Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Vários artistas – Soundboy Punishments (2007; Skull Disco, Inglaterra)

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Djs e produtores, os ingleses Shackleton e Appleblim dirigem o selo Skull Disco e, desde 2004, produzem dubstep de ponta. Em 2007, a dupla lançou esta compilação, contendo faixas do período de 2004 a 2007. O disco não é uma coletânea de singles, mas um primeiro disco da gravadora que mistura faixas novas a algumas já lançadas em anos anteriores.

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Lemos e ouvimos por aí algumas opiniões generalizantes e preconceituosas sobre o assunto “música”. Com uma ingenuidade medonha, alguns dizem: “música eletrônica”, “música isso”, “música aquilo”… Penso que não é nem possível nem proveitoso distinguir e identificar a música em termos ‘genéricos” como, por exemplo, “acústico”, “eletro-acústico” ou mesmo “eletrônico”… Pois o que ela nos oferece são experiências-forma, experiências-timbre, experiências-idéia, todas acontecendo ao mesmo tempo agora, de forma instável… E isso tanto em relação ao criador, quanto ao fruidor… É por essas e outras que, na modesta opinião de quem escreve, esta coletânea capitaneada por Shackleton e Appleblim é o melhor disco de 2007. Mas o que significa escolher como o melhor disco de 2007 uma compilação com faixas de anos anteriores? Enquanto Burial, Pinch e Kode9 arquitetam o dubstep, a dupla já o desconstrói, imprimindo uma dinâmica absolutamente diversa (e arrepiante!) a esta combinação de 2step, técnicas de dubbing e experimentação rítmica e timbrística. Basicamente, o disco exibe uma arte rara da transfiguração, sonora e intelectualmente arrojada, em que se percebe que toda a estrutura clássica da música (a trinca melodia-harmonia-ritmo) é posta em questão. O que ouvimos são melodias rítmicas (como em “Stalker”), ritmos melódicos (como em “Naked”, ou “Girder”), e assim sucessivamente. Mas, sendo esse um caráter mais ou menos geral da música de hoje, cabe ressaltar que a força do som de Shackleton e Appleblim reside na forma com que eles trabalham suas batucadas digitais, complexas e entrelaçadas camadas preenchidas por dinâmicas sonoras e detalhes que fazem a diferença. Reparem na “melodia” de “I Am a Animal”, como tem uma força “percussiva” peculiar. Nesse sentido, destaco também o tratamento dado às vozes em “Blood in my hands”. Seguindo este método rítmico-transfigurador, Shackleton e Appleblim apontam para o futuro de um gênero que, em pleno 2008, ainda esboça seus primeiros clichês. (Bernardo Oliveira)

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Dubstep é um ritmo genuinamente londrino, vindo mais especificamente do sul, onde o choque de culturas e raças é maior que em qualquer outra região da cidade. E é dessa diversidade que surgiram as maiores tendências musicais da música eletrônica dos últimos anos: o trip hop, drum‘n’bass, house e techno (EUA). No caso do dubstep seus principais pilares são o 2step garage, do qual se apropriou das batidas quebradas e o dub, que lhe emprestou um baixo profundo, rarefeito.

Soundboy Punishments já denota uma evolução no gênero e o fato de ser uma compilação de vinis 12 polegadas não tira seu frescor. Intercalando faixas, os produtores e DJs Shackleton e Appleblim trabalham com as mais diversas formas de dubstep e eletrônica: Shackleton, com suas batidas tribais e polirítmicas, às vezes beirando o funk carioca, como “Tin Foil Sky”; e Appleblim, com faixas carregadas de sintetizadores. É um tipo de dubstep oposto ao de Burial, que prioriza diferentes texturas de batidas e sons componentes. Se Burial pode parecer um pouco pueril e retrógrado no uso de vocais femininos e na construção de um clima urbano, os artistas da Skull Disco são mais diretos nas programações de bateria e na utilização de vozes, que quando feita, é de maneira assombrosa e futurística, como em “Blood on My Hands”, que encerra o primeiro disco.

A própria “Blood on My Hands” é a faixa que abre o segundo disco, em versão remixada por Ricardo Villalobos. Por longos 18 minutos, toda sua exuberância é sentida através do incansável e inigualável 4/4 de Ricardo Villalobos. Inevitavelmente se distinguindo como um dos destaques da coletânea, o mix Apocalypso Now de “Blood on My Hands” é composto também por uma camada eletrônica ambiente e por um drone grave e agonizante, que adquire a função do baixo. É notório que esse seja o primeiro encontro do dubstep com o techno minimal, estilo que se desenvolveu na Alemanha e é a marca de Villalobos. Essa colisão nos faz rememorar o final da década de 60, quando exatamente um ritmo britânico, ou pelo menos predominantemente (o rock) se cruzou com a vanguarda alemã e daí originou-se a música eletrônica. O que ainda há de vir depois desse encontro? (Thiago Filardi)

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A principal dificuldade em acompanhar o desenvolvimento dos produtores envolvidos com o dubstep é que apesar de existirem belos álbuns em muitas variações do gênero, a verdadeira riqueza está nos singles e eps. Quem ouviu Ghost Hardware não teve tanta surpresa com o precioso Untrue, ou quem ouviu a faixa “Punisher”, sabia do talento do cometedor de Underwater Dancehall (um dos melhores discos esquecidos de 2007).

