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	<title>a camarilha dos quatro &#187; bernardo</title>
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		<title>Melhores da década (2000-2009): Discos – Bernardo Oliveira</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jan 2010 06:08:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bernardo</dc:creator>
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1. Björk -     Medulla  [Elektra; 2004]
Em Medúlla, a música de Björk adquire um patamar de complexidade jamais visto por uma cantora de porte popular. Muito embora a burilação das vozes seja um dos trunfos do álbum, me chama a atenção a beleza extrema do repertório, surpreendentemente compatível com as referências daquele [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=3082&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2010/01/elle-polar02.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3083" title="elle-polar02" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2010/01/elle-polar02.jpg?w=470&#038;h=300" alt="" width="470" height="300" /></a></p>
<div><strong>1. Björk -    <em> Medulla </em> [Elektra; 2004]</strong><br />
Em <em>Medúlla</em>, a música de Björk adquire um patamar de complexidade jamais visto por uma cantora de porte popular. Muito embora a burilação das vozes seja um dos trunfos do álbum, me chama a atenção a beleza extrema do repertório, surpreendentemente compatível com as referências daquele momento. Um diálogo amplo e aberto com a música de Stockhausen e Robert Wyatt, com a poesia de E.E. Cummings, com as vozes de Rahzel, Mike Patton e Dokaka, com a música anômala do Matmos e de Nico Muhly, com a percussão do Ilê Ayê e com a <em>throat singer</em> Tanya Tagaq&#8230;</div>
<div><strong>2. Hermano Vianna, Beto Villares (org.) &#8211; <em>Música do Brasil</em> [Abril Music/Abril Entretenimento; 2000]<br />
</strong>Em quatro cds, o antropólogo Hermano Vianna e o músico Beto Villares gravaram e compilaram 82 registros: carimbós, cocos, marujadas, maracatus, tambor de crioula e outros ritmos catalogados pelos cadernos de antropologia, mas interpretados à luz de perspectivas culturais específicas, que transformam o sabido em não sabido, o conhecido em desconhecido, e transborda vivacidade rítmica e poética. Isto fica evidente em faixas como &#8220;Boa tarde povo&#8221;, com as Baianas Mensageiras de Santa Luzia e &#8220;Toque da Zambiapunga&#8221;, da Zambiapunga do Taperoá, com uma percussão toda realizada por enxadas (!). Silenciosamente revolucionário.</div>
<div>
<p><strong>3. Konono n. 1 <em>- Congotronics</em> [Crammed; 2004]<br />
</strong>Tomada em boa parte das manifestações da etnia bazombo, a música criada por Mawangu Mingiedi e sua turma não se reduz tão somente a uma técnica de eletrificação de kalimbas. Em sete faixas, podemos observar ritmos diferenciados (alguns em 4/4, outros em 3/4), nuances harmônicas e melódicas ocasionadas pela sobreposição das kalimbas e um arsenal percussivo que combina chocalhos, percussões de ferro e tambores. A inserção destes elementos em uma estrutura musical vigorosa possibilitam um painel musical sem igual no cenário contemporâneo.</p>
<p><strong>4. Asa Chang &amp; Junray &#8211; <em>Jun Ray Song Chang</em> [Leaf Spain; 2002]<br />
</strong>À primeira vista, o trio formado pelo percussionista japonês Asa-Chang, pelo tocador de tabla U-Zhaan e o programador Hidehiko Hurayama, pode ser confundido como um renovador do gagaku e do shomyo, gêneros tradicionais da música japonesa. Mas é só caminharmos adiante para tomarmos a exata medida de que tipo de renovação eles privilegiam. Refiro-me à síntese entre a música tradicional e as influências indianas e IDM que fazem de Asa-Chanag &amp; Junray uma das mais surpreendentes da produção japonesa e mundial recente. A beleza irretocável de &#8220;Hana&#8221;, &#8220;Jippun&#8221; e &#8220;Goo-Gung-Gung&#8221; justificam a singularidade deste autêntico OVNI, como escrevemos recentemente na Camarilha.</p>
<p><strong>5. Aphex Twin &#8211; <em>Drukqs</em> [Warp; 2001]<br />
</strong>Ora, não bastasse Richard D. James ter ditado norma para a música eletrônica, não bastasse a genial parafernália conceitual de &#8220;Windowlicker&#8221;, não bastasse representar inovação sob muitos aspectos na música eletrônica mundial, o cara me sai da toca depois de ficar alguns anos em recesso com um álbum duplo cuja primeira audição traduziu-se em maravilhamento e espanto. Burilando as formas rítmicas do drill&#8217;n'bass como ninguém, ampliando sua gama de timbres com a utilização acentuada do piano preparado, mas também abrindo espaço para faixas mais palatáveis como &#8220;Bbydhyonchord&#8221; e samples de conversas estranhas (?), <em>Drukqs</em> apresenta uma série de clássicos imediatos: &#8220;Gwarek2&#8243;, &#8220;Jynweythek Ylow&#8221;, &#8220;Meltphace 6&#8243;. Como poucos, James tem a manha de renovar em diversas searas ao mesmo tempo, construindo uma obra-prima de estranheza e vanguarda, extremamente diversificada.</p>
<p><strong>6. Hermeto Pascoal &#8211; <em>Mundo Verde Esperança </em>[Radio Mec; 2003]<br />
</strong>Juntam-se os hermetismos pascoais, ou seja, a mistura bem resolvida e original de música regional brasileira e jazz, com a interpretação de uma banda poderosa e totalmente entregue às conspirações secretas e rompantes do mestre. Pode-se até afirmar que a música de Hermeto permanece igual por muitos anos, mas sendo <em>Mundo Verde Esperança</em> uma autêntica balbúrdia &#8220;hermética&#8221;, seu espaço nesta lista entre as primeiras colocações está garantido. Sugiro as camadas vertiginosas de &#8220;Celso&#8221;, a combinação de baixo e sopros em &#8220;Caio&#8221;, a melodia sinuosa de &#8220;Camila&#8221; e até mesmo o lirismo lutuoso de &#8220;Victor Assis Brasil&#8221;. Se resistires a este teste, esqueça <em>Mundo Verde Esperança</em>.</p>
<p><strong>7. The Avalanches   &#8211; <em>Since I Left You </em> [Modular; 2000]<br />
</strong>É realmente admirável e gratificante reouvir este que é o melhor álbum de festa da década. <em>Since I Left You</em> é simultaneamente música de festa, compilando de forma irresponsável trechos oriundos de 3500 discos (isso mesmo!); é música para arrebatar porque é música êxtática, feita com o descompromisso típico da cultura punk; e, por fim, é também música para pensar, mas sob este aspecto leia o <a id="q7y:" title="post" href="../2009/11/07/the-avalanches-since-i-left-you-2000-modular-australia/">post</a> sobre o disco. Vale salientar que embora não tenha criado propriamente um método de composição, o Avalanches foi o que melhor traduziu o <em>cut and paste</em> em termos artísticos, criando nexos simultaneamente com nítida consciência e um alegria desvairada.</p>
<p><strong>8. Portishead &#8211; <em>Third</em> [Universal Island Records; 2008]<br />
</strong>Desde que foi lançado em 2008, <em>Third</em> não sai da minha lista de audição pessoal. Arranjos secos, percussões preciosas e belas canções entoadas pelo canto desesperado de Beth Gibbons: desta combinação, surgem pérolas absolutas como &#8220;We Carry On&#8221;, &#8220;The Rip&#8221; (<a id="a14u" title="aqui" href="http://www.youtube.com/watch?v=Z3FG07R9SEA">aqui</a> belamente executada por Thom Yorke e Jonnhy Greenwood) e a comovente &#8220;Machine Gun&#8221;. Um disco que surpreende não só pela radical correção de rumo, mas pela própria excelência do trabalho.</p>
<p><strong>9. Prefuse 73 &#8211; <em>One Word Extinguisher</em> [Warp; 2003]<br />
</strong>Talvez tenha feito a opção mais reacionária, já que <em>Vocal Studies&#8230;</em> contém de fato a novidade concentrada, com a obra-prima &#8220;Point to B&#8221; e um punhado generoso de samples os mais interessantes de que se tem notícia. Mas <em>One World Extinguisher</em> é uma enxurrada quase vinte minutos maior que a anterior, um excesso de energia criativa, um aperfeiçoamento e abertura de perspectiva que serviu para confirmar o nome de Herren entre os grandes produtores da década. Basta escutar &#8220;Detchibe&#8221;, com sua estranha dinâmica de volumes e andamentos, a saturação dos timbres em &#8220;Plastic&#8221;, o aspecto aphextwínico de &#8220;90% of My Mind Is With You&#8221; para entender do que estou falando.</p>
<p><strong>10. Shackleton &#8211; <em>Three EPs</em> [Perlon; 2009]<br />
</strong>Já falamos de Richard D. James, de Guillermo Scott Herren, falaremos mais abaixo de The Caretaker, Kieran Hebden e Moritz Von Oswald. Shackleton, como vocês já devem saber, não poderia faltar nesta lista de grande produtores musicais da década. Poderíamos eleger algumas das compilações da Skull Disco, que possuem faixas até melhores que algumas de <em>Three EPs</em>, como &#8220;Death is not Final&#8221;, mas este primeiro disco já traz indícios suficientes de que sua sanha sangrenta prosseguirá por mais algum tempo. Shackleton faz parecer que já estamos de fato no século XXI.</p>
<p><strong>11. Radiohead &#8211; <em>Hail to the Thief </em> [Capitol; 2000]<br />
</strong>Em <em>Hail to the Thief</em>, os experimentos presentes em <em>Kid A</em> e <em>Amnesiac</em>, que ainda negociavam com sonoridades mais dóceis que o grupo parece ter evitado  dali em diante, foram adequados a um excesso, a uma despreocupação com as convenções e a um extravasamento criativo. Deste contexto surgiram faixas geniais como &#8220;The Gloaming&#8221; e &#8220;Myxamatosis&#8221;, que afastaram defintivamente os fãs da banda indie.</p>
<p><strong>12. The Caretaker &#8211; <em>Persistent Repetition of Phrases</em> [Install; 2008]<br />
</strong>James Kirby desafia nosso aparelho auditivo, nossa percepção, nossas opiniões sobre o que é e pra que serve o discurso musical. Como The Caretaker ele deseja sondar o estranho campo da memória através de procedimentos musicais que utilizam a repetição e a manipulação de timbres e de suporte. O resultado é um disco cuja audição dificilmente ultrapassa o &#8220;gosto&#8221;, mas quando isso acontece cada minuto se converte em uma experiência intrigante.</p>
<p><strong>13. </strong><strong>Animal Collective &#8211; <em>Merriweather Post Pavilion</em> [Domino; 2009]</strong><br />
Um grande disco de uma grande banda, <em>Merriweather Post Pavilion</em> inscreve o nome do Animal Collective definitivamente entre os grupos que mais podem nos surpreender no futuro. Afinal é exatamente o que eles vem fazendo desde seus primeiros álbuns. Neste, o trunfo são as canções, brilhantemente plasmadas por um saboroso verniz experimental, sem que esse procedimento resulte em uma audição superficial. Pelo contrário, repito aqui: <em>Merriweather&#8230;</em> é um álbum desde já clássico pela legitimidade de sua proposta.</p>
<p><strong>14. Carlinhos Brown Presents Candombless [Candyall Music; 2005]<br />
</strong>Carlinhos Brown deixou sua marca na década de 80, fazendo percussão para Caetano Veloso. Na década de 90, lançou o excelente <em>Alfagambetizado</em>, com canções e arranjos seus. Na primeira década do século XXI ele também deixou sua marca como produtor e idealizador. Seleção de toques de candomblé, muito bem gravados e executados, junto a baterias eletrônicas, guitarras e sutilezas mil. Outro exemplar de uma aparente rusticidade que se pronuncia com outros sotaques graças às possibilidades da era digital.</p>
<p><strong>15. Limescale – <em>Limescale</em> [Incus; 2003]<br />
</strong>Conheci <em>Limescale</em> a pouquíssimo tempo, mas posso afirmar sem medo de errar que se trata de um dos mais impressionantes momentos da música improvisada não só desta década, mas da história recente da música improvisada. Tijolos arranhados, violentos pizzicatos e até mesmo um ditafone são utilizados para extrair as sonoridades rascantes que atropelam o ouvinte.</p>
<p><strong>16. </strong><strong>Fennesz &#8211; <em>Black Sea</em> [Touch; 2008]<br />
</strong>Ao invés de optar pelos loops e timbres abrasivos que marcam <em>Endless Summer</em> e <em>Venice</em>, preferi eleger o momento atual de Fennesz, mais preocupado com nuances e com a diversificação dos timbres, além de uma atenção pronunciada em relação à composição. De oito faixas, muitas podem ser consideradas como destaques do universo fennesziano como &#8220;Perfume For Winter&#8221;, &#8220;Glass Ceiling&#8221; &#8220;Black Sea&#8221; e &#8220;Saffron Revolution&#8221;. Um disco lírico e surpreendente, talvez o melhor do autor.</p>
<p><strong>17. </strong><strong>Nação Zumbi &#8211; <em>Rádio S.Amb.A </em>[YBrasil Music; </strong><strong>2000</strong><strong>]<br />
</strong>Na minha opinião <em>Rádio S.Amb.A</em> é um obra-prima que pôs o Nação Zumbi entre as bandas efetivamente relevantes do rock brasileiro. Como o Sepultura de <em>Roots</em>, o Mutantes do primeiro e segundo discos e o Novos Baianos de <em>Acabou o Chorare</em>, a cada álbum o Nação pós-Chico é uma promessa de felicidade. <em>Rádio S.Amb.A</em> é o marco zero desta nova fase, o início e uma abertura do campo de ação. Um disco matador e efusivo, que bate no peito como Usain Bolt.</p>
<p><strong>18. Rhythm &amp; Sound &#8211; <em>With The Artists</em> [Burial Mix; 2003]<br />
</strong>Mais um capítulo da carreira de Moritz Von Oswald e Mark Ernestus, a segunda coletânea do Burial Mix com Rhythm &amp; Sound é uma obra prima que com certeza prenuncia o dubstep, mas não se reduz a ele. Ao lado de verdadeiras legendas do reggae como Cornel Campbell, Paul St. Hilaire, The Chosen Brothers, Love Joy, Jennifer Lara e Jah Batta, Oswald e Ernestus cria uma série de riddims personalíssimos, delicados e etéreos. Absolutamente maravilhoso e precursor, como tudo o que a dupla em questão costuma fazer.</p>
<p><strong>19. </strong><strong>Caetano Veloso &#8211; <em>Noites do Norte</em> [Universal Music; 2000]</strong><br />
Entre o período em que confiou os arranjos de seus discos e shows a Jacques Morelembaum e a fase atual, a obra de Caetano Veloso foi absorvida por uma experiência intermediária mas de primeira ordem. <em>Noites do Norte</em> contempla tanto a combinação de orquestrações com virtuosa percussão baiana que caracaterizava <em>Livro</em>, como já apresentava os maneirismos roqueiros que ganharam espaço com a parceria com Pedro Sá. A esperteza da letra de &#8220;Rock&#8217;n'Raul&#8221;, o arranjo em loop de &#8220;Cobra Coral&#8221;, a regravação bluesy de &#8220;Zumbi&#8221; e, sobretudo, o ritmo quebrado e a letra genial de &#8220;13 de Maio&#8221; são apenas grandes momentos de um disco cheio de surpresas.</p>
<p><strong>20. Four Tet &#8211; <em>Rounds</em> [Domino USA; 2003]<br />
</strong></p>
</div>
<div>A vida é dura. Muitos discos importantes ficaram de fora, mas eu não poderia ser desonesto comigo mesmo a ponto de deixar <em>este Rounds</em>. Mas sua presença nesta lista se deve a um descompromisso total com a correspondência entre o suporte e o gênero musical, isto é: não é preciso fazer música dançante caso você se utilize de um equipamento eletrônico. Mesmo após ouvir Stockhausen, Ligeti, Kraftwerk, Aphex Twin e outros monstros da eletrônica, este disco permanece para mim um dos mais adoráveis experimentos eletrônicos que já ouvi, pela exploração indiscriminada de ambient, hip hop, jazz, etc.</div>
