Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Focus Group – Hey Let Loose Your Love (2005; Ghost Box, Inglaterra)

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The Focus Group é formado por Julian House, co-fundador, junto a Jim Jupp, do selo britânico Ghost Box, abrigo de outros projetos sonoros como Belbury Poly, Mount Vernon Arts Lab, The Advisory Circle e Eric Zann. Além de músico, Julian House também é designer gráfico e foi responsável pela concepção de capas de discos de grupos como Broadcast, Stereolab, Prodigy e Primal Scream. Assim como a maior parte dos lançamentos da Ghost Box, a sonoridade do Focus Group é baseada em samples e colagens. Hey Let Loose Your Love é seu segundo disco, sucedido por We Are All Pan’s People, de 2007. (TF)

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Dentre as características do sample, uma delas é trazer fantasmas de volta à superfície. A arte de samplear implica em reviver espectros sonoros perdidos no tempo. No caso de Julian House e seu Focus Group, todos os trechos musicais sampleados remontam à Inglaterra romântica da década de 60 e 70, de trilhas sonoras de filmes e séries televisivas daquela época. Ele lida com a profusão de sonoridades antigas, já esquecidas, a fim de criar um universo fantasmagórico. Entretanto, em momento algum o Focus Group caracteriza-se como anacrônico ou excessivamente nostálgico. Ao contrário de bandas contemporâneas, que formam o chamado novo rock, Julian House nunca se detém ao passado: o agregamento de sons sessentistas e setentistas aliados aos designs gráficos dos discos constituem uma estética nova, nunca vista/ouvida antes. Em vez de reverenciar o passado, ele apenas deixa que fantasmas do passado infiltrem nos tempos atuais.

Julian House utiliza, em média, dez samples por faixa, que por mais incongruentes que pareçam, formam encaixes de incríveis efeitos sonoros. É assim em “You Do Not See Me”, uma das primeiras faixas do disco, que começa com uma cadência rítmica quebrada diversas vezes por interrupções bruscas de outro sample. A partir daí mais um sample é sobreposto a esses: uma voz que entoa “I am the greatest son/You do not see me”. Quase todas as faixas de Hey Let Loose Your Love são estruturadas dessa maneira. Um ou dois samples são intercaladaos e/ou sobrepostos para depois serem interrompidos por outros samples, que, assim, darão lugar a outros samples. E dessa forma começará outra música, que, por sua vez, se confundirá com a anterior e a ulterior.

O paroxismo do disco ocorre na faixa-título, quando um coro clama repetidamente “Hey let loose/Let loose your love”, acompanhado de uma percussão desvairada e de uma melodia flautiana, que depois dão lugar a um violão melancólico, belamente tocado. Outra característica marcante no Focus Group é o uso da musique concrète. Em meio a tantos trechos de diálogos de filmes, de temas de séries televisivas, de instrumentos dos mais variados e de library music, Julian House também coloca elementos do cotidiano em suas músicas. Daí, tudo se confunde. Instrumentos musicais tocados de forma convencional, ou não, são emaranhados a barulhos do dia-a-dia e a demais vozes. Os fins sonoros, inseridos dentro do mesmo contexto, se tornam idênticos.

Como todo bom disco de sample (nesse caso inclua Avalanches, DJ Shadow, Edan, De La Soul), os trechos utilizados em Hey Let Loose Your Love nos deixam com aquele gostinho de querer ouvir o resto daquilo que está sendo cortado e colado. Por vezes, Julian House pode nos deixar insatisfeitos e insaciados, com seu escopo de samples dispostos de forma aleatória. Mas querer ouvir o todo de um sample, seria aniquilar a sua essência. O que importa são os fantasmas que esses samples trazem à tona, e o que suscitam no nosso imaginário. (Thiago Filardi)

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Não consigo pensar no The Focus Group sem passar pelos elementos que constituem e informam sua sonoridade. Não apenas pelo fato de ser o principal projeto do Ghost Box e por estar no centro das idéias de hauntology na música pop contemporânea pois acho os conceitos um pouco forçados e os alinhamentos, toscos), mas por acreditar que não se trata, primeiramente, de música.

O primeiro disco já dizia, aqui temos muito de Sketches and Spells, são fantasmagorias de outros sons, músicas alheias, trilhas sonoras, discos assemelhados aos da BBC Radiophonic Workshop, tudo envolvido em fragmentos que lembram tanto o jazz quanto o easy listening e que nunca formam canções, em qualquer sentido.

Consistindo sempre de faixas muito curtas, que em algumas situações são pequenos trechos de gravações de campo, ensaios de música concreta. A música do The Focus Group parece buscar mais sugerir algo que o concretizar. Lembrar e distorcer. Duplicar algo esquecido para criar o novo e ao mesmo tempo uma deixar sombra, o fantasma que podemos chamar de nostalgia. O curioso deste sentimento, é que em muitas das vezes, os apreciadores destas idéias, não viveram as épocas, não participaram da produção do que é objeto da nostalgia. Assim, tais climas são proporcionados pela preferência dada a equipamentos antigos, datados, abandonados, sons de programas de televisão antigos, tudo levemente apagado, desfocado e rearranjado.

É como se depois de tantas décadas convivendo com as gravações sonoras, agora se tentasse evocar os fantasmas do que foi perdido no caminho, contatar os fantasmas de criações que passaram despercebidas ou foram criadas com fim utilitários (library music).

Observando os três lançamentos disponíveis do projeto e sendo este o segundo, é promissor perceber que aqui estamos em momento de transição, onde os elementos ainda não estão completamente coesos, mas a proposta sonora mais clara, apontando os caminhos que possibilitaram grande avanço no We Are All Pan’s People.

As faixas nunca se desenvolvem estritamente em música, muito menos em canções, no máximo alusões a estas. Mas ainda assim o disco tem a coesão de algo melancólico e evocativo, em especial pelo fato do disco alcançar maior sucesso quando pensamos nele como uma coleção de ausências, ou o negativo daquilo que lembramos de preservar.
Ainda assim, mesmo simpatizando com o projeto e gostando de forma geral dos lançamentos, fica à espera por onde ele pode chegar e se tais evocações não se transformarão elas próprias em fantasmas. (Marcus Martins)

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Não sei se entro totalmente na dinâmica ou se mergulho completamente na proposta desse Focus Group. Talvez presuma mais que compreenda. Mas, de alguma forma, esse imaginário de sonoridades tão figuráveis no imaginário muzak dos anos 60, xilofones, eletrônica dos primórdios, jingles, easy listening (com direito a sambinha bossa nova em “You Do Not See Me”), cativa inicialmente pela proposta, pela elegância da capa, pela lembrança inevitável do Stereolab como grupo aficcionado pelas mesmas sonoridades. Ao mesmo tempo, existe o lado colagem, cut-and-paste (por vezes soando primo do trabalho feito por Guillermo Scott Herren no Prefuse 73), além de um ecletismo de sons que pertence inequivocamente ao nosso tempo – talvez seja mesmo o correlato musical da acessibilidade plena a todos os objetos culturais do mundo que a internet e a circulação global permitem. Algumas belas melodias de violão surgem e desaparecem do nada (como no momento final de “String Sine Romance”), dando por vezes um sentimento caloroso que em geral o disco não privilegia. A pequeníssima duração das faixas, associada aos diferentes gêneros e sonoridades evocados, sugerem uma estranha audição de vinhetas de rádio dos anos 60 sarapintadas de sons do espaço sideral. Isso acaba dando muita personalidade ao disco – realmente não é usual ouvirmos coisas parecidas a torto e a direito – mas ao mesmo tempo revela um certo mergulho no fetiche anedótico sixties que limita o poder de Hey Let Loose Your Love. Apesar de ser um disco que só faz sentido ouvido inteiro, citaria como faixas mais interessantes “Echo Release”, “Modern Harp”, a faixa-título e a já citada “String Sine Romance”. (Ruy Gardnier)

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Julian House é um inglês prolífico, com múltiplas atribuições. Com seu amigo Jim Jupp, chefia o selo/escritório de design inglês Ghost Box Music, cujo casting conta com seu projeto musical, The Focus Group. O escritório já criou capas para Broadcast, Stereolab, Primal Scream… Papa fina! Mais uma googlada e descubro que “Focus Group” é também o nome que se dá para um certo tipo de reunião em empresas… business, para ser mais preciso, assunto do qual entendo pouco… mas, de qualquer forma, a descoberta é sugestiva: trata-se do mundo da música, e, como era de se esperar, não há virgens no puteiro…

As capas de discos criadas por Julian House se parecem muito com a música que ele produz: tão saborosa quanto vazia, tão hype quanto fútil, tão descolada quanto conservadora. Muitas referências, mas dispostas como um mosaico ascético, em que as partes utilizadas não são manipuladas entre si, como por exemplo acontece no trabalho dos Beastie Boys, ou no de Guillermo Scott Herren, mas permanecem incólumes, mantendo seu conteúdo formal e referencial intactos. A impressão que dá é que o artista deseja reproduzir uma galeria de arte na cabeça do ouvinte, com tudo o que isso pode representar de esclarecedor e enfadonho: peças bem delineadas acabadas, prontas para o consumo, mas posicionadas “para todos”, mastigadas, “facilitadas”… Novamente inevitável a comparação com o Prefuse 73, pois boa parte dos interlúdios que recheiam seus álbuns, e que são recortes das pesquisas de Scott Herren, se parecem um bocado com as vinhetas criadas por Julian para este ep. Déjà vu, sem o brilhantismo iconoclasta do Prefuse…

No fim das contas, a audição é até aprazível, tamanha a quantidade de possíveis simulacros, de “serviços” que prometem qualidade e uma autenticidade parcial, tal como uma empresa alardeia sua responsabilidade para com o cliente… Soa também como aquela estação de rádio que toca pela manhã “Your song” ou “Rocket Man”, mas que, apesar da escolha infeliz, ainda assim, agrada… (Bernardo Oliveira)

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Publicado em 3 de março de 2008 por em Uncategorized.
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