Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Group Inerane – Guitars from Agadèz (Music of Niger) (2007; Sublime Frequencies, Níger)

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Liderado pelo guitarrista Bibi Ahmed, o Group Inerane representa a música revolucionária dos tuaregues, grupo étnico nômade que habita o deserto do Saara. Contando com duas guitarras, bateria e um coro feminino, o grupo percorre os diversos pontos e vilarejos do deserto, levando sua música a festas, comemorações, etc. Este álbum reúnes gravações realizadas entre 2004 e 2007, em Agadèz, departamento do Níger.

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Antes de mais nada, desfaçamos uma confusão disseminada pelos sites que comentaram este lançamento espetacular: Níger e Nigéria são países e contextos diferentes, apesar de vizinhos. Uma diferença fundamental entre os dois países, além do país colonizador, reside no fato de que a Nigéria não faz fronteira com o deserto do Saara, de modo que não herda os conflitos étnicos e os costumes que caracterizam essa região. Faz toda a diferença: a presença dos rebeldes tuaregues que, em meados da década de 60, foram massacrados pelo governo local, com a ajuda dos colonizadores franceses, propiciou uma situação tal de miséria e desolação que o grupo passou a investir na música como canal de denúncia dos abusos cometidos por seus opositores, mas também como forma de “gerar renda”. Munido dessas informações genéricas, adentrei nesse pequeno universo musical do Group Inerane. Mas não descobri se as faixas aqui registradas foram dispostas pelo próprio grupo, isto é, se o disco é “autoral” ou apenas uma compilação de gravações esparsas. Se o “enigmático” Bibi Ahmed de fato é um rebelde, se participa de alguma organização política? Quais as suas influências musicais? O que dizem as letras? Sei muito pouco… Entretanto, o disco me cativou, depois chamou uma atenção que eu não esperava e, por fim, me flagrei absolutamente viciado. E admirado com a quantidade de possibilidades rítmicas e melódicas exploradas, com a tênue divisão entre o que é “nativo” e “adquirido”, com a gama de possíveis influências do blues, do soul, do rock. Algumas bases são tocadas num 3/4 veloz, outras num ritmo muito parecido com uma soca. Eventualmente, sobre uma levada hipnótica de tambor, ecoam solos de guitarra entrecortados por gritos e coros femininos. As possibilidades da guitarra elétrica são elevadas a um patamar ainda desconhecido: são glissandos, estacatos, solos tocados com velocidade de guitar hero, mas uma seqüência de notas absolutamente inusitada. É certo que em “Nadan Al Kazawnin” a levada e as guitarras lembram Velvet Underground; “Kamu Talyat“ evoca Durutti Column. Mas a mera comparação não exprime adequadamente a experiência que este som evoca, experiência essa tomada de momentos surpreendentes. É claro que muitas das impressões positivas que tive em relação ao som do Group Inerane decorrem da distância cultural que mantenho dele, uma curiosidade que, infelizmente, pode ser confundida com a pasmaceira multiculturalista comum no discurso institucional contemporâneo. Mas, superadas essas contradições, superados os possíveis incômodos que o fetiche da novidade pode trazer para o espírito, o que ganhamos com este álbum do Group Inerane é a certeza de que a produção musical hoje obedece ao estímulo do díptico “pesquisa” e “descoberta”. E isto tanto na criação musical propriamente dita, quanto na divulgação de manifestações que não encontravam espaço antes do advento da internet e de suas formas particulares de produção e difusão cultural. (Bernardo Oliveira)

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Exatamente como ocorreu em 2004 com o Konono nº 1, outra vez a África nos presenteia com mais um de seus talentos desconhecidos. É o Group Inerane, uma das grandes surpresas do ano passado e que impressiona no seu conteúdo político-musical: rebeldes tuaregues vindos do deserto do Saara, armados com guitarras ferozes e que usam sua música como meio politizador. Guitars from Agadèz surgiu de apresentações ao vivo do grupo em Níger, entre 2004 e 2007. A dinâmica do Inerane, liderado por Bibi Ahmed, é incrível e não deixa os ânimos esmorecerem em nenhum momento. O que mais incita no conjunto é sua habilidade na construção de uma música tão vigorosa, mas, ao mesmo tempo, tão parca na sua constituição: um só kit de bateria é capaz de manter um ritmo variado, criativo, cadenciado e incessante por toda a apresentação; duas guitarras de timbres afiadíssimos criam fraseados perfeitos e repetitivos, evocando gêneros dos mais variados como blues, rock, funk e folk. Sua essência minimalista nos reporta às bandas do punk/pós-punk de trinta anos atrás, como The Slits, Talking Heads, The Fall, Raincoats e Au Pairs. Não que esses grupos tenham exercido qualquer influência na música dos tuaregues africanos, mas, ao contrário, isso demonstra o quanto a música africana (é possível falar de raízes em uma música tão heterogêna como essa?) foi influente na construção de um novo rock há exatas três décadas e o quanto ainda ecoa na música contemporânea. É um tipo de som instintivo, que não teme erros nem repetições, algo que falta um pouco à música ocidental dos dias de hoje. E não adianta grupos novos como Vampire Weekend beberem da fonte africana. É preciso saber usar seus dotes, assim como a geração de 77/78 soube. A música africana continua surpreendendo, inovando e nos fazendo reencontrar com nossos verdadeiros ancestrais. (Thiago Filardi)

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É fácil escrever sobre discos que achamos ruins; no desagrado encontramos fibra para juntar argumentos. Mas falar do que gostamos é mais perigoso, em especial quando sabemos pouco, ou quando existe a barreira da língua. Claro, afirmar o gosto não é suficiente para escrever uma resenha, e o trabalho fica mais difícil quando o objeto não apenas lhe traz satisfação, mas também júbilo. O ímpeto é o de levantar e dançar sozinho pelo cômodo.

