Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Can – The Lost Tapes (2012; Spoon, Reino Unido [Alemanha])

Can é uma banda alemã (da então Alemanha Ocidental) formada em Colônia, em 1968. Depois de uma formação inicial de trio que incluía o flautista David C. Johnson, o Can se estabeleceu com Irmin Schmidt (piano, órgão), Holger Czukay (baixo, eletrônicos e engenharia de som), Michael Karoli (guitarra), Jaki Liebezeit (bateria) e Malcolm Mooney (voz). Assim gravaram seu primeiro álbum, Monster Movie (1969). Em seguida, Mooney sofreu dos nervos e voltou para os EUA, e Damo Suzuki foi adicionado ao grupo, gravando com eles Soundtracks (1970) e os três mais conceituados discos do grupo, Tago Mago (1971), Ege Bamyasi (1972) e Future Days (1973). Depois da saída de Suzuki, o grupo lançou Soon Over Babaluma (1974), Landed (1975), Flow Motion (1976) e, com o acréscimo de Rosko Gee e Rebop Kwaku Baah, ambos saídos do grupo Traffic, Saw Delight (177), Out of Reach (1978) e Can (1979). O estilo do Can é caracterizado pela composição instantânea, e as faixas do grupo são criadas a partir de sessões de improvisação em estúdio e seleção do material gravado, e entre os backgrounds dos músicos da banda estão a música erudita de vanguarda, o free jazz e o rock psicodélico. A banda reuniu-se mais uma vez, novamente com Mooney nos vocais, para o álbum Rite Time (1989) e para ogravar uma faixa para o filme Até o Fim do Mundo (1991) de Wim Wenders. The Lost Tapes é um CD triplo organizado por Irmin Schmidt que compila gravações feitas em estúdio e em concerto entre os anos de 1968 e 1975. (RG)

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195 minutos inéditos de Can. Dependendo do tamanho da admiração que se tem pelo grupo alemão e, talvez mais que tudo, pelo apetite por conhecer coisas novas vinda deles, as reações podem variar do exultante ao esnobe. Então sejamos claros: The Lost Tapes não substituirá no coração de ninguém a excelência de um Tago Mago, de um Future Days, mas ele serve para ampliar a fascinação pelo grupo e a compreensão do tão comentado processo composicional através do qual longas sessões de improvisação – ou “composição instantânea”, como eles preferem – se transformam em pequenos ou grandes diamantes que soam milimetricamente talhados e burilados. A questão de The Lost Tapes não é tanto de superioridade ou inferioridade, mas de complementaridade: vemos aqui fragmentos uma banda flertando com muitos caminhos, alguns deliberadamente excluídos dos álbuns, alguns só possíveis em outro tipo de registro. E desde os primeiros momentos fica claro que não é uma compilação caça-níqueis que apresenta mais do mesmo, mas um lançamento arquivístico que ajuda a completar parte dos traços que faltam para completar o desenho da alteridade e da genialidade do Can (óbvio e ainda bem que ele nunca será completo, mas em todo caso…), um conjunto que tem certamente mais afinidade com a música alternativa produzida hoje do que em sua época. E, por outro lado, pode-se argumentar que Czukay e cia. nunca foram muito de explorar seus registros gravados exaurindo o fã com inúmeros discos ao vivo, bootlegs etc. Assim, qualquer novidade não se soma a um universo quase infinito de gravações e ajuda a desorientar o ouvinte. Ela é um bem-vindo adendo a uma das mais estranhas e belas manifestações musicais da década de 1970.

Uma coisa que impressiona de cara com “Millionspiel”, que abre a coletânea, é como eles bebem desabusadamente no rock enérgico e simples das banda de garagem. A faixa tem um riff a meio cainho de Ventures e “Peter Gunn Theme”, e outras canções (“Midnight Sky”, “Midnight Men”) parecem seguir no mesmo caminho. “Graublau” e “On the Way To Mother Sky” são menos frívolas mas igualmente enérgicas, apoiando-se em fortes pegadas de bateria e na incandescência da guitarra. O rock maníaco/metronômico povoa boa parte dos minutos de The Lost Tapes, com uma porcentagem significativamente maior em relação aos álbuns clássicos. Mas é o rock do Can: aberto, solto, sem amparos óbvios de estrutura ou refrão. E, em todo caso, é natural que o Can não explicitasse essa faceta nos discos, e sim nas músicas de andamento mais calmo, em que as intervenções melódicas e as articulações rítmicas tornavam o Can uma banda absolutamente sui generis. O mesmo se dá com duas faixas de absoluta ternura na guitarra limpa e dedilhada, “Private Nocturnal” e “Alice”, talvez doces demais para os statements que são os álbuns, mas perfeitas para complementar um lirismo que sempre esteve sarapintado via canto de Damo Suzuki ou os órgãos de Irmin Schmidt.

