Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Om – Pilgrimage (2007; Southern Lord, EUA)

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Om é uma dupla americana formada por Al Cisneros (baixo, voz) e Chris Hakius (bateria), ex-integrantes da banda de stoner/doom metal Sleep. O primeiro disco, Variations on a Theme, é de 2005. Conference of the Birds, lançado no ano seguinte, fez com que a banda ganhasse notoriedade para além dos círculos de fãs de metal. Pilgrimage, lançado em outubro de 2007 e contando com Steve Albini na produção, é o terceiro disco da dupla. [Entre discos, o Om lançou em 2006 o ep Inerrant Rays of Infallible Sun, split com o Current 93]. No começo do ano Chris Hakius deixou o Om. Um single ainda a ser lançado pela Sub Pop conta com o baterista Emil Amos, do Grails. (RG)

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A primeira coisa que a gente se pergunta quando descobre que o Om é uma dupla que usa apenas baixo e bateria é se dá peso e densidade suficiente. A audição inicial torna a pergunta estúpida em questão de segundos. Basta que o baixo distorcido de Al Cisneros apareça para que a gente tenha a clara impressão que nunca ouviu um instrumento tão pesado na vida. A segunda pergunta é mais ajuizada, e vinha da audição de Conference of the Birds: será que eles conseguirão solidificar sua carreira como banda mantendo o mesmo padrão (o que é meio que obrigatório para a singularidade do projeto) e ainda assim encontrar uma variação dentro do padrão que atice a curiosidade? Pilgrimage responde com um “sim” suntuoso a essa questão, ao mesmo tempo fiel à sonoridade criada nos dois discos anteriores (basta alguns segundos para identificar qualquer faixa deles), mas sabendo encontrar caminhos de composição e sonoridade diferentes o suficiente para garantir o interesse.

Porque é claramente uma banda que lida com a repetição: faixas longas, lentas, densas, baixo ora melodioso ora distorcido e pesado, prato ou contratempo marcando o tempo, caixas e tontons dando ao andamento um tom marcial. Quem ouve uma música deles e gosta espera evidentemente o mesmo tipo de música, e vai esperar sempre: atmosférico ao ponto da hipnose, com a melodia da voz acompanhando a do baixo e sendo cantada como um cântico. Pilgrimage oferece tudo isso em doses diversas.

A primeira, que dá nome ao disco, estabelece uma sonoridade branda, com baixo sem distorção e Hakius sem atacar nem bumbo nem caixa, basicamente contratempo e tontons. O nome “peregrinação” não poderia ser mais indicado para essa faixa que evolui límpida, sempre igual mas envolvente ainda assim, por 11 minutos e meio. Em seguida, “Unitive Knowledge of the Godhead” começa o assalto sônico, com uma reverberação absurda de baixo que deságua no começo da melodia, com baixo estourando de distorção e Hakius destruindo em caixa e pratos. Um trabalho de prato tão bem cuidado que parecem sinos do além. Coisa fina. “Bhimas Theme” repete a mesma estrofe ao longo de seus quase 12 minutos, mantendo o padrão instrumental da anterior (caixa/prato/baixo distorcido), apenas com mais liberdade para Hakius fazer suas viradas. Mas aos seis minutos Cisneros fica só com seu baixo, repetindo a melodia, calmo, doce quase, primeiro sozinho, depois com seu vocal, até que aos dez minutos a coisa explode novamente e relembra o peso da dupla, só para o caso de o ouvido já ter se acostumado. O disco termina com a retomada da faixa inicial, como o fim de um ritual.

