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	<title>a camarilha dos quatro &#187; corazondiablo</title>
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		<title>Melhores da década (2000-2009): Discos – Ruy Gardnier</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jan 2010 02:52:00 +0000</pubDate>
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1. Joanna Newsom, Ys
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			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2010/01/joannanewsom02.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3076" title="joannanewsom02" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2010/01/joannanewsom02.jpg?w=480&#038;h=320" alt="" width="480" height="320" /></a></p>
<p>1. Joanna Newsom, <em>Ys<br />
</em>E em seu segundo disco a menina da voz estridente se inspira em <em>Stormcock </em>de Roy Harper, chama Van Dyke Parks para arranjar orquestra e co-produzir o disco, convoca Steve Albini para gravar sua voz e sua harpa, e engaja Jim O&#8217;Rourke na mixagem. Em cinco composições e um total de 56 minutos, ela fala sobre pássaros de nome excêntrico, meteoritos e meteoros, momentos partilhados, impressões, com um preciosismo lírico só comparável à natureza vaga e evocativa de suas narrativas, e um poder imenso de criar melodias que funcionam na progressão das longas composições. Cada música de <em>Ys </em>tem efeito de montanha-russa, levando a sensibilidade do ouvinte a tensas subidas e vertiginosas descidas. E em dois polos contrastantes, a voz e a harpa de Joanna Newsom garantem toda a emotividade do projeto, enquanto os arranjos encorpam e equilibram o conjunto. Como já disse alhures, é o <em>Astral Weeks </em>e o <em>Desertshore </em>de nossa década. E certamente o melhor disco desses últimos dez anos.</p>
<p>2. Aphex Twin, <em>drukqs<br />
</em>Ao contrário dos anos 90, Aphex Twin não fez muito para aparecer nessa década. Lançou singles com pseudônimo, fez a série em 12&#8221; <em>Analord </em>e lançou em 2001 esse <em>drukqs</em>, um álbum duplo (ou vinil quádruplo) que, ao invés de surpreender com novas facetas – algo que ele fazia de disco a disco nos 90 –, fazia uma síntese tudo-ao-mesmo-tempo-agora de sua carreira, e ampliava seu lado mais introspectivo e lírico, com diversas composições só para piano. Para alguns, é um disco de repetições de um artista em momento de pouco foco artístico. Para outros, e obviamente me enquadro nesse grupo, é sua magnum opus, em que todos os elementos se encontram presentes e aperfeiçoados, da fúria ADD de &#8220;Windowlicker&#8221; (&#8220;Omgyjya-Switch7&#8243;) à singeleza de &#8220;Flim&#8221; (&#8220;Jynweythek Ylow&#8221;), passando por faixas ambient, interlúdios e diversas peças irretocáveis que o confirmam como o artista eletrônico mais decisivo de sua época.</p>
<p>3. Animal Collective, <em>Merriweather Post Pavillion<br />
Feels</em>, <em>Sung Tongs</em> e <em>Strawberry Jam</em> já qualificavam definitivamente o Animal Collective como um dos grupos de rock alternativo mais importantes da década, com um teor experimental associado a uma sensibilidade pop que os credenciavam tranquilamente como um equivalente da nossa época – frisando, nossa época – ao que faziam ao final dos anos 60 grupos como Beatles, Love ou Beach Boys. <em>Merriweather Post Pavillion</em> é o estabelecimento definitivo do grupo no panteão do pop de vanguarda, com composições mais focadas e um punhado de faixas destinadas à posteridade.</p>
<p>4. Avalanches, <em>Since I Left You<br />
</em>Podemos pensar o disco perfeito como o disco cheio de músicas perfeitas. Mas podemos pensar que o disco perfeito é aquele que se ouve perfeitamente por inteiro, com pouca ou nenhuma atenção às faixas em si, e sim à inteireza do disco. Nesse segundo sentido, <em>Since I Left You </em>é o disco perfeito da década, uma grande suíte de colagens geniais, clima de festa e suntuosas alternâncias de situações. Difícil imaginar que quando Coldcut, MARRS, Bomb the Bass e outros inauguraram a era do cut&amp;paste alguém conseguiria transformar suas invenções num disco inteiro de invenções e elegância formal.</p>
<p>5. Spring Heel Jack with Matthew Shipp, Evan Parker, J. Spaceman, William Parker &amp; Han Bennink, <em>Live<br />
Live </em>é a culminação de muitas coisas. Primeiro, é o grande disco da passagem do Spring Heel Jack de bom grupo de drum&#8217;n'bass ao improv. Segundo, é o melhor disco do fundamental projeto Blue Series, capitaneado por Matthew Shipp, trazendo artistas de eletrônica/hip-hop para tocar junto com músicos de jazz/improv. Terceiro, é uma incomum reunião de improvisadores americanos e europeus, ou seja, vindos de searas outrora conflitantes. Quarto, e mais importante, é a impressionante integração dos eletrônicos à manipulação improvisada junto com instrumentos orgânicos. Tudo isso faz de <em>Live </em>um marco nessa década. Fora isso tudo, é um disco absolutamente delicioso de se ouvir.</p>
<p>6.Sufjan Stevens, <em>Illinoise<br />
</em>Pop de câmara. Cabe notar que a música, particularmente a indie, está infestada desses artistas meia-boca que fazem pop com um quê de delicadeza, pegam deixas de Nick Drake e Zombies, para ao final realizarem coisas requentadas e apenas fofinhas. Mas não confundam Sufjan Stevens com o resto da espécie: ele tem um real amor pela dissonância, pelos efeitos de contraste e por um senso épico que integra chamber pop à música tradicional americana e à vanguarda experimental do século XX. Orquestra, nas mãos de Stevens, não é verniz, é composição. <em>Illinoise</em> é seu disco mais completo, e depois de ouvi-lo a gente torce pra que ele faça todo o resto dos estados americanos com o mesmo prazer e talento com que fez este. Não vai acontecer, mas a gente espera mesmo assim.</p>
<p>7. Fennesz, <em>Endless Summer<br />
</em>Os artistas existem por seu trabalho, e é como eles devem ser observados em primeiro lugar, mas eles também existem pelo papel que representam em seu contexto – o que, aliás, é um pouco indissociável de seu trabalho, mas isso é outra história. Sob esse viés, não brigaria com ninguém que considerasse Christian Fennesz o artista mais importante da década, por expandir mais que ninguém as interrelações entre o que é socialmente considerado música e ruído. Nos seus discos ou em suas apresentações ao vivo, o lírico vai de mãos dadas com o abrasivo. <em>Black Sea</em> talvez seja seu trabalho mais perfeito, mas <em>Endless Summer </em>tem o brilho do gesto inaugural, do momento em que o artista achou completamente o seu som.</p>
<p>9. Four Tet, <em>Rounds<br />
</em>&#8220;Spirit Fingers&#8221; não ficaria desalinhada se colocada numa coletânea de coisas lançadas pela Warp àquela época, ou seja, Autechre, Boards of Canada etc. &#8220;She Moves She&#8221; pode vir antes ou depois, numa discotecagem, de uma música do Prefuse 73 em seus dois primeiros discos. Ou seja, <em>Rounds </em>rima com hip-hop abstrato, com IDM, com trip hop, com downtempo, e ao mesmo tempo não é nada disso. É o fruto do trabalho laborioso de Kieran Hebden em traduzir suas influências de jazz, de soul, de hip-hop, em uma forma própria. E tem toda a sensualidade de um Stevie Wonder ou de um Sonny Rollins vertida em eletrônica exuberante e luxuosa.</p>
<p>9. Kevin Drumm, <em>Imperial Distortion</em>/<em>Sheer Hellish Miasma<br />
</em>O trabalho de Kevin Drumm, como o de Stephen O&#8217;Malley (Sunn O))), Khanate) ou o de Mick Barr (Orthrelm), se situa no limiar do metal com outros gêneros que desafiam os tímpanos e a paciência dos ouvintes, como o noise, o improv, o drone e o minimalismo. Considerada sozinha, no entanto, sua música – como a de Fennesz – é uma ode às possibilidades de retrabalho eletrônico das sonoridades e das texturas saídas de uma guitarra, sejam nas abrasivas explosões sintetizadas de <em>Sheer Hellish Miasma</em> ou na guinada ambient/drone/textural de <em>Imperial Distortion</em>. Em ambos os casos, trata-se de um músico que sabe talhar minuciosamente seus conceitos e encontrar as aplicações sônicas mais perfeitas à execução deles.</p>
<p>10. Radiohead, <em>Hail To the Thief<br />
</em>Se a Pitchfork representa o termômetro da comunidade indie-roqueira internacional a respeito do Radiohead – e provavelmente representa –, <em>Hail To the Thief </em>é considerado um trabalho menor dentro da trajetória do grupo, minado pela confusão interna e a indefinição de caminhos. Em bom inglês britânico: BOLLOCKS. <em>Hail To the Thief </em>é o momento em que finalmente o Radiohead conseguiu orquestrar sua sensibilidade com todas as influências adquiridas no começo da década, rendendo um disco certamente sombrio e carregado, mas com uma pressão sem igual em qualquer dos outros trabalhos do grupo.</p>
<p>11. William Parker, <em>Double Sunrise Over Neptune<br />
</em>Não sou nenhum completista no que diz respeito ao jazz mais convencional produzido nesta década, mas diria sem pestanejar que <em>Double Sunrise Over Neptune</em> é fácil o melhor disco de jazz composto – ou seja, não-improv – desses últimos dez anos. Trata-se de uma big band excêntrica, com violino, viola, duas baterias, guitarra elétrica e cantora indiana, entre outros, que executa ao mesmo tempo uma música multiétnica, e ao mesmo tempo recupera a enorme sensualidade e poder evocativo (espiritual, quiçá) do jazz cósmico praticado por Alice Coltrane ou Pharoah Sanders nos anos 70. Mas soa totalmente como anos 00. E tão bem&#8230;</p>
<p>12. M.I.A., <em>Kala<br />
</em>Funk carioca com Modern Lovers? É como começa &#8220;Bamboo Banga&#8221;, primeira música de Kala, entoando a letra de &#8220;Roadrunner&#8221; (que aliás nada mais é que uma versão com letra diferente de &#8220;Sister Ray&#8221;, do Velvet Underground) com os beats de Diplo, nosso homem no hemisfério de cima. M.I.A. tem esse incrível poder de incorporação, de usar a ideia de sampler como prática (o essencial loop de &#8220;Paper Planes&#8221; tirado de Straight To Hell&#8221; do Clash, em especial) mas principalmente como conceito, criando a Central Única do Terceiro-Mundo Musical e articulando de forma furiosa e sexy diversas músicas do globo numa obra coesa e incendiária. Gang of Four com Missy Elliott, tá valendo?</p>
<p>13. The Books, <em>Thought For Food<br />
</em>Como <em>Since I Left You</em>, <em>Thought For Food </em>se ouve como uma obra completa, composta por partes de uma suíte que, nesse caso, é uma mini-ópera de laptop-folk com colagens, sons encontrados e um incrível senso lúdico que só rivaliza com a fluidez com que o disco é ouvido. Ao longo da década, eles foram tomando mais gosto por canções pop, permanecendo sempre interessantes, mas sem encontrar a liberdade e a graça que conseguiram em seu disco de estreia. O próximo disco do grupo, que terá como tema a hipnoterapia, sugere uma volta às experimentações mais livres de composição. Mas até o presente momento é <em>Thought For Food</em> o momento essencial dessa dupla.</p>
<p>14. Boom Bip &amp; Dose One, <em>Circle<br />
</em>Hoje parece uma cena que passou, esse underground hip-hop que queria explodir com todos os clichês do gênero e advogava para si todas as liberdades para fazer raps baseados em fluxos de consciência e trabalhar com bases que pudessem incorporar tudo ao recheio. Mas essa cena, que teve em Dose One seu representante mais prolífico e talentoso, deu discos geniais como <em>cLOUDDEAD</em>, os primeiros do Subtle e esse <em>Circle</em>, parceria do rapper com o produtor Boom Bip, um sujeito que conseguia criar bases tão alucinadas quanto os raps de seu colega. A prova do sucesso, como todo projeto que desafia gêneros instituídos, é que Dose One ganhou tantos detratores quanto admiradores fervorosos.</p>
<p>15. Prefuse 73, <em>One-Word Extinguisher<br />
</em>Guillermo Scott Herren teve na década uma trajetória errática e prolífica, com diversos projetos – Delarosa &amp; Asora, Savath &amp; Savalas, Prefuse 73, Diamond Watch Wrists – e mudanças de sonoridade. Mas ainda que seus últimos anos não sejam particularmente especiais, o que ele fez em seus dois primeiros discos como Prefuse 73 é absolutamente revolucionário, aplicando ao hip-hop a estética da fragmentação e dos clicks&amp;cuts da eletrônica experimental e criando uma batida sincopada e letárgica que virou padrão entre os produtores britânicos contemporâneos. <em>Vocal Studies + Uprock Narratives </em>é o mais imediatamente belo e livre, mas <em>One-Word Extinguisher </em>é o mais perfeito. Na dúvida, fiquemos com o último.<em></em></p>
<p>16. Konono No. 1, <em>Congotronics Vol. 1<br />
</em>Podem chamar de confluência de fatores, podem chamar de puro acaso. O fato é que, no exato momento em que muitos dos grupos inventivos de música do Hemisfério Norte buscavam sonoridades lo-fi de osciladores e sintetizadores antigos, &#8220;aparece&#8221; o Konono No. 1 com seus likembés, suas kalimbas &#8220;preparadas&#8221; pela eletrificação. &#8220;Aparece&#8221; porque o grupo existe há décadas, mas foi &#8220;descoberto&#8221; apenas através de <em>Congotronics Vol. 1</em>, um disco de alegria contagiante com dinâmicas de percussão, melodia e canto que deixam o ouvinte estupefato por tanto vigor e inventividade.</p>
<p>17. William Basinksi, <em>Disintegration Loops<br />
