Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Atlas Sound – Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel (2008; Kranky, EUA)

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Atlas Sound é o projeto solo de Bradford Cox, controverso líder do Deerhunter. Apesar de nunca ter lançado nada oficialmente sob este nome, o Atlas Sound existe desde o início da adolescência de Cox e era com este nome que ele tentava dar forma a suas idéias, muitas das quais vieram a público nos últimos dois anos através do blog que ele mantém para divulgar todos os seus projetos, que incluem, além do Atlas Sound, Deerhunter, Lotus Plaza e Ghetto Cross. Aos poucos, parece que o Atlas Sound deixará de ser um projeto solo e se transformará em banda, levando em consideração declarações do próprio Cox e a formação de sua banda de apoio, que conta com Brain Foote (que auxiliou na gravação do disco), Adam Forkner (Yume Bitsu, White Rainbow) Stephanie Macksey e Honey Owens (Valet). (MM)

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O Atlas Sound seria a segunda tentativa de Bradford Cox em exorcizar seus demônios – livrar-se de sua obsessão com a própria adolescência e o seu verão perdido, quando ficou boa parte do tempo preso a uma cama de hospital, recuperando-se de sucessivas intervenções cirúrgicas. Títulos e letras das canções deixam isto bem á mostra, apesar de boa parte do tempo ser difícil identificar o que ele está cantando.

Outra questão para Cox, ao construir seu álbum, foi lidar com suas influências. Ele nunca as escondeu e pelo contrário, nunca perde a oportunidade de falar longamente sobre elas. Algumas são bem óbvias e presentes no disco, como My Blood Valentine, Joe Meek, ou Stereolab.

Cox parece ainda não saber ao certo a melhor maneira para dar forma a suas idéias, assim, utiliza colagens, samples, de pilhas de ruído branco e efeitos eletrônicos criados com uma gama variada de instrumentos (chegando a usar a mbira) tocados por ele próprio e ou usando laptop. As letras muitas vezes envolvem histórias sobre crianças (algo já presente na capa do disco), a transição para a adolescência, misturando experiências próprias com histórias emprestadas aleatoriamente, os problemas com drogas e a saúde precária.

Quem tentar ver o álbum apenas como uma coleção de faixas deve sair frustrado, muitas das faixas não parecem acabadas, mas funcionam plenamente dentro do contexto, não por este ser um álbum conceitual ou algo parecido, mas por tentar se filiar a uma linha de artistas que presavam a construção cuidadosa de um artefato sonoro. Talvez aí apareça a maior inconsistência do álbum, que não vive plenamente sua ambição, pois Cox não alcança a precisão obsessiva de um My Bloody Valentine ou Stereolab de melhor cepa, faltando ainda a concisão, o privilégio a algumas idéias, mesmo que o disco não seja cansativo, ou que as faixas não sejam longas ou frouxas, faltou edição, nos propósitos.

Os melhores momentos são “River Card” e seus vocais doces/perversos, perguntando “How many boys have you drowned?”, quando Cox flerta com o Thom Yorke de The Eraser em “Scraping Past”, ou se entrega ao shoegaze mais pop de “Ativan”. O ponto alto do disco é sem dúvida “Quarentined”, com seus vocais entorpecidos repetindo “I’m waiting to be changed” embalado por caixas de música.

Considero este álbum mais satisfatório que os do Deerhunter, as canções estão melhor construídas, as transições para as faixas mais ambient/instrumentais parecem melhor pensadas e apesar das faixas serem bem distintas, todas parecem servir ao propósito passar o estado emocional pretendido por Cox. Ainda existem muitas arestas a aparar, muita ansiedade em dizer coisas demais, em lidar com muitas possibilidades, refletindo a insegurança de quem não conseguiu superar a adolescência e nos deixa com um disco doce e precário. (Marcus Martins)

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Indie goes regressive? Ao menos é a sensação que dá ao ouvir Let the Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel, disco em que reencontramos os vocais e gemidos dengosos de um certo indie dos anos 90 (Boo Radleys, Flaming Lips), uma certa parede sonora mais herdada do Jesus & Mary Chain do que do Sonic Youth, certas inflexões mais letárgicas, hipnóticas herdadas do Spiritualized ou da parte mais Jason Pierce do Spacemen 3, uma certa fofura belle&sebastiana… Tudo isso unido a sininhos e melodias de caixa de música, de modo a criar a trilha sonora perfeita da criança melancólica e isolada.

