse trabalho.
Pelo menos três das quinze faixas do álbum contam com o vocal dela de maneira direta, inteligível, mais próxima que nunca de canções. Uma delas é “11″, também destaque, que vai na linha disco lo-fi da turma do 100% Silk, porém despida de tantos efeitos e elementos: apenas um trio sensual de bateria, baixo e vocal adornado por duas ou três linhas de sintetizadores. O mesmo acontece, com resultados não tão interessantes, em “5″.
Como se pode perceber, o que mais perde força na sonoridade da dupla é a atitude copy/paste que sempre marcou fortemente sua estética. Por mais que os temas e as sensibilidades permaneçam – e reste ainda um pouco da fragmentação, vide a faixa que se divide entre “3″, “7″ e “14″, numa brincadeira inocente e ineficaz – Blunt e Copeland soam, de fato, muito mais contidos. Mesmo as belas “8″, “4″ e “15″, mais viajantes que as canções propriamente ditas do disco, seguem claramente uma dinâmica começo-meio-fim bastante rara nos trabalhos anteriores.
A prova de que talvez estejam no caminho certo fica por conta de “9″ e “10″. A primeira, unindo várias facetas da dupla numa fragmentação calculada, é dos melhores momentos. Já a segunda, uma jam que beira os dez minutos, não mantém o interesse nem até a metade, apesar do formato já ter sido visitado pela dupla com resultados bem mais satisfatórios. Isso significa que, diante do esgotamento de suas fórmulas, para eles há duas saídas: revisitá-las esporadicamente, com mais foco e vontade de atualizá-las, ou partir para outra, como fazem muito bem na maior parte do disco. (Igor Cordeiro)