Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. – Crystal Rainbow Pyramid Under the Stars (2007; Important Records, EUA)

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Acid Mothers Temple & the Melting Paraiso U.F.O. é uma das variações mais famosas e prolíficas do combo/família/clã japonês Acid Mothers Temple, capitaneado por Makoto Kawabata (ou Kawabata Makoto, respeitando a tradição japonesa de posicionar o nome de família antes do prenome), guitarrista e multiinstrumentista. O conjunto já assumiu dimensões mitológicas por sua extensa discografia lançada — às vezes mais de cinco álbuns por ano –, pelas confessas influências setentistas (já no nome: Mothers pelo conjunto Mothers of Invention de Frank Zappa, Temple de Ash Ra Tempel) e pelas jams de psicodelia e barulho bastante características. Completam o Melting Paraiso U.F.O. nesse disco Hiroshi Higashi (sintetizador), Atsushi Tsuyama (baixo, violão, voz), Koji Shimura (bateria), Ryoko Ono (saxofone, flauta) e Hao Kitagawa (voz), cantora que aparece pela primeira vez nos line-ups da “família”. (RG)

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Dificilmente ao dar as linhas gerais do que é o Acid Mothers Temple iremos conseguir gente entusiasmada: um coletivo de malucos japoneses com músicas que parecem jams enormes com solos barulhentos, cheios de efeitos, e tecladinhos com sonzinhos “cósmicos”. O incrível é que, a despeito de todo setentismo hard-rocker-psicodélico, o som da banda apareça com a energia e a singularidade que a música do AMT tem. A bateria abafada lá no fundo, estabelecendo o andamento, o baixo enchendo o som, a guitarra solando loucamente: é assim que começa a primeira faixa de Crystal Rainbow Pyramid Under the Stars, como aquilo que esperamos desse grupo. “Pussy Head Man From Outer Space” é alta, veloz, brutal e farta-se de graça em sua não-progressão: é quase o Motörhead fazendo free-jazz. “Crystal Rainbow Pyramid”, a segunda, abranda o andamento e a pressão do conjunto: por muito tempo temos Kawabata solando no esquema meio modorrento daquele jazz-rock aguado que os seguidores do Zappa adoram. Nem mesmo o sintetizador ficando mais alto que a guitarra a gente vê. Quando dá uns 8 minutos a gente até esquece que é fã do Acid Mothers Temple, tamanha a chatice, mas quando a faixa entra nos 10 minutos uma bela melodia de guitarra aparece, o som começa a ficar cheio de novo e já com 12 a gente relembra inteiramente por que gosta da banda. Mas o grande destaque do disco vai mesmo para a terceira faixa, “Electric Psilocybin Flashback”, e seus seis minutos iniciais. São seis minutos que valem um disco inteiro, ou mesmo mais que isso. É um dos maiores riffs de rock surgidos nos últimos anos, e a maneira como ele aparece sozinho abrindo a faixa, como ele desaparece um pouco para esperar o acompanhamento entrar e como ele volta aos dois minutos descendo a pancada mostra um incrível aproveitamento da progressão da faixa, fazendo ela ganhar aos poucos em intensidade. Mas o clímax chega muito cedo, e fatalmente tudo muda: andamento lento, violão e saxofone, com os sons de Higashi ao fundo. Tudo bem que a potência sonora do começo da faixa obrigava um momento letárgico na seqüência, mas o saxofone de Ryoko Ono é incapaz de criar qualquer exuberância especial, e ainda dura muito tempo. Em seguida, nova guinada: violão e a voz de Hao Kitagawa, num momento lírico, de delicadeza mesmo, levando o som do AMT para onde dificilmente esperaríamos. E com sucesso. Depois volta a guitarra de Kawabata solando, volta o esporro e deságua novamente no riff inicial, para efeito catártico. Em seguida volta Hao Kitagawa, agora entoando um cântico como se fosse uma prece macabra e lembrando um dos melhores momentos da carreira discográfica do ATM pra mim, o fim de Univers Zen ou de Zéro à Zero. Os últimos dez minutos dão faixa morrem com violão processado e os sonzinhos sintetizados indefectíveis. Outro momento delicado, mas tensionado, que se não é um destaque, ao menos fecha o disco de forma honrada. No fim, o disco mostra exemplarmente o melhor e o pior do Acid Mothers Temple. O pior em alguns poucos momentos bobocas, mas que chateiam, e o melhor em puro delírio sônico. (Ruy Gardnier)

