Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Evangelista – Hello, Voyager (2008; Constellation, EUA)

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Evangelista é o mais novo pseudônimo de Carla Bozulich, cantora norte-americana que já fez parte de bandas como Ethyl Meatplow, The Geraldine Fibbers e Scarnella, além de possuir três discos lançados em seu próprio nome. Seu último disco solo, Evangelista, deu origem ao projeto atual, lançado pelo selo canadense Constellation e acompanhado por uma banda de apoio. Hello, Voyager também tem como contribuintes membros do A Silver Mt. Zion, que se encarregaram da produção e do arranjo de cordas. (TF)

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Carla Bozulich é herdeira direta de um tipo de rock cultivado por nomes como Patti Smith, PJ Harvey e Nick Cave. Na obra desses artistas, o que importa é o exorcismo de demônios internos que atormentam a alma e o pensamento; seja através das letras niilistas, das guitarras inquietas ou da forma raivosa de cantar. É a regurgitação de tudo o que foi aprendido e assimilado no rock. É colocar as vísceras na boca e expeli-las. Para Bozulich, é a sua própria evangelização.

Hello, Voyager se apresenta mais acessível que o disco anterior de Bozulich, Evangelista, que trabalhava com uma narrativa menos convencional e mais intrincada. Enquanto Hello, Voyager é pontuado por canções mais diretas, como a explosiva “Smooth Jazz” e “Truth Is Dark Like Outer Space”, Evangelista possui uma linha melódica mais tortuosa, sorumbática.

Semelhante às grandes cantoras das últimas décadas (PJ Harvey, Lisa Germano), Carla Bozulich se sai bem tanto fazendo rocks pesados, violentos, quanto canções mais calmas, intimistas. Da blues “Lucky Lucky Luck” ela vai para a intrigante instrumental “For the L’il Dudes” – na qual se sente mais notadamente a intervenção do coletivo A Silver Mt. Zion na produção. E, desta, para a ascendente “The Blue Room”. Porque só uma grande cantora de rock pode fazer uma balada tão simples como esta soar tão poderosa.

Se falta criatividade ao rock contemporâneo, ainda podemos confiar em cantoras do porte de Carla Bozulich. Pelos aspectos sonoros de seus últimos discos, é possível caracterizá-la como uma artista inconformada, sempre disposta a aventuras sonoras, a experimentar diferentes estruturas de canção. Já não precisamos esperar o novo disco do Sonic Youth, ou de algum de seus integrantes, para ouvir um bom disco de rock. Enquanto aguardamos a evangelização do rock, que venha o próximo projeto de Carla Bozulich. (Thiago Filardi)

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Hello, Voyager é quase um grande álbum. Quase. Parece que Carla Bouzilich ficou tão satisfeita com seu último álbum solo, chamado de Evangelista, que resolveu criar dali um novo projeto, ótima idéia. Parece que ela ficou bem amiga do pessoal da Constelation Records e resolveu chamar membros do A Silver Mt. Zion (ou qualquer dos outros nomes que essa galera usa) para se formar a banda. Ela tem bom gosto. Ah, ela resolveu misturar algo como post-rock, gospel, noise, folk, barulho industrial, blues… hum, poderia ser muito bom se não parecesse que ela resolveu testar possibilidades em alguns momentos, e após músicas de tom meio apocalíptico, soltar um bluesinho sem vergonha.

Uma referência para as faixas mais sombrias e instrumentais é o mais recente Scott Walker, especialmente na atmosférica “The Frozen Dress”, construída em torno de lamentos. E mesmo não alcançando a complexidade e a originalidade espantosa do Walker, funciona de forma exitosa em elevar a tensão do álbum.

Mais uma vez, Carla parece estar buscando o abismo, uma coleção de faixas que refletem uma compositora à procura de um território seu, tentando diversas formas e obtendo sucesso na maior parte do tempo.

Talvez o maior pecado do disco seja a sua seqüência e a inclusão de uma faixa francamente insípida (“Lucky Lucky Luck”) e outra que destoa do resto do álbum (“The Blue Room”) e que apenas serve de ante-sala para a concisa e feroz “Truth Is Dark Like Outer Space”. E imaginando que se trata de um álbum ambicioso, pois a maior parte das faixas alcança grande efeito, a tentativa de entender a construção do álbum é de coçar a cabeça. Problema é parecer que ela não teve a real noção do que tinha nas mãos ou tentar forçar uma variedade desnecessária. Um problema de insight musical.

Em meio a toda catarse da última e bela faixa-título, Carla poderia nos poupar de algumas passagens de “liberação poética” e tão constrangedoras que me recuso a reproduzir, em especial quando fala de seu diseased prick e outras coisas, para supostamente encontrar o ‘eu’. Balela.