Disintegration Loops </em>é o <em>Cabra Marcado Para Morrer </em>da música nessa década. Basinski gravou algumas fitas magnéticas em 1982, e ao tentar salvá-las gravando para mídia digital, observou que elas se deterioravam à medida que passavam pelo suporte físico de leitura e o som se perdia. O projeto de vinte anos depois nada mais é que a gravação da degenerescência dessas gravações, o que se traduz sonoramente por loops que vão lentamente perdendo a definição até se perderem definitivamente. Pode-se pensar que ouvir a essas <em>Disintegration Loops </em>é um projeto estapafúrdio, mas nunca houve projeto em música que fosse ontologicamente uma reflexão sobre o fim das coisas, sobre a ação do tempo e dos materiais, sobre a morte.</p>
<p>18. Jay-Z, <em>The Black Album<br />
</em>É difícil argumentar sobre <em>The Black Album </em>ser o melhor disco de Jay-Z na década quando ele fez <em>The Blueprint</em>, um disco que começa perfeito com (depois da introdução) &#8220;Takeover&#8221; e &#8220;I.Z.Z.O. (Hova)&#8221;, além de ter &#8220;Song Cry&#8221;, uma faixa de confissão de incompetência conjugal que seria infinitamente zombada se não fosse feita de forma tão fenomenal. Além de ter dado a Jay-Z o cetro do hip-hop que ele legitimamente ostenta até hoje. Mas <em>The Black Album </em>apresenta muito mais variações de composição, é melhor pensado como álbum (<em>The Blueprint </em>tem uma ou duas faixas tranquilamente dispensáveis) e, bom, tem &#8220;Encore&#8221;, &#8220;Dirt Off Your Shoulder&#8221; (Timbaland em grande momento), &#8220;99 Problems&#8221; e a fenomenal &#8220;Lucifer&#8221; (Kanye West também em grande momento), além de trabalhar magnificamente o conceito de disco final. No fim das contas, o fim de carreira foi brincadeirinha, mas isso não é muito relevante.</p>
<p>19. Fenn O&#8217;Berg, <em>Return of Fenn O&#8217;Berg<br />
</em>Se hoje ouvimos maravilhas como <em>Vertical Ascent</em>, do Moritz Von Oswald Trio, isso se deve em parte porque alguns artistas, já relativamente reconhecidos em suas áreas, decidiram se juntar e ver no que dava fazer música improvisada com laptops. Podem dizer que não foram os primeiros a fazer isso. Mas, oras, o que é o ineditismo diante da excelência? Fennesz, Jim O&#8217;Rourke e Peter Rehberg fizeram maravilha juntos em 1998, e em 2001 voltaram para fazer melhor ainda, num disco de improv/glitch/noise que abriu terreno e, se a história for justa, ocupará espaço semelhante ao de discos como <em>Karyobin </em>e <em>AMMusic </em>para a constituição da improvisação livre como gênero e conceito.</p>
<p>20. Burial, <em>Burial<br />
</em>Ainda que nenhum de seus discos seja perfeito, Burial não podia ficar de fora dessa lista. Ele foi o líder da nau capitânea que apresentou o mundo ao dubstep, ainda que ele não seja em nada o produtor típico de dubstep. Ele retirou do dubstep – um gênero quase sempre impessoal – a enorme força sombria dos andamentos lentos e dos graves de baixíssima frequência, e adicionou a eles sonoridades preciosas de contratempo, ruídos climáticos (eventualmente chuva, estalos de vinil ou outras formas de ruído branco) e especialmente as inserções vocais de diva chorosa, que dão ao som do Burial um imenso poder afetivo, pessoal. <em>Untrue </em>é tão bom quanto, mas fiquemos com o primeiro por seu poder inaugural, mais seco e denso.</p>
<p>Não-disco da década: set de Kode9 no Sonar 2007<br />
Primeiro momento de maior legitimação do dubstep e um set perfeito que eternizará para gerações o que era concebido com dubstep até aquele momento, pelo grande DJ do movimento e por um de seus produtores inaugurais. E uma audição simplesmente formidável.</p>
<p>Omissões criminosas (fazer o quê? são só vinte): Limescale, <em>Limescale</em>; Devendra Banhart, <em>Rejoicing in the Hands/Niño Rojo</em>; Portishead, <em>Third</em>; Panda Bear, <em>Person Pitch</em>; Broadcast, <em>Haha Sound</em>; Nação Zumbi, <em>Rádio S.Amb.A</em>.; Hecker, <em>Acid in the Style of David Tudor</em>; Sir Richard Bishop, <em>Polytheistic Fragments</em>; Kanye West, <em>Late Registration</em>; Black Dice, <em>Load Blown</em></p>
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		<title>Melhores da década (2000-2009): Músicas – Ruy Gardnier</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Dec 2009 20:20:49 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
1. Joanna Newsom &#8220;Emily&#8221;
&#8220;Emily&#8221; é o começo e a realização máxima de Ys, um disco cujas ambições só se medem aos resultados: uma espécie de épico folk para voz, harpa e orquestra com músicas de quinze minutos e diversas viradas dramáticas. &#8220;Emily&#8221; é uma carta a uma irmã, e toda a pompa envolvida no arranjo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=3059&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/asachangjunraylive2-2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3064" title="asachang&amp;junraylive2-2" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/asachangjunraylive2-2.jpg?w=591&#038;h=300" alt="" width="591" height="300" /></a></p>
<p>1. Joanna Newsom &#8220;Emily&#8221;<br />
&#8220;Emily&#8221; é o começo e a realização máxima de <em>Ys</em>, um disco cujas ambições só se medem aos resultados: uma espécie de épico folk para voz, harpa e orquestra com músicas de quinze minutos e diversas viradas dramáticas. &#8220;Emily&#8221; é uma carta a uma irmã, e toda a pompa envolvida no arranjo de Van Dyke Parks e da própria Joanna Newsom em momento algum acaba com o imenso poder de intimidade provocado pela voz da cantora e por suas memórias e delírios. A segmentação da faixa guarda melodias surpreendentes e um senso narrativo soberbo, alternando calmarias e clímaxes com a sabedoria dos gênios. Muito se falou de <em>freak folk</em> nessa década, mas aqui não tem <em>freakiness</em> nenhuma: é pura beleza.</p>
<p>2. Asa-Chang &amp; Junray &#8220;Senaka&#8221;<br />
&#8220;Hana&#8221; já havia surpreendido com sua aparentemente simples estratégia de fazer a tabla acompanhar a voz humana processada, mas &#8220;Senaka&#8221;, lançada alguns anos depois, foi além. Substituiu a dramaticidade letárgica da primeira por um ludismo mais pronunciado, por maiores contrastes entre os momentos e por relações mais intrincadas entre voz picotada eletronicamente, eletrônicos e tabla. AC&amp;JR foram responsáveis por algumas das mais exuberantes músicas da década, entre elas &#8220;Kaikyo&#8221; e &#8220;Toremoro&#8221;, mas com &#8220;Senaka&#8221; eles fizeram sua composição com mais fôlego criativo e com uma perfeição no equilíbrio de timbres que dificilmente será superada. (A versão é aquela com vocal feminino)</p>
<p>3. Animal Collective &#8220;Brother Sport&#8221;<br />
Uma porção de músicas do Animal Collective poderia constar aqui nesse top de melhores. &#8220;The Purple Bottle (Stevie Wonder Version)&#8221;, &#8220;Grass&#8221;, &#8220;Peacebone&#8221;, &#8220;Fireworks&#8221;, tantas outras&#8230; Mas se é &#8220;Brother Sport&#8221; que aqui se faz presente, é por atingir um limiar catártico que até então o AC só buscava em seus momentos mais introspectivos e/ou entrópicos, mas aqui é o exato oposto: é uma faixa extrovertida, ritualística, de transe, que por vias transversas dialoga com a música brasileira e com a música africana e, sem diluir nada, acrescenta uma deliciosa excentricidade como tempero.</p>
<p>4. Beyoncé &#8220;Crazy in Love (feat. Jay-Z)&#8221;<br />
Considerando que nenhuma das anteriores é exatamente uma música pop, convenhamos que &#8220;Crazy in Love&#8221; é a música pop da década, e que Beoyncé é a diva r&amp;b desses anos 00. O r&amp;b é um bom terreno para argumentar sobre a superioridade dessa década em relação às duas anteriores: nos 80 era Whitney Houston, nos 90 era Mariah Carey. Ou seja: ao menos na música negra americana de grande consumo, a década finalmente conseguiu diminuir pronunciadamente a pasteurização pop iniciada no começo dos 80. &#8220;Crazy in Love&#8221; é pérola pop de panteão, com inescapável gancho de metais, refrão labiríntico e bridge com rap de Jay-Z.</p>
<p>5. Missy Elliott &#8220;Get Ur Freak On&#8221;<br />
Só o fato de Timbaland ter sido possível como produtor de sucesso já atesta uma mudança decisiva nessa década. &#8220;Get Ur Freak On&#8221; é uma produção totalmente alienígena, com um riff de ektara (instrumento indiano de cordas), frases em japonês, mas acima de tudo um poder enorme de síntese, criando um suíngue notável apenas entre percussão e uma célula melódica. E, óbvio, toda a fúria da voz de Missy Elliott. Podem até dizer que a faixa tem antecedentes, como &#8220;Kiss&#8221; do Prince, que também é poderosíssima e ao mesmo tempo extremamente econômica. É verdade: &#8220;Get Ur Freak On&#8221; então é uma &#8220;Kiss&#8221; vinda de Marte. Ou melhor, de Vênus. Os franceses do Les Inrockuptibles uma vez disseram que Missy era a cantora negra americana mais importante desde Aretha Franklin. Comigo eles não enfrentam controvérsia.</p>
<p>6. Fennesz &#8220;A Year in a Minute&#8221;<br />
Noise sentimental. Em 1999 ninguém poderia intuir que isso se transformaria em filão, e que drones e ruído branco poderiam ser tão evocativos e poderosos emocionalmente quanto melodias adocicadas. Tem Philip Jeck, Caretaker, Tim Hecker e mais um monte, mas o campeão definitivo é o guitarrista austríaco Christian Fennesz, capaz dos ruídos mais abrasivos, dos timbres mais delicados e, quando quer, dos lirismos mais atordoantes. &#8220;A Year in a Minute&#8221; faz parte dessa última categoria, e é a faixa ambient que o My Bloody Valentine jamais fez. Uma melodia de seis &#8220;acordes&#8221; com algumas variaçõs de fundo, uma paradinha para sons sintetizados, e uma volta épica. Basta isso para uma obra-prima.</p>
<p>7. Black Dice &#8220;Roll Up&#8221;<br />
O noise teve algumas das mais interessantes mutações pelas quais um gênero pode passar, e em especial um gênero tão confrontativo quanto esse. No caso do Black Dice, uma mudança que até ameaçava a natureza do gênero, porque eles conseguiram transformar a gratuidade do noise em ruído bubblegum, repetitivo e pop, mas sempre ameaçador a sua maneira. &#8220;Roll Up&#8221; é reminiscente da época em que o Black Dice passou pela DFA e flertou com o shoegaze eletrônico. A faixa é movida por um potente padrão rítmico eletrônico e guiada por um riff magro de guitarra, com direito a inúmeras disrupções e voltas. Mas quem disse que isso os torna mais pop? No Tim Festival eram só uns 50 lá na frente&#8230; mas todos embasbacados e/ou deslumbrados.</p>
<p>8. The Rapture &#8220;House of Jealous Lovers&#8221;<br />
Todo o hype em torno da DFA foi um dos episódios mais bobos da década, e o modo como James Murphy foi içado à categoria de Midas transcende qualquer análise. Mas &#8220;House of Jealous Lovers&#8221; justifica tudo isso e também toda a comitiva de bandinhas discopunk que vieram sugar um pouquinho da cena. &#8220;HoJL&#8221; epitomiza o conflito rocker/dance do começo da década – e da identidade da própria banda em seu começo –, mas se aproveita do melhor dos dois, com potente cowbell e baixo de <em>disco </em>de um lado, e guitarra angular e vocal alucinadamente gritado por Vito Roccoforte do outro.</p>
<p>9. Konono No. 1 &#8220;Lufuala Ndonga&#8221;<br />
Ainda me lembro do espanto de ter ouvido <em>Congotronics Vol. 1 </em>e a primeirona &#8220;Lufuala Ndonga&#8221; pela primeira vez. Hoje o espanto é divisível entre elementos que a percepção discerne e separa, como a intensa sessão rítmica que faz uma balbúrdia dos infernos, os apaixonantes timbres lo-fi dos likembés, executados quase como agogôs com maior potencialidade melódica, e as dinâmicas de chamado e resposta entre cantor e coro. Mas no momento inicial foi tudo junto e contágio arrebatador pela alegria e vitalidade transmitida pela música do Konono.</p>
<p>10. Aphex Twin &#8220;Jynweythek Ylow&#8221;<br />
Que caminho longo até ter a liberdade de pegar um piano, convencional ou preparado, e relacionar-se com ele como se fosse um instrumento novo, tão novo quanto os sintetizadores analógicos de estimação ou o mais novo software de música eletrônica. &#8220;Jynweythek Ylow&#8221; começa <em>drukqs</em> de forma surpreendente, mas ao mesmo tempo as melodias criadas e as quebras de notas dentro da composição são claramente perceptíveis para quem acompanhava a obra de Richard D. James em todas as suas manifestações. O que talvez ninguém esperasse é que Aphex Twin ao piano soasse ao mesmo tempo tão contemporâneo e tão atemporal, como uma melodia de caixinha de música da nossa era. E o genial de <em>drukqs </em>é que, depois dessa beleza, vem &#8220;Vordhosbn&#8221;, outra obra-prima, mas eletrônica e ultrarrápida, obrigando o ouvinte a rapidinho mudar de registro emocional.</p>
<p>11. Grizzly Bear &#8220;Plans&#8221;<br />
Arranjos burilados, progressões inspiradas, harmonizações vocais emocionantes e uma sensibilidade pop vinda direto do túnel do tempo, entre pop barroco e pop anos 70. Tem algo extremamente solar e emocional nas músicas do Grizzly Bear, mas há algo nas baladas soturnas que torna tudo ainda mais especial. Em &#8220;Plans&#8221;, não se sabe o que é mais catalisador emocional, se são as notas esparsas de saxofone, o coro harmonizando ou a sensação geral de um destino pairando sobre a impossibilidade de chegar à América do Sul para se encontrar com alguém. Logo depois em <em>Yellow House </em>há a preciosíssima &#8220;Marla&#8221;, mas &#8220;Plans&#8221; é como uma balada bêbada de Matt Elliott convertida em joia barroca.</p>