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		<title>Melhores da Década (2000-2009): Músicas – Bernardo Oliveira</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Dec 2009 20:59:36 +0000</pubDate>
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1. &#8220;Hana&#8221; &#8211; Asa-Chang &#38; Junray
Combinação de música japonesa tradicional e eletrônica, que suplanta em estranheza até mesmo as melhores faixas de Merzbow e Boredoms, “Hana” prima pelo contraste entre o loop de cordas e a dinâmica rítmica variada formada pela sobreposição de tabla e voz. Um clássico absoluto de uma década cheia de clássicos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=3060&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/konono1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3068" title="konono1" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/konono1.jpg?w=496&#038;h=330" alt="" width="496" height="330" /></a></p>
<p><strong>1. &#8220;Hana&#8221; &#8211; Asa-Chang &amp; Junray<br />
</strong>Combinação de música japonesa tradicional e eletrônica, que suplanta em estranheza até mesmo as melhores faixas de Merzbow e Boredoms, “Hana” prima pelo contraste entre o loop de cordas e a dinâmica rítmica variada formada pela sobreposição de tabla e voz. Um clássico absoluto de uma década cheia de clássicos relativos&#8230;</p>
<p><strong>2. &#8220;The Pleasure is All Mine&#8221; &#8211; Björk<br />
</strong>Atmosférica, intrigante, apocalíptica, “The pleasure is all mine” é composta por vozes, cantos, grunhidos, beatbox e graves profundos que entoam versos e melodias surpreendentes&#8230; Mas o que mais surpreende aqui, ao lado da instrumentação inusitada, é o aspecto melódico invulgar da canção. Sob qualquer roupagem musical, “The Pleasure is all mine” é, antes de mais nada, um linda canção.</p>
<p><strong>3. &#8220;Lufuala Ndonga&#8221; &#8211; Konono No. 1<br />
</strong>A década que passou foi a primeira que possibilitou a emersão de sonoridades antes consideradas folclóricas ou primitivas de um ponto de vista criativo. Ao invés do registro, a invenção. Muitos são os exemplos deste fenômeno, mas Konono N. 1 é talvez o grupo que mais confunda a cabeça dos admiradores da música africana com suas kalimbas eletrificadas e seu aspecto simultaneamente tribal, extático e extremamente experimental.<strong> </strong></p>
<p><strong>4. &#8220;Brother Sport&#8221; &#8211; Animal Collective<br />
</strong>“Brother Sport” já foi brevemente camarilhada pelo Ruy, já entrou nas listas de melhores do ano e da década, já declaramos insistentemente nosso amor por ela. Eu acrescentaria somente que não entendo o porque da unânime preferência por “My Girls”&#8230; Parece que o single (isto é, o mercado) dita qual a faixa que deve ser eleita e não a audição atenta e a tentativa de análise. Sob esse ponto de vista, “Brother Sport” é uma música espetacular, sem igual dentro do próprio <em>Merriweather</em>&#8230;</p>
<p><strong>5. &#8220;Machine Gun&#8221; &#8211; Portishead<br />
</strong>Não há dúvida de que a reviravolta mais inusitada da década ocorreu com o Portishead. Com sua instrumentação seca e super-econômica e a interpretação desesperada de Beth Gibbons, “Machine Gun” é um clássico desde que apareceu em 2008, horrorizando os fãs antigos e deliciando aqueles que, como eu, não topavam o estilo high society do trip hop de outrora&#8230;</p>
<p><strong>6. &#8220;Bird Flu&#8221; &#8211; M.I.A.<br />
</strong>É um banghra? É uma Timbalada? Um avião, um disco voador, um E.T., o que vem de lá? Pois bem, trata-se da segunda faixa de um dos álbuns mais curiosos da década, <em>Kala</em>&#8230; M.I.A. grita em alto bom som que é “big on the underground”, imediatamente respaldada pela sonoridade alienígena desta faixa adorável.</p>
<p><strong>7. &#8220;Hands&#8221; &#8211; Four Tet<br />
</strong>Ahhhh, então é possível fazer música eletrônica sem referir-se a todo momento a loops e música para as pistas? Kieran Hebden criou este clássico intrincado a partir da seleção e manipulação de timbres jazzísticos, mas com personalidade e  coerência únicas na seara eletrônica contemporânea.</p>
<p><strong>8. &#8220;Point to B&#8221; &#8211; Prefuse 73<br />
</strong>A primeira vez que a expressão rap experimental fez sentido para mim&#8230; Não que não haja uma dimensão experimental no rap que vai de Bambaata a Public Enemy, mas Guillermo Scott Heren assume a tarefa, criando nesta faixa um jogo cubista de sílabas e ritmos, onde cada elemento é como que retirado de seu contexto e situado de forma a tirar o fôlego do ouvinte.</p>
<p><strong>9. &#8220;Ô Simpático&#8221; &#8211; Mr. Catra<br />
</strong>Se o funk foi o único gênero a evoluir no Brasil durante esta década, então Catra foi o poeta da década. Ninguém soube como ele aliar a prosódia, o duplo sentido, uma forma crua de relatar o sexo, uma antropologia do crime e ainda uma maneira de executar o funk carioca de forma nitidamente brasileira, incorporando um indelével sotaque de música de umbanda que perdura até hoje.</p>
<p><strong>10. &#8220;Hey ya&#8221; – Outkast</strong><br />
A faixa de festa mais divertida da década. Os maneirismos “princeanos” de Andre 3000 desta vez explora uma releitura empolgadíssima da música pop americana dos anos 50 e 60. É curioso observar que os ritmos quebrados e o clima histérico da faixa não interditam sua extrema popularidade.</p>
<p><strong>11. &#8220;Death is Not Final&#8221; &#8211; Shackleton<br />
</strong>Shackleton não podia faltar nessa lista, muito embora eu não soubesse até agora qual faixa seria a mais adequada para representar o seu talento. Mas “Death is not Final” contém as melhores características que fizeram dele o produtor da década: tambores retumbantes, sotaque orientalizado, timbres lapidares&#8230;</p>
<p><strong>12. &#8220;Idioteque&#8221; &#8211; Radiohead<br />
</strong>Hoje é fácil identificar as motivações que fizeram Thom Yorke e sua turma misturar canção indie com miami bass, mas na época em que surgiu, “Idioteque” parecia à primeira vista a mera inscrição do grupo em um universo eletrônico sem maiores conseqüências. Mais tarde vimos que não era bem isso, pelo contrário: não houve guinada mais legítima para o universo eletrônico que a do Radiohead e “Idioteque” representa perfeitamente este êxito.</p>
<p><strong>13. &#8220;Caranguejo da Praia das Virtudes (Madame Satã)&#8221; &#8211; Nação Zumbi<br />
</strong>Banda renascida das trevas, posta constantemente em dúvida: tudo parece conspirar contra o Nação Zumbi. Mas com aquela pinta de “maloqueiro”, com concertos simplesmente inacreditáveis e com uma inigualável abertura para o novo, o Nação conquistou o posto de uma das maiores bandas do mundo. Com este tema polêmico, belamente versado por Jorge du Peixe, e uma instrumentação ousada que mistura eletrônicos e acústicos, esta faixa deu provas da força criativa do grupo, posta em dúvida à época do retorno.</p>
<p><strong>14. &#8220;99 Problems&#8221; &#8211; Jay-Z<br />
</strong>Tá certo, não constitui propriamente uma novidade a mistura de rock com rap. Mas estamos falando de um dos maiores rappers do mundo, daqueles que tem a manha de ser inovador e popular ao mesmo tempo, aliado a um produtor tradicionalmente relacionado à inovação, Rick Rubin. Bateria cheia de cowbell e levada de guitarra distorcida contribuíram para tornar “99 problems” a faixa de hip hop da década.</p>
<p><strong>15. “Persistent Repetition of Phrases” &#8211; The Caretaker<br />
</strong>Depois da trigésima repetição do tema melancólico que compõe esta faixa sugestivamente batizada, somos tomados por um estado mental essencialmente memorial, mas sem conteúdo específico&#8230; Trata-se de um experiência vazia, preenchida somente por sensações, pelo sentimento de nostalgia, pela lembrança. É esse o &#8220;feeling&#8221; da faixa em questão, um dos experimentos mais esquisitos e exitosos dos últimos tempos.</p>
<p><strong>16. &#8220;Crazy in Love&#8221; &#8211; Beyoncé com Jay-Z<br />
</strong>A colaboração entre Beyoncé Knowles, Jay-Z e o produtor Rich Harrison é sem dúvida a farofa da década. Sampleando The Chi-Lites, eles criaram uma faixa que em outras épocas seria produzida pela Madonna.</p>
<p><strong>17. &#8220;Good girl/Carrots&#8221; &#8211; Panda Bear<br />
</strong>Como se não bastasse a participação em uma das melhores bandas dos últimos tempos, Noah Lennox criou também alguns discos solos, entre eles o aclamado <em>Person Pitch</em>. &#8220;Good girl/Carrots&#8221; é a melhor justificativa para o seu trabalho solo. A sucessão de climas e referências, que vão de Kraftwerk a Beach Boys, demonstram a originalidade e o amadurecimento constante de Bear e sua turma.</p>
<p><strong>18. &#8220;Roll Up&#8221; &#8211; Black Dice<br />
</strong>“Roll Up” é daquelas faixas que te ganham imediatamente, apesar de um aspecto irascível que a primeira vista salta aos olhos. Em sete minutos, Eric Copeland e sua turma desenvolvem uma estrutura musical aparentemente careta, mas totalmente manipulada, saturada, mexida&#8230; Procedimento que se repetiu em <em>Repo</em>, mas que tem aqui seu maior exemplar.<strong> </strong></p>
<p><strong>19. &#8220;Perdeu&#8221; &#8211; Caetano Veloso</strong><br />
Nem Dylan, nem Lou Reed, nem Bowie: o sexagenário da década foi Caetano Veloso, com sua poesia continuamente recriada, com sua busca constante por sonoridades condizentes com esta poesia&#8230; Se o autor já não lhes deu provas deste talento, nada posso fazer. Sem maiores esclarecimento, “Perdeu” é a faixa mais impressionante deste Caetano dos 00´s.</p>
<p><strong>20. &#8220;Boa tarde povo&#8221; &#8211; Baianas Mensageiras de Santa Luzia<br />
</strong>Tal como o Konono N. 1, <em>Candombless</em> de Carlinhos Brown, <em>Toda Vez que Eu dou um Passo&#8230;</em>, de Siba e Fuloresta, <em>Seya</em> de Oumou sangaré, entre outros tantos exemplos, esta faixa demonstra uma modalidade criativa de registro que, em última instância, inviabiliza a própria idéia de registro. O tambor das baianas mensageiras se assemelha a um drum and bass, mas é justamente a timbragem acústica e seu canto microtonal que faz a graça e a singularidade desta faixa surpreendente.</p>
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		<title>Melhores de 2009: Discos – Bernardo Oliveira</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Dec 2009 18:04:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bernardo</dc:creator>
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1. Three Eps - Shackleton (Perlon, Alemanha [Reino Unido])
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			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/shackleton_thumb.png"><img class="alignnone size-full wp-image-3039" title="Shackleton_thumb" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/shackleton_thumb.png?w=453&#038;h=321" alt="" width="453" height="321" /></a></p>
<p><strong>1. <em>Three Eps </em></strong><strong>- Shackleton (Perlon, Alemanha [Reino Unido])</strong><br />
O título sugere tratar-se de uma compilação, mas <em>Three EPs</em> na verdade é o primeiro álbum do inglês Sam Shackleton. Confirma o seu estatuto de produtor mais radicalmente criativo da atualidade e demonstra a evolução de seu trabalho. Se elejo &#8220;Moon over Joseph&#8217;s Burial&#8221; como uma das faixas do ano, esta é apenas uma escolha retórica, pois qualquer uma das nove faixas de <em>Three Eps</em> inaugura um território próprio onde o autor desenvolve seu estilo iconoclasta.</p>
<p><strong>2. <em>Merriweather Post Pavillion </em></strong><strong>- Animal Collective (Domino, EUA)</strong><br />
Mesmo em <em>Feels</em> e <em>Strawberry Jam</em> o espaço das canções era limitado pelos experimentos que marcaram a fase inicial do grupo. Mas desta vez o approach experimental é plenamente incorporado às canções, que parecem melhorar a cada dia. Sobre esse aspecto, o Ep <em>Fall Be Kind</em>, lançado no fim do ano, confirma o excelente momento do grupo.</p>
<p><strong>3. <em>Acid In the Style of David Tudor </em></strong><strong>- Hecker (Emego, Áustria)</strong><br />
O trabalho de Hecker pode ser considerado algo entre a criação musical e o experimento eletroacústico de ponta. Possui portanto um caráter científico e uma sonoridade correlata, de difícil degustação. E por que <em>Acid In the Style of David Tudor</em> é um dos álbuns do ano? Simplesmente porque converge de forma atraente essas duas facetas, ocasionando, nas palavras do próprio Hecker, &#8220;desorientação espacial&#8221;. Arrebatador, acachapante e até revoltante, dependendo da perspectiva.</p>
<p><strong>4. <em>Vertical Ascent </em>- Moritz Von Oswald Trio (Honest Jons, Reino Unido [Alemanha])</strong><br />
Primeiro, a vanguarda techno do Basic Channel. Depois, a inspiração dub/rocksteady do Rhythm &amp; Sound, prenunciando o dubstep. Após uma colaboração insípida com Carl Cox, Oswald recrutou o produtor e percussionista Sasu Ripatti e o também produtor Max Loderbauer para construir uma prodigiosa combinação de percussões e sonoridades eletrônicas. Desde a compilação <em>With the Artists</em>, com o Rhythm &amp; Sound, o gênio de Moritz Von Oswald não lançava um disco à altura das pequenas revoluções que ele próprio capitaneou.</p>
<p><strong>5. <em>Kluster &amp; Friends 1969-1973</em> &#8211; Kluster (QBico, Itália [Alemanha])</strong><br />
Seis elepês contendo doze faixas nunca lançadas, gravadas por Conrad Schnitzler, Klaus Freudigmann e Wolfgang Seidel  entre 1969 e 1972. Prenúncios do industrial, do dubstep e do techno. Em um ano em que tivemos álbum novo do Cluster e o relançamento luxuoso de <em>Tracks and Traces</em>, esta caixa vem consolidar a idéia de que estes alemães foram experimentadores decisivos nas constituição da música eletrônica contemporânea. Ao lado dos jamaicanos, claro.</p>
<p><strong>6. <em>Contrastes </em>- Itiberê Orquestra Família (Sala de Som, Brasil)</strong><br />
Por mais que a música do Itiberê Orquestra Família possa ser atribuída a Hermeto Pascoal, é inegável que este grupo formado basicamente por jovens amadureceu e vem desenvolvendo interpretações de altíssimo nível. As composições são de Itiberê Zwarg, mas é o extremo talento destes instrumentistas que dá vivacidade aos contrapontos e devaneios sonoros criados pelo líder da banda. <em>Contrastes</em> é um álbum indispensável e único no cenário da música instrumental contemporânea.</p>
<p><strong>7. <em>Unbalance</em> &#8211; 2562 (Tectonic, Reino Unido)</strong><br />
Desde os seus primeiros minutos, <em>Unbalance</em> diz a que veio: primeiro, &#8220;Flashback&#8221; com seu efeito de CD arranhado, depois &#8220;Lost&#8221; com sua percussividade soturna e não para mais de surpreender, passando pela obra-prima que dá título ao álbum, e outras pérolas que o fazem o melhor álbum de dubstep stricto senso do ano.</p>
<p><strong>8. <em>The Bright Mississipi</em> &#8211; Allen Toussaint (Nonesuch, EUA)</strong><br />
