
Allen Toussaint é um dos maiores representantes do soul de Nova Orleans. Produtor, músico, compositor, exímio pianista, adquiriu fama primeiramente como Naomi Neville, compositor nas vozes de Otis Reading (no clássico absoluto “Pain in my Heart”), The Who (“Fortune Teller”, do álbum Live at Leeds), Lee Dorsey (“Working in the coal mine” e “Get Out my Life Woman)” e Glen Campbell (“Southern Nights”). Mais tarde produziu e tocou piano em álbuns de Paul McCartney, The Meters, Dr. John, The Wild Tchoupitoulas e Solomon Burke. A partir da década de 70 passou a lançar álbuns basicamente tomados pela soul music, mas que apostavam também na diversidade de estilos e em um leve toque experimental. São desta época, por ordem cronológica, Toussaint, Life, Love and Faith e Southern Nights. Boatos indicavam que o músico sucumbira ao furacão Katrina, mas em 2006 grava com Elvis Costello um álbum que chamaria atenção do mundo para sua produção contemporânea. The Bright Mississipi é seu primeiro álbum solo na década e conta com uma banda formada pelo clarinetista Don Byron, do trumpetista Nicholas Payton, do guitarista Marc Ribot, do baixista David Piltch, do percussionista Jay Bellerose. Entre as participações especiais, o pianista Brad Mehldau e o saxofonista Joshua Redman. (BO)
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Por quê filmar Os Sermões do Padre Antônio Vieira? O cineasta Júlio Bressane respondeu de forma lacônica a respeito de um assunto sobre o qual muito poderia falar. Ele disse algo do tipo: “Filmei o Vieira por ‘razões de câmera’, para vê-lo recitar seus sermões…”. Caso a memória tenha me traído agora, garanto ao leitor que a expressão “razões de câmera” procede e se refere diretamente a este desejo tipicamente perceptível em artistas de encenar a realidade passada ou futura, viabilizando uma necessidade atávica de controlar o tempo. Em música, esse desejo se exprime não somente a partir do discurso tonal (ou atonal, na medida em que tudo é “discurso”), mas através dos timbres, das ambiências e, muitas vezes, das condições técnicas (chiados, suportes, etc). Exemplos mais ordinários desse procedimento podem ser encontrados na cultura do sampler, sobretudo no hip hop, mas de uma forma que poderíamos denominar “cubista” graças a articulação entre a música propriamente dita e seu meio de reprodução (isso fica claro no aspecto avant-retro de Madlib, Sa-Ra, etc.). A história do disco demarca essa percepção, na medida em que não temos acesso imediato às experiências que permitem um deslocamento no tempo, ao menos no que diz respeito às sensações propriamente ditas. E toda mixagem, no fim das contas, é uma tentativa de retirar a música do tempo e do espaço, retirá-la do turbilhão descontrolado das ondas sonoras e salvaguardá-la, da duração fugaz para a segurança da gravação. Até então eu não havia escutado exemplo tão contundente de como o timbre possui a capacidade de esgarçar o tempo, em sentido diverso ao do sampler. Refiro-me a este maravilhoso álbum de Allen Toussaint, The Bright Mississipi, o primeiro em mais de uma década e que é dedicado basicamente à interpretação de temas compostos por grandes músicos ou oriundos de New Orleans ou “gramaticalmente” identificados a sua música. Gente como Jelly Roll Morton, Thelonious Monk, Duke Ellington e Billy Strayhorn. E o resultado é soberbo.