<p>12. Shackleton &#8220;Death Is Not Final&#8221;<br />
Já há alguns anos Shackleton nos arrepia com sua estética sombria e com sua inacreditável manipulação de células percussivas, tanto em timbre quanto em ritmo. O que ele fez para o dub e para a música eletrônica nessa seara é incalculável, e seu estilo é tão único que, como Aphex Twin (ou Zappa, ou Hermeto),  arrisca se transformar num gênero próprio. &#8220;Death Is Not Final&#8221; tem duas das atrações mais incisivas da música de Shackleton, a fala – já presente em &#8220;Blood on My Hands&#8221;, por exemplo – de um homem de voz grave e seca fazendo comentários solenes e samples árabes. Mas o que torna a faixa absoluta são os tilintares dos elementos percussivos agudos, que passeiam por toda a espacialidade do som e de coadjuvantes transformam-se em protagonistas.</p>
<p>13. Four Tet &#8220;Everything Is Alright&#8221;<br />
A obra definitiva de Kieran Hebden é <em>Rounds</em>, certamente. Mas aquilo tudo já estava lá antes em alguns momentos bem pinçados de <em>Pause</em>, em especial nessa que é a faixa mais marcante do disco. O &#8220;efeito Four Tet&#8221;, se assim quisermos, se encontra da união de algo reconhecido socialmente como eufônico com algo que de alguma forma se constitui como ruído, emoldurado por <em>beats </em>de hip-hop (até <em>Rounds</em>) ou de techno (de <em>Ringer</em> até agora). O &#8220;ruído&#8221; em &#8220;Everything Is Alright&#8221; acontece pela falta de preenchimento (geralmente cabido à linha de baixo) entre a bateria pulsante e as duas melodias, um dedilhado de violâo e uma frase de teclado. Para além de serem dois dos melhores fragmentos de melodia já concebidos por Hebden, a faixa &#8220;desevolui&#8221; de maneira impressionante, remetendo tudo a alterações de volume e reiteração dos fragmentos.</p>
<p>14. The Bug &#8220;Skeng (feat. Flow Dan &amp; Killa P)&#8221;<br />
Kevin Martin quando acerta sai de baixo. Em &#8220;Skeng&#8221; temos uma faixa lentíssima, quase andamento de doom metal, com fortes doses de grave e caixas de bateria eletrônica em delays demolidores. Por cima de tudo isso, temos Flow Dan do Roll Deep e o misterioso Killa P mandando um dos raps/toasts mais ameaçadores já ouvidos, nem tanto pelo teor da letra quanto pelo timbre e pela força do vocal de Flow Dan (ainda que ouvir &#8220;You don&#8217;t wanna see me get evil&#8221; faça propriamente sua parte).  A Hyperdub lançou muitos singles maravilhosos nos últimos cinco anos, mas &#8220;Skeng&#8221; se mantém insuperável.</p>
<p>15. Antony and the Johnsons &#8220;The Lake&#8221;<br />
Esta pode ser vista como uma opção excêntrica, visto que &#8220;The Lake&#8221; foi lançado em EP, nunca foi relançado em nenhum álbum de Antony e, que eu saiba, nenhuma outra revista ou site advoga esta faixa como item essencial da obra de Antony Hegarty. Pouco importa. &#8220;The Lake&#8221; é um poema de Edgar Allan Poe musicado por Antony e executado ao piano, com ligeiros detalhes de violão aqui e acolá. O canto é bastante menos dramatizado do que em &#8220;Hope There&#8217;s Someone&#8221; ou &#8220;Aeon&#8221;, por exemplo. Essa limpidez, no entanto, permite melhor desfrutar do inacreditável timbre do cantor e ver a intensidade progressivamente crescendo até chegar em &#8220;My infant spirit would awake/To the terror of the lone lake&#8221;. Dito isso, &#8220;Hope There&#8217;s Someone&#8221; também não é menos do que uma obra-prima.</p>
<p>16. M.I.A. &#8220;Bird Flu&#8221;<br />
E o mundo conheceu um furacão chamado Maya Arulpragasam. Parecia já meio cafona evocar luta de classes na música pop, depois de um histórico cheio de grandes momentos envolvendo, entre outros, Gang of Four, The Clash e Public Enemy. Ultimamente, artistas como Manu Chao viram rapidamente caricaturas bestas de algo grosseiramente associável a militância. Aí chega M.I.A., constrói uma persona de rainha unificadora de todos os sons do terceiro mundo e da parte baixa do primeiro mundo, mete tudo num caldeirão e sai com uma mistura tão irresistível quanto sonoramente coerente. &#8220;Bird Flu&#8221; é talvez a faixa mais selvagem da cantora, com turbilhões de percussão e gritinhos de meninas. &#8220;Bird Flu gonna get you&#8221;, canta ela. &#8220;Paper Planes&#8221; pode ser mais deliciosa de ouvir, mas &#8220;Bird Flu&#8221; é, como a gripe aviária, muito mais infecciosa e arrebatadora.</p>
<p>17. Nação Zumbi &#8220;O Carimbó&#8221;<br />
Todos aqueles que admiram o trabalho do guitarrista Lúcio Maia desde Chico Science &amp; Nação Zumbi sempre sonharam com o momento em que uma faixa do grupo fosse capaz de sintetizar ao mesmo tempo o lirismo, a psicodelia e a &#8220;soltura&#8221; do estilo de tocar do músico. Quem via os shows tinha isso já em &#8220;Coco Dub&#8221;, ao menos em parte, nas interveções improvisadas do guitarrista. Mas em disco isso apareceu pela primeira vez em &#8220;O Carimbó&#8221;, entrecortado por um padrão de percussão influenciado por drum&#8217;n'bass e por um possante vocal de Jorge Du Peixe. <em>Rádio S.Amb.A. </em>pode ter momentos de maior energia, como em &#8220;Quando a Maré Encher&#8221;, mas &#8220;O Carimbó&#8221; tem um poder mais misterioso e subterrâneo.</p>
<p>18. Jens Lekman &#8220;You Are the Light (By Which I Travel Into This Way and That)&#8221;<br />
Se alguém perguntar onde nos anos 00 esteve o lirismo ao mesmo tempo sofisticado e brincalhão, autoderrisório e ainda assim pungente de uma tradição que existe desde Cole Porter e passa por Jacques Brel, Scott Walker e Morrissey, eu respondo oferecendo &#8220;You Are the Light&#8221;, uma pérola de pop sueco, entre o kitsch e o sublime, que começa com o sujeito sendo preso e usando a única ligação telefônica a que tem direito para ligar para a rádio e dedicar uma canção à mulher que ama. Musicalmente, é um coquetel de referências <em>girl-group </em>anos 60 e Scott Walker do período <em>crooner</em>, e perfeito em todos seus excessos.</p>
<p>19. The Avalanches &#8220;Frontier Psychiatrist&#8221;<br />
Essa foi uma década particularmente prolífica para os magos das batidas: os produtores depois de décadas foram novamente alçados à categoria de inventores dentro do pop (Timbaland e Pharrell na dianteira), o hip-hop instrumental ou abstrato teve diversos artistas de destaque (Alias, DJ Shadow, RJD2, Madlib) e teve todo esse élan de DJ como inventor a partir de colagens e <em>mashups</em>. Mas a colagem dançante essencial da década veio logo em seu começo, por um bando de australianos misteriosos chamados The Avalanches. &#8220;Frontier Psychiatrist&#8221; é a declaração de princípios, pinçando sons de fontes sonoras diversas e criando um mosaico tão genial quando bem-humorado. &#8220;That boy needs therapy&#8221;.</p>
<p>20. Gnarls Barkley &#8220;Crazy&#8221;<br />
É muito fácil esnobar &#8220;Crazy&#8221;. Afinal, foi um megassucesso, e um megassucesso acompanhado de posterior silêncio, o que sempre é algo meio suspeito. Mas basta reouvir a música e o efeito é impressionante: as estrofes são construídas apenas com uma batida sumária, um riff magérrimo de baixo tocando três vezes a mesma nota e um coro feminino discreto. O segredo da música é esse: ao mesmo tempo dar toda a liberdade possível para o cantor Cee-Lo Green, mas também aproveitar o momento da chegada do refrão para tornar o &#8220;vazio&#8221; das estrofes um elemento de contraste para os violinos e o vozeirão do cantor. Por maior superexposição que a faixa tenha tido, a economia da composição ainda hoje faz com que ela consiga o efeito desejado, e sejamos impelidos a cantar junto &#8220;Does That Make Me Crazy?&#8221; e perceber como, apesar de muita porcaria, foi uma excelente década para a música.</p>
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		<title>Melhores de 2009: Discos – Ruy Gardnier</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Dec 2009 02:51:09 +0000</pubDate>
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1. Animal Collective, Merriweather Post Pavillion
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			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/florianhecker.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3053" title="florianhecker" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/florianhecker.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>1. Animal Collective, <em>Merriweather Post Pavillion<br />
</em>Esse aí já nasceu clássico. Cada música presente nesse disco apresenta um interesse imediato e a contínua audição só faz prolongar o interesse, revelando detalhes sutis e complexidades de construção. No caso de alguns grupos, fazer seu disco &#8220;mais pop&#8221; geralmente significa que a banda foi pra vala comum da música sem personalidade. Em <em>Merriweather Post Pavillion </em>toda a acessibilidade soa mais que natural, soa como a evolução natural do som do Animal Collective. No mais, é o único disco desse ano que eu vejo moleques, daqui a vinte anos, comentando faixa a faixa e sabendo todas de cor.</p>
<p>2. Hecker, <em>Acid in the Style of David Tudor</em><br />
Primeiro você tem que aceitar o jogo: ficar com a cabeça relativamente parada entre duas caixas de som minimamente afastadas uma da outra, colocar o som bem alto e esperar para ver o que ele faz com você. Com alguma rapidez você vai perceber que aqueles barulhinhos, sejam os estalos ou as frequências acutíssimas, provocarão poderosas sensações espaciais. Ou então você ignora tudo isso e simplesmente ouve. O disco vai perder 90% de seu poder, mas ainda assim conterá algumas das estruturações sonoras mais esquisitas que já se ouviu.</p>
<p>3. Moritz Von Oswald Trio, <em>Vertical Ascent<br />
</em>Os três envolvidos na feitura desse álbum são do techno, o material é de techno, mas da estruturação do material ao nome do grupo, <em>Vertical Ascent</em> é um disco de jazz, incorporando a espacialidade do dub e os timbres minuciosamente talhados por três produtores exímios de música eletrônica.</p>
<p>4. Dan Deacon, <em>Bromst<br />
</em>Sem maiores delongas, Dan Deacon é um populista. Em seus shows, ele manipula a multidão. Suas músicas são reflexo disso. Basta surgir &#8220;Build Voice&#8221; e já vem um imperativo de cantar junto, uma música catártica que pede a adesão total do ouvinte. E os sons que ele usa? Tudo vem de imaginário de desenhos animados, ringtones, música para videogame e assim por diante. Só que Deacon é um artista, e pega algumas deixas de Conlon Nancarrow para criar uma estética da velocidade e da cultura pop contemporânea, ou seja, usa seu talento para utilizar a cultura a seu proveito, e, assim, ultrapassá-la e fornecer uma visão livre sobre ela.</p>
<p>5. Mika Vainio, <em>Aíneen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter<br />
</em>Foi um ano cheio para Mika Vainio. Além do lançamento de <em>Black Telephone of Matter</em>, teve o excelente EP <em>Vandal</em>, o disco <em>Trahnie</em>, junto com Lucio Capece, e o lançamento do disco ao vivo de seu Pan Sonic junto com o mago Keiji Haino, <em>Shall I Download a Black Hole and Offer It To You</em>. Tudo de altíssimo nível. Mas <em>Black Telephone Matter</em> supera os outros pelo inesperado e pela minuciosa burilação de timbres, preciosíssimos.</p>
<p>6. Grizzly Bear, <em>Veckatimest</em><br />
Veckatimest pode não ser o grande passo adiante que se esperava do Grizzly Bear depois de <em>Yellow House </em>e do maravilhoso disco do Department of Eagles ano passado, mas mantém com excelência o grupo num nicho de pop setentista e pop barroco em que ele se refestela. O grupo pode ter restringido o naipe sonoro do disco anterior, mas se isso era necessário para que aparecessem coisas como &#8220;Ready, Able&#8221;, &#8220;Cheerleader&#8221; e &#8220;While You Wait For the Others&#8221;, eu é que não vou reclamar&#8230;</p>
<p>7. Dirty Projectors, <em>Bitte Orca</em><br />
Dave Longstreth tem uma longa carreira e uma trajetória totalmente errática. Ele adora inventar facetas e novos approachs de composição para exercitar sua forma excêntrica de tocar guitarra – algo como um dedilhado africano sem o suíngue e as notas alongadas – e de compor de forma deconstrituva e fragmentada. <em>Bitte Orca</em> é disparado o mais próximo que ele já chegou de um disco &#8220;pop&#8221;. Mas o pop dele é coisa de cabeçudo, hipercerebral. Ainda assim, consegue atingir estados emocionais notáveis.</p>
<p>8. Fuck Buttons, <em>Tarot Sport</em><br />
E pensávamos que estaríamos preparados para o que vinha. Como <em>Street Horsssing</em>, <em>Tarot Sport </em>também se constrói como uma grande faixa única. Só que dessa vez, a abrasividade do primeiro é substituída por sintetizadores saturados e oníricos, e a batida eletrônica ganha proeminência. Andrew Weatherall na produção faz com que a gente veja Tarot Sport como uma espécie de continuação de &#8220;Soon&#8221; filtrada pelos furacões do post-rock e do noise.</p>
<p>9. Black Dice, <em>Repo</em><br />
Seguisse a deixa de &#8220;Roll Up&#8221;, o Black Dice poderia estar tranquilamente desfrutando da mesma popularidade dos Fuck Buttons hoje em dia. Mas eles não estão dispostos a se entregar assim tão fácil. Repo é fragmentado, irregular, alterna momentos de enorme pegada e de completa descontinuidade. É um disco de molecagem, mas de uma molecagem desafiadora, experimentadora, que vai no caminho oposto de saciar a percepção do ouvinte.</p>