Toussaint é um homem de façanhas. Surge como produtor e compositor de sucesso nos anos 60, torna-se importante cantor do soul americano dos anos 70, desaparece, é dado por morto no furacão Katrina, mas ressurge no Late Show With David Letterman. Quatro anos depois ele prova que se pode dar um passo atrás e ao mesmo tempo inovar. <em>The Bright Mississipi </em>combina repertório impecável, timbres maravilhosos e excepcional qualidade de gravação.</p>
<p><strong>9. <em>Gigantomachia</em> &#8211; The Naked Future (ESP-Disk&#8217;, EUA)</strong><br />
No sentido contrário de <em>Double Sunrise Over Neptune</em> de William Parker, álbum de jazz do ano passado, <em>Gigantomachia</em> valoriza mais a percepção lógica e timbrística do free jazz do que os aspectos intuitivos. Mas não se engane o leitor, pois o som que sai das caixas é de uma fúria incomensurável, também dado a momentos reflexivos e estranhamente silenciosos. Uma obra-prima que contraria todas as teorias sobre o esgotamento do jazz.</p>
<p><strong>10. <em>Bromst</em> &#8211; Dan Deacon (Carpark, EUA)</strong><br />
Dan Deacon é um assinatura, não se parece com nada, nem com Suicide, nem com Dead Kennedys, nem com Aphex Twin&#8230; <em>Bromst</em> é um líbelo à cultura geek, uma ode ao fim do mundo, um convite à diversão desvairada, um manifesto pela cultura livre e pela livre circulação de dados. E, claro, um agradecimento pelo nascimento do computador, essa máquina que permitiu aos seres humanos alterar consideravelmente seu espectro sonoro.</p>
<p><strong>11. <em>Repas froid </em>- Ghédalia Tezartès ([ tanzprocesz ]; Itália [França])</strong><br />
Em <em>Repas Froid</em> o discurso músical é sequestrado pelo que poderíamos chamar de &#8220;experiência sonora&#8221;. É nítida a referência à música concreta, claro, mas somente enquanto os sons puderem ser considerados de um ponto de vista dramático. É o drama de uma existência fantasmagórica salvaguardada pela técnica. Mas é também o balde de água fria no ouvido preguiçoso diante do turbilhão de sons anticlimáticos. Um disco tão autêntico quanto difícil.</p>
<p><strong>12. <em>Non Euclidean Elucidation of Shamanic Ecstasies</em> &#8211; Harappian Night Recordings (IKUISUUS, EUA)</strong><br />
Quando eu dava por certa a posição de <em>The Glorious Gongs Of Hainuwele</em> entre os melhores do ano, o misterioso Dr. Sayed Kamran Ali, “the man who could walk through in-between positions”, lança este <em>Non Euclidean&#8230;</em> Com a audição, a cautela inicial foi sendo substituída pela certeza de que a música de Ali tende a crescer dentro de uma lógica inversa a de grupos como Tinariwen e Konono N.1. Enquanto estes chamam atenção pelos elementos compatíveis com os interesses ocidentais (efeitos de guitarra e eletrificação de kalimbas), Ali incorpora ao folk, ao rock e à música eletrônica técnicas de gravação, execução e instrumentação observáveis nos registros da música africana e oriental. Se o Harappian já era intrigante no primeiro álbum, neste mostrou definitivamente a que veio.</p>
<p><strong>13. <em>Dabke 2020: Folk And Pop Sounds of Syria</em> &#8211; Omar Souleyman (Sublime Frequencies, EUA [Síria])</strong><br />
Não deveríamos considerar esta coletânea arbitrária em relação às dinâmicas reais da obra de Omar Souleyman. A partir de mais de 500 fitas cassetes lançadas pelo cantor, o selo Sublime Frequencies criou uma obra coerente, porém falsa. Como nós vivemos mesmo é de mentiras, não custa suspender rapidamente o falso amor à verdade para eleger esta como a compilação mais rica e inusitada dos últimos anos. A mistura de Dabke, do Choubi iraquiano, do canto árabe “mawal” com sonoridades eletrônicas é irresistível e impressionante aos ouvidos &#8220;ocidentais&#8221;.</p>
<p><strong>14. <em>Repo</em> &#8211; Black Dice (Paw Tracks, EUA)</strong><br />
O disco mais &#8220;rítmico&#8221;, palatável e &#8220;fofo&#8221; do Black Dice. Mas ao mesmo tempo aquele que carrega na capa o signo da experimentação: &#8220;go where new experiences await you&#8221;&#8230;  Faixas como &#8220;La Cucaracha&#8221;, &#8220;Earnings Plus Interest&#8221; ou &#8220;Ultra Vomit Craze&#8221; podem perfeitamente passar por vinheta televisiva ou jingle, dado o caráter lúdico e divertido com que o Black Dice manipula os ritmos, clicks e samplers. Porém, como o aspecto teen da música de Dan Deacon, a música do Black Dice não é pueril e amadurece surpreendentemente a cada disco.</p>
<p><strong>15. <em>No chão sem o chão</em> &#8211; Romulo Fróes (YB Music/Ôlôko, Brasil)</strong><br />
Muito mais do que se diz por aí de muita bandinha gringa consagrada, o trabalho de Romulo Fróes permanece como uma preciosidade restrita a brasileiros. A faixa &#8220;Anjo&#8221;, por exemplo, tem muito mais a dizer sobre o rock&#8217;n'roll hoje, com sua harmonia intrincada, sua cozinha impecável e a entonação estranhamente sóbria de Romulo. Em um ano em que se consagrou o indie insípido do Bat for Lashes e Girls, o álbum de Romulo Fróes aparece como uma luz, sob diversos aspectos. Enxerga quem quer e pode, claro.</p>
<p><strong>16. <em>Opus de Life</em> &#8211; Profound Sound Trio (Porter Records, EUA)</strong><br />
Andrew Cyrille e Henry Grimes já trabalham juntos há anos e se juntaram ao saxofonista britânico Henry Grimes especialmente para o Vision Festival de NY. O que me chama atenção é a síntese muito bem realizada entre uma pegada violenta e, por outro lado, o desenvolvimento gradual de minúcias e detalhes de dinâmicas e arranjo. Pudera, pois trata de três músicos experientes em termos de improvisação, três veteranos do free jazz que se reúnem para uma só noite de improvisos dos mais contundentes da atualidade.</p>
<p><strong>17. <em>Guitars from Agadez Vol. II</em> &#8211; Group Bombino (Sublime Frequencies, EUA [Niger])</strong><br />
Guardemo-nos de comentar a situação política embutida na música tuareg, para dedicar breves palavras ao conteúdo musical. O Group Bombino está mais próximo do Tinariwen que do Group Inerane, o que caracteriza um acentuada vizinhança com o blues, privilegiando o verso de guitarra límpido em detrimento dos efeitos. Claro que por vezes a sonoridade se torna árida, como em &#8220;Kamu Telyat&#8221; e &#8220;Issitchilane&#8221;, mas isso se deve mais a baixa qualidade da gravação. No geral, esse <em>Guitars from Agadez Vol. II</em> sustenta e amplia o interesse no cenário político e musical conturbado de Agadèz.</p>
<p><strong>18. <em>Aineen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter</em> &#8211; Mika Vainio (Touch, Reino Unido [Finlândia])</strong><br />
Álbum meticuloso, ciência do ruído que explora uma região onde os sons orgânicos e inorgânicos se confundem, <em>Aineen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter</em> reúne as características mais poderosas do trabalho de Mika Vainio, ou seja, o esmero na produção do ruído e a rigorosa estratificação do som em camadas e &#8220;setores&#8221;. Mas acrescenta mais uma qualidade: é um álbum em que a rispidez, manifestada no EP posterior, <em>Teutons</em>, é substituída por uma placidez quase reflexiva. Recomenda-se a audição nos fones de forma a possibilitar a captação de suas diversas sutilezas.</p>
<p><strong>19. <em>Seya</em> &#8211; Oumou Sangaré (World Circuit, Reino Unido [Mali])</strong><br />
Oumou Sangaré é fiel representante do Mali, e não só por sua música, mas também por suas atitudes. Como Toumani Diabaté e Ali Farka Touré percorre o caminho inverso de artistas africanos que migram para a Europa, isto é: ao invés de se adequar aos gêneros já assimilados pelos europeus, impõem seus maneirismos, seu estilo, seus ritmos. <em>Seya</em> é mais um exemplo da pujança e da riqueza da música malinesa, a meio palmo das influências americanas e européias, mas completamente apoiada na música de sua terra natal, Wassoulou. Um álbum cuja força reside na força da música malinesa.</p>
<p><strong>20. <em>Zii e zie</em> &#8211; Caetano Veloso (Universal Music, Brasil)</strong><br />
Caetano Veloso: que personagem! Aos quase 70 anos recruta a turma de instrumentistas mais esperta do Rio de Janeiro, retoma a palavra Transamba que dá título a um álbum de 1973 gravado por Marcos Moran e Samba Som Sete e grava 13 faixas dignas de seu melhor repertório. Destaque para a instrumentação sutil e inteligente, para o delicioso hit &#8220;A cor amarela&#8221; e para a tensão profundamente poética de &#8220;Perdeu&#8221;.<br />
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<strong>Outros álbuns relevantes:</strong><br />
Chutando o Balde – Nei Lopes, Imperial Horizon &#8211; Kevin Drumm, May08 &#8211; Billy Bao, Treeg Salaam &#8211; Group Doueh, Imidiwan Companions &#8211; Tinariwen, Treibgut &#8211; Grischa Lichtenberger, House Full Of Floors &#8211; Evan Parker, Oblivio Agitatum &#8211; Bruce Gilbert, Ununtrium RN-RHYTHM-Variations &#8211; AOKI Takamasa, Detroit &#8211; Gerald Wilson, Shall I Download A Blackhole And Offer It To You &#8211; Pan Sonic/Keiji Haino, Armonico Hewa &#8211; OOIOO, Kantarell &#8211; Spunk, Tarot Sport &#8211; Fuck Buttons, Earthly Delights &#8211; Lightning Bolt, +2 &#8211; Imã, keith fullerton whitman &#8211; Dream house variations, Brötzmann / Kondo / Pupillo / Nilssen-Love &#8211; Hairy Bones, hayward, coxon, thomas, taylor &#8211; about, Wolf Eyes &#8211; Always Wrong, Dälek &#8211; Gutter Tactics, Umsindo &#8211; Georgia Anne Muldrow, Asa-Chang &amp; Junray &#8211; kage no nai hito, Doom &#8211; Born Like This, Great Lenghts &#8211; Martyn, Information inspiration &#8211; Mulatu Astatke &amp; The Heliocentrics, Tantinho canta Padeirinho da Mangueira &#8211; Tantinho da Mangueira, Haih or amortecedor &#8211; Mutantes, Central Market &#8211; Tyondai Braxton, La Llama &#8211; Savath Y Savallas, The Eternal &#8211; Sonic Youth, Veckatimest &#8211; Grizzly Bear, The Dirty Projectors &#8211; Bitte Orca, Flaming Lips &#8211; Embryonic, Tyondai Braxton &#8211; Central Market, Sa-Ra &#8211; Nuclear Evolution: The Age of Love, Crystal Antlers &#8211; Tentacles, Oneida &#8211; Rated O, Phillipe Jeck &#8211; Spool, Leyland Kirby &#8211; Sadly, the future is no longer what it was, Ilyas Ahmed &#8211; Goner, John Zorn &#8211; Femina, Evangelista &#8211; Prince of True, Eliane Radigue &#8211; Tryptych, PJ HARVEY &amp; JOHN PARISH &#8211; A Woman A Man Walked By, Faust &#8211; C&#8217;est Com Com Complique, Sir Richard Bishop &#8211; The Freak Of Araby, scott tuma &amp; mike weis &#8211; taradiddle, The Field &#8211; Yesterday and today, Tim Hecker &#8211; An Imaginary Country, David S. Ware &#8211; shakti, matthew shipp &#8211; harmonic disorder, russell haswell &#8211; wild tracks, Actor &#8211; St. Vincent, Don&#8217;t Steal My Goat &#8211; Merzbow, Only Built 4 Cuban Linx&#8230; Pt II &#8211; Raekwon, Kage no Nai Hito &#8211; Asa-Chang &amp; Junray, Peter Brötzmann &#8211; A Night in Sana’a, Coptic Dub &#8211; The Embassadors, The River &#8211; Chihei Hatakeyama, Genie Head Gas In The Tower Of Dreams (Jesters Midnight Toys) &#8211; James Ferraro, Vladislav Delay &#8211; Tumma, Caboladies &#8211; Crowded out memory, Chris Corsano   Another Dull Dawn, Evan Parker &#8211; House Full of Floors, Monoliths &amp; Dimensions &#8211; Sunn O))), Lee “Scratch” Perry &#8211; Return from Planet Dub, Sepultura &#8211; A-Lex, Mad professor &#8211; Audio Illusion of Dub, 5 Years of Hyperdub, Cesária Évora &#8211; Nha Sentimento, Siba e Roberto Corrêa – Violas de Bronze, Babe Terror – Perdizes Dream, Egberto Gismonti – Saudações, Bibio – Ambivalence Avenue, Cluster – Qua, Vivian Girls &#8211; Everything Goes Wrong, Otto – Certa manhã…, Lucas Santanna – Sem Nostalgia, BLK JKS – After Robots, Staff Benda Bilili – Trés Trés Fort, Fanga – Sira Ba, Radiq – People, Uwe Oberg/Christof Thewes/Michael Griener &#8211; Lacy Pool, William Parker &amp; Giorgio Dini – Temporary, Rogério Skylab &amp; Orquestra Zé Felipe, No-Neck Blues Band &#8211; At 6AM We Become the Police.</p>
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		<title>Melhores de 2009: Músicas – Bernardo Oliveira</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Dec 2009 21:26:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bernardo</dc:creator>
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1. &#8220;Brother Sport&#8221; &#8211; Animal Collective (Merriweather Post Pavilion, Domino, EUA)
&#8220;Brother Sport&#8221; é a última faixa de um dos cinco melhores álbuns do ano, mas engana-se quem a considera uma fiel representante de Merriweather Post Pavillion. Alienígena em seu próprio contexto, representa mais uma experiência-limite simultaneamente conectada com o presente e com um futuro imprevisível, dada [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2997&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/i109487.jpg"><img title="i109487" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/i109487.jpg?w=439&#038;h=313" alt="" width="439" height="313" /></a></p>
<p><strong>1. &#8220;Brother Sport&#8221; &#8211; Animal Collective (<em>Merriweather Post Pavilion</em>, Domino, EUA)</strong><br />
&#8220;Brother Sport&#8221; é a última faixa de um dos cinco melhores álbuns do ano, mas engana-se quem a considera uma fiel representante de <em>Merriweather Post Pavillion</em>. Alienígena em seu próprio contexto, representa mais uma experiência-limite simultaneamente conectada com o presente e com um futuro imprevisível, dada a criatividade vertiginosa que marca os últimos trabalhos do Animal Collective. Mistura sagaz de bleeps eletrônicos, psicodelismo, repetição massiva, música africana, transe e samba do crioulo doido, &#8220;Brother Sport&#8221; empolga e sugere até um novo gênero, o samba-trance&#8230;</p>
<p><strong>2. “Purple City” &#8211; Joker &amp; Ginz (&#8220;Purple City&#8221;/&#8221;Re-Up&#8221; [12"], Kapsize, Reino Unido)</strong><br />
2009 pode ser marcado como o ano em que se estilhaçaram os gêneros ligados à eletrônica inglesa, tornando o cenário algo parecido com um mosaico de possibilidades mais ou menos delimitadas. Joker se destacou não só por ter definido as regras do que se convencionou chamar &#8220;wonky&#8221;, mas sobretudo pela capacidade de sintetizar e elevar elementos um tanto quanto corriqueiros, como a batida funky ralentada, as melodias safadíssimas e o clima saboroso e sensual desta &#8220;Purple City&#8221;.</p>
<p><strong>3. &#8220;Moon Over Joseph&#8217;s Burial&#8221; &#8211; Shackleton (<em>Three Eps</em>, Perlon, Alemanha [Reino Unido])</strong><br />
Não existe justa definição para a música de Sam Shackleton que nos seja útil e, por outro lado, conserve a notável originalidade de seu trabalho. Dubstep? IDM? O que importa? Uma polirritmia pronunciadamente oriental, sons variados que vão desde coisas quebrando até atabaques e objetos de vidro, conferem a esta composição um caráter único no cenário musical contemporâneo.</p>
<p><strong>4. </strong><strong>&#8220;Perdeu&#8221; &#8211; Caetano Veloso (<em>Zii e Zie</em>, Universal Music, Brasil)<br />