O que leva um artista identificado com o soul a gravar um álbum como este? The Bright Mississipi pode ser encarado por muitos como um retorno ao passado, um retrô executado com a melhor das intenções e até mesmo uma reflexão acerca desta nova New Orleans que aos poucos emerge do caos. Uma homenagem, diriam. Mas da mesma forma como os batuques são aprimorados pela qualidade de gravação em Candombless, de Carlinhos Brown, poderíamos afirmar que o esforço de Toussaint e sua banda aqui não é o de ressucitar o cadáver do jazz de New Orleans, mas de traduzí-lo para a gama de timbres absolutamente renovados dos dias atuais. O jazz arrastado das brass bands e do Mardi Gras mantém-se caracterizados tanto na execução como nas composições, mas o apuro da gravação revela estalos e dinâmicas que a má qualidade das velhas gravações de King Oliver e Louis Armstrong não nos permitia acessar. Algo aqui é como que reavivado e, por estranha consequência, sublimado, seja por obra do talento de interpretação, seja pelas qualidades evocativas que frisei a pouco. O disco abre com a sensual e hipnótica “Egyptian Fantasy”, composição do músico nativo Sidney Bechet (em parceria com John Reid), e fecha com o clássico “Solitude” (de Duke Ellington, Irving Mills e Eddie DeLange), cobrindo não exatamente uma época, mas uma certa musicalidade que não encontra espaço nos dias de hoje, justamente por suas características centrais. O Jazz de New Orleans é extremamente arrastado e dialoga o tempo inteiro com o blues na medida em que explora os tempos de uma forma bastante diferente do bebop, por sua vez mais agressivo e veloz. Sem contar que depreende ora profunda melancolia, ora uma lascívia perene, ao contrário do jazz de New York, agitado e cortante. Neste sentido, os músicos aqui presentes conseguiram se desvencilhar da inescapável pegada do bebop e criar uma atmosfera musical ao mesmo tempo evocativa e promissora (nota para o som da bateria, dos sopros, e, particularmente, para o violão sem mistérios, mas bastante emotivo, de Ribot; e, claro, para o piano derramado do próprio Toussaint).
Sim, promissor, embora seria exagerada a afirmação de que The Bright Mississipi demonstra a vitalidade do jazz de New Orleans. Corresponderia a tomar de empréstimo sua própria vitalidade e injetar no gênero sem maiores cuidados. Mas há reconhecidamente uma diferença no jazz e, em geral, na música de Nova Orleans fundada em suas matrizes culturais. Diferença esta que habita o Mardi Gras, o cajun, o zydeco e até mesmo o soul-funk de grupos como Neville Brothers, The Wild Tchoupitoulas e The Wild Magnolias e que é contígua ao jazz, a despeito de modismos que o fizeram praticamente desaparecer, pelo menos do cenário ativo do gênero (não me refiro às fanfarras e bandas dixieland locais, geralmente com valor meramente turístico). Mas eis que The Bright Mississipi traz esta diferença à tona, apresentando uma sonoridade ao mesmo tempo histórica e atual, autêntica e atualizada e, sobretudo, potente. (Bernardo Oliveira)
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Para um blog como A Camarilha dos Quatro, que quase sempre celebra o novo e o experimental, pode parecer estranho que um disco tão tradicional como The Bright Mississippi apareça em suas páginas. Mas que não se engane o leitor acostumado com os blips, clicks, cuts e drones que tanto preenchem nosso espaço. Formas mais antigas e tradicionais da música também nos interessam amiúde: basta surgir um lançamento como este, que dá interpretações atuais e magníficas a clássicos do jazz. Não cabe aqui, porém, listar os méritos dos músicos, que são muitos – todos têm grande reconhecimento na prática de seus instrumentos, e mesmo Toussaint, mais conhecido por suas canções de soul, mostra segurança e eloquência para reinterpretar números famosos do jazz pré-bebop no piano.