<p>10. John Zorn, <em>Femina</em><br />
John Zorn faz discos brilhantes. E faz muitos discos. No meio de tantos, às vezes é difícil pinçar o preferido. Não é o caso esse ano. Ainda que os outros lançamentos de Zorn em 2009 tenham sua envergadura, <em>Femina </em>retoma seu método de composição em fichário e cria suntuosas paragens em que um lindo trecho eufônico de piano solo pode desaguar numa gritalhada cacofônica no momento seguinte. Jazz – alguns momentos de liberdade dados às intérpretes, todas mulheres – e composição erudita se unem de maneira impressionante.</p>
<p>11. Raekwon, <em>Only Built 4 Cuban Linx Pt. II</em><br />
O disco de hip-hop do ano. Muita responsabilidade de Raekwon para retomar a mitologia de seu primeiro disco solo, lançado no ápice do fenômeno Wu-Tang Clan, justamente na época em que o legado do Wu-Tang só vinha sendo mantido com autoridade por Ghostface (Killah). O disco não apresenta grandes mudanças em relação à estética Wu-Tang, com samples de filmes de kung-fu, bases cheias de pressão, vocais impregnados de ameaça e letras sobre submundo. Mas <em>Only Built 4 Cuban Linx Pt. II </em>vibra de forma impressionante.</p>
<p>12. The Field, <em>Yesterday and Today</em><br />
Axel Willner poderia muito bem refazer <em>From Here We Go Sublime</em>. Era o que todo mundo queria. Quatro medidas de um loop, quatro medidas de outro, assim por diante, até desaguar em outros padrões semelhantes, sempre muito melódicos, sempre elegantemente montados para não serem fáceis demais, sempre levando a uma tensão com liberação de energia no momento seguinte. Ele fez tudo isso, mas também fez mais, compondo em progressão, bebendo da disco e dos grooves de baixo, chamando Lindstrom e Four Tet pra brincadeira, e além disso incorporando instrumentos tocados.</p>
<p>13. Caetano Veloso, <em>Zii e zie</em><br />
Adorei quando soube que Caetano Veloso tocaria com Pedro Sá e jovens músicos da cena rock carioca, buscando um som mais coeso e com pressão. Mas, ao contrário da maioria, não vibrei com <em>Cê</em>. As composições pareciam travadas, monotemáticas e principalmente a dinâmica do grupo ainda parecia carecer de mais unidade e convivência. <em>Zii e zie </em>responde a tudo isso: é um disco solar, com incrível poder de coesão nos arranjos e que mostram um Caetano exercendo seu lirismo em meio à solidão e a aventuras de recém solteiro.</p>
<p>14. Kevin Drumm, <em>Imperial Horizon</em><br />
Metaleiro noise, interventor da guitarra na tradição fennesz-ambarchiana, Kevin Drumm foi do vandalismo sônico de <em>Sheer Hellish Miasma </em>para a contemplativa observação sobre vida e morte que é <em>Imperial Distortion</em>, ocasionando uma das guinadas de carreira mais surpreendentes da década. <em>Imperial Horizon </em>mantém – imagina-se já pelo título – o trabalho com frequências e modulações do disco anterior, mase se engana quem acha que é só mais do mesmo. O trabalho com variações Imperial Horizon executa muito mais variações, e o sublime trabalho de camadas consegue criar um som denso e rico, talvez menos soturno que o trabalho anterior de Drumm, mas tão potente quanto.</p>
<p>15. 2562, <em>Unbalance</em><br />
<em>Great Lengths</em>, de Martyn, é um disco muito bom. Tem até, se excluirmos &#8220;Unbalance&#8221;, algumas faixas superiores às de Unbalance, como &#8220;Vancouver&#8221; e &#8220;Natural Selection&#8221; (lançadas anteriormente em 12&#8221;, mas pouco importa). O que faz, então, de Unbalance, um disco necessário num top 20 ao passo que o de Martyn é um daqueles que no máximo ganham menção honrosa? A palavra é foco: <em>Unbalance </em>faz alguns desvios de caminho, mas todos soam apropriados e perfeitos para &#8220;contar uma historinha&#8221; na progressão das faixas. Dave Huismans também não se deixa levar por subjetivismos, popismos ou interlúdios etéreos: sabe que funciona como máquina rítmica, e faz isso incrivelmente bem.</p>
<p>16. Shackleton, <em>Three EPs</em><br />
Mais um assombroso ano para Sam Shackleton, entre remixes, lançamentos conjuntos e solo. Esse disco colige três disquinhos no formato de preferência do produtor, com mais timbres percussivos de outro mundo organizados de forma a criar ritmos intrincados e soberanamente belos, enquanto linhas melódicas e graves pulsantes fazem sua evolução. <em>Three EPs</em> também mostra – em especial no segundo disquinho – que o trabalho conjunto com o Mordant Music rendeu frutos inesperados porém promissores.</p>
<p>17. Keith Fullerton Whitman, <em>Dream House Variations</em><br />
As instruções para esse disco são quase proibitivas. Quatro cassetes de durações diferentes, para serem executados simultaneamente, e de preferência ad infinitum de modo que as combinações de fita da primeira audição serão diferentes da segunda, da terceira, da quarta e assim por diante. As fontes sonoras têm que ficar nos extremos da sala e o ouvinte no meio. Só assim a gente entende o que é a &#8220;casa dos sonhos&#8221; projetada por Keith Fullerton Whitman, um paraíso em que o ruído ambiente circundante é composto de drones, glitches e ruídos brancos deliciosos de ter como &#8220;mundo circundante&#8221;.</p>
<p>18. Romulo Fróes, <em>No Chão Sem o Chão</em><br />
Pode-se até ser prudente e dizer que o disco tem momentos irregulares e duração excessiva. Mas No Chão Sem o Chão deve ser amado do jeito que é, como trabalho de um compositor multifacetado e talentoso que preferiu não escolher faceta e mostrou-se por inteiro, do rock à MPB de mulherzinha. Feliz de quem entra no jogo, porque vai usufruir de belíssimas composições e petardos como &#8220;A Anti-Musa&#8221;, &#8220;Qualquer Coisa em Você Mulher&#8221;, &#8220;Anjo&#8221;, &#8220;Mochila&#8221;, etc.</p>
<p>19. Leyland Kirby, <em>Sadly, The Future Is No Longer What It Was</em><br />
Quem além de jornalista especializado e estudante universitário tem tempo de ouvir um cd triplo? Eu, depois do dia 23 de dezembro. E, de fato, é preciso tempo para entrar no mundo tortuoso de Leyland Kirby, em que a gente percebe um poder dramático das notas de piano reminiscente de Angelo Badalamenti, um poder de tensão do silêncio evocativo de Erik Satie, um artesanato ambient que vai direto até Brian Eno mas acima de tudo uma capacidade de dar à música um poder espectral – já observado por quem conhece seu trabalho como The Caretaker – que faz com que ela pareça ser de tempos imemoriais&#8230; Com mais tempo de disco, talvez ele galgasse diversas posições para cima.</p>
<p>20. Lightning Bolt, <em>Earthly Delights</em><br />
Reis da pegada, Brian Gibson e Brian Chippendale mais uma vez nos entregam um disco cheio de pressão, nervoso, daqueles que lavam a alma de qualquer um que goste de rock tocado com energia e intensidade. Adoraria colocar mais alguns disquinhos na lista, como OOIOO, Acid Mothers Temple, Harappian Night Recordings, os dois de William Basinksi, <em>Kantarell </em>do Spunk, mas 20 é 20 e o Lightning Bolt fica fielmente representando esses que não foram citados.</p>
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		<title>Melhores de 2009: Músicas – Ruy Gardnier</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Dec 2009 22:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>corazondiablo</dc:creator>
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1. Animal Collective “Brother Sport”
&#8230;conforme já mencionávamos em dezembro de 2008, quando a versão de estúdio vazou através de um podcast. Quem saiu no meio do show do Animal Collective no Planeta Terra pra ver Jesus &#38; Mary Chain deve ter passado o ano inteiro se culpando. Afro-samba-rave-zabumba, “Brother Sport” é a síntese perfeita de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=3021&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/animalcollective2009.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3022" title="animalcollective2009" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/animalcollective2009.jpg?w=450&#038;h=300" alt="" width="450" height="300" /></a></p>
<p>1. Animal Collective “Brother Sport”<br />
&#8230;conforme já mencionávamos em dezembro de 2008, quando a versão de estúdio vazou através de um podcast. Quem saiu no meio do show do Animal Collective no Planeta Terra pra ver Jesus &amp; Mary Chain deve ter passado o ano inteiro se culpando. Afro-samba-rave-zabumba, “Brother Sport” é a síntese perfeita de uma banda no ápice do artesanato pop e com as antenas ligadas tanto no futuro quanto na diversidade da geografia terrestre.</p>
<p>2. Blue Daisy “Space Ex”<br />
Boa parte de 2009 na eletrônica britânica foi passada tentando digerir/diluir/fundir Burial e Flying Lotus. Hud Mo, Nosaj Thing, Paul White e Ras G sucumbiram às expectativas. Quem conseguiu não só sintetizar o sentimento do primeiro e a propriedade dos beats letárgicos do segundo foi Blue Daisy, arrasa-quarteirão vindo de lugar nenhum. Trilha sonora para sonhos acordados.</p>
<p>3. Grizzly Bear “Cheerleader”<br />
Dou o braço a torcer quanto a “Ready, Able”, que não elogiei suficientemente na crítica. Mas as vocalizações do refrão e sobretudo o falsete que canta “nothing changing” são emocionalmente devastadores e incansáveis. Existe um clima de softpop anos 70 e 80, mas com uma energia vulcânica traduzida em termos de ternura à Beach Boys.</p>
<p>4. Os Mutantes “Teclar”<br />
A prova incontestável de que essa volta dos Mutantes é legítima, a despeito das inúmeras críticas dos fãs que suspeitaram da má-fé de Sérgio Dias. “Querida Querida” pode querer posar, mas “Teclar” é puro sentimento, uma voz incrível, uma soberba tensão estrofe-refrão e a lição pra esses moleques que ficam tentando soar <em>vintage</em> e apenas soam <em>fake</em>.</p>
<p>5. Dan Deacon “Snookered”<br />
“Build Voice” e “Padding Ghost” podem ser as mais imediatas de <em>Bromst</em>, mas é em “Snookered” que Dan Deacon se revela por inteiro, da meticulosidade e pureza dos timbres na parte inicial à maneira como a música entra num crescendo absurdo até a catarse de colagem eletropunk.</p>
<p>6. Sonic Youth “Massage the History”<br />
O Sonic Youth continua se reinventando, a gente que não percebe&#8230; porque está ali entre as últimas faixas. Já foi assim com “I Love You Golden Blue” em <em>Sonic  Nurse</em>, é assim em <em>The Eternal</em>: eles deixam o melhor pro final, com um arranjo lindo de violões, Kim Gordon vulnerável e em total estado de graça, e dez minutos de atmosferas e segmentos em progressão. Uma pena que não tocaram no show em  São Paulo.</p>
<p>7. Black Dice “Chocolate Chery”<br />
Eles são a única banda transitando pelo meio noise/colagem que pode fazer um single com nome de doce e não ser babaca, porque é totalmente apropriado. <em>Repo </em>é um ótimo disco, mas é “Chocolate Cherry”, do EP homônimo de dez minutos, que fica no coração.</p>
<p>8. Joker &amp; Ginz “Purple City”<br />
O ano foi do Joker. Ele já tinha feito um dos singles decisivos de 2008, “Gully Brook Lane”. Se em 2009 ele não chegou a superar essa faixa, ao menos soube construir uma identidade com ridiculamente pouco (o timbre específico de sintetizador, uma forma própria de criar melodias ganchudas com ele, a batida hip-hop com bateria eletrônica <em>vintage</em>) e fez com Ginz seu single definitivamente mais acessível e suingado, “Purple City”. Foi mal, mas no wonky só teve pra ele.</p>
<p>9. Dirty Projectors “Stillness Is the Move”<br />
Parte do interesse do Dirty Projectors é essa operação mórbida de desconstruir as coisas em matéria “inorgânica”, como com o Black Flag (o disco <em>Rise Above</em>)  ou a Nico (“Two Doves”). Com “Stillness Is the Move”, a desconstrução básica é com o hit de R&amp;B. Agora, mais do que uma tiração de sarro, “Stillness&#8230;” soa como um r&amp;b cubista, desenraizando clichês e criando linhas melódicas tão bonitas quanto bizarras.</p>
<p>10. Raekwon “10 Bricks”<br />
DOOM mandou bem esse ano, Busdriver também mostrou a que veio, mas se Raekwon não tivesse lançado <em>Only Built 4 Cuban Linx II</em>, esse teria sido mais um ano a desejar em matéria de hip-hop. Mas esse disco redime o gênero inteiro, e “10 Bricks”, com sua irritante nota estridente de guitarra, com o conjunto de metais resolvendo melodicamente as tensões, e com as vozes nervosíssimas de Raekwon, Ghostface e Cappadonna, é seu mais perfeito exemplo.</p>
<p>11. Caetano Veloso “Perdeu”<br />
Há uma terrível indecisão, o voto bem podia ir para “A Cor Amarela”, seu swing irretocável, o lirismo sacana-refinado, os espectros de uma música de festa que o Brasil não faz mais (bem). Mas “Perdeu” é absoluta pela solenidade do canto, pela estrutura da letra, pela concreção do arranjo. E a catarse: um fabuloso solo de guitarra ríspida e barulhenta, depois a frase “O sol se pôs depois nasceu e nada aconteceu”.</p>
<p>12. Animal Collective “Lion in a Coma”<br />
A segunda escolha reflete a força que <em>Merriweather Post Pavillion </em>teve esse ano. Pelas listas dos outros, não foi a mais óbvia: todo mundo colocou “My Girls”, alguns foram com “Summertime Clothes”, e mesmo eu colocaria em pé e igualdade “Daily Routine”. Mas com os sonzinhos de digeridoo que abrem a faixa, com o hipnótico andamento e a poderosa ação de Avey Tare no vocal, é essa que leva. Com larga vantagem, diga-se.</p>