</strong>&#8220;Perdeu&#8221; foi talhada naquela onda prolixa e genial de &#8220;Ele me deu um beijo na boca&#8221; e &#8220;O Estrangeiro&#8221;, mas adaptada à estética &#8220;transamba&#8221; que marcou o álbum <em>Zii e Zie</em>. Versando sobre as agruras da vida de um jovem infrator, Caetano destila uma poesia dramática e de poucos elementos, emoldurada pela sonoridade ao mesmo tempo sutil e enérgica da Banda Cê. Desde &#8220;Treze de Maio&#8221;, faixa do álbum <em>Noites do Norte</em> de 2001, não ouvíamos um Caetano tão à vontade e, ao mesmo tempo, tão relevante e inspirado.</p>
<p><strong>5. </strong><strong>&#8220;Unbalance&#8221; &#8211; 2562 (<em>Unbalance</em>, Tectonic, Reino Unido [Holanda])</strong><br />
O bom e simples quatro por quatro, porém recortado por um produtor que sabe exatamente o que deseja com batidas ralentadas e graves soturnos, elementos básicos do dubstep. &#8220;Unbalance&#8221; no entanto extrapola o &#8220;básico&#8221; e sonda uma região até então inexplorada pelo gênero, algo como uma inflexão kraut, ao mesmo tempo tensa, estranha e reflexiva. Nunca escutei nada parecido na seara dos eletrônicos ingleses.</p>
<p><strong>6. </strong><strong>“Chocolate Cherry” &#8211; Black Dice (&#8220;Chocolate Cherry&#8221; [7"], Catsup Plate, EUA)</strong><br />
&#8220;Chocolate Cherry&#8221;: combinação de batidas, samplers, dinâmicas de volume, mixagens estapafúrdias, efeitos de rotação&#8230; Música defunta, confeccionada a partir de retalhos vagabundos e montada à imagem e semelhança de um modelo imperfeito, como o &#8220;monstro&#8221; de Frankenstein. Assustadora e divertida.</p>
<p><strong>7. </strong><strong>&#8220;We Binge on a Bloodthirsty God&#8221; &#8211; The Naked Future (<em>Gigantomachia</em>, ESP-Disk, EUA)<br />
</strong>As modulações e dinâmicas que marcam os quase 20 minutos desta faixa atestam a incorporação de tendências da música contemporânea a uma estrutura timbrística essencialmente retirada do jazz. Arryngton de Dyoniso e sua turma criam dinâmicas de conjunto admiráveis, abruptas e aparentemente soltas, mas fica clara a adesão a uma lógica que tem na repetição seu método declarado. A mais radical faixa de jazz do ano.</p>
<p><strong> </strong><strong>8. &#8220;Feitinho pra nós&#8221; &#8211; Itiberê Orquestra Família (<em>Contrastes</em>, Sala de Som, Brasil)<br />
</strong>Como de praxe, Hermeto envia uma faixa para o grupo de seu fiel baixista, Itiberê Zwarg. Mas essa família, a Itiberê Orquestra Família, já completou dez anos e para deleite dos fãs executam o rebuscado presente de Hermeto com evidente e já atestada ciência do metiér. Mas eu acrescentaria que o poder da interpretação destes jovens músicos cresceu assustadoramente, fato que torna &#8220;Feitinha pra nós&#8221; uma das grandes faixas instrumentais do ano.</p>
<p><strong>9. &#8220;Shallow Vicinity&#8221; &#8211; Blue Daisy (<em>Strings Detatched EP</em>, Black Acre, Reino Unido)<br />
</strong>Após ouvir o single &#8220;Space Ex&#8221;, me perguntei o que fazia do Blue Daisy algo diferente dos seguidores de Guillermo Scott-Heren e J Dilla como Flying Lotus e Hudson Mohawke. A resposta veio neste segundo single, <em>Strings Detached</em>: é o barulho. No caso desta faixa curtíssima que é &#8220;Shallow Vicinity&#8221;, este aspecto é acrescido do fato de que se trata de uma releitura do drum&#8217;and&#8217;bass com a utilização de timbres do wonky e do dubstep. Tudo coberto por uma saborosa névoa noise, é claro.</p>
<p><strong>10. “Wolf Cub” – Burial/Four Tet (&#8220;Moth&#8221;/&#8221;Wolf Cub&#8221; [12"], Text Records, Reino Unido)<br />
</strong>Unindo dois talentos da música eletrônica atual, Kieran Hebden e Burial, &#8220;Wolf Cub&#8221; reúne os maneirismos mais comuns aos dois autores. De Burial, a batida seca, sobressaltada, e as vozes sufocadas e vulneráveis. De Hebden, a utilização econômica dos sintetizadores, as texturas percussivas e a manipulação sagaz dos sons de &#8220;orgânicos&#8221;. Curioso o resultado, que apesar de original, permite entrever nitidamente a combinação dos dois estilos.</p>
<p><strong>11. “Young Heartache” &#8211; Bullion (<em>Young Heartache EP</em> [12"], One-Handed Music, Reino Unido)<br />
</strong>Inevitável a surpresa quando a batida eletrônica, marcada no contratempo, captura duas palavras do que parecia ser uma canção indie, para compor uma peça experimental e delirante. Das melhores coisas lançadas esse ano na prolífica eletrônica inglesa, o que não é pouca coisa.</p>
<p><strong>12. </strong><strong>“Goodnight Sweetheart” &#8211; Sparklehorse + Fennesz (<em>In The Fishtank 15</em>, In The Fishtank, Holanda)</strong><br />
Tenho a impressão de que por mais que Sparklehorse tenha seu mérito, esta faixa pertence a Fennesz. Os acordes, a costura, a combinação dos sons eletrônicos, o efeito na voz, a repetição do refrão, tudo indica que a mão de Fennesz é o motor criativo por trás da beleza de &#8220;Goodnight Sweetheart&#8221;.</p>
<p><strong>13. &#8220;Lion in a Coma&#8221; &#8211; Animal Collective</strong> <strong>(<em>Merriweather Post Pavilion</em>, Domino, EUA)</strong><br />
Dura escolha: &#8220;Lion in a Coma&#8221;? &#8220;What would I Want Sky&#8221;? &#8220;In The Flowers&#8221;? Em um ano em que o Animal Collective fez barba, cabelo e bigode, destaco &#8220;Lion in a coma&#8221; pela raridade de seu andamento (9/8?) e pela melodia estranhíssima que atesta o talento cancioneiro do grupo.</p>
<p><strong>14. </strong><strong>“D.O.A. (Death of Autotune)” &#8211; Jay-Z (<em>The Blueprint 3</em>, RocNation, EUA)</strong><br />
É bem verdade que Jay Z não tem sido aquele papai noel pródigo, produzindo álbuns inteiramente relevantes. <em>American Gangster</em> e este <em>The Blueprint 3</em> tem lá suas graças, mas são duas, três&#8230; No entanto, uma delas é &#8220;D.O.A. (Death of Autotune)&#8221;, uma pancada produzido por No I.D., com pegada rock e citações de Steams (&#8220;Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye&#8221;) e de Janko Nilovic. O cetro continua na mão certa.</p>
<p><strong>15. &#8220;Snookered&#8221; &#8211; Dan Deacon (<em>Bromst</em>, Carpark Records, EUA)</strong><br />
Apesar da singela melodia introdutória, executada por sininhos natalinos, &#8220;Snookered&#8221; é uma faixa carregada por timbres saturados, quase agressivos, e destila um clima que eu poderia chamar de triunfal. Ambígua como convém ao autor, &#8220;Snookered&#8221; é punk e pop, é noise e climática, tudo ao mesmo tempo. É música &#8220;andrógina&#8221;, se me permitem.</p>
<p><strong>16. &#8220;The Lisbon Maru&#8221; &#8211; Fuck Buttons (<em>Surf Solar</em>, ATP Recordings, Reino Unido)</strong><br />
Se o termo &#8220;road song&#8221; não existe, eu o reinvindico aqui e agora. &#8220;The Lisbon Maru&#8221; é um exemplo perfeito do que deve ser uma &#8220;road song&#8221;: admiravelmente exuberante, estranhamente épica e, sobretudo, secretamente extática. Sem contar o fato de que o melhor riff de guitarra deste ano foi executado por um sintetizador.</p>
<p>17. <strong>&#8220;Tremble&#8221; &#8211; Spunk (<em>Kantarell</em>, Rune Grammofon, Noruega)</strong><br />
&#8220;Tremble&#8221;, faixa que abre o último e intrigante álbum do Spunk, <em>Kantarell</em>, &#8220;Tremble&#8221; pode suscitar velhas questões: trata-se de free-improv ou a árdua seara da composição? É música erudita ou popular? Mas quando começam os estranhos pizzicatos, ruídos de animais, cordas hesitantes e outros bichos comuns ao trabalho de Ratkje e sua turma, rapidamente me esqueço delas e digo para mim mesmo: &#8220;it&#8217;s only rock&#8217;n'roll baby, and I really like it!&#8221;</p>
<p><strong>18. (untitled #02) &#8211; Billy Bao (<em>May0</em><em>8</em>, Parts Unknown Records, EUA [Espanha])<br />
</strong>Faixa atordoante, composta por um dissidente político que mistura punk rock politizado, lo-fi, noise e Fela Kuti, tudo no mesmo caldeirão: cortesia do artista basco Mattin, escondido sob a alcunha Billy Bao.</p>
<p><strong>19. &#8220;Você não vale nada&#8221; &#8211; Calcinha Preta (<em>Volume 20: Você não vale nada, mas eu gosto de você</em>, [independente], Brasil)<br />
</strong>Enquanto os &#8220;sudestinos&#8221; da Nova-Velha MPB insistem na diluição de fórmulas consagradas pelo tropicalismo e pela bossa nova, o norte e o nordeste vem demonstrando malícia e faro para o sucesso. Poesia chã, simples, direta e maliciosa, acompanhada por um comboio instrumental suntuoso dão forma ao hit brasileiro do ano.</p>
<p><strong>20. &#8220;Stillness Is the Move&#8221; &#8211; The Dirty Projectors (<em>Bitte Orca</em>, Domino USA, EUA)<br />
</strong> O hit indie de 2009, a &#8220;Dance Dance Dance&#8221; deste ano, saborosa e ao mesmo tempo óbvia, como convém aos grandes hits. Algumas faixas de <em>Bitte Orca</em> são até melhores, como &#8220;Cannibal Resource&#8221;, mas preferi me render a esta deliciosa anomalia R&amp;B. Destaque para o solfejo grudento no melhor estilo Prince&#8230;<br />
</a><br />
</a><br />
<strong>Outras faixas relevantes:</strong><br />
&#8220;Cannibal Resource&#8221; &#8211; The Dirty Projectors, &#8220;Something Has Got to Give&#8221; &#8211; Shackleton, &#8220;A cor amarela&#8221; &#8211; Caetano Veloso, &#8220;Pattern 4&#8243; &#8211; Moritz Von Oswald Trio, &#8220;Anjo&#8221; &#8211; Rômulo Fróes, &#8220;In the Flowers&#8221; Animal Collective, &#8220;Lansob Sherek&#8221; &#8211; Omar Souleyman, “These Are My Twisted Words” &#8211; Radiohead, “Black Sun” – Kode9, &#8220;He Say She Say&#8221; &#8211; The Sa-Ra Creative Partners, “Uffe’s Workshop” &#8211; Tyondai Braxton, &#8220;The Slayer&#8221; &#8211; Evangelista, “Molalatladi” &#8211; BLK JKS, &#8220;Jogada infantil&#8221; &#8211; +2 Moreno, Domenico &amp; Kassin, &#8220;Love Cry&#8221; &#8211; Four Tet, “Tem Cigarro Aí?” -  Rogério Skylab &amp; Orquestra Zé Felipe, “Teutons” &#8211; Mika Vainio, “Haxan Dub” &#8211; Demdike Stare, &#8220;Kamoutalia&#8221; &#8211; Group Bombino, &#8220;Big Brother Mental&#8221; &#8211; Siba e Roberto Corrêa, &#8220;Do It&#8221; &#8211; Joker, &#8220;The Neighbors&#8221; &#8211; St. Vincent, “Armed With Krylon” &#8211; Dälek, &#8220;A Woman A Man Walked By / The Crow Knows Where All The Little Children Go&#8221; &#8211; Pj Harvey &amp; John Parish, &#8220;Cha Cha&#8221; &#8211; Mulatu Astatke e The Heliocentrics, &#8220;The Rabbit Skinner&#8221; &#8211; David Sylvian, &#8220;Ancestors&#8221; &#8211; Gonjasufi, &#8220;Closer&#8221; &#8211; A Made Up Sound, &#8220;Cool Out&#8221; &#8211; King Midas Sound, &#8220;Moon Over Joseph&#8217;s Burial&#8221; Shackleton, &#8220;Egyptian Fantasy&#8221; &#8211; Allen Toussaint, &#8220;Call Paul&#8221; &#8211; Profound Sound Trio, &#8220;Lulla&#8221; &#8211; Tinariwen, “I live With You” &#8211; Grizzly Bear, “Anti-Orgasm” – Sonic Youth, “There Will Never Be Another You” – Matthew Shipp, “Glendale Galleria” &#8211; Flying Lotus, “Twilite Speedball” &#8211; Mos Def, “Hold the Line” &#8211; Major Lazer feat. Mr. Lexx &amp; Santigold, “Brownout in Lagos” &#8211; Oneida, “Broken Order” &#8211; Wolf Eyes, “Sermonette” &#8211; Georgia Anne Muldrow, “Sketch on Glass” &#8211; Mount Kimbie, “Drop the Gun” &#8211; The Thing, “Crazy in Love” &#8211; Antony and the Johnsons, “Godzilla” &#8211; Zomby, “Human Meadow” &#8211; FaltyDL, “Agora Sim” &#8211; Otto, “O Violão de Mario Bros” &#8211; Lucas Santtana, “10 Bricks” &#8211; Raekwon, &#8220;Wele wele wintou&#8221; &#8211; Oumou Sangaré, &#8220;Flooded chamber&#8221; &#8211; Lightning Bolt, “The Mistaken Reaction” &#8211; Chris Corsano, “Killshot” &#8211; Ben Frost, “Se Manda Mané” &#8211; Tantinho, “Avramandole” &#8211; Staff Benda Bilili, &#8220;Degraw&#8221; &#8211; Hayward/Coxon/Thomas/taylor, “Kinda Like a Big Deal” &#8211; Clipse, &#8220;Beatte Harab&#8221; &#8211; Group Doueh, &#8220;Silences traverses des mondes et des anges&#8221; &#8211; Mika Vainio, &#8220;Memoria Makhnovischina&#8221; &#8211; Harappian Night Recordings, &#8220;Lightworkz&#8221; &#8211; Doom, &#8220;Kage no Nai Hito &#8211; Lehara-tronics Mix&#8221; &#8211; Asa-Chang &amp; Junray, &#8220;Time Erased&#8221; &#8211; Crystal Antlers, “Temper Tantrum” &#8211; Millie &amp; Andrea, “Hyph Mngo” &#8211; Joy Orbison, “Chase the Tear” &#8211; Portishead, &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; &#8211; Dorian Concept, &#8220;Bluez&#8221; Peverelist, &#8220;Everybody&#8217;s Got To Learn Sometime&#8221; &#8211; The Field</p>
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		<title>Camarilha Podcast #17</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Dec 2009 12:20:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bernardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[camarilha podcast]]></category>
		<category><![CDATA[Bill Orcutt]]></category>
		<category><![CDATA[Billy Bao]]></category>
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		<category><![CDATA[Dorian Concept]]></category>
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		<category><![CDATA[Itiberê Orquestra Família]]></category>
		<category><![CDATA[James Blake]]></category>
		<category><![CDATA[Josh Blair]]></category>
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		<category><![CDATA[Orthrelm]]></category>
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		<category><![CDATA[Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro]]></category>
		<category><![CDATA[Untold]]></category>
		<category><![CDATA[Zach Hill]]></category>

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		<description><![CDATA[

Playlist:
1. Fernando Quejas &#8220;Nha Codé&#8221; (Cap Vert: Anthologie 1959-1992, Buda Records, 1992, França [Cabo Verde])
2. Bullion &#8220;Young Heartache&#8221; (Young Heartache EP, One-Handed Music, 2009, Reino Unido)
3. Untold &#8220;Stop What You&#8217;re Doing (James Blake Remix)&#8221; (Stop What You&#8217;re Doing/I Can&#8217;t Stop This Feeling (Remixes) 10&#8221;, Hemlock, 2009, Reino Unido)
4. Dorian Concept &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; (Trilingual Dance [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2992&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/orquestra-familia.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2993" title="orquestra-familia" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/orquestra-familia.jpg?w=450&#038;h=320" alt="" width="450" height="320" /></a></p>
<p><embed src='http://widgets.vodpod.com/w/video_embed/Groupvideo.4278639' type='application/x-shockwave-flash' AllowScriptAccess='always' pluginspage='http://www.macromedia.com/go/getflashplayer' wmode='transparent' flashvars='' width='350' height='82' /></p>
<p>Playlist:</p>
<p>1. Fernando Quejas &#8220;Nha Codé&#8221; (<em>Cap Vert: Anthologie 1959-1992</em>, Buda Records, 1992, França [Cabo Verde])<br />
2. Bullion &#8220;Young Heartache&#8221; (<em>Young Heartache EP</em>, One-Handed Music, 2009, Reino Unido)<br />
3. Untold &#8220;Stop What You&#8217;re Doing (James Blake Remix)&#8221; (<em>Stop What You&#8217;re Doing/I Can&#8217;t Stop This Feeling (Remixes) 10&#8221;</em>, Hemlock, 2009, Reino Unido)<br />
4. Dorian Concept &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; (<em>Trilingual Dance Sexperience 12&#8221;</em>, Affine, 2009, Áustria)<br />