É um disco que se ouve como se experimenta uma liturgia: com sua reverência, seu ritmo radicalmente diferente das vivências diárias, com fôlego também distinto. E em estado de beatitude. Quando a gente pensa nele a gente até se espanta com o poder que ele exerce sobre nós, mas enquanto o ouvimos a força está toda lá. (Ruy Gardnier)

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Baixo e guizos orientalizados descortinam o assombroso espetáculo que se seguirá. O ritmo acelera, uma atmosfera modal ganha espaço… Subitamente, o som pára, mas recomeça: a mesma cama de baixo e guizos, desta vez marcada por um tambor grave e elegante, configurando um novo estágio. Estamos a oito minutos da primeira faixa, “Pilgrimage”, e ela é suficiente para manter o ouvinte vidrado na cadeira. A primeira faixa se vai…

A segunda faixa se inicia no mesmo tom da anterior: desta vez, a marcação é brevemente realizada por um instrumento grave. Poucos segundos se passam, quando eclode uma tradicional cozinha metaleira, estilo Black Sabbath, composta por baixo e bateria. (Uma característica bacana da bateria de Bill Ward é esse toque duplo na caixa que confere um suingue característico, e que Chris Hakius segue fielmente…). O vocal é comedido, nada de gritos e agudos espalhafatosos, mas, ao contrário, uma continuidade tonal que se modula imperceptivelmente…

A terceira faixa se parece com a segunda, mas percebe-se mais agudamente que o ritmo volta e meia é ralentado, depois acelera, configurando um minimalismo sutil… A música pára: o baixo limpo retorna, desenvolvendo uma melodia aparentemente comum às outras faixas. A cozinha e o vocal, dessa vez, elevam o tom. A letra evoca doutrinas militares, personagens bíblicos, epifanias, contribuindo para aquele clima de baixo astral e mistério tão caro e condizente com o discurso musical do metal.

Chega a quarta faixa: é a reprise da primeira. O mesmo baixo, o mesmo tambor, o tom de voz inusual para os padrões do gênero, indicam que este álbum rigoroso e denso está chegando ao fim. E neste momento, vem à minha mente um daqueles pensamentos nostálgicos contra os quais forma-se nosso gosto.

No auge da paixão metaleira, eu sonhava com um disco como Pilgrimage: seco, intelectualizado, minimalista, em nada afetado… Embora esse disco não existisse ainda, nada me impedia de entrar no universo de unicórnios, demônios, caveiras e médicos nazistas que compunham o ideário headbanger. Sequioso por outras sonoridades, divergentes da suavidade do jazz, do samba e da mpb, eu buscava no metal algo que somente ele podia me dar, muito embora parcialmente. Havia sangue, vontade, força no som do Metallica, Slayer, Anthrax, mas no conceito… que lástima! Om, bem como Orthrelm, Aluk Todolo e outros metaleiros do pensamento, conferiram uma dignidade ao gênero. Pilgrimage representa fielmente essa nova dignidade do metal. (Bernardo Oliveira)

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Antes de falar sobre o disco em questão, não posso deixar de comentar sobre a surpresa que tive ao descobrir que Chris Hakius, baterista e metade vital do Om, se afastou da banda em janeiro deste ano. É com certo estarrecimento que recebo essa notícia, pois, mesmo já substituído, não acredito que a nova dupla se equipare à antiga na sua cumplicidade e entendimento musical. Fica claro pra mim que o Om não será mais o mesmo. E logo agora, depois de Pilgrimage, seu disco mais consistente até então, e cujo êxito deve ser creditado igualmente ao produtor Steve Albini, que nos últimos anos foi o responsável pela gravação de verdadeiras pedras milenares (Ys, de Joanna Newsom), mas também de fracassos cabais (The Weirdness, último disco de estúdio dos Stooges). Pilgrimage é o melhor disco do Om porque é o primeiro a possuir uma concepção sonora mais aguçada. O contraponto entre temas calmos e violentos gera uma matiz sonora de efeito impressionante. Nos discos anteriores, a influência sabbathiana ainda era muito sentida – uma herança vinda do Sleep. Não que Pilgrimage não contenha os elementos stoner-rock tão característicos do Om, mas, pelo menos, percebe-se ao longo do disco que eles avançaram para um novo estágio. A música em Pilgrimage parece fazer um círculo: dá contornos ao redor do próprio eixo para depois voltar ao seu ponto de origem; os riffs de baixo são repetidos incessantemente e são construídos basicamente pelas mesmas notas; os vocais são monocórdios e estão mais lúgubres do que nunca; e ao contrário da tendência minimalista atual, eles atingem o minimalismo perfeito através da forma mais orgânica possível. Há somente voz, baixo e bateria. Pilgrimage é quase um monolítico, uma massa sonora sem precedentes.