<p>13. Dorian Concept “Trilingual Dance Sexperience”<br />
Nem dá pra acreditar que essa música existe. Aposto que o interesse dela se esgota logo, logo. Mas ela funciona como a onda de uma boa droga. Enquanto você está nela, é a coisa mais deliciosa do mundo. E pensar que o Zomby precisou de um disco inteiro ano passado pra fazer o que o Dorian Concept sintetizou em três minutos.</p>
<p>14. Fennesz + Sparklehorse “Goodnight Sweetheart”<br />
Agradeço infinitamente o selo In the Fishtank ter juntado Christian Fennesz com Sparklehorse para fazer um disco. Não que Sparklehorse seja genial – não mesmo. Mas pelo menos ele deu a chance a Fennesz de criar uma balada e arranjá-la com sua guitarra cheia de efeito, psicodélica, aqui nada abrasiva ou cerebral. Fennesz nessa faixa é pura emoção e feeling, enquanto Sparklehorse vai na toada que dá nome à faixa.</p>
<p>15. Fulgeance “Smartbanging”<br />
A paradinha no fim da batida é aquilo que torna totalmente legítimo o título da faixa e dá a ela um suíngue realmente envolvente. Mas Fulgeance não fez só isso: esse produtor francês soube unir apropriadamente a vibe disco dos últimos anos com os sintetizadores e os andamentos mais lentos dos britânicos que bebem em  hip-hop. O resultado é uma faixa matadora.</p>
<p>16. 2562 “Unbalance”<br />
Tudo levava a crer que 2009 seria a consolidação e o domínio dos produtores de dubstep que flertavam com tempos rápidos e inseriam a elegância do techno à equação estilística. Mas ao final de 2008 a house voltou com força e, funky or not, arregimentou as atenções dos novos produtores. Maior exemplo? “Hyph Mngo”. O set de Martyn já vai longe do dubstep. Quem fica? 2562, que pode ter ampliado seu repertório mas ainda consegue fazer coisas totalmente arrebatadoras, fragmentadas e imaginativas como “Unbalance”</p>
<p>17. Fuck Buttons “The Lisbon Maru”<br />
Podem dizer que é fácil – sob certo aspecto, é mesmo. Podem dizer que é uma mistura de muita coisa que a gente já viu. Até é, mas o tempero tem personalidade e os ingredientes são minuciosamente escolhidos. No mais, quem diria que em 2009 um disco de shoegaze eletrônico ainda teria tamanho poder catártico e uma simples passagem de acordes teria efeitos tão épicos?</p>
<p>18. Romulo Fróes “Anjo”<br />
Talvez o momento que tenha mais ficado na minha cabeça de <em>No Chão Sem o Chão </em>seja o refrão de “Mochila”. Mas “Anjo” foi a música que se esperava do rock esse ano e que não veio. De fora. Pratos quebrando, guitarra abrasiva enchendo o som, belos timbres e a voz de Fróes, quase apenas declamada, que fecha a tampa dando uma intensa sensação do irremediável.</p>
<p>19. Vindicatrix “Private Places (Shackleton &amp; Mordant Music Mix)”<br />
Esse remix, naturalmente, não é a escolha natural para representar a importância de Shackleton em 2009. Nesse ano, ele lançou o disco <em>3 EPs</em>, split com Invasion e teve algumas faixas suas lançadas em <em> Picking O’er the Bones</em>. O remix de “Private Places” é desse último, colaboração a quatro mãos com Brian Mordant, e é uma nuvem de reverb como você nunca viu Shackleton fazendo.</p>
<p>20. Cluster “Na Ernel”<br />
<em>Qua </em>pode não ter sido o grande disco que se esperava da volta de Moebius &amp; Roedelius, mas carregava algumas grandes músicas. “Na Ernel” é talvez a mais possante delas, com programação percussiva de quebrar a cabeça, e aquela minúcia na pesquisa de timbres que se espera deles.</p>
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		<title>Itiberê Orquestra Família &#8211; Contrastes (2009; Sala de Som, Brasil)</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Dec 2009 02:35:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>corazondiablo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
A Itiberê Orquestra Família nasceu em 1999, com o encontro de Itiberê Zwarg com os primeiros músicos de sua Oficina de Música Universal, oferecida de forma permanente nos Seminários de Música Pro Arte. O projeto decolou quando Itiberê, músico de longa data da banda de Hermeto Pascoal, se motivou com a idéia de criar uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2985&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/itiberecontrastes.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2986" title="itiberecontrastes" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/itiberecontrastes.jpg?w=302&#038;h=300" alt="" width="302" height="300" /></a></p>
<p>A Itiberê Orquestra Família nasceu em 1999, com o encontro de Itiberê Zwarg com os primeiros músicos de sua Oficina de Música Universal, oferecida de forma permanente nos Seminários de Música Pro Arte. O projeto decolou quando Itiberê, músico de longa data da banda de Hermeto Pascoal, se motivou com a idéia de criar uma orquestra de música popular com instrumentistas jovens e engajados. O primeiro disco, <em>Pedra do Espia</em>, foi lançado em 2001. O segundo álbum da orquestra é <em>Calendário do Som</em>, de 2005, com arranjos originais para algumas das composições do livro homônimo de Hermeto, com músicas para cada dia do ano. <em>Contrastes </em>foi lançado em setembro e é o terceiro disco do grupo, que hoje conta com 16 membros (RG)</p>
<p>* # *</p>
<p>Contrastes: boa palavra pra começar a se falar do imaginário sonoro de Hermeto Pascoal e da relação que esse artista tão original tem com a música. Contrastes do andamento, sempre mutante, contrastes dos jogos entre tradição e modernidade na tradição instrumental brasileira, contrastes no jogo de incorporações de influências estrangeiras dentro de um vocabulário marcadamente dentro dos gêneros, arranjos e formas de composição nascidos no Brasil. Mas Hermeto nunca tomou os contrastes com pontos totais de ruptura, nunca fez deles o uso marcadamente abrasivo das vanguardas históricas que desejavam construir tudo de novo a partir do zero. Contraste, no mundo de Hermeto, surge junto com complementaridade, como adição e transformação dentro da tradição. O fundamental é a liberdade para inventar e para, através da música, criar instantes repletos de vivacidade e êxtase. O contraste que brota daí não é tanto entre velho e novo, mas entre o lirismo das melodias tradicionais e os arroubos de energia que fazem variar freneticamente os andamentos, que provocam o estranhamento pela descontinuidade ou pelos prosseguimentos inusitados das composições – certamente o traço musical que lhe deu esse estigma de mago, de gênio maluco. Como bom herdeiro confesso, Itiberê Zwarg soube manter essa preciosa dinâmica de contraste e complementaridade, criando uma efusiva orquestra que toca sempre com esse espírito de celebração ritualística da música como instauração. Itiberê sabe do intenso poder enraizado dos gêneros populares e ancestrais, dos efeitos dos fraseados tradicionais – mas também sabe de como eles se prestam a instalar tranquilamente o ouvinte e prepará-lo para viagens mais ousadas pelo universo da composição. Contrastes.</p>
<p>O fato de esse disco se chamar <em>Contrastes</em> – nada a ver com a música de Ismael Silva ou com o disco de Jards Macalé –, também parece dizer respeito às potencialidades da orquestra e de compor para ela. Com um grupo de 16 músicos é possível criar tensões entre naipes de instrumentos, criar jogos entre sopros e cordas, por exemplo, ou isolar cada célula e explorar suas potencialidades. O disco começa com a matadora &#8220;Interiores&#8221;, que sintetiza a aventura da orquestra: a melodia-guia é levada por diversos jogos de instrumentos, o andamento vai bruscamente do festivo ao pastoral e para lá de volta, com uma enorme energia lúdica que jamais mina a coerência interna. Aqueles que adoram a estética desordem-do-déficit-de-atenção de algumas das composições de Hermeto vão adorar – no entanto, é necessário a todo tempo manter a atenção e ver como se vai de samba a banda de coreto a bossa a viola nordestina a balada etc.  Em seguida o disco parte para uma estatégia analítica, decompondo partes da orquestra: &#8220;Clássico Romântico Moderno&#8221; é uma composição unicamente para instrumentos de cordas tangidas, &#8220;Depois da Arrebentação&#8221; é para flauta transversa e piano e &#8220;Batera&#8221;, já diz o nome, é exclusivamente para bateria. Mais adiante, &#8220;Flora Lis&#8221; (para saxes e trombone), &#8220;Na Calada da Noite&#8221; (piano, baixo e bateria) e &#8220;Já Fui&#8221; (flautas) exploram as potencialidades de partes separadas do grupo, com inspirados momentos líricos. Mas é nas peças de conjunto – o forte do grupo, ontem e hoje – que Contrastes alça voos maiores, com destaque para &#8220;É Pra Você, Arismar&#8221;, homenagem a Arismar do Espírito Santo, e principalmente &#8220;Feitinha pra Nós&#8221;, composição de Hermeto Pascoal (o resto é assinado pelo próprio Itiberê, tanto composição quanto arranjos).</p>
<p>Dos três discos da Itiberê Orquestra Família, <em>Contrastes </em>parece ser o mais pensado como álbum e não como coleção de faixas. Há um verdadeiro senso de respiro na passagem das faixas, que torna a audição pronunciadamente mais fluida do que nos discos anteriores. O disco ainda não reproduz a intensa pressão da orquestra ao vivo – a fisicalidade da execução, o que talvez só um disco ao vivo consiga trazer. Mas pouco importa: depois de quatro anos de espera, novamente podemos desfrutar de treze (onze do CD mais duas baixáveis no <a href="http://www.itibereorquestrafamilia.com.br/">site da banda</a>) inéditas e deliciosas faixas de Itiberê Zwarg e sua jovem trupe. É revigorante saber que se o Rio de Janeiro não vem criando uma nova cena na música instrumental (exceto improv) como a de São Paulo – de Hurtmold, do Guizado e do São Paulo Underground –, ao menos a poderosíssima linhagem de Hermeto permanece viva e cheia de vitalidade. (Ruy Gardnier)</p>
<p>* # *</p>
<p>Árdua tarefa a de argumentar os pormenores que fazem de <em>Contrastes</em> e de Itiberê Orquestra Família um dos fatos musicais mais relevantes, arrojados e, por quê não, simpáticos desta década. Isto porque não há nenhum argumento afinado com o que há de mais relevante e arrojado feito na música instrumental desta década, de forma que o título &#8220;contrastes&#8221; vem bem a calhar&#8230; Tentarei portanto enumerar pelo menos alguns destes pormenores e indicar porque considero <em>Contrastes</em> o melhor álbum gravado por artistas brasileiros em 2009.</p>
<p><em>Contrastes</em> pode ser considerado, a sua maneira, como um álbum extremamente relevante e arrojado por motivos muito próprios e que apelam diretamente a uma percepção do fenômeno musical que particularmente me interessa cada vez menos. Ocorre que Itiberê Orquestra Família aposta em uma sonoridade que do ponto de vista timbrístico não acrescenta em absolutamente nada à enxurrada de possibilidades disponíveis hoje; pela mesma via, não percebe-se também sons eletrônicos, overdubs demasiado evidentes, espacializações (a não ser na utilização parcimoniosa de efeitos de estéreo) nem outras modas que podemos ouvir por aí&#8230; E no entanto, apesar de respeitosamente manter intacta a unidade de ritmo, melodia e arranjo, bem como dos timbres dos instrumentos, o álbum transpira vivacidade, novidade, vanguarda&#8230; Alguém poderá argumentar que este aspecto de vanguarda adveio da contribuição inequívoca do gênio de Hermeto Pascoal, o que não deixa de ser verdade&#8230; Mas até aí morreu Neves, pois se os instrumentos são respeitados em sua unidade sonora e as composições não incluem nada mais do que ritmo, harmonia e melodia, isto de modo algum interdita a criatividade incisiva e, ao mesmo tempo, graciosa das composições. Em primeiro lugar, <em>Contrastes</em> é um discaço porque materializa uma música originalíssima, construída no entanto com o material puído do jazz e da música instrumental. Essa contradição constitui um de seus trunfos, sem dúvida.</p>
<p>Igualmente relevantes são os aspectos próprios da composição, que se por um lado evidenciam os &#8220;hermetismos pascoais&#8221;, por outro dá um novo sentido ao seu método em pelo menos em dois aspectos. Primeiro, como paroxismo das variações e, como contrapartida, em um decréscimo da margem de improviso, o que contraria decisivamente o senso comum segundo o qual a música de Hermeto seria &#8220;livre&#8221;. Itiberê torna ainda mais preciso e rebuscado o método de composição, sem prejuízo no entanto da leveza e da agilidade das faixas &#8211; como comprova a sucessão vertiginosa de ritmos, climas e dinâmicas, bem como a criação de tensões entre sonoridades diferentes que se pode observar já na primeira faixa, &#8220;Contrastes&#8221;. O segundo aspecto decorre desse: desta vez o grupo optou por criar um espectro de possibilidades consideravelmente maior que nos discos anteriores, incluindo desde faixas com franco sotaque erudito (&#8220;Clássico Romântico Moderno&#8221; e &#8220;Atualidades&#8221;) até um solo de bateria que explora de forma prodigiosa os diversos timbres dos pratos e tambores (em &#8220;Batera&#8221;).</p>