5. Itiberê Orquestra Família &#8220;Feitinha pra Nós&#8221; (<em>Contrastes</em>, Sala de Som, 2009, Brasil)<br />
6. Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro &#8220;Ka Nho Naben&#8221; (<em>Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro</em>, Beco da Coruja, 2009, Brasil)<br />
7. Bill Orcutt &#8220;My Reckless Parts&#8221; (<em>A New Way To Pay Old Debts</em>, Palilalia, 2009, EUA)<br />
8. Philip Jeck &#8220;D1.20&#8243; (<em>Spool</em>, The Tapeworm, 2009, Reino Unido)<br />
9. Billy Bao &#8220;Untitled #2&#8243; (<em>May08</em>, Parts Unknown, 2009, EUA)<br />
10. Zach Hill &amp; Mick Barr &#8220;Desert Glass Bubbles&#8221; (<em>Shred Earthship</em>, 5 Rue Christine, 2006, EUA)<br />
11. Zach Hill &amp; Mick Barr &#8220;North Pyramid Face Off&#8221; (<em>Shred Earthship</em>, 5 Rue Christine, 2006, EUA)<br />
12. Orthrelm &#8220;OV (fragmento)&#8221; (<em>OV</em>, Ipecac, 2005, EUA)<br />
13. Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou &#8220;Azoo De Ma Gnin Kpevi&#8221; (<em>Echos Hypnotiques</em>, Analog Africa, 2009, Alemanha [Benin])</p>
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			<media:title type="html">orquestra-familia</media:title>
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		<title>The Residents &#8211; The Ughs! (2009; MVD Audio, EUA)</title>
		<link>http://camarilhadosquatro.wordpress.com/2009/12/16/the-residents-the-ughs-2009-mvd-audio-eua/</link>
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		<pubDate>Wed, 16 Dec 2009 04:02:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bernardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[experimental]]></category>
		<category><![CDATA[vanguarda]]></category>
		<category><![CDATA[The Residents]]></category>
		<category><![CDATA[The Ughs!]]></category>

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		<description><![CDATA[
Desde quando surgiram em 1969, os Residents nunca foram identificados, seja por nomes reais ou pseudônimos, nem sequer deram entrevistas. Sob a alegação de que a proximidade compromete a relação entre artista e público, se apresentam fantasiados, geralmente com um globo ocular na cabeça. Mesmo o número de membros da banda varia: já se apresentaram [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2963&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/ughscdcover.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2964" title="ughscdcover" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/ughscdcover.jpg?w=300&#038;h=300" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
<p>Desde quando surgiram em 1969, os Residents nunca foram identificados, seja por nomes reais ou pseudônimos, nem sequer deram entrevistas. Sob a alegação de que a proximidade compromete a relação entre artista e público, se apresentam fantasiados, geralmente com um globo ocular na cabeça. Mesmo o número de membros da banda varia: já se apresentaram em 4, 7, 11 e até mesmo um só indivíduo. De forma que, devido a natureza misteriosa da banda, fica muito difícil contar sua história exceto pelo aspecto singularíssimo de sua música, de informações discográficas e de pequenas lendas que, ao que parece, eles tratam de alimentar. Lançaram seu primeiro álbum em 1974, sempre investindo em uma convergência entre artes plásticas e música, criando álbuns conceituais que desafiam os rótulos e gêneros. <em>Third Reich &amp; Roll</em>, por exemplo, conta a história do nazismo a partir de manipulações eletrônicas de clássicos do rock&#8217;n'roll; <em>Eskimo</em> é sobre uma tribo esquimó fictícia; <em>The Commercial Album</em> apresentam dezenas de pequenas faixas alusivas à estética dos jingles. O último trabalho do grupo se chama <em>The Ughs!</em>, foi gravado em 2007 mas lançado somente este ano. Composto como trilha sonora para o espetáculo &#8220;The Voice of Midnight&#8221;, baseado em texto original de E.T.A. Hoffmann, <em>The Ughs!</em> é um álbum completamente instrumental. (B.O.)</p>
<p>* # *</p>
<p><em>The Ughs!</em> não é propriamente um álbum de carreira, mas trilha sonora para um espetáculo produzido pelos Residents. A despeito deste fato, o resultado pode ser avaliado como uma inflexão sui generis na obra sui generis do grupo e por razões pouco óbvias. Embora faixas como &#8220;The Lonely Lotus&#8221; e &#8221; Charlie Chan&#8221; contenham trechos nitidamente compatíveis com os maneirismos do grupo, há algo na sua estrutura de composição que me parece novo tanto em relação aos álbuns clássicos como aos imediatamente posteriores. Algo que emerge, para o bem e para o mal, como uma faceta mais próxima do discurso musical clássico, longe dos exercícios de metalinguagem que caracterizou o período &#8220;heróico&#8221; do grupo. Esclareço primeiro a  procedência do &#8220;mal&#8221;: certos trechos de <em>The Ughs!</em>, porque dialogam com o discurso musical &#8220;puro&#8221;, sem as terceiras intenções que fizeram a maravilha de <em>Third Reich &amp; Roll</em>, <em>Not Available</em> entre outros, acabam resvalando em uma musicalidade convencional, que às vezes assemelha-se a trilha sonora de filme de múmia e aventureiros no Cairo. Isso se pode observar por todo o disco, através de texturas percussivas (com a utilização irônica e contumaz dos pratos de bateria e percussões metálicas), vozes de &#8220;monstro&#8221; e sintetizadores climáticos que beiram o pastiche. Mas vejam: são os Residents! Quando se ouve um disco dos Residents deve-se manter a percepção atenta para as reviravoltas mais inusitadas, para procedimentos cuja lógica não sendo óbvia também não é restrita a uma turma de iniciados. Qualquer indivíduo que desconhecesse os Residents mas que ouvisse as dezenas de faixas de <em>The Commercial Album</em> compreenderia o procedimento, embora talvez reinvindicasse mais &#8220;sentimento&#8221; e não assimilasse a proposta do grupo. Poderíamos argumentar que em <em>The Ughs!</em> a ironia habitual se encontra no pastiche. Mas não é bem isso. A música dos Residents, ou melhor, seu pensamento musical não se move conforme categorias tão comuns e <em>The Ughs!</em> não constitui exceção. Por sobre as camas de sintetizadores e percussões claramente alusivas ao universo musical &#8220;oriental&#8221; (o que por si só já denuncia o clima de ironia, já que a referência musical não é &#8220;egípcia&#8221;, mas genericamente oriental&#8230;) podemos ouvir sons de animais, solinhos de guitarra, vozes bizarras que relativizam o aspecto &#8220;musical&#8221; que algumas faixas carregam. Mas mesmo assim, mesmo levando em consideração a possibilidade de uma síntese de elementos contraditórios, uns mais tradicionais, outros segundo a iconoclastia do grupo, o resultado não corresponde à definição. A sonoridade de <em>The Ughs!</em> é, sim, de uma originalidade inominável. Faixas como a sugestiva &#8220;Rendering the bacon&#8221;, ou até mesmo o tour de force &#8220;The Horns of Haynesville&#8221; às vezes se parecem com trilha sonora fake de filme B; às vezes ouvimos aqueles estranhíssimos acordes compostos por vozes bizarras que sempre marcaram presença nos discos anteriores, insinuando um experimentalismo por sobre a base fake; a execução de escalas melódicas como em &#8220;The Dancing Duck&#8221; e &#8220;Charlie Chan&#8221;, com o impagável violino, que de certa forma também remete à lógica debochada do grupo; e, por fim, as diversas camadas que se sucedem com uma certa pobreza de soluções, mas nitidamente uma pobreza programada&#8230; Estes elementos podem nos ajudar a refletir sobre a natureza do projeto: trata-se de uma paródia, mas criada e executada com uma sofisticação do âmbito musical que eu arriscaria dizer única no trabalho dos Residents. O resultado pode ser classificado como prazeroso e pode até mesmo levar às gargalhadas. Os mais acostumados ao ethos anárquico do grupo devem encontrar esse prazer de forma mais imediata&#8230; Não sendo exatamente arrebatadora, a música de <em>The Ughs!</em> ao menos tem o papel de chamar atenção para o fato de que os Residents ainda são capazes de fazer uma confusão dos diabos. (Bernardo Oliveira)</p>
<p>* # *</p>
<p>Os Residents são demais. Apesar de nos últimos vinte anos não terem desenvolvido nada tão brilhante quanto as pérolas produzidas nos anos 70 e 80 – os preferidos, <em>The Third Reich and Roll</em>, <em>Not Available</em>, <em>Commercial Album</em>, <em>Tunes of Two Cities </em>–, eles desenvolvem até hoje uma das carreiras mais coerentes e sistemáticas em produzir música alienígena, ao mesmo tempo irônica e sonoramente evocativa de mundos inexistentes. Nessa época, tudo nos Residents era interessante: eles tinham conceitos elaboradíssimos para cada disco (caso raro de artistas conceituais que conseguiram digerir a música pop em seus próprios termos; Scritti Politti come poeira em comparação), um fascinante trabalho de reapropriação dos clichês da cultura de massa e de sarcasmo questionador em tono deles, mas acima de tudo a música soava sem comparação com qualquer outra coisa que existisse. A natureza &#8220;não profissional&#8221; deles como músicos favorecia, pois eles podiam burlar tudo aquilo que era convencionalmente aceito como padrão de gravação, e conseguir com isso uma sonoridade própria, aproveitando do lo-fi para a construção de uma identidade sonora. Até hoje, ou pelo menos até antes de <em>The Ughs!</em>, eles continuavam fazendo algo bastante parecido. Conceitos ótimos, composições e arranjos excêntricos, mas a música já não era tão mais única assim. A diferença entre o ontem e o hoje é que o tempo passou e, desde então, uma pá de gente – sob a influência dos próprios Residents ou vinda à excentricidade, ao lo-fi, à outsider music por outros meios – desenvolveu sons que podemos associar ao dos Residents. Talvez especialmente o duo The Books, que conseguiu associar esquisitice, colagem, senso de humor e exuberância melódica de forma inaudita. Em todo caso, o trabalho dos Residents de alguns anos pra cá continua, sempre, interessante. Só não é tão único. E obviamente isso conta.</p>
<p><em>The Ughs!</em> é algo inédito na obra dos Residents. Eles aqui pegam carona no conceito de <em>The Voice of Midnight </em>e do personagem Nate para criar na pele de <em>The Ughs!</em> um novo conjunto. Esse novo nome, curiosamente, libera os Residents para fazer música desavergonhadamente eufônica. Tem faixa, aliás, que não ficaria muito deslocada se fosse colocada nem em <em>Ímã</em>, do +2, nem no <em>Qua</em>, do Cluster, dois bons discos desse ano com faixas que usam a repetição e a espacialidade da música com objetivos de criar atmosferas inesperadas mas não desconfortáveis. A coisa mais curiosa em <em>The Ughs!</em> é que os Residents se saem muito bem em sua incursão pelo hi-fi, com timbres delicados e minuciosamente escolhidos, em especial nos padrões percussivos. É óbvio que há alguns urros tribais aparecem de vez em quando, e que vez ou outra aparece alguma disrupção que evita qualquer fruição mais easy listening. Mas assim como há belos momentos (meu preferido é uma voz feminina declamando &#8220;co-lum-bi-to&#8221; lá pro final do disco), há coisas bobas, como a guitarra &#8220;cheia de feeling&#8221; de &#8220;The Lonely Lotus&#8221;. A curiosidade e o limite de interesse em <em>The Ughs!</em> está nessa quase contradição de que é um disco inesperado e inédito dentro da discografia dos Residents, mas que, dentro da música feita hoje, o disco ocupa um lugar bem confortável e nada confrontador ou único – algo que, pela trajetória e pela genialidade da banda, nos é dado esperar. (Ruy Gardnier)</p>
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		<title>Nação Zumbi &#8211; Rádio S.Amb.A. &#8211; Serviço Ambulante de Afrociberdelia (2000; YBrasil Music, Brasil)</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 03:43:18 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/nacao-zumbi-e28093-2000-radio-s-amb-a1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2948" title="Nação Zumbi – 2000 Rádio S.Amb.A" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/nacao-zumbi-e28093-2000-radio-s-amb-a1.jpg?w=304&#038;h=301" alt="" width="304" height="301" /></a></p>
<p>Pernambuco, final da década de 80: o rapper e dançarino Chico Science, que participava do grupo de hip hop Loustal, ingressa no bloco de reggae Lamento Negro, do bairro de Peixinhos, periferia de Recife. A partir deste encontro, Chico experimentou os temas e versos da estética hip hop com o ritmo do maracatu e do samba-reggae, formando o <a href="http://www.nacaozumbi.com.br/">Nação Zumbi</a>. Junto com Fred 04 do grupo Mundo Livre S.A., também de Pernambuco, Chico capitaneou o manguebit, cujo manifesto intitulado &#8220;Manifesto dos Caranguejos com cérebro&#8221; e cujo símbolo, uma parabólica enterrada na lama, retomavam temas e perspectivas da antropofagia de Oswald de Andrade e do tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil. No início dos anos noventas, Chico Science &amp; Nação Zumbi se destacaram no cenário nacional com o lançamento de <em>Da lama ao caos</em> e <em>Afrociberdelia</em>, hoje considerados cruciais e decisivos para a música brasileira como um todo. O desaparecimento precoce de Chico Science, em 1997, forçou o grupo a paralisar suas atividades até 1998, quando lançaram CSNZ, álbum duplo contendo faixas ao vivo, remixes e duas músicas inéditas. Em 2000, já com Jorge Du Peixe definitivamente nos vocais, o grupo lançou Rádio <em>S.amb.A &#8211; Serviço Ambulante de Afrociberdelia</em>, o primeiro álbum de inéditas desde <em>Afrociberdelia</em>. Seguiram-se <em>Nação Zumbi</em> (2002), <em>Futura</em> (2005), <em>Fome de Tudo</em> (2007) e o DVD <em>Propagando</em> (2006), sempre com sucesso de público e crítica, inclusive no exterior. Para 2010 está previsto um álbum de faixas gravadas ao vivo chamado <em>Ao Vivo no Marco Zero</em>. (Bernardo Oliveira)</p>
<p>* # *</p>
<p>Dificilmente poderemos negar um traço da cultura brasileira, que é a dialética esquizofrênica entre o fetiche da preservação e a compulsão à miscigenação indiscriminada. Ocorre que esta problemática contradição é transplantada até mesmo a contextos específicos, como por exemplo no &#8220;BRock&#8221; ou no &#8220;BReggae&#8221; do sudeste brasileiro. Em relação ao Paralamas ou ao Barão Vermelho, certamente ouviremos a lamúria dos puristas clamando por &#8220;aquele&#8221; grupo dos primórdios, aquele que marcou a &#8220;minha&#8221; geração, a &#8220;minha&#8221; percepção&#8230; Não que eu concorde ou discorde do juízo em relação as bandas citadas, não se trata disso. Desejo antes ressaltar o mecanismo psicológico que encerra certas bandas dentro de seu próprio mito, e de como esses mecanismos estão profundamente marcados por um narcisismo preguiçoso que não consegue (ou não quer) seguir os passos reais dos artistas, afobados que estão em decodificá-los e enquadrá-los no domínio mais ou menos seguro de suas experiências pessoais. Tenho a impressão de que no Brasil confundimos os primórdios de um artista com &#8220;vigor juvenil&#8221; e, por outro lado, a indefinição da atualidade com &#8220;cansaço&#8221;, e isto conforme a certeza arrogante de que somos o centro do universo&#8230; Do ponto de vista dos artistas, os esforços de grupos do sudeste em reproduzir ritmos nordestinos ou, de forma semelhante, a tentativa de alguns novos grupos de reproduzir o samba &#8220;tradicional&#8221; (seja lá o que se queira dizer com isso&#8230;) podem até se auto-legitimar através de trabalhos corretos, regulares e bem produzidos, mas jamais esconderão que sua música é produto de um mal-estar, de um desconforto que deseja antes de mais nada recuar, regressar, destruir o futuro e dissolvê-lo em uma interpretação determinada do passado &#8211; que infelizmente não se sabem nem &#8220;intérprete&#8221;, que dirá &#8220;determinado&#8221;&#8230;</p>