O que mais encanta em The Bright Mississippi não é o entrosamento alcançado pelos músicos, tampouco a limpidez da produção, ou sequer a beleza das interpretações. Fica claro que sua intenção é manter viva uma música belíssima e primordial em relação aos caminhos tomados pela música popular e experimental no século XX – digamos que sem o jazz de raiz de Nova Orleans não existiria o bebop, o free jazz, improv e mais tantos outros estilos que amamos. E depois do furacão Katrina, que trouxe danos irreparáveis à cultura da cidade norte-americana, é ainda mais comovente que Toussaint – se aproximando de um gênero do qual sempre foi íntimo, mas nunca praticou – tenha se preocupado em revisitar estilos cujos herdeiros maiores foram ameaçados de extinção. Resgatar essas canções é preservar uma memória musical que luta contra o esquecimento e as catástrofes naturais para não esvaecer. Por isso, The Bright Mississippi é um álbum de agora e de sempre. (Thiago Filardi)
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Uma das temáticas mais recorrentes no cinema de Pedro Almodóvar é como a morte reconfigura a vida. A possibilidade dela, a hipótese ou a factual morte de um outro. É o cerne mesmo de alguns de seus filmes, como Tudo Sobre Minha Mãe e esse último (e belíssimo) Os Abraços Partidos. Almodóvar tem esse raro talento de aproximar-se da iminência da morte para criar situações dramáticas que celebram – sem pieguice ou exageros, apenas uma modesta constatação – a evidência de estar vivo. O mesmo fenômeno se dá com a cidade de New Orleans. Acometida pelos desastres em decorrência do furacão Katrina, New Orleans hoje participa de um processo de revitalização que só o olho no olho com a morte possibilita. E, no caso da música, a revitalização se dá de forma particular: New Orleans não é somente “uma cidade” no que diz respeito às tradições musicais americanas, mas um enorme celeiro de manifestações musicais múltiplas, além do local de nascimento do gênero que mais intimamente representou os Estados Unidos culturalmente como diferença no século XX, o jazz.
Só isso parece explicar o fato de um pianista associado ao r&b e ao soul, como Allen Toussaint, realizar um disco para celebrar o jazz americano pré-bebop com grande ênfase em figuras seminais do gênero e de New Orleans, como King Oliver, Sidney Bechet, Louis Armstrong e Jelly Roll Morton. The Bright Mississipi vai mais além, incluindo marcas fortes do jazz dos anos 20-30, como cornetadas de trompete e dinâmicas de clarinete e trompete solo em algumas faixas. “Egyptian Fantasy”, de Sidney Bechet, abre o disco de forma característica. Bechet foi o primeiro revivalista, por assim dizer, do jazz de New Orleans, mas saiu muito cedo de sua cidade, permanecendo na Costa Leste americana ou na Europa pela maior parte de sua carreira. Podemos depreender daí, talvez, uma espécie de identificação dupla de Toussaint: reviver a tradição ancestral e ao mesmo tempo usar a música como uma espécie de “reterritorialização” da cidade, ou mais propriamente de seu espírito.
O único perigo de uma tal empreitada é evidente: prestar tanta reverência a ponto do projeto acabar fadado ao esforço mimético de macaquear o passado, transformando a vibração vital em folclore desossado e indolor. O perigo é burlado não por uma “atualização” em termos de sonoridades e processos de composição ou improvisação “contemporâneos”, mas pela intensa vibração que brota da interpretação dos músicos e da exuberância dos arranjos. Revivalismos costumam diluir e tornar mais palatáveis os ritmos e arranjos, como a lógica que transforma o samba em “sambinha”, mas nada disso existe em The Bright Mississipi. Reviver, nesse disco, significa preencher de vida e emoção, e isso se nota com clareza no piano sentimental de Toussaint, grande protagonista do disco, mas também nas interpretações dos músicos “residentes” e dos convidados, que articulam com muita astúcia economia e ataque, de modo que a força do conjunto nunca seja minada pelas intervenções individuais (o que é característica tanto do jazz de New Orleans quanto de figuras como Thelonious Monk e Duke Ellington, figuras da Costa Leste que também são homenageadas no disco). The Bright Mississipi não é uma afirmação de qualquer coisa nem pretende ser; é apenas a celebração vital de uma música e de uma cidade que sobrevive orgulhosa a despeito do tempo, dos modismos e das intempéries. (Ruy Gardnier)