<p>Por fim, eu destacaria o desempenho excepcional dos instrumentistas da banda. É de uma exuberância compatível com os melhores quadros da música instrumental brasileira, levando em consideração desde o choro até o new fusion dos anos 80. E duas performances eu diria que merecem destaque: &#8220;É pra você, Arismar&#8221; e a composição de Hermeto Pascoal sugestivamente batizada &#8220;Feitinha pra nós&#8221;. Na primeira, um samba-jazz-choro-baião (ufa!) misturado como convém, brilhantes são o modo enfático com que eles levam a faixa e, sobretudo, como a terminam com uma dinâmica inusitada. Com relação à faixa de Hermeto, eu gostaria muito de tomar ciência dos pormenores da composição e da gravação, pois fica muito difícil distinguir o que é improvisado, o que é escrito: o inacreditável arranjo de sopros sobre o pandeiro polirítmico, depois a transição para um ritmo que eu não saberia denominar, que por sua vez se transforma em um samba, depois em um baião, ambos executados com maestria. Lá pelo quinto minuto, um trecho marcadamente percussivo, com utilização rítmica das cordas, que se transforma em uma textura com sotaque de música latina e abre para uma série inacreditável de temas até eclodir no ápice dissonante. Peço desculpas ao leitor pelo tom &#8220;empolgado&#8221;, mas é que <em>Contrastes</em> é isso aí mesmo, empolgante, emocionante e capaz de tirar o fôlego do ouvinte.</p>
<p>Para finalizar, é possível repetir o que escrevi a respeito do Itiberê Orquestra Família na <a id="yb08" title="crítica" href="../2008/07/27/itibere-orquestra-familia-pedra-do-espia-2001-jam-music-brasil/">crítica</a> relativa ao álbum <em>Pedra do Espia</em>: trata-se de um aprimoramento de técnicas de composição desenvolvidas por Hermeto Pascoal, o que pode sugerir ao ouvinte que a musicalidade do grupo presta homenagens ou algo que o valha. Mas se antes este trabalho primava por uma disciplina rigorosa, que poderia induzir a um equívoco de avaliação, hoje pode ser definido como um posto avançado e, agora sim, &#8220;livre&#8221; de uma linhagem inaugurada pelo mestre. <em>Contrastes</em> é com certeza um atestado de maturidade e autonomia previsto e esperado, mas que ainda assim ressoa vigorosamente no cenário da música instrumental contemporânea. Um disco fenomenal de um grupo que há tempos vem mostrando a que veio. (Bernardo Oliveira)</p>
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		<title>Orthrelm &#8211; OV (2005; Ipecac, EUA)</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Dec 2009 15:24:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>corazondiablo</dc:creator>
				<category><![CDATA[experimental]]></category>
		<category><![CDATA[heavy metal]]></category>
		<category><![CDATA[Ipecac]]></category>
		<category><![CDATA[Josh Blair]]></category>
		<category><![CDATA[Mick Barr]]></category>
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		<category><![CDATA[OV]]></category>

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Orthrelm é uma dupla composta por Mick Barr (guitarra) e Josh Blair (bateria), formada no começo dos anos 2000 em Washington D.C., EUA. Com timbres de heavy metal – em especial grindcore e thrash – e estratégias de comp0sição absolutamente inusitadas para o gênero, o Orthrelm desde cedo chamou atenção como banda de metal experimental. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2979&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
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<p>Orthrelm é uma dupla composta por Mick Barr (guitarra) e Josh Blair (bateria), formada no começo dos anos 2000 em Washington D.C., EUA. Com timbres de heavy metal – em especial grindcore e thrash – e estratégias de comp0sição absolutamente inusitadas para o gênero, o Orthrelm desde cedo chamou atenção como banda de metal experimental. O primeiro disco do grupo, <em>Iorxhscimtor </em>(2001), tinha 12 faixas em 16 minutos. <em>Asristir Veildrioxe </em>(2002) continha 99 faixas em 13 minutos de duração. <em>OV</em>, primeiro lançamento do duo que tem a duração convencional de um álbum, é constituído de uma única faixa de 45min. O guitarrista Mick Barr, além de ter tocado com diversos projetos (Crom-Tech, Krallice, Flying Luttenbachers), desenvolve carreira solo tocando como Octis ou Ocrilim. Em 2008 foi lançado o DVD duplo <em>Mick Barr</em>, com entrevistas e apresentações do guitarrista sozinho e com o Orthrelm. (RG)</p>
<p>* # *</p>
<p>Power rock – Passados os primeiros perturbadores minutos da audição de OV, em que se descobre o denso <em>tour de force </em>que será necessário a completar a duração do disco, o que chama atenção é a intensa atividade física dos músicos para desenvolver seus volteios laboriosos, uma atividade que pesa em intensidade sônica o que se perde (ou estima-se perder) em suor, como o King Crimson tocando <em>Red</em> (ou &#8220;Fracture&#8221;) ou bandas como Lightning Bolt. A bateria de Josh Blair castiga os tontons em levadas que mais parecem viradas de bateria enquanto a guitarra de Mick Barr aparece com seus agudos insistentes enquanto enche o fundo com uma espécie de ruído de fundo possivelmente proveniente das cordas de cima. A velocidade é estonteante, mas o que mais cativa é que eles não estão tocando naquela velocidade simplesmente porque podem, como uma demonstração vulgar de técnica. É óbvio que Blair e Barr são virtuosos. Em <em>OV</em>, no entanto, o que importa não é mostrar técnica mas utilizar-se da técnica para fazer o ouvinte chegar a algum tipo de emoção.</p>
<p>Minimalismo – Boa parte da graça é que as ideias de repetição, variação dentro da repetição e ilusão perceptiva advinda dos dispositivos de atenção, típicos do minimalismo, são utilizados não com uma paleta sonora de orquestra ou conjunto de câmara, mas com guitarra e bateria tocando motivos indelevelmente ligados ao imaginário do heavy metal mais extremo, e mesmo com um feeling de metal e com as preocupações do gênero (a sensação de peso, de massa sonora, poder etc.). <em>OV </em>pode ser descrito basicamente como uma sequência de loops curtos com fraseados de metal repetidos à exaustão, indo muito além do que alguém consegue tolerar por &#8220;prazer&#8221;. Cada &#8220;loop&#8221; – e aqui se utiliza loop entre aspas porque tudo no disco é efetivamente tocado pelos músicos – acaba com uma virada de bateria sumária que deságua em outro loop, igualmente repetido à exaustão. Alguns duram muito mais que outros, o que inclusive acaba com o senso de previsibilidade que uma composição de 45min teria se o número de compassos pra cada loop fosse o mesmo.</p>
<p>Metal – Naturalmente, <em>OV </em>é um disco de metal. O conceito do disco rouba do ouvinte, decerto, algumas das maiores recompensas do gênero, como a progressão melódica e a experiência catártica (de esperar a música chegar ao refrão, ao solo, à parte mais intensamente emocional da composição). Mas se metal tem a ver com incutir medo no ouvinte, <em>OV </em>é tranquilamente um disco do gênero – ainda que lateralmente. Cada vez que um &#8220;loop&#8221; sucede a outro, é inevitável a sensação de que algo se libertou, para novamente ficar preso de novo. como a ala de um labirinto que, ao invés de dar na saída, dá apenas em outra ala. Parte da intensa sensação de ouvir <em>OV </em>é essa angústia de um peso que não é liberado nunca, sustentado por toda a inteireza da faixa. Outra maneira de descrever o disco, não sem certa ironia, é imaginar um cd de thrash metal arranhado com o player repetindo trocentas vezes um microtrecho para em seguida passar para outro microtrecho e assim por diante.</p>
<p>Noise – <em>OV </em>não é um disco de noise, mas ele carrega no coração de seu conceito uma estratégia que inevitavelmente vai se relacionar com a ideia de barulho. Se barulho é excesso anti-código e não-assimilável pelo código – pois, se é assimilado, já passa a ser sema, já passa a conter algum tipo de sentido incorporado ao código –, o momento de cada &#8220;loop&#8221; em que a repetição começa a exaurir a percepção do ouvinte, em que ele se sente esmagado pela repetição, é o começo que aquelas notas perfeitamente definíveis e até então interpretadas como código passam repentinamente a agir como ruído disruptor, pura violência que não serve a qualquer propósito produtivo. Apenas mais uma ala no labirinto de sons&#8230;</p>
<p><em>OV</em> é um disco único, uma dessas audições inesquecíveis que começam pelo inusitado e terminam com um rico complexo de emoções. É um disco conceitual perfeito, com aplicação perfeita e execução perfeita. E ainda que ele tenha o metal como ponto de partida, ele consegue cruzar vários outros gêneros – além dos já citados tem o free improv de um Ruins, por exemplo – e, lembrando vários, não ser exatamente nenhum. É <em>OV</em>, como <em>AMMusic</em> é <em>AMMusic</em>. (Ruy Gardnier)</p>
<p>* # *</p>
<p>Garanto ao leitor que é impossível permanecer indiferente à série de modulações que pontuam os 45 minutos de <em>OV</em>, terceiro álbum do Orthrelm. E digo isso em relação a todo tipo de ouvinte, desde os mais irritadiços aos curiosos de plantão, empáticos ou não aos gêneros explorados pela dupla Mike Barr e Josh Blair. E de minha parte devo dizer que não há muito como escapar a esse tom hiperbólico quando tratamos de um álbum composto por uma só faixa que perfaz inflexões do noise ao metal, passando pelo minimalismo de La Monte Young e Steve Reich com riqueza de detalhes, absoluta coesão e disciplina. A idéia é obter um continuum musical a partir de texturizações e repetições retiradas do universo destacado acima, embora se possa afirmar que o metal é o elemento mais pronunciado. Às vezes para fazer valer uma idéia musical à risca a disciplina é não só um importante pré-requisito como também uma espécie de motor criativo que condiciona a composição. Assim, em meio a aparente balbúrdia sonora de <em>OV</em>, surpreendem os detalhes que aos poucos fornecem dicas preciosas para a fruição deste que não é propriamente um álbum de fácil desgustação. São as sutilezas presentes na utilização dos pratos de bateria, nas melodias aparentemente repetitivas cujas diferenças se manifestam somente na segunda ou terceira audições, no esmero e inteligência empregados na criação das texturas, como por exemplo a da abertura ou a dos tambores, mais para o fim. Porém, para além da qualidade e inventividade na execução existe o aspecto formal, trunfo de <em>OV</em>. Em outras palavras, é o modo como Barr e Blair recontextualizam os clichês de gêneros como o metal, o noise e o hard rock. Mas o que sobressai é este item curioso chamado minimalismo. Pois o que &#8220;desenraíza&#8221; o clichê do seu contexto originário é a repetição de células que tinham outro significado em seu território original. Assim, uma virada de bateria acompanhada por um solo de guitarra hiperveloz, que poderia perfeitamente passar por uma convenção metaleira, é recortado e reprocessado por uma interpretação que talha aos poucos uma malha instrumental arrebatadora. Neste sentido, <em>OV</em> congraça habilidade técnica excepcional com uma perepção estética aguçada e impressionante, atípica na seara do metal. Simplesmente matador. (Bernardo Oliveira)</p>
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		<title>Dorian Concept &#8211; &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; (2009; Affine, Áustria)</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Dec 2009 23:54:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>corazondiablo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Dorian Concept]]></category>
		<category><![CDATA[Trilingual Dance Sexperience]]></category>

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Adivinha com que música Martyn termina o mix que fez pra Fabric, o tão antecipado Fabric 50? Pois é. &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; é uma dessas faixas que não permitem muito que venha algo depois. É a culminação do trabalho de um produtor que desde 2005 flerta com IDM, house climático, downtempo e ultimamente wonky. Mas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2974&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/dorianconcept.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2975" title="dorianconcept" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/dorianconcept.jpg?w=446&#038;h=300" alt="" width="446" height="300" /></a></p>
<p>Adivinha com que música Martyn termina o mix que fez pra Fabric, o tão antecipado <em>Fabric 50</em>? Pois é. &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; é uma dessas faixas que não permitem muito que venha algo depois. É a culminação do trabalho de um produtor que desde 2005 flerta com IDM, house climático, downtempo e ultimamente wonky. Mas ainda que haja em seu trabalho pregresso um bom grau de peculiaridade – em especial as quebras rítmicas –, os ganchos são sempre bem óbvios, os blip-blips apelativos e/ou irritantes e o som não apresenta nenhuma característica mais distintiva. Aí aparece em agosto &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221;, uma faixa que parece a síntese de tanta coisa heterogênea da história da eletrônica britânica que a gente até desconfia: tem rave, hardcore techno, acid, drill&#8217;n'bass, tudo destilado com uma gratuidade wonky altamente contemporânea. No fundo, o que carrega toda a faixa é o andamento bem rápido e um riff de sintetizador, um riff grudento que é incansavelmente remodulado e picotado ao longo da faixa, quando não sarapintado por um sonzinho ou outro que aparece e some como entrou. &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; é o tipo de arrasa-quarteirão que veio no momento certo, como oposto à elegância do techno, ao ralentamento dos BPMs promovido pela cenas do wonky e dos beats desconstruídos, e ao &#8220;tribalismo&#8221; do dubstep de pista devidamente cooptado e transmutado em UK funky (né, Kode9?). É uma faixa quase estúpida de tanto apelo, superrápida e que destrói de imediato. Extremamente repetitiva no riff ganchudo, mas extremamente variada nas quebras rítmicas, &#8220;Trilingual Dance Sexperience&#8221; é o que possivelmente aconteceria se &#8220;Gully Brook Lane&#8221; se fundisse a &#8220;Windowlicker&#8221; e fosse jogada pra 45RPM. Como o set de Martyn, o ano não poderia acabar sem que falássemos desse petardo que vai ficar como um dos marcos da música eletrônica em 2009. Além de que, convenhamos, é um dos melhores nomes de single na história&#8230; (Ruy Gardnier)</p>