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Sinceramente: não sou nada fã do Acid Mothers Temple. A primeira vez que ouvi achei até bacana… Mas a simpatia durou até o fim da segunda audição. Perdura a sensação de uma mistura de Motörhead e psicodelia que, embora estapafúrdia, soa mais do que óbvia. Eu mesmo poderia fazer uma banda que meramente juntasse Black Sabbath e dubstep, tentar ser rigoroso, batizar os álbuns com um humor referencial, construir um selo e este trabalho seria análogo ao de Kawabata e sua turma – imaginem a levada de “Ghost Hardware” com o riff de “Snowblind”… A primeira faixa, tradicional na discografia do grupo, pelo menos tem menos de 50 minutos, o que já conquista minha simpatia de cara… Já a segunda faixa é de uma chatice sem fim, um bluesão loooongooo, com direito a solinho de guitarra sem vergonha e barulhinhos diversos… Na terceira as coisas melhoram um pouco: um toque oriental à melodia, um ritmo um pouco menos ordinário, alguns momentos mais admiráveis, como a entrada de um saxofone (?), depois de um violão estilo Gypsy Kings. Mas, para meu gosto, acostumado a Calypso e Sarajane, este melting-paraiso-ufo-king-black-crimson–sabbath não leva muito longe… De modo que, para terminar – e procurar não revoltar os fãs ardorosos – eu listaria alguma constantes no som dos caras que fazem com que eu me sinta obrigado a emitir essa opinião: eletronics fajutos, estilo programa de auditório, que salpicam inexplicavelmente todas as faixas; a quantidade inacreditável de solos de guitarra e violão, insuportáveis; o tempo das músicas, que revelam uma megalomania sem fim; por fim, essa neurose pentelha de batizar os discos com referências engraçadinhas… Detalhes que fazem a “diferença”, mas que, para azar do ouvinte, se repetem tediosamente a cada disco. (Bernardo Oliveira)

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É difícil se sentir à vontade para falar de uma banda que tem uma discografia tão vasta e com a qual você não está familiarizado. O Acid Mothers Temple, por exemplo, sempre me intimidou com sua prolificidade discográfica: por onde começar, se enquanto você está pensando, eles já lançaram mais dois novos LP’s? Nada muito difícil com as facilidades atuais da internet, mas sempre um desafio, principalmente para pessoas com pouco tempo livre e que têm que dar conta de uma gama infinita de novos lançamentos. Portanto, é com ouvidos frescos que escuto esse Crystal Rainbow Pyramid Under the Stars. Antes, só havia travado conhecimento uma única vez com a banda, através do disco Univers Zen ou de Zéro à Zéro, de 2002. A experiência fora excelente, mas percebi que, além de prolífico, o Acid Mothers Temple é extremamente prolixo. Isso significa que não é uma audição para qualquer momento e, por essa razão, me afastei deles.