No outro lado do espectro, existe o Can atmosférico. O ganha pão do grupo em seu começo era a confecção de trilhas sonoras, e para somar-se ao ensejo, Holger Czukay sempre foi fanático pela inserção de sons de música concreta e manipulações de fita no som do grupo. “Evening All Day”, “Blind Mirror Surf” e “Networks of Foam” são exemplos da faceta mais laboratorial do Can, em especial no que diz respeito a colagens e texturas. E as repetições mântricas, características de Malcolm Mooney, mostram sua cara em “Street Car” e “Desert”.

Mas são algumas faixas em particular que monopolizam a atenção de The Lost Tapes. No disco 1 é “Bubble Rap” que sobressai, com níveis de intensidade – velocidade + preenchimento + manutenção de clímax – atordoantes. Nos dois discos seguintes há mais destaques, seja em versões ao vivo de clássicos e de inéditas, seja em versões alternativas/prototípicas de faixas que se tornaram hinos do grupo. “Spoon” e “Mushroom” ganham versões ao vivo longas e inspiradas, que capturam muito bem o espírito de invenção nas improvisações de fôlego largo. Em “Mushroom” especialmente a música é reconstruída com ampla liberdade e vai muito naturalmente da pulsação à calma e novamente à pulsação. Completando o dream team das “fitas perdidas”, “Dead Pigeon Suite” e “A Swan Is Born” mostram versões preliminares que serviram à criação respectivamente de “Vitamin C” e “Sing Swan Song”, mas são muito mais do que curiosidades; elas funcionam integralmente como faixas de longa duração, desenvolvendo as ideias que nas versões mais conhecidas são apresentadas em modo mais intensivo e compacto. Como se não bastasse, “Dead Pigeon Suite” ainda revela um Damo Suzuki totalmente mergulhado nas intervenções vocais de James Brown, de quem ele se apropria com um toque refinado e particular antes de chegar em um de seus versos mais conhecidos, o célebre “you’re losing your vitamin C”. Para terminar, existem ainda uma poderosa faixa pós-1975, “Barnacles”, carregada no suíngue de black music e disco que caracterizou parte do interesse do Can depois da entrada de Rosko e Rebop (o melhor paralelo “publicado” a essa faixa talvez seja “Aspectacle”).

Com0 o Can sempre lançou o que quis e sempre teve total autoconsciência de todos os diferentes veios que formavam os pontos fortes do grupo, The Lost Tapes não vem reconfigurar a percepção que se tem do grupo. Mas permite que continuemos a nos surpreender com o personalíssimo e avassalador estilo percussivo de Jaki Liebezeit, com o pioneirismo de Holger Czukay, com as inspiradas pontuações de Irmin Schmidt, e ainda tenhamos um belo naco suplementar de Michael Karoli (nesses 3 CDs ele aparece em primeiro plano mais do que nos álbuns oficiais do Can), além do talento para improvisação vocal de Damo Suzuki. Para um ouvinte ocasional, essas 3h15min são motivo suficiente para mergulhar mais profundamente na obra do grupo (ainda que evidentemente não sejam a melhor porta de entrada para o grupo). Para os já convertidos, ou seja, os bons, são a oferta para desfrutar de um precioso material que maravilha em inúmeros momentos e que, no geral, permite observar com nitidez certos detalhes que se encontram concentrados demais nos álbuns célebres. É um manjar celestial para todos que acham que o rock pode ir mais longe, que sua energia pode beber em todos os lugares e ainda assim manter-se viva, possante e primal como força de expressão. (Ruy Gardnier)

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