O Grupo Inerane não é menos que uma benção laica. Nunca pensei em nada que fosse relacionado a deserto, nômades Tuareg e guerras africanas em cores tão vibrantes, mas depois de ouvir o Inerane e o último disco do Tinariwen, acho que ali deve estar disseminada uma relação especial com a música. Pelo menos a partir do momento em que todo o conteúdo político de sua música me escapa, resta apenas a qualidade incendiária que certamente provoca mobilização e comoção, ou no mínimo a incapacidade de ficar imóvel. Aqui estamos no território do êxtase e do transe, a verdadeira trance-music.

Liderados por Bibi Ahmed, figura cercada de mitos, a música do Inerane é feroz e pulsante; ali ouvimos traços de funk, rock, blues e uma agressividade verdadeiramente punk. Mas no lugar de acreditar que eles foram influenciados por tais gêneros, é mais plausível entender que sua música bebe no que originou tudo isso — nas raízes de um desejo de transmitir algo comum a estas formas rítmicas.

Guitars From Agadez (Music of Niger) é o 2º lançamento do SF que se dedica exclusivamente a um único artista/grupo, havendo antes o disco igualmente sublime do Omar Souleyman. Com origens aparentemente utilitárias, esta música era usada como meio de comunicação através do Saara, levando informações ligadas aos refugiados. A música do Grupo Inerane é simples e aproveita plenamente cada um de seus elementos—as duas guitarras constroem melodias ricas e surpreendentes, os cantos (que vão dos gritos lancinantes, como em transe, aos coros que exalam vigor), a bateria que marca o ritmo com eficiência… Estamos distantes do estereótipo de simples som tribal, da música sem sofisticação, da força exclusivamente ligada à tradição.

A gravação não é das mais limpas, e tal precariedade apenas ressalta a vibração das composições registradas ao vivo em Níger. Como alguém do próprio selo escreveu, “Fidelity Be Damned”. Algumas faixas são mais caóticas e criam um dos pontos altos do disco. Destaco “Nadan Al Kazawnin” — com sua guitarra cheia de efeitos e a voz aproximando-se mais do rock (como que afogada pela areia do deserto na psicodelia monocromática da guitarra) — e “Ano Nagarus”, o diálogo entre Bibi Ahmed e o coro, intercalado por gritos guiados por guitarras repetitivas que, em certos momentos, parecem segui-los.

Como diria um amigo meu, se você não gosta disso, tem uma pedra no lugar do coração. (Marcus Martins)

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O único grupo musical tuareg que eu conhecia antes do Group Inerane era o Tinariwen. Ambos, à sua maneira, têm seu som ancorado na tradição e numa certa veemência de interpretação que pode ser interpretada (deve, eu diria) como gesto político referente às lutas de sua nação contra os estados-nação que detêm o poder territorial das áreas em que eles habitam. Mas aí param as semelhanças. Porque enquanto o Tinariwen faz seu protesto através de uma beleza melancólica e composições de incrível requinte (paralela, talvez, aos blues e spirituals dos cantos de escravos), o Group Inerane opta pela vibração e pelo transe, pela agressividade da sonoridade e pela composição em forma de cânticos ritualísticos. As variações se fazem todas em torno de alguns poucos elementos: bateria com poucos elementos, duas guitarras, palmas, gritos tribais, coros e por vezes voz solo. As músicas vão se construir de forma semelhante: uma batida (com a caixa sendo batida nos tempos ímpares primeiro uma, depois duas vezes – a segunda, milimétrica e deliciosamente atrasada, o que dá um gosto especial), e uma melodia de guitarra bem suingada que em geral repete sua levada ao longo da faixa. A precariedade da gravação e da mixagem, associada ao coro e às palmas, fornece um sentido de coesão que reforça a idéia do coletivo e do urgente – duas características que se pedem da arte de um povo insurgente. Não é um disco que tenha na composição seu ponto mais forte; ainda que as diferenças sejam bastante perceptíveis de faixa a faixa, o que cativa é a mesma coisa, a repetição do padrão transformada num som (com exceção apenas de “Nadan Al Kazawnin”, em que a guitarra amplificada a todo volume reconfigura a sonoridade do grupo). O que não é exatamente um ponto fraco, mas limita um pouco a amplitude de intensidade da banda, pois se a atenção escapa um pouquinho algumas faixas menos singulares correm o risco de virar pano de fundo percussivo (sobretudo ao final do disco, quando já estamos acostumados com os procedimentos de construção). Nada, no entanto, que comprometa a audição cativante e por vezes genial desse Guitars from Agadèz (Music of Niger), que, se não chega à excelência de alguns grupos africanos contemporâneos (Tinariwen, Konono no. 1), ainda assim se apresenta a nós com personalidade e ímpeto. (Ruy Gardnier)

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Publicado em 23 de março de 2008 por em Uncategorized.
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