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		<title>Bullion &#8211; &#8220;Young Heartache&#8221; (2009; One-Handed Music, Reino Unido)</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Dec 2009 23:12:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>corazondiablo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Bullion]]></category>
		<category><![CDATA[One-Handed Music]]></category>
		<category><![CDATA[Young Heartache]]></category>

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Bullion é Nathan Jenkins, produtor londrino que apareceu pela primeira vez em 2007 fazendo um pequeno disco de título engraçadinho que já explica tudo: Pet Sounds: In the Key of Dee. Pois é. Sabe quando vazaram os canais separados do Black Album de Jay-Z e surgiram uma infinidade de discos misturando Jay-Z com Beatles (Grey [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2971&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/bullion.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2972" title="bullion" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/bullion.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>Bullion é Nathan Jenkins, produtor londrino que apareceu pela primeira vez em 2007 fazendo um pequeno disco de título engraçadinho que já explica tudo: Pet Sounds: In the Key of Dee. Pois é. Sabe quando vazaram os canais separados do Black Album de Jay-Z e surgiram uma infinidade de discos misturando Jay-Z com Beatles (<em>Grey Album</em>, cortesia do hoje famoso Danger Mouse), Pavement (<em>Slack Album</em>, do permanentemente desconhecido DJ N-Wee) e outros? Então, o sujeito juntou J. Dilla com Beach Boys. Mas, afora a curiosidade, o feito não tem nada de muito memorável. &#8220;Get Familiar&#8221;, single surgido em 2008 na gravadora One-Handed Music, foi o que colocou ele no mapa. Não que a faixa, também, seja um enorme destaque. Ela tem a mesma batida de hip-hop desconstruído, meio Dilla meio Prefuse 73 que faz a alegria de Flying Lotus, Hudson Mohawke, Ras G, Nosaj Thing, do próprio Paul White e toda essa turminha recente, com alguns esguichos melódicos interessantes, mas nada muito além. Se Bullion ganha esse textinho na Camarilha é por causa de duas belas faixas constantes de Young Heartache EP, lançado pela One-Handed em março. &#8220;Time For Us All To Love&#8221; e principalmente &#8220;Young Heartache&#8221; já são o começo de um caminho próprio e instigante. &#8220;Young Heartache&#8221; certamente ainda bebe muito dos beats letárgicos à la Prefuse/Lotus, mas ancora-os com loops adocicados que ficam algo selvagens pela repetição (no que lembra, ao menos um pouco, as colagens do Black Dice em &#8220;Chocolate Cherry&#8221; e Eric Copeland em &#8220;Alien in a Garbage Dump&#8221;) e com passagens de acordes que mais parecem modulação de ruído branco. A música, no fundo, é fácil de definir, mas a precisão e o senso de variação de Jenkins tornam a audição um prodígio de fluência e vivacidade. Parece, no fundo, uma faixa do <em>Vocal Studies + Uprock Narratives</em>, o primeiro álbum do Prefuse 73, filtrada por uma sensibilidade pop-resplandescente digna de um Panda Bear em seus momentos mais calorosos (&#8220;Comfy in Nautica&#8221;, &#8220;Bro&#8217;s&#8221;, por exemplo). É isso: Paul White pode ainda não ter achado seu diferencial como artista, mas como dono de selo, conseguiu lançar dois dos 12&#8221; mais interessantes de 2009: <em>Young Heartache</em>, do Bullion, e <em>Smartbanging</em> do Fulgeance. As faixas variam em qualidade, mas apontam para duas enormes promessas que podem aflorar em artistas maiores a qualquer momento. Por enquanto, fiquemos com as faixas-título de cada EP, porque certamente são grandes instantes musicais do ano que se acaba. (Ruy Gardnier)</p>
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	</item>
		<item>
		<title>No-Neck Blues Band &#8211; At 6AM We Become the Police (2009; Locust, EUA)</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 02:05:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>corazondiablo</dc:creator>
				<category><![CDATA[improv]]></category>
		<category><![CDATA[rock]]></category>
		<category><![CDATA[At 6AM We Become the Police]]></category>
		<category><![CDATA[NNCK]]></category>
		<category><![CDATA[No-Neck Blues Band]]></category>

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		<description><![CDATA[
No-Neck Blues Band é um coletivo novaiorquino de música improvisada. O grupo nasceu em 1992 e cedo estabeleceu-se como um septeto, com Keith Connolly (percussão), Matt Heyner (baixo), Jason Meagher (guitarra), Pat Murano (guitarra), Dave Shuford (guitarra), Michiko (violino) e Dave Nuss (bateria e líder do grupo). Desde 1996, o NNCK – abreviatura pela qual [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2917&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/nnck6am.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2918" title="nnck6am" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/nnck6am.jpg?w=300&#038;h=300" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
<p>No-Neck Blues Band é um coletivo novaiorquino de música improvisada. O grupo nasceu em 1992 e cedo estabeleceu-se como um septeto, com Keith Connolly (percussão), Matt Heyner (baixo), Jason Meagher (guitarra), Pat Murano (guitarra), Dave Shuford (guitarra), Michiko (violino) e Dave Nuss (bateria e líder do grupo). Desde 1996, o NNCK – abreviatura pela qual o grupo passou a ser referido – criou a gravadora Sound@1, ou s@1, e lançou uma extensa discografia por esse selo. Os discos de maior repercussão do grupo, no entanto, foram lançados por outras gravadoras: <em>Sticks And Stones May Break My Bones But Names Will Never Hurt Me</em> (2001, Revenant), <em>Qvaris</em> (2005, 5RC), <em>Clomeim</em> (2008, Locust) e Embryonnck, em conjunto com o grupo Embryo (Staubgold, 2006). <em>At 6AM We Become the Police </em>compila gravações entre 1995 e 1997, duas delas gravações não-utlizadas para um filme de Harmony Korine, e uma delas a primeira sessão em que a violinista Michiko tocou junto com o NNCK, tornando-se automaticamente um membro. O disco é a trilha sonora de um filme homônimo ainda por vir. (RG)</p>
<p>* # *</p>
<p>Se você gosta de krautrock e/ou de RIO, é bem provável que você já seja um fã da No-Neck Blues Band e não saiba. Não que o grupo soe parecido com um deles (embora uma ou outra faixa vocal lembre o Can de <em>Ege Bamyasi</em>). O que faz com que o NNCK agrade a essa turma tão seletiva é o fato de praticarem uma música de improvisação livre com um manifesto sotaque rock mas fusionando todos os gêneros e searas possíveis, soando ao mesmo tempo como música étnica, folk, rock, jazz e daí por diante. E a principal virtude do grupo é sua coesão sonora, o modo como esses instrumentos de sonoridade tão estonteantemente diferentes se ligam num todo que mais parece uma experiência ritualística. Talvez até mais que nos lançamentos de estúdio, talvez sejam em gravações como essas de <em>At 6AM We Become the Police </em>que o NNCK mostra toda sua força, sem os detalhes de gravação que por vezes acabam separando demais os instrumentos e tornando a audição mais fria. Nessas gravações mais livres do NNCK, a falta de uma definição &#8220;profissional&#8221; dos instrumentos torna o som todo mais caloroso e integrado, fazendo cada sonoridade inusitada – e há diversas aqui – ganhar uma autoridade tremenda, advinda do espírito de conjunto. Talvez tenha sido por essa coesão, inclusive, que o grupo foi meio deslocadamente arrolado na onda de <em>freak folk </em>ou New Weird America que fez sensação no começo dessa década: não tanto por parecer com o gênero folk, mas dar essa sensação de &#8220;música de raiz&#8221; que depreende fortemente da interação existente entre os músicos.</p>
<p><em>At 6AM We Become the Police</em> é um &#8220;disco de relíquias&#8221; com quatro sessões gravadas entre 1995 e 1997 que giram em torno de dez minutos cada. Além de ser um período mitológico para os admiradores da banda, duas histórias por trás das faixas aumentam o grau de interesse em torno do disco: primeiro, uma delas é o registro da primeira gravação que o NNCK fez com Mico, ou Michiko, violinista que dá ao grupo uma parte sensível de sua identidade sonora; segundo, o fato de duas das faixas serem sessões improvisadas tendo em mente a confecção de trilha sonora para um filme de Harmony Korine. São quatro faixas de imenso poder atmosférico, não tanto por darem um climinha de filme, mas porque todas as incursões de instrumento existem para encorpar o som geral, mesmo quando parecem estar solando. A longa duração das faixas permite que o grupo funcione em seu melhor, com jams sem pressa e sem necessidade de chegar a algum lugar. &#8220;HRMNY 1 (A Tabu 3)&#8221; surpreende pelos sonzinhos agudos, imagina-se que sintetizados (não há informação sobre instrumentos tocados no disco) e pelo modo como eles interagem com a explosão de percussão tribal que vai do primeiro minutos aos 7min40 da faixa.&#8221;NNCK 97&#8243;, a única com nome genérico, estabelece um diálogo entre cítara e violino que dá ao som um teor étnico, com o fundo crescendo cada vez mais até ao fim tudo se transformar numa poderosa maçaroca indiscernível entre frente e fundo. &#8220;Mico 1&#8243;, aptamente batizada por ser a primeira sessão da violinista Michiko, é uma jam de andamento lento, com um ataque de prato bastante ressonante como espécie de motivo, em que algo parecido com uma flautinha se junta a mais sons pouco identificáveis. &#8220;HRMNY 5 (A Tabu 3)&#8221; repete os insistentes batuques de tambor da faixa que abre o disco, mas dessa vez a dinâmica se dá com instrumentos orgânicos, como um sopro (difícil identificar qual), violino e feedback de guitarra. O final da faixa (e consequentemente do disco), sem percussão, é particularmente inspirado.</p>
<p>Como o Acid Mothers Temple, o No-Neck Blues Band é uma banda de psicodelia <em>fundista</em>: demora a engrenar, parece simplesmente se repetir sem grandes evoluções, até que tchun, em algum momento a gente consegue captar todo o impacto da proposta e do som do grupo. <em>At 6AM We Become the Police</em> é um item obrigatório para fãs – mesmo porque em 2009 eles não foram tão prolíficos e difíceis de acompanhar quanto em meados da década – e uma boa introdução àqueles que pretendem conhecer o som do grupo. Em se tratando de um grupo que preza muito mais a consistência do percurso do que a perfeição pontual, é uma porta de entrada tão boa quanto qualquer outra. (Ruy Gardnier)</p>
<p>* # *</p>
<p><strong></strong>Uma das aptidões determinantes para o sucesso daqueles que trabalham música improvisada é a capacidade de tomar decisões no tempo certo e seguir em frente. A coesão de propósitos pode determinar a &#8220;cara&#8221; do trabalho, mais do que a própria natureza sonora dos instrumentos envolvidos. E me refiro a decisões de fundo, como intensidade, dinâmicas, timbragem, vibração, construção das progressões, das passagens de clima, etc, muitas delas tomadas no calor do momento. Em sua extensa discografia, o No-Neck Blues Band sempre demonstrou uma certa coesão, quase sempre sob o ponto de vista da condução mais do que no esmero com timbres e texturas. É de se considerar a curva de evolução do grupo a partir do percurso sonoro que vai de seu primeiro álbum, o barulhentíssimo <em>Hoichoi</em>, até este de 2009. Semelhantes às alterações ocorridas no interior da sonoridade do Black Dice, por exemplo: de um apreço particular pelo noise, pelo metal e pelo free-jazz a uma inegável inclinação para proezas psicodélicas, o que corresponde mais ou menos a adesão ao trabalho com equipamentos eletrônicos. À semelhança de seu quase homônimo The Necks, eles primam por uma qualidade particular no modo como costuram momento a momento, habilidade que se reflete inclusive nos tratamentos de edição e mixagem dados a posteriori. É na duração, e não na timbragem, que o improviso do No-Neck se impõe.</p>
