Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Frank Bretschneider – Rhythm (2007; Raster-Noton, Alemanha)

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Frank Bretschneider é compositor, video-artista, co-fundador do selo Raster-Noton e um dos mais discretos e fundamentais nomes do minimalismo eletrônico. Rhythm é seu oitavo álbum solo e marca sua estréia individual em seu próprio selo, em um ano que ainda contou com o lançamento de novo álbum do projeto Signal, que divide com Olaf Bender (Bytone) e Carsten Nicolai (Alva Noto). Grava também sob o nome Komet, Produkt, Tol, entre outras inúmeras colaborações. (MM)

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Bretschneider é daqueles que ficam nas sombras, não é festejado pelas publicações descoladas, (ainda) não gravou com o Sakamoto, não fez remix para a Björk, nem foi capa da Wire, quer dizer, dentro do minúsculo mundo do minimalismo eletrônico, pontilhismo digital, esculturas sonoras ou qualquer nome que se queira dar a sua música e a de seus comparsas, ele é quase invisível. Ainda assim, ele parece estar se tornando o mais acessível membro do Raster-Noton e isso com mais de 50 anos de idade. E em seu caso a idade é componente importante ao olhar sua produção que não parece se acomodar em identificações fáceis, aliando a complexidade das composições com a familiaridade dos ritmos explorados.

2007 foi um ano que poderia ter mudado isto, ao ter presenciado o lançamento de dois estelares lançamentos em que Bretschneider esteve envolvido. O último lançamento do projeto Signal, que achou seus membros encontrando uma fluidez aliada a inventividade que faltou no lançamento anterior. E o lançamento de Rhythm, com seu título auto-explicativo que poderia sugerir mais um lançamento cerebral, de meras desconstruções de ritmos (já se desconstruiu tanto nos últimos tempos que o maior problema anda sendo evitar tropeçar no entulho que deixam pelo caminho).

Bretschneider sempre foi conhecido por sua precisão, sua atenção obsessiva aos detalhes, à limitação de suas fontes ao ruído branco e sine waves manipulados em loops e cortados por cliques e mergulhados em baixo pulsante. Rhythm não abandona os ideais estéticos dele, mas os alça a outro patamar, se já era evidente o interesse de artistas da Raster-Noton no hip-hop, dub, ou funk, além de todo o espectro da dance music, este disco abraça todos e buscar as suas raízes, o que é explicitado no título do disco. Ele não teme ser acessível, manipulando os gêneros e dando continuidade a suas diabrites rítmicas, criando padrões percussivos instigantes e reconhecíveis e investigando as formas essenciais dos rítmos, o disco é concentrado e direto. Porém, se desde sempre sua música pôde ser resumida na fórmula textura mais ritmo, aqui ela assume um insuspeito ar funky. É como se Gunther Von Hagens não apenas fatiasse os corpos que apresenta em exposições, mas também os fizesse dançar. Bretscheneider quebra os ossos e vai até a medula, construindo um disco tão lapidar que não resta dúvida que não tardará sua reabilitação. (Marcus Martins)

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Muitas vezes, ouvindo Trans-Europe Express, do Kraftwerk, quando me dou conta, a faixa inicial já se transformou na segunda. Não que a música não tivesse mudado de estrutura ou tema, radicalmente até. Mas é que a fluidez e a sensação de ritmo é tamanha que contagia o ouvinte ao ponto do transe. Isso tudo pode também ser dito de Rhythm, oitavo trabalho de Frank Bretschneider (e lamento muitíssimo não conhecer o resto), em que o aporte timbrístico e de pesqusia de sons eletrônicos bebe naturalmente bastante do pioneiro grupo alemão de Dusseldorff, assim como do duo britânico Autechre. Mas aqui Bretschneider empenha-se na ousadíssima tarefa de fugir inteiramente das camadas melódicas e construir seu som unicamente a partir de células rítmicas. É exatamente o que o título sugere: ritmo, assim, conciso e direto.