Melhor é ficar com a imagem da compositora que se firma como das mais poderosas da música atual, que mesmo cometendo equívocos, não teme em fazer escolhas e no meio em que boa parte prefere a segurança, é auspicioso alguém correr riscos e se temos seis ótimas faixas em nove, já é muita coisa. Algumas estarão entre as melhores do ano, mas eu queria um clássico. (Marcus Martins)

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Hello, Voyager começa e termina de forma abrasiva, catártica, free-form, na base e a voz de Carla Bozulich como um trem em partida, saindo da ternura inicial ao caos gritado e à desembestança confessional. Entre essas duas faixas, “Winds of St. Anne” e “Hello, Voyager!”, se constrói um universo mais controlado, porém igualmente multifacetado, indo da explosão no-wave de “Smooth Jazz” e “Truth Is Dark Like Outer Space” à vulnerabilidade intimista de “The Blue Room” e “Paper Kitten Claw”. Juntas, essas seis faixas compõem o melhor de Carla Bozulich, e colocam o disco entre as melhores coisas que provavelmente iremos ouvir esse ano.

Um dos méritos de Hello, Voyager é tentar fazer sua cantora circular por todos os caminhos, e quase sempre o resultado é vitória, mas em alguns momentos o tiro sai pela culatra, como em “Lucky Lucky Luck”, que soa aqui mais deslocada do que soaria num disco de uma dessas divas que cantam esse bluesinho meio aguado, ou nas instrumentais “For the L’il Dudes” e “The Frozen Dress”, sem carisma especial para competir em pé de igualdade com as outras faixas e longas demais para servirem de interlúdios de luxo. Talvez seja uma tentativa de, agora que o projeto é um nome de grupo, Evangelista, e não de cantora, Carla Bozulich, tirar um pouco a ênfase da voz como protagonista, mas o disco perde boa parte de sua força sempre que Ms. Bozulich se afasta do microfone.

Cabe então, agora, chamar a atenção para o timbre e o uso da voz de Carla Bozulich, pois é aquilo que dá mais diferencial ao projeto. Grave, forte, impetuosa, ela consegue articular, como poucas antes dela – PJ Harvey, Joni Mitchell, – uma fragilidade aberta, por vezes sensual, dentro de uma voz que parece votada ao culto da crueza e do despojamento. Em Hello, Voyager, é ela posando de diva diurna e noturna, caindo por todos os cantos. Escrevi no pracoisanenhuma sobre a passagem de “The Blue Room” para “Truth Is Dark Like Outer Space” e de fato é meu momento preferido no disco, essa passagem brusca de uma máscara para outra, mantendo a excelência entre duas esferas não necessariamente inseparáveis, mas dificilmente uníveis. A cola universal não existe sempre, mas nos momentos em que ela funciona, Evangelista vai a 100% de potência. (Ruy Gardnier)

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No que diz respeito ao meu lado, o do fruidor, não é difícil, em tempos de download desenfreado, passarmos pela seguinte situação: você toma contato com um artista do qual nunca ouviu falar e, em um só dia, passa a conhecer até mesmo os meandros mais recônditos de sua discografia, incluido ep’s, projetos paralelos, bandas pregressas, etc. No caso de Carla Bozulich, mais que este álbum repleto de nuances, batizado sugestivamente de Hello Voyager, descobri toda uma discografia que inclui outros dois discos especialmente importantes: os solos Evangelista, de 2006, e Red Headed Stranger, de 2003. Da experiência desses discos, após a audição de Hello, Voyager, pulei para uma outra posição, onde me pergunto: se a cronologia está comprometida pela profusão de informações, o que um disco de 2008 pode trazer que tanto imponha uma outra perspectiva sobre o trabalho em questão, quanto o ilumina pregressamente? Quero dizer: como respeitar a cronologia se, hoje, toda cronologia foi dissolvida por uma simultaneidade que nos força a ouvir, em um só disco, todo um trabalho, uma vida de experimentação, cujo movimento não se configura de modo propriamente cronológico? Assim, não há uma diferença de fundamento entre Hello, Voyager e os outros álbuns, mas uma diferença de enfoque: o desregramento rocker de algumas faixas, que beiram o noise 80’s NY (“Smooth Jazz” e “Truth Is Dark Like Outer Space”), antes timidamente indicado por faixas como “How To Survive Being Hit By Lightning” e “Pissing”, do disco de 2006; o estatuto do country music, que decai consideravelmente, dando lugar ao blues (“Lucky Lucky Luck”, sobretudo); um trabalho de dinâmicas e conceitos sonoros menos ligados à canção (em “The Frozen Dress” e na faixa-título); e, sobretudo, a concepção do álbum, pautada na sobreposição de sons, antes divididos conforme o tom de cada canção (cordas, guitarras cheias de efeito, barulhos criados sabe-se lá de quais fontes sonoras…). Estranho e irregular, graças à presença de uma faixa absolutamente sem sentido, “The Blue Room”, Hello, Voyager é, ao mesmo tempo, continuidade de um trabalho bastante pessoal e, para mim, revelação de uma artista no mínimo original. (Bernardo Oliveira)

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Publicado em 3 de março de 2008 por em Uncategorized.
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