Pilgrimage significa peregrinação e essa denominação pode soar paradoxal comparada à concepção sonora do disco, pois seu conteúdo musical é o exato contrário de peregrinação: rodeia, rodeia, para, no final, voltar ao mesmíssimo lugar. A faixa-título, que inicia soberbamente o disco, é calma e hipnotiza o ouvinte instantaneamente. Já a segunda, “Unitive Knowledge of the Godhead”, é uma espécie de extensão da primeira, porém mais pesada e mais intensa. Em “Bhima’s Theme”, a terceira faixa, há uma recaída: apesar de ser a única que se diferencia do tema principal (pois, como diz o primeiro disco, a música do Om não passa de variações de um mesmo tema), mantém o clima pesado introduzido pela segunda. Entretanto, essa continuidade deixa o meio do disco um pouco redundante – redundância essa que era o que me desagradava nos discos anteriores. Não só isso: “Bhima’s Theme” é longa demais e contém uns vocais exagerados (ou simplesmente feios), impedindo Pilgrimage de ser uma obra-prima. E o fato de Hakius ter deixado a banda nos faz pensar que, ou eles estavam se encaminhando para a perfeição no próximo disco, ou que Pilgrimage soa exatamente como o testamento final de uma parceria de longa data. De qualquer forma, o álbum ainda resiste como uma das audições mais estimulantes de 2007, e que elevou o heavy metal contemporâneo a um patamar elevadíssimo. (Thiago Filardi)

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De todos os três discos do Om, este é o primeiro em que presto verdadeira atenção. Devo ter ouvido o Conference of the Birds umas duas vezes e me perguntado o que algumas pessoas viam ali. Aqui tive oportunidade de ter melhor contato com as características do som desenvolvido por eles. Não poderia escrever sobre um disco que tivesse ouvido tão poucas vezes, cheguei até a renovar as audições dos discos anteriores e se a opinião melhorou, certamente não é algo a que eu deva voltar com muita freqüência.

É fácil dizer isto quando falo de uma banda que tem origens no heavy/doom/stoner/whatever, nunca gostei de qualquer tipo de metal, talvez seja dos gêneros que menos me interessem, mas aqui nem caberia falar sobre isto, pois definitivamente não estamos diante de um disco de metal stricto sensu.

A grande qualidade deste disco é seu rigor, a arquitetura ajustada do disco, com seu desenvolvimento severo e sem derrapadas, um som sem gorduras. É clichê lembrar que tudo é construído em cima de voz/baixo/bateria e perder muito tempo em conjecturas sobre os limites da formação, um som aqui se impõe como contundente e suficientemente rico em textura para afastar dúvidas. Mas ainda assim, fica uma certa impressão de jogo seguro, de músicos que conhecem à perfeição a técnica utilizada e escondem, por trás do rigor e da precisão, a falta de inventividade. A música é dura e em muitos momentos estéril, usando o fácil artifício do aumento do volume, o uso do peso como veículo para transmitir intensidade.

À desculpa de criar música reduzida à essência para camuflar limitação, nem mesmo as técnicas de gravação de Albini parecem trazer vida às faixas, apesar da gravação ter enriquecido sensivelmente a percepção das qualidades dos instrumentistas. Talvez esta tenha sido a maior evolução para os álbuns anteriores. Seria este o maior pecado do Om, apesar de ter evoluído bastante: ainda não descobriram como transcender os limites que se impuseram. No lugar de empreenderem uma peregrinação, andam em círculos. (Marcus Martins)

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Publicado em 16 de março de 2008 por em Uncategorized.
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