Não que isso seja novo. Afinal, desde “Ionisation” de Edgard Varèse a música já faz suas experiências em liberar os elementos percussivos de sua submissão às estruturas melódicas da composição. Mas aqui a tentativa de Bretschneider é um tanto diferente, e consegue resultados potentíssimos pela complexidade do projeto: não tanto fazer atentar para a riqueza dos timbres percussivos liberados de sua função costumeira de acompanhamento, mas construir paisagens sonoras que, na grade do bate-estaca do 4/4, criar micro-ritmos que densifiquem e transformem a linha reta num quebra-cabeça. Não à toa, a capa sugere ao mesmo tempo uma lacuna, uma elipse, uma ausência que sugere uma presença, e ao mesmo tempo zomba da certeza da linha reta (de longe, a capa parece um arco fendido).

A música de Rhythm não propriamente evolui, apesar de variar bastante (e de capitalizar bastante a cada variação, mais ou menos sutil). Ela mais parece seguir; seguir não para frente, mas para dentro dela mesma. Daí essa deliciosa sensação de indistinção entre as músicas já que se trata, claramente, de um disco pra se ouvir inteiro, como uma suite, como o lado b de Trans-Europe Express ou 9 Modules de Yoshihiro Hanno. Além de sua fluidez absoluta, cabe destacar a elegância na escolha timbrística extremamente discreta, em que cada elemento que aparece chama mais atenção para o conjunto do que para si mesmo. Por fim, encanta o foco total do disco, a sensação de que nenhum elemento está sendo jogado gratuita ou aleatoriamente, mas que faz parte de uma unidade. Essa precisão toda, aliada a um feeling inegável (ou seja, não é só a pura cerebralidade funcionando aqui), que faz de Rhythm um dos melhores lançamentos eletrônicos dos últimos anos.

[p.s. Curioso estar escrevendo sobre esse disco no mesmo momento que o Autechre, a quem podemos quase sempre atribuir a maioria dos elogios que fizemos acima, faz com Quaristice o disco menos focado e sem unidade de toda sua carreira] (Ruy Gardnier)

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Frank Bretschneider não é propriamente o que se poderia chamar de um pioneiro na exploração das relações entre música e imagem. Mas, sem dúvida, seu trabalho caracteriza-se por uma consistência temática, por uma persistência no trabalho com estruturas musicais que exploram as possibilidades de um discurso mais atrelado à imagem do que ao som. Como Marcel Duchamp buscava uma pintura “anti-retiniana”, o trabalho de Frank Bretschneider é muito pouco musical. Daí decorre uma das características fundamentais de seus discos: a presença tímida de “harmonia” e “melodia” no sentido tradicional do termo. Claro que uma concepção de harmonia desprendida dos cânones da música ocidental considerará absurda esta visão: Frank explora, sim, uma dimensão da harmonia que, entretanto, não se esgota na sobreposição de notas ou acordes, mas, sobretudo, se esmera na elaboração de estruturas compostas por peças mais “sonoras” que propriamente “musicais”. Para que esses comentários não passem por abstratos, sugiro a audição dos discos Rand, de 1999 e a etérea parceria com Ralph Steinbüchel, Status, de 2005.

Influência para artistas como Ricardo Villalobos e Vladislav Delay, o trabalho de Bretschneider aponta uma indistinção entre música e imagem. Porém, não num registro onde imagem e música se completam, como no videoclipe. Trata-se, antes, de um contexto em que o próprio som, através de ruídos e loops, evoca uma dimensão em que a audição é necessariamente deslocada de seu sentido “auricular” apelando para o corpo, para os olhos… Em suma, para uma dimensão mais sensível da forma… E isso de modo a privilegiar o ritmo, que, de fato, sempre esteve presente nos seus discos. Pois bem, seu último disco, de 2007, chama-se Rhythm.

Quando soam as primeiras notas (?) de “A Soft Throbbing Of Time”, somos levados a pensar: ok, mais um trabalho do artista plástico que viu no Kraftwerk e na “música eletrônica” a abertura de precedente ideal para expressar suas idéias musicais, tão racionais quanto chapantes… Mas não: dessa vez o Kraftwerk deu de encontro com o Public Enemy mais lavado, com aquela batida afro-sacolejante de “Don’t Believe the Hype” e “Black Steel…”, que sentimos simultaneamente no corpo e na alma (como, de fato, corpo e alma são…). Estruturas mais dançantes, timbres mais agressivos, alguma referências aos trabalhos anteriores, este Rhythm pode ter passado em branco pelas listinhas de fim de ano – na renomada e vanguardista The Wire ficou injustamente atrás dos discos mornos de Pram, Kassin+2 e LCD Soundsystem… Mas, ao contrário deles, figura certamente como uma peça consistente (e prazerosa) na discografia desta década que já vai. (Bernardo Oliveira)

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Dois desafios são impostos ao escrever sobre Rhythm: o primeiro é que pouquíssima coisa foi dita sobre Bretschneider. Se digitado seu nome no Google, serão encontradas apenas mini-biografias e definições curtas de sua música; o segundo desafio é que o disco em questão foi batizado de Rhythm. Em uma simples palavra, foram resumidos todos os (pouco mais de) quarenta minutos do LP. Então, o que mais poderia ser dito? Consegui encontrar somente duas resenhas sobre ele: uma na revista The Wire, que também o colocou como o quinquagésimo melhor disco de 2007; e outra no site Boomkat. Ambos não dizem muito sobre o disco, ou, pelo menos, algo que eu não tenha lido em seu próprio site ou não tenha sentido em sua música. O crítico da Wire disse que a música de Bretschneider é tão robótica que chega a beirar o automatismo: é como se ela tivesse uma vida própria, independentemente de ter alguém por trás manipulando sons ou não. Eu discordo desse comentário. Acho que Bretschneider coloca bastante de si em suas músicas. Suas interferências são constantes e ele nunca se mostra satisfeito com a combinação de elementos ali dispostos. Outra coisa que não consegue sair da minha cabeça é a definição do Ruy após mostrar o disco pra mim pela primeira vez. Ele disse que “Frank Bretschneider trabalha com células rítmicas”. É um comentário pertinente e que, de certa forma, bloqueou meus pensamentos, pois me sentia no dever de dizer algo além sobre sua música, enquanto essa análise era melhor que qualquer outra que eu pudesse pensar. Afinal, o disco se chama Rhythm e tudo o que Bretschneider faz é perscrutar e diligenciar o ritmo (ou as células rítmicas presentes em cada batida). Ele regula aquela velha tática do techno minimal: reduz os elementos da música ao mínimo possível, de maneira que sobre apenas o essencial. Entretanto, não encaixaria a sonoridade de Bretschneider exatamente como minimal. Ao menos soa um pouco distinta daquela feita pelos produtores contemporâneos desse estilo. As variações rítmicas são maiores, assim como as mudanças de texturas e timbres de batida são mais constantes. O baixo é mais sublinhado e se assemelha ao sub-bass do dubstep: é muito grave, e se colocado em um volume inferior, é pouco sentido. Talvez algo que aproxime Bretschneider do techno minimal seja a secura de suas batidas. Pouca coisa ecoa em Rhythm. De um modo geral, as batidas são bem secas e acrescentadas de nenhum reverb. Rhythm, no final das contas, é melhor aproveitado quando escutado através de fones de ouvido. As batidas fazem mais efeito e é possível ouvir os pequenos detalhes com mais acuidade. O ritmo, melhor concluindo, é algo muito mais pra ser sentido do que expressado em palavras. (Thiago Filardi)

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Um comentário em “Frank Bretschneider – Rhythm (2007; Raster-Noton, Alemanha)

  1. Glauco Félix
    16 de março de 2008

    Bretsdneider é sensacional inclusive este album!

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Publicado em 10 de março de 2008 por em Uncategorized.
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