Moritz von Oswald Trio é um conjunto formado por Moritz von Oswald (Basic Channel, Rhythm & Sound), Sasu Ripatti (dos projetos Vladislav Delay, Luomo e muitos outros) e Max Loderbauer (do Sun Electric e atualmente da dupla nsi.) que se uniu para criar improvisações tomando por base fontes eletrônicas. Estrearam em 2009 com o álbum Vertical Ascent, que foi seguido por um disco ao vivo e o single Restructure 2 no ano seguinte, e depois por Horizontal Structures em 2011. Fetch é o terceiro álbum de estúdio do grupo, e conta com participação do baixista Marc Muellbauer, do produtor Tobias Freund, do saxofonista Jonas Schoen e do trompetista Sesbastian Studnitzky. (RG, IC)
* # *
Partindo de uma análise não-auditiva, Fetch parece anunciar uma nova fase para o Moritz Von Oswald Trio. Na capa, foram-se o fundo branco e os objetos retos e coloridos (ignorando o osso completamente branco do single “Restructure 2”); no lugar deles, a foto de uma platéia interessada, incluindo pessoas empunhando máquinas fotográficas equipadas com lentes imensas (imprensa?). A foto se opõe à frontalidade e clareza das outras capas, instaurando a pergunta sobre o que está no fora de campo: o que merece tamanha atenção dessas pessoas? Por outro lado, pelo menos num primeiro momento, os nomes das faixas parecem quase explicativos, ao contrário dos vagos patterns, nothings e horizontal structures. Observando esse paradoxal jogo contra as expectativas, fica difícil não ficar no mínimo curioso sobre o conteúdo musical do disco.
E de fato Fetch surpreende: “Jam” remete à parceria de David Lynch e Angelo Badalamenti, utilizando significantes do Jazz na construção de uma atmosfera sensual, perigosa e extremamente cool. Quando o destaque dado ao trompete começa a levantar suspeita, o uso dos sopros é reduzido a praticamente uma marcação de ritmo, junto com o baixo e as palmas sintetizadas. No segundo terço, quem manda é o trio composto por piano elétrico, sintetizadores e percussão, com uma variedade de timbres e efeitos que vai deixando a faixa estranhamente urgente. O último terço prepara o terreno para “Dark”, com o baixo em primeiro plano e muito reverb.
O abismo entre as duas primeiras faixas lembra a passagem entre os dois primeiros patterns de Vertical Ascent: de um momento propulsivo e descontraído para outro mais lânguido, marcado fortemente pelo Dub – resguardadas as abordagens diversas entre os discos. “Dark” diz respeito quase exclusivamente ao papel de Oswald como arranjador e diretor do trio, já que os sete minutos de suspensão são um prato cheio para que o mago abuse dos truques de estúdio.
“Club” confirma a tendência autoexplicativa dos títulos, fazendo alusão ao Minimal Techno do qual Berlim foi a principal referência em meados da década passada. O padrão de bateria é colocado à frente junto com uma pequena inserção percussiva que se repete durante toda a faixa, como se quisessem tirar a atenção das camadas menos fortes, que se movimentam quietamente no subsolo, avessas ao que acontece na superfície. Quando se percebe o quanto esse clube é fantasmagórico, já é tarde demais e a faixa se aproxima do fim.
Em “Yangissa”, o momento mais sombrio do disco (o que não impede de ser também seu ponto alto), o trio volta a trabalhar com os padrões rítmicos africanos, que até agora não tinham aparecido nesse LP. Logo no primeiro movimento, o que mais chama a atenção é o jogo tenso entre percussão e subgraves, acentuado pela camada de sopros até o quinto minuto. Depois disso, sobram apenas a pulsação do baixo e o ritmo (além de um ou outro sintetizador que atravessa os canais ocasionalmente), impelindo a faixa até sua mutação num Dub Techno movediço durante os últimos quatro minutos. Tal fechamento não poderia ser mais adequado: é a reafirmação das raízes desses três monstros, depois de mais uma aventura selvagem por mundos diversos. (Igor Cordeiro)