Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Black Future – Eu Sou o Rio (1988; BMG/Plug, Brasil)

black-future-1988-eu-sou-o-rio.jpg

Formado por Márcio “Satanésio”, Tantão, Olmar e Edinho em meados da década de 80, o grupo carioca Black Future lançou “Eu sou o rio” em 1988, considerado um dos melhores discos do ano pela crítica especializada. O disco conta com as participações especiais de Edgar Scandurra (Ira!), Paulo Miklos (Titãs), Edu K (De Falla) e Alex Antunes (Akira S e as Garotas que erraram).

“*#*”

Na década de 80, o bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, ainda não era a meca do samba e das casas noturnas, mas um aglomerado disforme caindo aos pedaços, habitado por uma fauna sui generis… Quando comecei a freqüentar este ambiente propício também a jovens leitores de William Burroughs, meus parentes me perguntavam, incrédulos e preocupados: “Você vai para a Lapa?!!! Fazer o quê?” Bom, eu ia simplesmente beber cerveja no Bar Arco-Íris, eventualmente entrar num “boite”, ou visitar um pagode improvisado na Rua Joaquim Silva… Algumas vezes, vinha a notícia: caiu um! mataram um! Morria-se de faca e tiro na lapa do início dos 90’s… O cenário, como se percebe, era propício às mais profundas inflexões do espírito poético, inclusive sob sua forma mais ordinária, comezinha… Posso dizer com franqueza: em muitos desses passeios noturno, dei de cara com Tantão e Márcio “Satanésio”, figuras emblemáticas de uma Lapa ainda desglamourizada, ainda corroída pelo descaso e pela difamação, sofrendo as mazelas de sua décadence… O Black Future encontrou nesse cenário o ambiente ideal para criar seu mosaico de samba, hip hop, Artaud, The Cure, Sérgio Malandro, PIL, tecnopop, Cartola… Márcio “Satanésio” destila as poesias mais bem humoradas e ácidas do rock nacional, declamadas idiossincrática e debochadamente contra a igreja, a vida medíocre, a família e a propriedade. Muito interessante também o despojamento irresponsável com que o grupo lida com o tema da utilização das drogas ilícitas: em tempo de criminalização de seu consumo, de institucionalização radical das políticas públicas contra este suposto mal, o Black Future funciona como lembrete e contra-argumento definitivo à pasmaceira política e cultural pela qual passa esse malfadado Rio de Cesar… (Bernardo Oliveira)

“*#*”

Que 1988 se supõe um pouco tardio para a estética do Black Future, não nos resta dúvidas. Mas as questões a serem levadas em conta são outras: por exemplo, quanto tempo levou para o rock brasileiro assimilar toda a explosão da música do final dos anos 70 e início dos 80? Ou melhor, em que momento abriu-se espaço para o desenvolvimento de gêneros menos comerciais do rock? Se a assimilação do pós-punk e do gótico pelas bandas brasileiras foi lenta e gradativa, a new wave foi quase que instantaneamente acolhida pelos roqueiros daqui. Grupos que revitalizaram a cena musical brasileira como Blitz, Kid Abelha & os Abóboras Selvagens e Gang 90 & as Absurdettes trouxeram tudo o que havia de mais bem-humorado e descontraído da nova onda estrangeira. Somente após a conquista desse novo território, foi possível que bandas como Titãs, Legião Urbana, Akira S & as Garotas que Erraram e Fellini propagassem o lado mais obscuro da new wave: o pós punk. De B-52’s, Blondie e Kid Creole & the Coconuts passou-se a ser Gang of Four, The Cure e The Comsat Angels.

Black Future surgiu desse ensejo e, em 1988, lançou “Eu Sou o Rio”, um disco que marcou o fim de uma era da música brasileira. O álbum possui um tom apocalíptico que só tem precedentes no rock brasileiro no clássico “Loki?”, de Arnaldo Baptista. Mas enquanto “Loki?” é o disco-símbolo da decadência do rock (não só brasileiro, mas mundial), “Eu Sou o Rio” é a mais pura imagem de declínio de uma sociedade que vivia um momento de pós-esperança esvaecida. Era o Brasil da recessão econômica, da era-Sarney. Era o Rio de Janeiro permeado por dois governos brizolenses, e a Lapa, principal reduto da boemia e de atividades culturais, em estado de degradação.

Ao longo do disco o vocalista Marcos “Satanésio” Bandeira, com uma dislexia que se assemelha a de Cazuza e em exaltações angustiadas, que sugerem John Lydon do PiL, questiona ironicamente valores sociais, morais e religiosos da época. “Piada”, de crítica dirigida à igreja, pode parecer até um pouco ingênua aos ouvidos atuais, se comparada a mais sólida e contundente “Igreja”, dos Titãs. A faixa-título é, sem dúvida, um dos destaques, pois é a única a trazer elementos da música brasileira para uma sonoridade dominada por signos do pós-punk e do rock gótico. “No nights”, com seu swing lento de bateria, guitarra melódica e baixo proeminente até parece uma canção extraída do álbum Closer, do Joy Division. Seja PiL, Joy Division, The Cure, Siouxsie & the Banshees ou Echo & the Bunnymen: a cada instante o Black Future lembra alguma banda estrangeira da década de 80. Isso, porém, não tira o mérito do disco, que, há 20 anos, lançou uma profecia: o futuro seria negro – um ano depois viria a era-Collor e a explosão do sertanejo; dois anos depois, a morte do maior ídolo de rock do país daquela década, Cazuza. E as coisas só pioraram. (Thiago Filardi)

“*#*”

As anomalias que surgem em lugares inesperados, quando se pensa no “roque brasileiro” dos anos 80, raramente os nomes elencados na coletânea Não Wave: Brazil Post-Punk 1982-1988 não são dos primeiros a serem lembrados. Talvez, Fellini, As Mercenárias. Na verdade apenas ouvi falar deste disco quando soube da existência desta coletânea.