Para ouvir Crystal Rainbow, é preciso paciência e disponibilidade. No entanto, a recompensa é mais que gratificante. Depois de pressionado play, é impossível não entrar de corpo e alma na música desse coletivo japonês. Seus riffs hipnóticos, bluesianos e sua base firme abrem o disco a todo vapor. Não demora para que solos completamente alucinantes de guitarra detonem nas caixas. O embaraço sonoro é proposital e envolvente. Além do riff que se repete até o final (acelerando conforme o andamento da música), ouve-se um overdub de guitarras quase sufocante. Entramos na atmosfera do Acid Mothers Temple, que, de certa maneira, dá prosseguimento ao rock experimental da virada da década de 60/70 – e que não demorou a se dissipar. Somente pelas referências no nome da banda e nos discos, já pressupomos que a influência de Zappa e seus Mothers of Invention é enorme, assim como Grateful Dead, Steppenwolf, Terry Riley, David Bowie (era-Ziggy) e Ash Ra Tempel. Pela sonoridade, percebe-se que tem muito também de Hawkwind, e dos projetos de Moebius e Roedelius, como Cluster e Harmonia, na música do grupo japonês. Aliás, algo a notar é que na segunda faixa, quase homônima ao título do LP, alguns efeitos de guitarra lembram aqueles desenvolvidos por Moebius e Roedelius, em suas duas bandas principais. Isso é curioso, pois a vertente kosmische do rock alemão foi a menos difundida – talvez por ser a mais difícil de copiar. E é com destreza que o Acid Mothers Temple faz uso dessa influência. Sua sonoridade, de fato, deve muito ao rock alemão daquela época. A construção de uma atmosfera cósmica é uma das características mais marcantes do coletivo, que suga o melhor do rock psicodélico e experimental, mas sempre adicionando aquele grau de insanidade japonesa. Uma banda, que como poucas, sabe fazer proveito de suas influências sem nunca olhar pra trás, fazendo destas uma miscelânea sonora de qualidades afins. O destaque é, sem dúvida, a terceira e última faixa, “Electric Psilocybin Flashback”, uma suíte rock-psicodélica-oriental de aproximadamente 40 minutos, com violões de afinação aberta e vocais femininos agudíssimos – os aproximando mais que nunca de seus conterrâneos Ghost. Mais da metade da música se sustenta em progressões de acorde repetidas ad infinitum. E quando achamos que está para acabar, é aí que entra outro riff de violão para se repetir eternamente. Ao final, são setenta minutos cravados de psicodelia, antropofagia e desatino sonoros. (Thiago Filardi)

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O Acid Mothers Temple não é das entidades musicais mais fáceis de acompanhar – discografia numerosa (se contei certo, só em 2007, a família AMT pariu nove álbuns), som peculiar e pouco afeito a categorizações fáceis. O rótulo psicodélico e do freak-out, se não é equivocado, é limitado e não abrange a gama de sons oferecidos.

Os discos do AMT mais parecem a documentação de um processo que talvez apenas seja claro para o lunático do Kawabata Makoto e, mesmo assim, deste processo obscuro ficamos com a constância na qualidade da música e sua capacidade de surpreender e verdadeiramente buscar alguma espécie de transcendência, ou simples piração extrema (a fronteira é tênue).

Crystal Rainbow Pyramid Under the Stars tenta apresentar pequenos novos elementos. Aproxima-se do free-jazz, em especial pela presença de saxofone, e isto é notável em um disco que, diferentemente de outros lançamentos do AMT, privilegia uma maior clareza dos instrumentos, sendo mais fácil identificar a construção das faixas e sem afastar de todo o caos que a banda sempre corteja. A adição de vocais traz uma fragilidade insuspeita e junto ao sax cria um contraponto emocional à vertigem dos componentes eletrônicos e da guitarra de Kawabata.

A transição entre os movimentos mais acelerados de “Pussy Head Man from Outer Space” e a calma e andamento quase contemplativo que domina “Crystal Rainbow Pyramid” cria um contraste que serve de preparação para a (longa) jornada de “Electric Psilocybin Flashback”. Com cerca de 40 minutos, a faixa começa com a presentação de uma linha de guitarra de textura oriental das mais intoxicantes da carreira de Kawabata e no restante da faixa, como é comum em faixas do AMT, a mistura do delírio com a repetição dá o tom, e a melodia inicial que ressurge ocasionalmente por toda a música dá alguma unidade trabalho, que mesmo precisando de longa duração para desenvolvimento de seus propósitos, não justifica, de forma alguma, os absurdos minutos.

Se o efeito da música não exatamente é aquele a que se refere o título do disco, ainda assim temos um cogumelo sem contra-indicações. (Marcus Martins)

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Um comentário em “Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. – Crystal Rainbow Pyramid Under the Stars (2007; Important Records, EUA)

  1. Cesar Augusto Batista de Souza
    9 de janeiro de 2012

    Gostei muito dessa banda, gostaria de comprar cds e gostaria de saber os locais que eu obter. Moro em Piracicaba SP.
    Grato
    Cesar

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Publicado em 16 de março de 2008 por em Uncategorized.
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