O primeiro disco lançado do Atlas Sound (porque há inúmeras coisas feitas antes desse primeiro disco; estima-se umas 70 canções já colocadas em seu myspace) amplifica exatamente a parte de rock indie já totalmente assimilado que me incomoda em parte do Deerhunter, banda da qual Bradford Cox é vocalista. Não que faça de qualquer jeito: é um disco muito bem cuidado, ele faz tudo com mais do que eficiência, até. Chega mesmo a dar a sensação de solidão grogue de se estar doente preso a uma cama quando passeamos pelas quatro primeiras faixas. Depois, um passeio rápido pela indietrônica (Lali Puna, The Notwist) ali pelo meio do disco, e por fim um final mais abstrato: os lugares para onde ele vai são até interessantes, mas o que ele faz com eles não é nada senão nota no pé de página das bandas mencionadas acima. “Ativan”, por exemplo, lembra por demais as baladas sulfurosas do Jesus & Mary Chain; “Recent Bedroom”, as vocalizações e o instrumental dos Flaming Lips (ou de tantas outras). Claro, para “modernizar” o som acrescenta-se uns barulhinhos aos arranjos, de modo a parecer mais contemporâneo.

A única faixa em que parece haver um esforço maior de sair da concha de referências da indiegestão é “Scraping Past”, que em sua forma de não parecer com nada acaba lembrando bastante “Coco Dub” do Chico Science & Nação Zumbi (o que é um elogio). Mas acaba sendo um destaque menor dentro de um disco que se utiliza da letargia hospitalar para abusar de um receituário sonoro já bastante desgastado e não fazer nada de singular com ele. (Ruy Gardnier)

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É um fato cruel e estranho: alguns artistas soam ao mesmo tempo agradáveis e enfadonhos, até mesmo para ouvidos menos exigentes… Digo isso sem preconceitos contra o hermético, o inescrutável, o “difícil”… mas o tedioso é imperdoável! Como elaborar um discurso minimamente coeso, para dar conta de um artista que, dentro de uma perspectiva indie, realiza tudo com máxima solidez, mas ainda assim não consegue injetar “força” em sua música? É uma tarefa ingrata escrever sobre música… “O que esse cara entende por ‘força’?”, perguntaria o leitor. Problema do crítico: ele que se vire para dar conta de 50 minutos em 1500 caracteres…

A dificuldade está no fato de que, na verdade, gostei desse disco de estréia do Atlas Sound, mas consciente do conteúdo idiossincrático deste juízo. Falta “força” ao som de Bradford Cox e sua turma, no sentido de uma expressão própria, “autoral” – que, inclusive, falta também a seu outro projeto, Deerhunter… Sua audição me fez sentir um pouco como o cego do título do álbum, mas às avessas: eu posso sentir seu barato, mas ouvir novamente será muito difícil. E é justamente neste ponto que, por uma questão de falta de recursos ou mera indução, recorremos para o fraquíssimo benefício da comparação: aquela confusão plácida ocasionada pelo My Bloody Valentine; aquela porção de excesso tão bem mesurada pelo Animal Collective; o vocal bemmm Peter Murphy; algumas sonoridades bemmm Bowie 77′; e, sobretudo, certas inflexões do pop experimental da atualidade, um gosto pela sobreposição, pela indeterminação, pela manipulação e sobrecodificação de elementos sonoros aparentemente adquiridos (por exemplo, uma cama de guitarras em “Bite Marks”, uma bateria em “River Card”, um suposto piano “preparado” em “On Guard”…). Destaco também a melodia de “Quarantined”, cuja beleza talvez me faça retornar ao disco…

Na seara do discurso indie, Let the Blind… surpreende, mas não apaixona; como o disco de estréia do Vampire Weekend, diverte mas não empolga… Contradições do pop contemporâneo, que só à força de um interesse inabalável – e de uma escrita sinuosa – podem levar ao prazer. (Bernardo Oliveira)

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Atlas Sound e Deerhunter, os dois projetos principais de Bradford Cox, têm sido alvo de uma superexposição nas publicações musicais que não lhes é merecida. Mas isso não acontece por acaso: ambos estão no cardápio da Kranky, um dos melhores selos em atividade dos últimos quinze anos, e o que mais se manteve fiel à sua proposta sonora inicial.

A partir de seu primeiro e emblemático lançamento, Prazision LP, do Labradford, a Kranky já mostrava uma preocupação em explorar diferentes texturas de guitarra e de som. Os dois principais discos do post-rock (Laughing Stock e Spiderland) haviam sido lançados há dois anos e o trajeto do rock alternativo fora modificado. Era momento de trazer uma nova estética, mais abstrata, ambientizada e texturizada. Os lançamentos da Kranky eram voltados para a introspecção, para a (co)existência de várias camadas sonoras e efeitos de voz e guitarra. Além de Labradford, o selo também lançou discos importantes de Low, Godspeed You Black Emperor!, Dadamah/Roy Montgomery, Amp, Windy & Carl, etc. Hoje é abrigo de verdadeiros estudiosos da música contemporânea, como Keith Fullerton Whitman, Charalambides, Tim Hecker, Stars of the Lid e Strategy. Foi responsável igualmente pelos mais belos e surpreendentes álbuns do ano passado, como Omns, do Lichens, The Patron, do To Kill a Petty Bourgeoisie e Future Rock, do Strategy.

Let the Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel, com seu diálogo sobre fantasmas na primeira faixa, nos transporta imediatamente para um universo longínquo e etéreo. A parede sonora shoegaze, os vocais quebradiços e os reverberantes barulhos eletrônicos ecoam em nosso cérebro infinitamente. É como a trilha sonora perfeita para algum filme de Sofia Coppola. Sentimo-nos praticamente lost in translation. Mas se as primeiras audições de Let the Blind Lead encantam por suas belas melodias e pela complexidade de sons coordenados por Cox, as audições sucessivas podem se tornar um pouco cansativas. Ao passo que um dos triunfos do disco é nos conduzir para um universo celeste e peculiar, esse mesmo universo é capaz de amortecer os ânimos. Sem contar que as faixas de destaque, “Recent Bedroom” e “River Card”, se situam no início do disco e, ao final, as melodias repetitivas e o vocal lânguido de Cox tornam-se demasiado cansativos.

Apesar da complexidade sonora e textural de Let the Blind Lead, é impossível não remontar ao shoegaze de anos atrás, à forma de criar uma parede sonora simples e efetiva dos irmãos Reid, à sensibilidade na maneira de cantar típica de um Neil Halstead ou Kevin Shields. Se Bradford Cox demonstra talento de sobra, ainda lhe falta um pouco de originalidade, ou capacidade artística de criar uma identidade exclusivamente sua. É interessante que alguém esteja reverenciado o shoegaze e tentando trazer alguma espécie de evolução a esse subgênero. No entanto, linguagem própria é algo de imprescindível para um gênero tão desgastado como o pop/rock. (Thiago Filardi)

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Um comentário em “Atlas Sound – Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel (2008; Kranky, EUA)

  1. zito
    19 de setembro de 2008

    maravilhoso universo sonoro do Cox, muito bem representado neste disco .

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Publicado às 10 de março de 2008 por em pop, rock e marcado , , , .
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