Sobre o disco, não restam dúvidas sobre a matriz post-punk e os músicos dão conta de não deixar muito a dever a bons exemplos do gênero. Mas aí surge o problema – incontornável – os vocais são muito ruins, quase tive vontade de abandonar e dizer que não consegui ouvir, abrir mão de escrever o texto, ainda mais com o cara falando muita bobagem grandiloqüente. Melhor que, por baixo da histeria tinha algo, sólida composição de guitarra-baixo-bateria.

A faixa Reflexão diz bem o melhor/pior da banda, uma base muito boa, com um piano curioso, mas um vocal exagerado, que não vai a lugar nenhum que não seja tirar espaço das qualidades instrumentais da faixa. O histrionismo lembra o pior do metal. Também, ser conhecido como Satanésio não ajuda. A faixa Piada, com sua igreja imperialista, igreja machista, é o nadir, esse cara é uma piada.

A melhor, a faixa-título tem base muito diferente e é a única onde se pode identificar o tal samba-rock da banda, os vocais estão menos gritados e irritantes. Uma certa ambigüidade entre parecer celebrar o Rio e falar das muitas desgraças. Em música anterior eles descem o pau na igreja, mas não perdem a oportunidade de notar que nestes lugares tem muita bicha… e eles são ameças a que?

No Nights é mais funk. É uma pena que, não tendo acesso a encarte, não sei quem, por exemplo toca uma ótima guitarra nesta faixa. A batalha entre metais e bateria no final da faixa é das melhores coisas no disco. Aqui e em Eu Sou o Rio aparece uma possibilidade de frescor, de alguma contribuição para um gênero, sem que se limite a criar versões próprias para idéias já exaustas, mesmo à época. Em outros lugares, pequenas intervenções como os ruídos eletrônicos em Eu Quero Tocar a Lapa.

Ao vivo deve ter sido muito mais divertido, imagino algo bem teatral e insano, quem sabe pequenas transcendências. Talvez eu tenha perdido o momento, a piada. Mas uma versão instrumental seria a glória. (Marcus Martins)

“*#*”

E vinte anos se passam… Não sei francamente qual é o estatuto desse disco do Black Future hoje, se é um clássico maldito ou uma curiosidade com valor, mas sei que foi a capa de uma das primeiras Bizz que eu comprei, e do Black Future eu só conhecia o show que eu vi na Bunker, há uns oito anos. A impressão ao finalmente ouvir esse Eu Sou o Rio já com a devida distância histórica é mais ou menos a mesma que a do show: de um lado, “Eu Sou o Rio”, de outro, um coquetel meio homogêneo de The Cure fase Pornography, Einstürzende Neubauten, The Fall e outros grupos que flutuavam entre o industrial e o dark, declamações em cima de uma parede sonora às vezes intensa, às vezes não, mas nunca especialmente brilhante ou notável na composição.De um ponto de vista histórico, é um disco de incrível valor, porque ainda que musicalmente não acrescente ao panorama dos sons que o influenciaram, ele serve como registro único no Brasil de um grupo que assimilou o pós-punk da maneira específica que eles assimilaram e a misturou à tradição poética marginal brasileira, em especial carioca, de inspiração beat dos anos 70. Eventualmente, o grupo cria certas inflexões que podaríamos aproximar de outras bandas da época, como Picassos Falsos ou mesmo a Zero.O que ressalta como fator limitador do disco, no entanto, é a falta de características individualizantes tanto nas letras quanto na declamação delas, o que fica mais perceptível em “Cartas do Absurdo” e “Piada”, que não são muito além daqueles poemas de poeta de botequim que aproveita sempre um microfone aberto para assustar as pessoas com suas intervenções.

Mas se quando filosofa ou tenta achar palavras bonitas e intensas o vocalista/letrista Satanésio só redunda em poesia vagabunda, quando ele decide fazer suas odes a inspiração surge e todas as palavras que ele evoca passam a ser palpáveis, criando um mosaico de personagens, lugares e comportamentos bem poderoso, o que acontece em “Eu Sou o Rio” e na bonus track “Eu Quero Tocar a Lapa”. “Eu Sou o Rio” é o anti-hino, ou melhor, o hino dos malditos, com essa base eletrônica extremamente irônica em relação ao samba como imagem clichê do Rio, com uma entrega autêntica ao inverso do cartão postal da sociedade. “Reflexão”, pelo instrumental carregado, e “No Nights”, pelo swing desajeitado, são destaques menores.

Mas nada me tira da cabeça que, se fossem vinte ou trinta as bandas de pós-punk brasileiro e setenta o número de discos lançados, o valor do disco seria pronunciadamente menor. “Eu Sou o Rio”, em todo caso, paira acima. (Ruy Gardnier)

Anúncios

2 comentários em “Black Future – Eu Sou o Rio (1988; BMG/Plug, Brasil)

  1. Ze Colmeia
    28 de outubro de 2010

    Fecho com a opnião do Bernardo!
    Contudo esta:
    “Mas nada me tira da cabeça que, se fossem vinte ou trinta as bandas de pós-punk brasileiro e setenta o número de discos lançados, o valor do disco seria pronunciadamente menor. “Eu Sou o Rio”, em todo caso, paira acima. (Ruy Gardnier)”
    Ora meu caro, monte a SUA banda!
    No mais o blog ta maneirissimo! Parabens!

  2. musicasemrotulos
    14 de abril de 2015

    Republicou isso em Música Boa,Sem Rótulose comentado:
    “Indicação” nº 3 do dia:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 24 de fevereiro de 2008 por em Uncategorized.
%d blogueiros gostam disto: