Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Judy Collins – “Dress Rehearsal Rag” (1966; Elektra, EUA)

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Quase todo mundo conhece “Dress Rehearsal Rag” como um dos mais brilhantes momentos do mais brilhante disco de Leonard Cohen, Songs of Love and Hate, de 1971. Mas cinco anos antes, a cantora folk americana gravou a faixa, sobre um homem que cogita o suicídio quando vai se barbear. Com Leonard Cohen, naturalmente, é em primeira pessoa, ensimesmada, dura, desesperançada. Com Judy Collins, a terceira pessoa obrigatória leva a cantora a tomar um tom declamatório, como se fosse o destino batendo à porta do personagem. O acompanhamento de piano, repetitivo, percussivo, antecipa muito do que John Cale faria posteriormente, e complementa a sensação de encontro com o destino. No momento do flashback, do passado inocente e livre do personagem, as flautas criam uma ambientação romântica, só para ser devastada novamente quando as esperanças vão-se embora e o homem se vê novamente às voltas consigo mesmo no espelho, espuma na cara (“Santa Claus”), lâmina na mão. Para um vocal feminino de tanta dramaticidade declamatória, aceitando cantar algo tão desolador e intenso, teríamos que esperar a carreira solo de Nico. Tão duro, tão desesperado quanto em Cohen, mas ainda assim surpreendentemente diferente. E as duas versões são obras-primas a suas maneiras. (Ruy Gardnier)

* # *

Quando Papai Noel avança com a navalha e seus óculos escuros, mostrando ao suicida o local adequado para o corte, e as câmeras “pan”… É desesperador e belo! Por ora, gostaria de frisar um “descompasso” criativo, especificamente observável na versão em questão: percebe-se na voz segura de Judy Collins, mais nítidia que a voz alcoolizada de Cohen, uma atenuação do caráter desesperançoso da letra que, contraditoriamente, é acompanhada por um arranjo mais tenso que o da gravação original. O piano à la John Cale da versão de Judy Collins tensiona aquilo que sua emissão adocicada apascenta. Da inversão resulta que o nível de tensão suicida permanece, porém com um tom menos concentrado na letra. Isso deixa a música mais leve, e até poderia dizer, “mais bonita”. Mas, ora, que heresia! Que importa a beleza, quando temos a dor, nas palavras de um místico alemão, “a mais veloz montaria para alcançar a verdade”? (Bernardo Oliveira)

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Publicado em 14 de março de 2008 por em Uncategorized.
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