<p>O Nação Zumbi sofreu essa desconfiança e de uma forma duplamente cruel. Primeiro, porque rapidamente o grupo foi considerado herdeiro de um movimento que, sem seu herói, não se sustentaria; e mesmo depois de dar provas mais que suficientes de sua força criativa e independência em relação ao mito e à genialidade de Chico Science, o Nação ainda hoje é considerado uma sucursal da experiência dos anos noventas, mesmo que uma audição atenta demonstre exatamente o contrário. Foi pensando assim que, confesso, tive dúvidas quando aceitei o convite de um amigo para assistir o show do grupo na Cantareira, na cidade de Niterói, o primeiro no Rio após a gravação de <em>Rádio S.amb.A.</em>. Qual não foi o meu espanto quando percebi que se materializava no palco um verdadeiro milagre que em uma só e mesma lufada trazia Chico Science à tona, através dos tambores e do hip hop, mas acrescentava um grau de experimentação com ritmos e timbres que até então não se percebia no grupo de forma tão proeminente. Fiquei arrebatado com o lema &#8220;sem medo&#8221; em &#8220;Caranguejo da Praia das Virtudes (Madame Satã)&#8221;, com a mistura de drum&#8217;n'bass e ritmos latinos de &#8220;Los Sebozos Postizos&#8221;, com o arranjo empolgante e arrojado de &#8220;Quando a Maré Encher&#8221;, com o instrumental e a melodia de &#8220;Carimbó&#8221; e, sobretudo, com o tom radicalmente experimental de &#8220;Remédios&#8221;, que atestou definitivamente o retorno do Nação Zumbi. Tanto que fui na semana seguinte em um show no Rio, desta vez na extinta Quinta do Bosque, em Santa Teresa, comprovar a excelência do novo trabalho, de um nível de auto-determinação e criatividade que há tempos não se via na música brasileira como um todo, suplantando até mesmo a eclosão do manguebit da década anterior. Eu mal esperava para ouvir <em>Rádio S.amb.A</em>, fato que se deu algumas semanas depois.</p>
<p>Sim, é possível reconhecer o &#8220;mote&#8221; do Dr. Charles Zambohead, através do som grave dos tambores e da levada hip hop&#8230; Mas os cinquenta e dois minutos de <em>Rádio S.amb.A</em> não só correspondiam à impressão geral dos shows como também traziam novas faixas, tão surpreendentes quanto as primeiras. O hardcore &#8220;Brasília&#8221;, o hip hop cubista &#8220;Zumbi X Zulu&#8221; (com os vocais de Afrika Bambaata) e a lindíssima &#8220;João Galafuz&#8221;, que conta com a voz de Lia de Itamaracá, figuram ao lado de faixas e vinhetas instrumentais construídas com uma sonoridade madura, mas ao mesmo tempo urgente e profundamente enérgica. As letras também demonstravam o vigor do novo Nação Zumbi, pois ao mesmo tempo que as composições se diferenciavam consideravelmente das criadas por Science, prescindiam também do padrão de livre associação marcadamente tropicalista que os diluidores do tropicalismo timbraram em oficializar na música da década de 00. Trata-se, pois, de uma <em>avis rara</em> na música brasileira da época em todos os termos: uma banda sobrevivente que passou por maus bocados não só se recupera como também ousa absurdamente a transgredir os padrões de arranjo e composição, tanto do ponto de vista musical como também em relação às letras. E para quem se lembra de Asian Dub Foundaton, Café Tacuba, Manu Chao e outros artistas da &#8220;periferia&#8221; que obtiveram algum sucesso graças a histeria multicultural que marcou a rebordosa do discurso neoliberal, vale dizer que dentre todas essas bandas o Nação Zumbi é a mais expressiva, além de ser a mais regular e produtiva.</p>
<p>Mesmo um certo desequilíbrio em relação ao número de faixas e alguns excessos de arranjo são característicos de uma efusão criativa desta natureza, que considera o máximo de idéias porque quer valorizar todas elas, sem titubeios nem dúvidas. Um <em>ethos</em> de pura afirmação, como foram os álbuns dos Mutantes, dos Novos Baianos, do Patife Band e do Sepultura, as quatro bandas precursoras do espírito desbravador do Nação Zumbi. Os discos seguintes só vieram pavimentar o campo extremamente fértil e desconcatenado legado por <em>Rádio S.amb.A</em> e desde então o Nação não cessou de surpreender seus fãs, para o bem e para o mal. Positivamente pela qualidade irretocável de seus shows e álbuns. Mas negativamente quando, em coro com um irreconhecível Fred 04, invocam o discurso liberal para defender a indústria contra a internet e a troca de informação. Uma atitude às antípodas do significado profundo de <em>Rádio S.Amb.A</em>, qual seja: a superação na diferença, a busca pela diferença às custas até mesmo do próprio passado. Com sua mistura particular de Public Enemy, ritmos e sonoridades consideradas preconceituosamente enquanto &#8220;regionais&#8221;, procedimentos do dub, da música eletrônica e de muitas vertentes do rock, <em>Rádio S.Amb.A </em>é sem sombra de dúvida o melhor álbum realizado no Brasil nesta década. (Bernardo Oliveira)</p>
<p>* # *</p>
<p>Lá se vão dez anos e a constatação é dura mas inevitável: nesse período não houve disco melhor que <em>Rádio S.Amb.A</em>. O julgamento pra mim é óbvio, banal, mas acho que só o será pra nós da Camarilha. De resto, todo mundo vai afirmar que a década foi do Los Hermanos e, na dúvida, colocar o segundo e o terceiro no topo da lista. Quanto a mim, não tenho dúvidas – a banda brasileira dos anos 90 é Chico Science &amp; Nação Zumbi e a banda brasileira dos anos 00 é Nação Zumbi. Impressionante como mantiveram a consistência durante todos esses anos, se recuperaram do baque que foi a perda de Chico Science num acidente de automóvel e não só seguiram nobremente na carreira, mas também evoluíram seu som para além do que já tinham feito nos primeiros discos. Aliás, foram mais longe que isso, porque a trajetória natural da banda brasileira decadente (em termos artísticos; em termos de popularidade é quase sempre isso, decadência ou não) é tentar fazer músicas iguais aos hits anteriores. De <em>Rádio S.Amb.A.</em> em diante, basta constatar: nenhuma tentativa de refazer um &#8220;Maracatu Atômico&#8221;, um &#8220;Macô&#8221;, um &#8220;A Praieira&#8221;, aquelas músicas que fazem patricinha dançar em festinha de música brasileira (sabe, né?). O que não quer dizer que o artesanato da canção tenha se perdido: &#8220;Arrancando as Tripas&#8221;, &#8220;Meu Maracatu Pesa uma Tonelada&#8221; e &#8220;Blunt of Judah&#8221; são canções perfeitas. Simplesmente, eles quiseram expandir seus interesses para outras estruturas, outros modos de fazer música que, mesmo relacionados, não se fechassem no modelo da canção. <em>Rádio S.Amb.A.</em>, o disco (re)inaugural, o disco com mais cara de manifesto, é também aquele que vai mais longe dentro da carreira do grupo, recompensando toda a ousadia da busca com a grandeza das descobertas.</p>
<p><em>Rádio S.Amb.A. </em>é um disco artisticamente ambicioso, e além disso tem todo um look de disco querendo impulsionar a carreira do grupo para o mercado estrangeiro: nomes novos para os integrantes, versos em inglês em &#8220;Lo-Fi Dream&#8221;, participação de dois membros do Tortoise na mesma faixa, além de Afrika Bambaataa em &#8220;Zumbi X Zulu&#8221;. Presumivelmente, o desejo de inserção no mercado internacional era grande; um estouro, se não fenomenal, ao nível de um CSS, ao menos. Se sim, é o único fracasso atribuível ao disco. Porque, fora isso, é de cabo a rabo um disco coeso, extremamente fluente na alternância de faixas soltas com outras de maior pegada, e também um incrível trabalho de produção, deles próprios, que fez o som do grupo soar como um carro blindado de tão compacto e orgânico. Destaco, nesse quesito, o trabalho feito com os tambores, jogando-os para registros de grave que por vezes fazem com que eles assumam um teor quase textural – enchendo sobremaneira o som – e jogando a bateria no sentido oposto, levando ela para os registros mais agudos, secos, bem separados na mixagem, criando uma enorme tensão percussiva. Além de uma pegada soberba.</p>
<p>Na época, ouvir Rádio S.Amb.A era, mesmo sem querer, avaliar a Nação Zumbi para saber se ela tinha moral e cacife para sobreviver à morte de seu porta-voz e cantor. Hoje, quase dez anos passados, é impossível não reparar o descompasso: a Nação Zumbi não tinha a menor preocupação em reiterar sua legião de fãs da legitimidade em continuar. Rádio S.Amb.A é o grupo desfilando com autoridade de rei da avenida, começando o disco com três faixas sem refrão, declamando &#8220;Sem Medo!&#8221; e soltando petardo atrás de petardo. Das versões robustas de &#8220;Quando a Maré Encher&#8221; (Eddie) e &#8220;Jornal da Morte&#8221; (Miguel Gustavo/Roberto Silva) ao comovente dueto de Lia de Itamaracá com Jorge du Peixe em &#8220;João Galafuz&#8221;, da possante evocação <em>breakbeat</em> de rituais indígenas/africanos de Toca Ogan em &#8220;Remédios&#8221; ao swing do pregnante refrão de &#8220;Arrancando as Tripas&#8221;, das influências jamaicanas de &#8220;Na Balada do Rio Salgado&#8221; ao hardcore infeccioso de &#8220;Antromangue/Brasília&#8221;, com a sugestiva e lírica frase &#8220;Estamos na América do Sul e um vento forte sopra em meu rosto&#8221;, o disco é cheio de momentos de grande brilho que mereceriam, cada, análise aprofundada. Como não é o caso aqui, faremos isso apenas com uma: &#8220;O Carimbó&#8221;.</p>
<p>&#8220;O Carimbó&#8221; começa com uma batida pujante típica da Nação Zumbi, com as alfaias marcando os segundos tempos com dois ataques e a caixa da bateria marcando o tempo forte. Aos 25s, entra o fator mais importante da composição, uma melodia de guitarra dedilhada de Lúcio Maia com pedal <em>tremolo </em>relativamente discreto – só depois perceberemos que a melodia no começo omite algumas notas da melodia &#8220;completa&#8221;. Só aos 37s a sessão rítmica se completa, com a entrada de um baixo relativamente proeminente para o NZ. Por volta de 1min começa o vocal de Jorge du Peixe, e a letra se estrutura no modelo estrofe-refrão. Mas a música se mantém praticamente inalterada na passagem de um a outro, apenas com alguma ênfase maior de guitarra e um discreto efeito sintetizado. O que em seguida percebemos em seguida é a guitarra de Lúcio Maia começar a tecer variações dentro da melodia, pouco interessada em &#8220;acompanhamento&#8221;, e sim em improvisar dentro do tema, ancorada apenas pela sessão rítmica. A guitarra vai continuando solta até 3min50, quando ela a melodia do verso final do refrão, e em seguida a faixa entra num clímax, com a guitarra explodindo em efeitos. No meio disso, há duas quebras percussivas, misturando eletrônica e percussão (iguais ou quase, após cada refrão), e um ligeiro bridge batuqueiro preparando a mudança harmônica do final da faixa, que fica incisiva, quase épica, até desaguar em &#8220;Coco Assassins&#8221;, algo como uma continuação dentro da mesma faixa. O que fica guardado na cabeça, sem dúvida, é o swing da dinâmica operada entre a sessão rítmica e os dedilhados de guitarra de Maia, uma percussão nervosa com uma guitarra relaxada que parece mover-se em câmera lenta, e constroem uma tensão que equivale a unir <em>breakbeat </em>e surf music (evocada pelo <em>tremolo</em>) com ritmos do nordeste do Brasil.</p>
<p>No último show que eu vi deles – uma das melhores bandas ao vivo do mundo, diga-se –, a Nação Zumbi tocou &#8220;O Carimbó&#8221; no bis, com direito, claro, a Lúcio Maia saindo do esquadro e voltando a ele, da forma brilhante de sempre. O fato de não ser um grande hit e mesmo assim estar no bis é prova do carinho da banda por sua cria. Pobres das viuvinhas de Chico, que gostariam que os shows da NZ fossem um mausoléu com pompas fúnebres. Mas arte é movimento, e o gênio criativo adora testar coisas novas. Sem medo, a Nação Zumbi vem por quinze anos entrando na moda e saindo da moda, mas criando discos originais que fazem dela, desde a aparição de &#8220;A Cidade&#8221; até os dias de hoje, a banda de rock mais importante do Brasil. (Ruy Gardnier)</p>
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		<title>Camarilha Podcast #16</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 04:24:59 +0000</pubDate>
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Playlist:
1. Liars &#8220;Scissor&#8221; (Sisterworld [a ser lançado], Mute, 2010, EUA)
2. Dirty Projectors &#8220;When the World Comes To an End/Wittenberg III (Live Jimmy Fallon 28/9/09)&#8221; (Mount Wittenberg Orca EP [a ser lançado], Domino (?), 2010, EUA)
3. Amerie &#8220;Dangerous&#8221; (In Love &#38; War, Def Jam, 2009, EUA)
4. Clipse &#8220;Kinda Like a Big Deal&#8221; (Til the Casket Drops, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2923&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/noneckbluesband.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2926" title="NoNeck+Blues+Band" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/noneckbluesband.jpg?w=471&#038;h=301" alt="" width="471" height="301" /></a></p>
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<p>Playlist:<br />
1. Liars &#8220;Scissor&#8221; (<em>Sisterworld </em>[a ser lançado], Mute, 2010, EUA)<br />
2. Dirty Projectors &#8220;When the World Comes To an End/Wittenberg III (Live Jimmy Fallon 28/9/09)&#8221; (<em>Mount Wittenberg Orca EP </em>[a ser lançado], Domino (?), 2010, EUA)<br />
3. Amerie &#8220;Dangerous&#8221; (<em>In Love &amp; War</em>, Def Jam, 2009, EUA)<br />
4. Clipse &#8220;Kinda Like a Big Deal&#8221; (<em>Til the Casket Drops</em>, Columbia, 2009, EUA)<br />
5. Demdike Stare &#8220;Haxan Dub&#8221; (<em>Symbiosis</em>, Modern Love, 2009, Reino Unido)<br />
6. Blue Daisy &#8220;Shallow Vicinity&#8221; (<em>Strings Detached EP</em>, Black Acre, 2009, Reino Unido)<br />
7. Portishead &#8220;Chase the Tear&#8221; (single digital, s/g, 2009, Reino Unido)<br />
8. Nação Zumbi &#8220;O Caranguejo da Praia das Virtudes (Madame Satã)&#8221; (<em>Rádio S.Amb.A.</em>, YBrasil, 2000, Brasil)<br />
9. Pelt &#8220;Subversion of a Cat&#8217;s Eye&#8221; (<em>Brown Cyclopaedia</em>, Radioactive Rat/VHF, 1995, EUA)<br />
10. The Residents &#8220;Charlie Chan&#8221; (<em>The Ughs</em>, MVD Audio, 2009, EUA)<br />
11. No-Neck Blues Band &#8220;HRMNY 5 (A Tabu 3)&#8221; (<em>At 6AM We Become the Police</em>, Locust, 2009, EUA)<br />
12. Limescale &#8220;The Army Stuffing Its Drum&#8221; (<em>Limescale</em>, Incus, 2003, Reino Unido)<br />