<p>No caso deste &#8220;novo&#8221; álbum, gravado entre 95 e 97 para servir como trilha sonora a um filme de Harmony Korine mas destinado atualmente a um filme homônimo, esta habilidade não só se confirma, como também expõe a maior qualidade deste coletivo. À exceção da faixa A1, a que mais contém variações, todas as outras três trabalham um clima ou um &#8220;tema&#8221; (guardadas as devidas proporções, claro) que se estenderá por toda sua duração e que conduzirá o ouvinte a um estado de apreciação contemplativa, sem sobressaltos nem mudanças bruscas, formando um continuum coerente mas ao mesmo tempo repleto de nuances e surpresas. Neste ponto podemos ressaltar uma segunda característica do NNCK da década de 2000 que pode ser estendida a este álbum: mesmo considerando sua aptidão para a construção gradual e paciente, eles são capazes de destilar, com excepcional poder expressivo, combinações de timbres e dinâmicas interessantíssimas, como na faixa A2 cujo &#8220;tema&#8221; lembra música árabe, na B1, francamente alusiva à música concreta; e na faixa B2, cuja percussão desconjuntada, ligeiramente agressiva, foge um pouco do tom onírico do álbum. Colaboram para esta percepção o fato de que os sons estão integrados: os eletrônicos, embora claramente distinguíveis, estão no mesmo patamar das sonoridades acústicas de forma coesa e, como escrevi acima, sem grandes sobressaltos.</p>
<p>A beleza do disco, então, reside na combinação de uma concepção inteiriça do improviso com a criatividade das inserções e modulações. Prazeroso, o resultado demonstra originalidade, muito embora eu não a tenha percebido de imediato. Sorte portanto daqueles que retornaram à primeira faixa do disco após uma primeira audição problemática. É que a nunace só se ressalta na segunda audição, quando já identificamos mais nitidamente os caminhos tomados, a composição propriamente dita que resulta do esforço da improvisação. Arte na qual o NNCK sem dúvida se especializou, sendo <em>At 6AM&#8230;</em> a comprovação de que a cada disco eles asseguram seu lugar ao sol entre os grandes improvisadores da atualidade. (Bernardo Oliveira)</p>
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		<item>
		<title>Limescale &#8211; Limescale (2003; Incus, Reino Unido)</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Dec 2009 23:01:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>corazondiablo</dc:creator>
				<category><![CDATA[experimental]]></category>
		<category><![CDATA[improv]]></category>
		<category><![CDATA[Alex Ward]]></category>
		<category><![CDATA[Derek Bailey]]></category>
		<category><![CDATA[free jazz]]></category>
		<category><![CDATA[improvisação]]></category>
		<category><![CDATA[Limescale]]></category>
		<category><![CDATA[música improvisada]]></category>
		<category><![CDATA[Sonic Pleasure]]></category>
		<category><![CDATA[T.H.F. Drenching]]></category>
		<category><![CDATA[Tony Bevan]]></category>

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		<description><![CDATA[
Limescale foi um conjunto de música improvisada reunido exclusivamente paa a produção deste disco, também chamado Limescale. A formação é Derek Bailey no violão, Alex Ward no clarinete, Tony Bevan no saxofone baixo, Sonic Pleasure – pseudônimo para Marie-Angélique Bueler – creditada como tocando tijolos (bricks) e T.H.F. Drenching – pseudônimo para Stu Calton – [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camarilhadosquatro.wordpress.com&blog=2830759&post=2913&subd=camarilhadosquatro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/limescale.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2914" title="limescale" src="http://camarilhadosquatro.files.wordpress.com/2009/12/limescale.jpg?w=300&#038;h=300" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
<p>Limescale foi um conjunto de música improvisada reunido exclusivamente paa a produção deste disco, também chamado <em>Limescale</em>. A formação é Derek Bailey no violão, Alex Ward no clarinete, Tony Bevan no saxofone baixo, Sonic Pleasure – pseudônimo para Marie-Angélique Bueler – creditada como tocando tijolos (bricks) e T.H.F. Drenching – pseudônimo para Stu Calton – tocando ditafone. (RG)</p>
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<p>A música improvisada tem suas armadilhas. Como tudo, aliás, que se baseia numa ideia infantil de liberdade, a de que é possível &#8220;fazer tudo&#8221; e deixar dar vazão indulgentemente à própria espontaneidade. Mas a música é como a gravidade: você pode saltar o quanto quiser, mas se não tiver asas vai se espatifar no instante seguinte. Outra peça que a música improvisada prega é a noção de que &#8220;é fácil&#8221; fazer música quando não se tem uma estrutura de composição – mesmo solta, como no caso do jazz, permitindo intervenção improvisada – para guiar a execução. Naturalmente, tocar, por tocar, é fácil. Mas tocar e se impor pela música, soando distinto e com estilo próprio, é das coisas mais difíceis que existem. É claro que isso pode se resolver com o talento individual, e, de fato, diversos dos músicos proeminentes no free jazz e no free improv são aqueles que desenvolvem e dominam técnicas que, aliadas, naturalmente, à verve e à sensibilidade, os transformam em figuras proeminentes no &#8220;gênero&#8221;. Mas quando se trata de extrair novas dinâmicas de som praticado em grupo e ao mesmo tempo manter toda a liberdade dos músicos, só propondo orquestrações diferentes e, nos últimos anos, a incorporação de instrumentos inusitados e a chegada firme do computador nas práticas de improvisação ao vivo. Desde o final dos anos 90, Fennesz, Jim O&#8217;Rourke e Peter Rehberg já faziam improv com seus laptops. O mesmo 2003 desse <em>Limescale </em>viu o que talvez seja a obra definitiva do projeto Blue Series, som os eletrônicos do Spring Heel Jack totalmente integrados às intervenções dos instrumentos acústicos de William Parker, Matthew Shipp, Han Bennink, Evan Parker e J. Spaceman (aka Jason Pierce, do Spacemen 3/Spiritualized). Limescale pode não ter essa mesma pretensão de cobrir novos territórios e ampliar o espectro de possibilidades, mas criou com cinco instrumentos e seus instrumentistas um dos sons mais únicos e surpreendentes que jamais se ouvirão em matéria de música improvisada.</p>
<p>A começar pela escalação: um violão, e logo o de Derek Bailey, com seus ataques radicalmente descontínuos; uma clarineta e um saxofone baixo, dois registros extremos na escala dos metais, sem nenhum outro para ligar os pontos; &#8220;tijolos&#8221;, ou o que parecem ser azulejos que se chocam criando quase sempre sons breves, sem ressonância e bastante agudos; e um ditafone que mais parece ser uma enorme coleção de sons encontrados, porque pode evocar glitches de computador, barulhos de maquinária ou mesmo instrumentos como piano ou sopro. (Às vezes, aliás, as técnicas dos músicos sendo tão exploratória de seus respectivos instrumentos, podemos até nos perder no meio da coisa toda.) No que diz respeito à natureza dos ataques dos intrumentos, todos os músicos parecem obedecer à estética de Bailey: não há manutenção por muito tempo dos mesmos motivos e fraseados, e a brevidade de cada som executado confere à sonoridade geral um aspecto puntilista, de total imprevisibilidade em sua evolução mas devastadoramente &#8220;harmônica&#8221; graças à consistência da banda e à forma como os instrumentos dialogam entre si.</p>
<p>A esse respeito, cabe notar que a instrumentação, além de excêntrica, realiza em termos de arranjo efeitos muito interessantes. A primeira é uma confluência para registros agudos, às vezes estridentes. Mesmo o sax baixo de Tony Bevan, deslocado em seu registro de graves, não faz nada para encher ou realçar com calor as interações agudas dos outros instrumentos. A propriamente dizer, não existe instrumento de acompanhamento ou de preenchimento, duas funções que geralmente cabem ao contrabaixo, guiando ritmicamente cada faixa e harmonizando o espaço entre os outros instrumentos. Em <em>Limescale</em>, os cinco instrumentistas exercem o mesmo tipo de função, têm o mesmo approach em relação ao instrumento, e atuam de forma permanente, o que faz com que as faixas não tenham exatamente nem andamento nem movimentos.</p>
<p>Mas não há risco de monotonia; se há um perigo, é a sobrecarga de informações que pode esgotar o ouvinte. Porque de fato os cinco músicos desenvolvem caminhos paralelos e descontínuos, não deixando ponto de amparo. É um selvagem tudo-ao-mesmo-tempo-agora que só não cai na vala comum da entropia sonora por dois motivos: o primeiro é a já comentada &#8220;harmonização&#8221; em torno dos registros agudos e dos ataques descontínuos e breves, que já cria por si só uma forma de controle sobre o caos; o segundo, e mais decisivo, é o poder que cada um tem de ouvir o outro e interagir timbristicamente, criando por vezes minidiálogos mas, mais importante, tornando o aparente caos incrivelmente consonante. Deixar uma música orgânica, quando se quer, não é lá muito difícil. Há infinitas fórmulas, testadas e retestadas. Mas quando se cria uma dinâmica que tem tudo para soar inôrganica e nonsense, mas ainda assim se consegue extrair um senso ousado de domínio, misturando música (os músicos, os instrumentos) e &#8220;não-música&#8221; (o modo de tocar dos instrumentistas, os &#8220;instrumentos&#8221; que são os tijolinhos e o ditafone), e soando completamente orgânica não pelas medidas convencionais, mas pela própria medida que a música executada instituiu, aí sim sabemos que estamos diante de uma obra <em>sui generis</em>. Fácil, fácil, um dos grandes discos de improvisação dessa década que termina. (Ruy Gardnier)</p>
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<p>Aqueles familiarizados com o extenso trabalho de Derek Bailey talvez não se surpreendam com a imensa gama de timbres e dinâmicas que se deslocam com a velocidade da luz em <em>Limescale</em>. Álbuns da mesma época como <em>Soshin</em>, em parceria com Fred Frith, contém aqueles pizzicatos e harmônicos contundentes que dão forma à dicção característica de seu violão. Mas em <em>Limescale</em> trata-se de uma composição instrumental que vai além da originalidade timbrística de Bailey, se isto é possível&#8230; Temos o clarinete de Alex Ward, o saxofone de Tony Bevan, os &#8220;tijolos&#8221; de Marie-Angélique Bueler e T.H.F. Drenching, que ano passado lançou um excepcional CDr com seu grupo The Concréttes, executando um arqueológico <a id="cl7t" title="ditafone" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ditafone">ditafone</a>. Por aí talvez se perceba mais adequadamente a natureza desse encontro: cinco músicos que desenvolvem trabalhos de relativização e alargamento do campo de possibilidades timbrísticas de seus próprios instrumentos se juntam para construir peças de improvisação. Sonic Pleasure, pseudônimo de Bueler, deduzo que arranha e bate em &#8220;tijolos&#8221; enquanto Drenching manipula fluxos sonoros do ditafone; Bailey, por sua vez, se esmera em criar ruídos metálicos, enquanto Bevan e Ward descaracterizam seus respectivos instrumentos extraindo sonoridades que nem de longe se assemelham a sua timbragem comum. Combinando-se todos esses elementos temos um dos discos mais intrigantes de música improvisada dos últimos anos. Mas qual o seu mistério, posto que em termos de improvisação têm-se a perspectiva de que tudo é legítimo?</p>
<p>Os grandes discos de improvisação encerram uma lógica profunda e rigorosa, o que nem sempre se coaduna com a idéia de liberdade embutida na expressão <em>free-improv</em>&#8230; Portanto, cabe aqui a ressalva de que este &#8220;free&#8221; está associado a uma concepção equivocada de liberdade através da qual o lema liberal &#8220;laissez faire, laissez aller&#8221; adquire estatuto de lei &#8211; concepção esta decisivamente identificada à geração <em>flower power</em>, o que põe em xeque seu suposto papel transgressor&#8230; Repito, então: qual o mistério de <em>Limescale</em> que o diferencia da produção de Bailey bem como da de todos os envolvidos? Se me permitem o salto interpretativo, me arrisco a dizer que há um traço lógico inspirado nas artes plásticas, mais especificamente no pontilhismo impressionista de Seurat: excertos sonoros combinados para definir cores, formas, escalas, painéis e estruturas musicais talhadas a partir de elementos supostamente não-musicais, presentes tanto na execução dos tijolos e do ditafone, como na apropriação particular que cada um faz do seu instrumento. Harmonia, ritmo e melodia são como que esfacelados, criando sobreposições de elementos e modulações dinâmicas que marcam toda a evolução do álbum. O resultado é fascinante, devido justamente ao poder de síntese do grupo, isto é, a capacidade de dosar, medir, exacervar, tirar e pôr, capacidades que em nada se conjugam com uma concepção juvenil de liberdade. Ser &#8220;livre&#8221; em <em>Limescale</em> significa: poder e capacidade de controlar o raio de elaboração sonora, de dar sentido e direção ao invés de &#8220;deixar ir&#8221;&#8230;</p>
<p>Às vezes caótico, às vezes minucioso, mas sempre perturbador, <em>Limescale</em> transcorre de forma abrupta, atropelando o ouvinte com seu farfalhar ensandecido, muito embora exija do mesmo ouvinte um paciente trabalho de aproximação e deglutição. Somente na terceira ou quarta audição começamos a deslindar e apreciar seus elementos e texturas, como os tijolos de Bueler em &#8220;Academy Now&#8221; ou a combinação climas e timbres em &#8220;Charity Singles Ball&#8221;, de longe a faixa mais rica do disco. O alto nível de exigência confirma o caráter verdadeiramente transgressor de <em>Limescale</em>, pois é a partir dele que se pode aferir a originalidade que o faz um dos melhores discos da carreira de seus autores. Certamente um exemplo, se não precursor, absolutamente singular de free-improv no cenário contemporâneo. (Bernardo Oliveira)</p>
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