Resta a dificuldade em acompanhar, toda semana sempre tem um vinilzinho do Skream, Peverelist, Kode9, Benga e outros que passam ao largo do radar. Sempre terminei por esperar as curadorias, coletâneas que guiassem o ouvido para o que importava.

Apesar de reunir muito material, no fim, apenas ouvia muito pouco, principalmente o Burial e algumas coletâneas, já era trabalhoso absorver aquilo. Até que lembro de um dia, saia de casa para encontrar um amigo, tomar uma cerveja depois de um dia chato. Resolvi tentar “I Want To Eat You” (talvez pelo nome). Ouvi a faixa repetidamente até chegar ao local. Ali deveria ligar para o amigo, para dizer que havia chegado e ele aparecer. Esqueci de ligar por algum tempo, querendo entender por que aquela faixa era do caralho. Era daquelas músicas que foram feitas para os headphones, para andar na rua – parecia mudar a geografia.

Depois disto passei a sistematicamente buscar outros lançamentos do Shackleton, descobri a Skull Disco, o Appleblim e tudo o mais. Apesar de suas mais de duas horas, aqui não tem furo. Não vou sentir culpa em riscar o Appleblim, boas faixas, baixo tão espesso que dá para cortar à faca. Mas é meio constrangedora sua falta de nuance e estatura perto do Shackleton. O que não elimina as qualidades das cinco faixas que ele assina, sempre concisas e brutais, a mais longo com pouco mais de cinco minutos. Se Shackleton opta por buscar cores entre o cinza da cidade, Appleblim apenas enxerga/ouve opressão e terra arrasada. Gatekeeper e sua única faixa vai pelo caminho do baixo proeminente, batida forte, sample vocal ecoando.

Falta lugar para falar da remix do Villalobos para “Blood In My Hands”, faixa já superlativa, a felicidade que é sua redução dos elementos originais e o investimento em maior complexidade percussiva. Na original, existe a convivência entre certa melancolia e a esterilidade urbana que torna tudo parecido, a criação de algo terno, apesar de tudo. As faixas respiram. Se um personagem de Cloverfield ouvisse, certamente diria: It’s Alive!

Em suas faixas estão a produção sofisticada, intrincada, baixo às vezes preenchendo por completo a banda sonora, à vezes sensual, jogando com uma percussão que parece desestabilizar uma imaginária busca de Shackleton por construir pequenos universos, onde o Oriente Médio, a Índia, os EUA e Londres são uma só rua, anomalias mergulhadas no caos e reorganizadas nos ouvidos. Vida longa à Skull Disco. (Marcus Martins)

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O primeiro desafio que Soundboy Punishments coloca é seu estatuto. Porque o disco não é exatamente uma coletânea, e tampouco um disco individual, ainda que das 19 faixas 13 sejam do Shackleton. Metodologia, então? Fechar o olho e deixar a música falar por si mesma. Certo, mas ainda assim fica clara uma separação de propósitos e sonoridades: Appleblim repetidamente constrói suas faixas em função dos tempos fortes do andamento e como que para fazer casa às outras sonoridades não-rítmicas (pra não dizer “melodiosas”, o que nem sempre é o caso), ao passo que o Shackleton está muito mais interessado em criar especialmente para a batida, e para deslocar as células rítmicas num jogo intrincado de sons de caixas, atabaques, pratos e tudo mais que vier à frente, evocando algumas coisas de funks cariocas (os guiados por atabaque), muita música africana e até o Autechre em sua fase mais cerebral, pela exuberância erudita da composição, mas só que aqui o negócio é groove – ainda que só dançável em alguma pista de dança de nossos sonhos…A coisa que mais me faz falta em Soundboy Punishments é essa sensação de que a ordem das faixas não leva o disco a nenhum lugar em especial, só adiciona uma faixa em seguida à outra, conduzindo quase que obrigatoriamente à apreciação faixa por faixa. Mesmo porque algumas brilham de exuberância ao passo que outras, em número reduzido, fazem apenas volume. Das faixas de destaque, o Shackleton dá de goleada, apresentando alguns matadores (“Hamas Rule”, “Majestic Visions”, “Hypno Angel”), enquanto o Appleblim, mais tradicional no manejo do dubstep, solta a ganhadora “Mystical Warrior” mas em geral me parece ainda remoer algumas intervenções vocais e alguns graves que já foram bem esgotados pelo drum’n’bass (aliás mais padrinho do dubstep do que se costuma comentar, sobretudo na versão mais selvagem e underground do jungle). O destaque absoluto do disco, no entanto, são as duas versões de “Blood on My Hands” tanto a de Shackleton que fecha o disco 1 quanto o remix de Ricardo Villalobos que abre o disco 2. O soturno do vocal, a letra historicamente serena sobre a queda das Torres Gêmeas, os momentos de explosão e acima de tudo a força dos atabaques repetitivos transforma a faixa numa das melhores coisas entre aquilo que se faz hoje. O remix de Villalobos? Consegue dar uma camada ainda suplementar de genial desconforto, tocando a batida original por um metrônomo que fica lá no fundo enquanto ele fica alternando volume, velocidade e timbre de um sonzinho de ping-pong que se transforma no protagonista da faixa, criando uma desorientação rítmica de se tirar o chapéu. Ainda que o todo não acresça à soma das partes, o primeiro long play da Skull Disco é obrigatório para quem se preocupa em correr atrás de música de artistas que desbravam novos caminhos. (Ruy Gardnier)
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Publicado em 24 de fevereiro de 2008 por em Uncategorized.
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