13. G.R.E.S. Unidos de Vila-Isabel &#8220;Noel, a Presença do &#8216;Poeta da Vila&#8217;&#8221; (<em>Sambas de Enredo 2010 &#8211; Ao Vivo</em>, LIESA/GravaSamba, 2009, Brasil)</p>
  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/camarilhadosquatro.wordpress.com/2923/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2923&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Karlheinz Stockhausen &#8211; &#8220;Gesang Der Jünglinge&#8221; (1991 [1955-56], Stockhausen-Verlag, Alemanha)</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Dec 2009 21:49:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bernardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[eletrônica]]></category>
		<category><![CDATA[experimental]]></category>
		<category><![CDATA[vanguarda]]></category>
		<category><![CDATA[Gesang der Jünglinge]]></category>
		<category><![CDATA[Karlheinz Stockhausen]]></category>
		<category><![CDATA[Werner Meyer-Eppler]]></category>

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		<description><![CDATA[
&#8220;A terra não é nada mais que uma partícula de sabedoria intuitiva que deve deslocar-se pelas vias do infinito.&#8221;
Kazimir Maliévitch
Ao longo dos quase dois anos de Camarilha, alguns leitores já puderam observar a frequência um tanto exagerada com que utilizamos termos como timbre, dinâmica, duração, velocidade, repetição, termos que, à primeira vista, distinguem a percepção [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2883&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/stockhausen-21.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2892" title="Stockhausen-2" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/stockhausen-21.jpg?w=512&#038;h=346" alt="" width="512" height="346" /></a><br />
<em>&#8220;A terra não é nada mais que uma partícula de sabedoria intuitiva que deve deslocar-se pelas vias do infinito.&#8221;</em><br />
Kazimir Maliévitch</p>
<p>Ao longo dos quase dois anos de Camarilha, alguns leitores já puderam observar a frequência um tanto exagerada com que utilizamos termos como timbre, dinâmica, duração, velocidade, repetição, termos que, à primeira vista, distinguem a percepção e a fruição em relação ao discurso musical tradicional. Ossos do ofício. Muitas vezes os únicos disponíveis para representar uma gama de sonoridades absolutamente nova, tais termos constituem meios tão práticos como insuficientes para dar conta da emergência de exemplares que tensionam consideravelmente o campo de probabilidade com que os sons são produzido e culturalmente recebidos. Durante o século XX, a descentralização do tríptico harmonia-melodia-ritmo formalizada através do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Total_serialism">serialismo</a> de Schoënberg e da Escola de Viena, em realidade capitalizava uma série de iniciativas que desde meados do século XIX puseram em marcha não só o alargamento do espectro de elementos musicais mas também, e ao mesmo tempo, a assimilação contumaz de pesquisas e interesses provenientes da matemática, da eletroacústica, da arquitetura, das artes plásticas e de outras tantas esferas. Este fenômeno pode ser lido de inúmeras maneiras, embora tenha adquirido uma interpretação mais ou menos célebre na &#8220;Filosofia da Nova Música&#8221; de Adorno, qual seja: em oposição à docilidade complacente e vazia das fórmulas musicais da cultura de massas, Schoënberg teria investido em um discurso musical propositadamente complexo, construído mais sobre os elementos elencados no início do texto (duração, timbre, dinâmica&#8230;) do que propriamente pelo vocabulário tonal tradicional, na interpretação de Adorno, precariamente assimilado pelo jazz e adjacentes. Malgrado outra interpretação propusesse uma perspectiva menos reacionária, ainda assim não esgotaria o diagnóstico preciso de Adorno, qual seja, o de uma crise incontornável da música tonal e do aspecto de aventura e heroísmo que sua superação implicava. Não é minha intenção aqui problematizar esta questão a fundo, mas observar que mediante esta crise, a música de fato correu em direção a elementos musicais outrora negligenciados ou simplesmente ignorados; e mesmo em relação a &#8220;cultura de massas&#8221; esta crise se colocou de forma contundente, percepção que relativiza severamente o argumento de Adorno.</p>
<p>Compositores de procedências e interesses diversos podem ser responsabilizados pelo conjunto de atitudes, técnicas e discursos que desestabilizaram o quadro tradicional, mas nenhum deles tem sua importância diariamente comprovada como <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Karlheinz_Stockhausen">Karlheinz Stockhausen</a> (Mödrath, 22 de Agosto de 1928 — Kuerten, 5 de Dezembro de 2007), cuja vida de experimentação e criação radicais repercute ainda de forma decisiva sobre a música contemporânea &#8211; embora se deva notar que isto ocorre de uma forma bem diversa da que ele talvez desejasse. Schoenberg e Webern são, sim, fundamentais neste processo, mas a música de Stockhausen é não só catalisadora de muitas das aspirações da Escola de Viena e da <em>musique concrète</em>, como também se caracteriza por uma certa alienação, uma distância que o permitiu construir um mundo à parte. Preocupado com a individuação e a natureza do som (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=pIPVc2Jvd0w&amp;feature=related">&#8220;a sound is not just a sound&#8230;&#8221;</a>), Stockhausen optou por levar o serialismo às últimas consequências, relativizando todos os elementos comuns ao som, especialmente aquele que ele compreendia ser sua característica determinante, o timbre. Trabalhou não somente com &#8220;música&#8221;, considerada como uma quantidade determinada e organizada de sons, mas também desenvolveu técnicas de experimentação acústica e de exploração do espaço, da música aleatória e de alteração eletrônica de sons pré-gravados. Daí seus interesses em acústica experimental e física, que o levou a frequentar as aulas de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Werner_Meyer-Eppler">Werner Meyer-Eppler</a> e a encetar um pioneiro, profundo e sistemático trabalho com sintetizadores, manipulação de <a href="http://es.wikipedia.org/wiki/Onda_senoidal">ondas senoidais</a>, ajustes estereofônicos e com diversos apetrechos eletrônicos. Suas experiências abriram perspectiva para a música estocástica de Iannis Xenakis e, sobretudo, para a música &#8220;popular&#8221; ou &#8220;de massas&#8221;, aquela mesma enxovalhada por Adorno em seu escrito célebre. A profusão de estilos musicais ligados à eletrônica, mas também certas formas de concepção musical, devem sua popularização às pesquisas de Stockhausen, embora não de uma forma óbvia e direta.</p>
<p>Criada entre 54 e 56, <a href="http://www.medienkunstnetz.de/works/gesang-der-juenglinge/audio/1/">&#8220;Gesang der Jünglinge&#8221;</a> é talvez a primeira grande obra nascida desse contexto, responsável por introduzir a música mundial em outro mundo, obscuro e alienígena. Composta para fita magnética e cinco autofalantes, foi primeiramente recusada pelo inconveniente de obrigar o transporte a uma igreja de caixas adequadas para sua emissão. Católico inveterado, Stockhausen então a transformou em uma obra religiosa não-litúrgica. Algumas características determinam seu pioneirismo. Em primeiro lugar, a idéia: fundir e combinar o som da voz humana com sons gerados eletronicamente, lançando mão da tecnologia e das técnicas então disponíveis. A composição é basicamente constituída pela alteração da voz de um menino soprano, sintetizada aos sons eletrônicos. Os estudos de fonética e a análise espectral levaram o autor a considerar a relação entre a pronúncia de certas vogais, que quando cantadas adquirem um aspecto &#8220;puro&#8221;, melódico por assim dizer, enquanto algumas consoantes se exprimem como ruídos. Alterando o espectro de ondas senoidais, conseguiu criar uma linha contínua que permitia a manipulação de todas as articulações pronunciadas pela voz do menino. Uma vez criada a linha contínua, o compositor extraiu os elementos básicos e daí, grupos de elementos para utilizar na composição. Os versos entoados pelo menino foram escolhidos no sentido de privilegiar as vogais e consoantes que ressaltassem as permutações de sonoridades puras e ruídos gerados eletronicamente, mantendo o máximo de controle sobre timbres vocais. Nesse sentido, é a primeira ocorrência do &#8220;serialismo total&#8221; desenvolvido por Stockhausen, no qual se emancipam as séries e se prevê inclusive a possibilidade de criar padrões de manipulação do pitch, da duração e do volume, incorporando-os à composição. Para tal, Stockhausen relatou a utilização de seis tipos de escala, harmônica, sub-harmônica, cromática e outras três provenientes das primeiras, todas indicadas na &#8220;partitura&#8221; que, segundo consta, se distribui em diversos manuscritos, cada qual com suas indicações específicas. À esta altura, cabe perguntar pelo resultado de um procedimento tão intrincado e &#8220;carregado&#8221; de problemas internos, para os quais nem todos os diletantes estão plenamente preparados, grupo no qual me incluo. Excetuando toda a problemática erncarnada na obra, qual o estatuto de &#8220;Gesang der Jünglinge&#8221; de um ponto de vista estritamente fruitivo?</p>
<p>O resultado é um obra, repito, alienígena, sem lugar nem seguidores, que a despeito de seu profundo paradoxo (isto é, o caráter religioso e extremamente racional) se afirma com força e contundência ímpares no cenário musical do século XX. É bem verdade que &#8220;Kontakte&#8221;, de 1958-60, parece uma obra mais madura e vigorosa em relação a &#8220;Gesang&#8230;&#8221;, mas por outro lado não possui o brilho selvagem e estranhamente &#8220;científico&#8221; que marca esta compoisição. &#8220;Gesang&#8230;&#8221; contém de forma mais concentrada, e por isso mais interessante, os novíssimos procedimentos desenvolvidos pelo autor em níveis e expressões bastante diversificadas, seja do ponto de vista da utilização dos efeitos estereofônicos, seja do ponto de vista da alteração eletrônica das vozes, e sobretudo, do ponto de vista da composição, alternando silêncios e estranhas emulações até de instrumentos &#8220;reais&#8221;, além de guizos, &#8220;farfalhares&#8221;  e ruídos em geral. As combinação das &#8220;vozes&#8221;, assim como as inúmeras reviravoltas de humor e sons estranhos que caracterizam a composição, integram um painel intrigante e fantasmagórico. Da explosão inicial, seguida pelas &#8220;flautas&#8221; e vozes com efeitos, até seu final sombrio, &#8220;Gesang&#8230;&#8221; transpira vivacidade e transporta o ouvinte a uma dimensão sonora por si só surpreendente, dado o ineditismo da técnica de composição e dos timbres. Reside aí seu mérito maior, o que me fascina particularmente: é uma obra demiúrgica que além de introduzir novas sonoridades e formas de conceber música, ensina uma pedagogia da audição, uma nova forma de se compreender e fazer música. Felizmente este aspecto superficial, cujo mal-entendido torna &#8220;democrático&#8221; o pensamento de Stockhausen, estimulou entretanto uma influência real, uma necessidade de desbravar outras possibilidades de composição, apropriação e organização do som, além de alçar o problema da escuta a uma outra dimensão. De Miles Davis a Radiohead e Björk, muitos foram os que alegaram sua influência. Mas é de se notar que apesar de vigorar fortemente a idéia de que o fantasma de Stockhausen paira sobre nós, a audição de &#8220;Gesang&#8230;&#8221; acaba por dizer o contrário: que Stockhausen é único! Sua influência se dá mais em termos de um espírito de renovação, ainda que reinterpretado à luz da cultura de massas e, nos dias de hoje, das pistas de dança, da retomada do krautrock, da ambient e de rótulos contemporâneos como &#8220;modern classical&#8221;. (Bernardo Oliveira)</p>
<p>Links sobre Stockhausen:<br />
- <a href="http://www.youtube.com/watch?v=mrzi4YNhvig"><strong>Stockhausen</strong> Interview</a><br />
- <a href="http://www.youtube.com/watch?v=pIPVc2Jvd0w&amp;feature=related"><strong>Stockhausen</strong> on &#8217;sounds&#8217;, 1972 </a><br />
- <a href="http://www.youtube.com/watch?v=nTeLI5dUzKw&amp;feature=related"><strong>Stockhausen</strong> on Human evolution – 1972</a><br />
- <a href="http://www.youtube.com/watch?v=jBBY7B3gerk&amp;feature=related"><strong>Stockhausen</strong> on &#8220;Helicopter String Quartet&#8221;</a><br />
- <a href="http://www.youtube.com/watch?v=13D1YY_BvWU&amp;feature=related">Helicopter String Quartet</a><br />
- Klavierstuck VI. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=5X6KFC9eJyA">Parte1</a>. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=FDbwoKQkfRU">Parte2</a>.<a href="http://www.youtube.com/watch?v=TOppC7aWlDA"> Parte3</a><br />
- Klavierstucken <a href="http://www.youtube.com/watch?v=nEADqROcioE">VII, VIII </a><br />
- Klavierstuck XI. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=RhsvKEjxy7c">Parte1</a>. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=QtEQzI0ilTg">Parte2</a><br />
- Klavierstuck XIII. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=uylxuexFOPY">Parte1</a>. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=SxQST9j2OlU">Parte2</a>. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=n9MsR_hzizY">Parte3</a>. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=NQ_w4kdPcT4">Parte4</a><br />
- Página de Stockhausen na Univ. de Columbia (com artigo de John Smalley) &#8211; <a href="http://www.music.columbia.edu/masterpieces/notes/stockhausen/index.html">http://www.music.columbia.edu/masterpieces/notes/stockhausen/index.html</a></p>
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		<item>
		<title>Radiohead &#8211; Kid A (2000; Parlophone/EMI, Reino Unido)</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Dec 2009 05:17:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bernardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[eletrônica]]></category>
		<category><![CDATA[experimental]]></category>
		<category><![CDATA[rock]]></category>
		<category><![CDATA[Kid A]]></category>
		<category><![CDATA[Radiohead]]></category>
		<category><![CDATA[Thom Yorke]]></category>

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		<description><![CDATA[
Formado por Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O&#8217;Brien, Colin Greenwood e Phil Selway, o Radiohead foi fundado em 1985 em Abingdon, Oxfordshire. &#8220;Creep&#8221;, o primeiro single, saiu em 1992, mas obteve êxito somente em 1993 com o lançamento do primeiro álbum, Pablo Honey. Seguiram-se The Bends e Ok Computer, este último responsável por conquistar crítica [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2866&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/radiohead-kid-a.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2867" title="radiohead-kid-a" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/radiohead-kid-a.jpg?w=305&#038;h=302" alt="" width="305" height="302" /></a></p>
<p>Formado por Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O&#8217;Brien, Colin Greenwood e Phil Selway, o Radiohead foi fundado em 1985 em Abingdon, Oxfordshire. &#8220;Creep&#8221;, o primeiro single, saiu em 1992, mas obteve êxito somente em 1993 com o lançamento do primeiro álbum, <em>Pablo Honey</em>. Seguiram-se <em>The Bends</em> e <em>Ok Computer</em>, este último responsável por conquistar crítica e público no mundo inteiro e colocar o Radiohead nas listas de melhores da década. A mudança de orientação musical distingue o lançamento do binômio <em>Kid A</em> e <em>Amnesiac</em>, ambos marcados por forte influência do IDM, do krautrock, do jazz e da música experimental do século XX. Os álbuns seguintes, <em>Hail to the Thief</em> e <em>In Rainbows</em>, conferiram ao Radiohead a posição de maior grupo experimental da atualidade. Um novo álbum está previsto para 2010, e duas faixas foram lançadas esse ano: &#8220;Harry Patch (In Memory Of)&#8221; e &#8220;These Are My Twisted Words&#8221;. (B.0.)</p>
<p>* # *</p>
<p>1. Se considerarmos a obra do Radiohead como um processo de transformação gradual, que parte de um esforço devotado a relativizar o indie rock em direção a uma abertura incondicional à experimentação, seremos compelidos a admitir o caráter de projeto que habita a obra do grupo. Por outro lado, me pergunto se esta explicação não encerra um determinismo rígido demais, se não comprime o processo à forceps para fins de explicação e decodificação. No mesmo estilo da pergunta: o que teria conduzido os Beatles das canções adolescentes ao &#8220;A day in the life&#8221;? Pergunta inglória, que acaba por apagar os esforços individuais para dissolvê-los no &#8220;espírito da época&#8221;&#8230;</p>
<p>2. Mas por que diabos deveríamos criar explicações se hoje aquele Radiohead de 1994 se encontra morto e sepultado, pelo menos para quem está em busca do &#8220;algo mais&#8221; que o grupo apresentou depois de <em>Ok Computer</em>. O hábito de se separar uma obra em fases, obra esta unificada sob um nome ou uma identidade, denota uma dificuldade comum em decodificar (e, em última instância, aceitar) a diferença radical que põe a unidade estável da identidade em crise. Assim, muitas vezes me flagro escavando nas fracas canções de <em>The Bends</em> e <em>Pablo Honey</em> o Radiohead que tanto me apraz de <em>Hail to the Thief</em>, <em>In Rainbows</em>, deste <em>Kid A</em> e seu álbum-gêmeo, <em>Amnesiac</em>. Claro que nunca encontro algo que ao menos insinue a possibilidade de uma virada tão radical. Para alguns, esta reviravolta começa no profundo lirismo de <em>Ok Computer</em>, mas na minha opinião e na de muitos outros ela começa em <em>Kid A</em>. É precisamente aqui que a identidade roqueira explode e se move&#8230;</p>
<p>3. A comparação com a reviravolta dos Beatles não favorece pois a compreensão do fenômeno. Não se trata exatamente de uma reviravolta, ao que tudo indica. Mas de uma evolução musical pautada pelo gosto contumaz pela música, uma evolução melômana, com todos os atributos e cacoetes dos amantes de música, CDFs na arte de compilar, armazenar, listar e fruir todo e qualquer discurso musical. Lennon e sua turma eram artistas do século XX e, portanto, pertencentes ainda ao séc XIX, carregando como correntes os conceitos de gênio, autenticidade, labor, etc. Agiram como artistas plásticos que por obra de um gesto estético reelaboram toda uma gama de conceitos e valores. Expandiram os elementos e influências de sua música como um procedimento liberador, agarrados que estavam ao tronco mais ou menos seguro do blues e do rock&#8217;n'roll. Yorke e seus amigos já não carregam tanto o século XIX, mas o século XX, manifestando em alguns aspectos as idéias de vanguarda, repetição, acaso e, mais especificamente, a de colagem. Na medida em que pode ser compreendido como um elemento precursor da cultura do cut-and-paste, cultura eminentemente contemporânea, a colagem de fontes diversas desenraizou o Radiohead da condição de indie group ou mesmo de &#8220;rock group&#8221;. Expandiram os elementos e influências de sua música por obra de uma percepção e um gosto multifacetados por definição, do tipo que caracteriza a fruição e a produção musical contemporâneas.</p>
<p>4. Não há um elemento sequer em <em>Kid A</em> que remeta aos álbuns anteriores. Talvez &#8220;Motion Picture Soundtrack&#8221; e, sobretudo, &#8220;How to Disappear Completely&#8221;, mas ainda assim a roupagem orquestral influenciada por <a title="Krzysztof Penderecki" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Krzysztof_Penderecki">Krzysztof Penderecki</a>, aliada à utilização de um <a id="uoa4" title="ondes martenot" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Ondes_Martenot">Ondes Martenot</a> executado por Jonny Greenwood, resultam em dissonâncias perfeitamente afinadas com o tom experimental com que as faixas foram elaboradas. Se não, vejamos: o disco abre com &#8220;Everything in its Right Place&#8221; uma bela balada com forte influência techno, repleta de teclados e efeitos. Para um fã radical deve ter sido certamente um golpe duro, mas ele ainda não sabia que no auge de sua perplexidade eclodirá a primeira grande faixa do disco: &#8220;Kid A&#8221; já indica a filiação espantosamente madura ao IDM, graças à manipulação prodigiosa das baterias eletrônicas e dos efeitos. &#8220;The National Anthem&#8221; é uma das faixas mais intrigantes do disco, com sua cama espirrada de sopros e, particularmente, aquela sequência rítmica executada pelo sax barítono que antecede a balbúrdia <em>free</em>. &#8220;Treefingers&#8221; denuncia que, tal como o Geoff Barrow de <em>Third</em>, o grupo andou ouvindo muito o krautrock contemplativo do Cluster e do Harmonia. Com versos irônicos mais luminosos (&#8220;If you try the best you can, the best you can is good enough&#8221;), &#8220;Optmistic&#8221; abre o lado B destilando um rock simultaneamente lírico, timbrístico e enérgico, pontuado pela guitarra estridente de Ed O&#8217;Brien. Seguem outras faixas admiráveis: o folk-rock inspirado de &#8220;In Limbo&#8221; e &#8220;The Morning Bell&#8221;, com sua batida post-rock, seu teclado muzak e, mais uma vez, a interpretação primorosa de Thom Yorke. Mas nenhuma delas se compara a &#8220;Idioteque&#8221;, uma das faixas mais belas e inacreditáveis da década.</p>
<p>5. &#8220;Idioteque&#8221; sempre me pareceu uma anomalia musical de primeira ordem. Assim como foi musicalmente estranho e surpreendente quando o Anthrax se juntou ao Public Enemy para criar &#8220;Bring the Noise&#8221; ou mesmo o single &#8220;I&#8217;m the man&#8221;, assim recebi &#8220;Idioteque&#8221;. Não que ela represente uma mudança de perspectiva que atingiria o rock como um todo, como foi com o Anthrax e o Public Enemy, mas poucos eventos foram tão estranhos quanto o investimento do grupo em mesclar <em>indie</em> com <em>miami</em>, guitarras e eletrônicos. Claro que àquela altura estas misturas já haviam sido experimentadas, mas o fato é que a letra abstrata de &#8220;Idioteque&#8221; carrega uma emoção tão contundente, emolurada por aquela batida festeira e agitada, que fica difícil encontrar um exemplar à altura de seu poder de síntese, apelo pop e, ao mesmo tempo, estranhamento. É a retorção do passado no futuro, é o resultado mais coerente e poderoso decorrente do fato que explanei acima: o Radiohead se tornou das maiores bandas do planeta graças a ausência total de compromissos com o gênero. Ao contrário do que pensa Colin Greenwood, <a id="qb.2" title="nesta entrevista" href="http://www.nigelgodrich.com/press5.htm">nesta entrevista</a>.</p>
<p>6. Se privilegio o ponto de ruptura ao mesmo tempo em que desvalorizo uma perspectiva projetual, é porque só posso crer que a melhor forma de compreender o trabalho do Radiohead é entendendo-o como expressão de uma união específica de indivíduos que, tal como tantas grandes bandas, convergiram esforços em favor de uma expressão comum. Nem rupturas, nem projetos, apenas a duração da vida e a capacidade criativa destruindo e contruindo sem cessar: esta talvez seja uma característica fundamental na música produzida na década, isto é, um privilégio maior da criação livre e descompromissada com a indústria e o gosto popular. Assim sendo, só posso considerar <em>Kid A</em> à luz de <em>Amnesiac</em>, dado que ambos nasceram das mesmas motivações e das mesmas sessões. Neste sentido, mesmo levando em consideração minha preferência por <em>Hail to the Thief</em>, devo sublinhar que <em>Kid A</em> é o álbum que melhor representa as correções de rumo adotadas pelo grupo. Motivo suficiente para o elegermos como um dos discos mais fortes e consistentes de uma das bandas mais fortes e consistentes da década. (Bernardo Oliveira)</p>
<p>* # *</p>
<p>O essencial seria discutir a obra pelo que ela apresenta e menos pelas circunstâncias que a circundam. No caso de <em>Kid A</em>, no entanto, isso nunca foi muito possível. Na época de seu lançamento, a discussão em torno da música ficava em segundo plano diante da polêmica entre fãs desapontados com o rumo &#8220;não-rock&#8221; tomado pelo grupo e os fãs que decidiram, um pouco de pé atrás, acompanhar o grupo em sua aventura sonora (os não-fãs que viraram fãs, como eu, acho que são muito poucos para computar como um terceiro elemento). Hoje, quase dez anos depois, <em>Kid A </em>assume a função de disco-farol e disco nº1 da década, graças à influente revista eletrônica Pitchfork, algo que novamente joga o contexto da discussão para algo circunstancial – posicionar-se diante do posto que o disco ocupa. Detestaria ficar gastando verbo sobre a Pitchfork num espaço que deve ser do Radiohead, mas talvez caiba a reflexão – ainda mais se lembrarmos de que <em>Low </em>do Bowie ficou em 1º lugar na lista dos anos 70 – de que eles se deixam maravilhar sobremaneira por &#8220;discos de virada&#8221; de artistas do mainstream que começam a flertar com o que está sendo feito na vanguarda, mas curiosamente não se importam muito com a própria vanguarda. Posso até achar <em>Low </em>um discaço, mas pra mim não entraria numa lista de melhores de três nem da própria obra de Bowie na década de 70. <em>Kid A </em>é igualmente um discaço: propositivo, ousado na fragmentação de propostas que sugere, minuciosamente pensado em seu conceito e construído musicalmente com sensibilidade e momentos de gênio. Mas, como <em>Low </em>com Bowie, não é meu disco do Radiohead nessa década (aliás, a única década em que o Radiohead conta, pra mim). O que começa com <em>Kid A </em>e seu gêmeo <em>Amnesiac </em>só aflora totalmente em <em>Hail To the Thief</em>. Mas aí já é outra história. Esse texto é sobre <em>Kid A</em>.</p>
<p>Confesso que a primeira audição me surpreendeu. O Radiohead vinha de um disco que todo mundo menos eu parecia amar (<em>OK Computer </em>foi provavelmente, aliás, o disco que eu mais ouvi tentando gostar na vida), e agora abraçava sons que só eu parecia amar – Aphex Twin, Autechre, Oval, Microstoria etc., mas dentro de um contexto de rock. Em todo caso, essa estética eletrônica/fragmentada está lá desde o princípio, e com pompa: &#8220;Everything in Its Right Place&#8221; e &#8220;Kid A&#8221; abrem o disco soando de maneira inteiramente distinta, a primeira com fragmentação vocal e clicks &amp; cuts nada comuns à época, e a segunda com uma bateria pra adular fã de Stereolab e um vocal processado ao ponto da indefinição – indefinição do que se fala e indefinição quanto à &#8220;identidade&#8221; da própria voz de Thom Yorke, manifestamente uma das marcas registradas do grupo. A se notar que nas duas primeiras faixas também não há guitarras, e a utilização de guitarras era até então, bem, outra das marcas registradas do grupo. Ou seja, não chegaram pra fazer gracinha.</p>
<p>Toda faixa que surge em Kid A parece provocar uma mudança brusca de atmosfera. É um pouco como se cada faixa, ao contrário de somar-se À seguinte, parecesse entrar em conflito com ela. Se a qualidade individual de cada composição não fosse enorme, o disco arriscaria cair em pedaços. Na primeira metade ele vai de &#8220;Everything in Its Right Place&#8221; e &#8220;Kid A&#8221; para &#8220;The National Anthem&#8221;, um rock vigoroso com baixo pulsante e clímax construído por sessão de metais que começam em ordem e acabam em balbúrdia free, depois &#8220;How To Disappear Completely&#8221;, uma balada que não fossem algumas delicadas colorações sintetizadas de arranjo poderia estar tranquilamente em OK Computer, e em seguida a atmosférica &#8220;Threefingers&#8221;, basicamente um soundscape bucólico que não ficaria deslocado num disco da Touch Records. Naturalmente, ninguém há de dizer que &#8220;Threefingers&#8221; se destaca dentro de seu contexto, e pode-se até mesmo suspeitar um pouco de tanto <em>trend </em>junto: IDM, free, ambient&#8230; O que livra <em>Kid A </em>da possível acusação de disco posudo é a manutenção pregnante de uma atmosfera de desespero e nonsense ora irônico, ora melancólico, essa sim a assinatura principal do Radiohead.</p>
<p>&#8220;Optimistic&#8221;, &#8220;In Limbo&#8221; e &#8220;Morning Bell&#8221;, executadas por instrumentos mais convencionais à história do Radiohead, atestam mais que as outras a evolução das composições do grupo, que, ao invés de explodirem em arroubos líricos catárticos e frágeis (comuns em <em>OK Computer</em>), preferem manter uma tensão permanente através de arranjos mais intrincados. Esse refinamento mantém-se até hoje, e é o que torna notáveis faixas como &#8220;Pyramid Song&#8221;, &#8220;Faust Arp&#8221; ou &#8220;Nude&#8221;, para se ater às mais morosas. Mas obviamente o carro chefe e o arrasa-quarteirão do disco é &#8220;Idioteque&#8221;, uma reconstrução até então impensável do Radiohead como projeto eletrônico de pista, um electro tão mais pungente por seu despojamento de maiores camadas melódicas – apenas um sample de quatro acordes etéreos de uma faixa do compositor Paul Lansky –, que torna a faixa sutilmente excêntrica e desesperadamente gélida, tanto pela secura dos timbres quanto pela ausência de linha de baixo para &#8220;encher&#8221; o vazio deixado entre a voz de Thom Yorke, o sample de sintetizador e a bateria eletrônica.</p>
<p>Agora, se <em>Kid A </em>tem algum traço característico dentro da obra do Radiohead, não é o de obra lapidada e madura em que todos os elementos estão equilibradamente lá. É um momento de abertura de perspectivas, em que todos os signos estão lá gritando a necessidade de sua existência, mas ainda não encontraram o local perfeito de sua inscrição. A banda iria maturar isso em seguida.Mas  <em>Kid A </em>manterá para sempre esse charme de obra desgarrada e inaugural de uma banda que poderia muito bem delinear sua carreira como um novo U2 mas preferiu jogar tudo pro alto e desafiar os fãs a ampliarem suas percepções. Tem que ter muita coragem para fazer isso. E felizmente essa guinada nos livrou de mais uma insuportável bandinha de rock de arena. Já pensou Thom Yorke cantando com Luciano Pavarotti, o horror, o horror? (Ruy Gardnier)</p>
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