Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Nick Cave & the Bad Seeds – Dig!!! Lazarus Dig!!! (2008; Mute, Austrália)

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Nick Cave é um dos grandes nomes do rock mundial e, possivelmente, o maior nome do rock australiano de todos os tempos. Começou sua carreira no final da década de 70 junto à banda The Boys Next Door, de Melbourne, onde existia uma cena de pós-punk e rock experimental pequena, porém significativa. O Boys Next Door logo se tornou o Birthday Party e passou a ter maior projeção na Europa, tendo seus discos lançados pelo ainda incipiente 4AD. Passou a ser, portanto, um dos nomes mais expressivos do pós-punk e durou quase meia década, quando finalmente se dissipou e Nick Cave partiu para seu novo projeto, com uma banda de acompanhamento, o Bad Seeds. Faziam parte do grupo o guitarrista do Einstürzende Neubauten, Blixa Bargeld, o ex-baixista do Magazine, Barry Adamson e o guitarrista, produtor e multi-intrumentista Mick Harvey, único membro original do Bad Seeds permanente até hoje. Dig!!! Lazarus Dig!!! é o décimo-quarto disco de estúdio do Nick Cave & the Bad Seeds, que desde seu álbum de estréia, From Her to Eternity, despontou como uma das bandas mais intensas e originais do rock, de letras soturnas e com referências bíblicas. (TF)

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Dig!!! Lazarus Dig!!! é um tanto embaraçoso para um artista do porte de Nick Cave. Logo que entra a homônima faixa de abertura, o riff e a levada da guitarra lembram imediatamente “Wild Thing” do The Troggs, canção muito influente à época, mas de espectro pouco eficiente para a contemporaneização da música de Nick Cave. Aliás, Cave parece ter mergulhado em um mar de obviedades e facilidades. Já é sabido que ele não traz nenhuma renovação estética e significativa à sua música faz algum tempo, mas desde Let Love In, de 94, que ele não apresenta um disco verdadeiramente satisfatório. Suas canções se tornaram acomodadas a fórmulas simples e pouco lembram o vigor, a criatividade cruciante e a efervescência dilacerante daquele Bad Seeds de alguns anos. É indubitável que Cave ainda é um dos grandes crooners do rock – a sinceridade com que empresta à sua voz é trunfo de poucos -, entretanto sua força de expressão vocálica não é mais a mesma; sua performance está mais para a auto-paródia que para aquela autenticidade vigorosa e inabalável do início. Ele não é mais aquele bardo impiedoso que fazia lacrimejar e fascinava com suas histórias de personagens religiosos ou de amores amaldiçoados.

Seu último disco decerto não se parece em nada – e nem deveria – com o disco de estréia de 1984, From Her to Eternity, cuja sonoridade intensa ainda continha uma herança muito forte do caos descontrolado do Birthday Party. O problema é que Lazarus nada acrescenta à carreira musical de Nick Cave. Mesmo depois de uma estréia bombástica, o Bad Seeds não deixou de arriscar e inovar. Your Funeral… My Trial, de 86, passou a trabalhar com ritmos mais arrastados, espaços de tempo dilatados e letras mais densas e profundas. Em Tender Prey, de 88, já era possível detectar uma preocupação maior com textura de sons – algo que ele não abandonou até hoje, vale a pena notar. A partir desse disco sua música passou a se equilibrar entre baladas pegajosas e rocks furiosos. Foi o momento em que a música de Cave começara a tomar proporções mais populares. Ele deixara de ser o roqueiro maldito, desestruturado, para se tornar um cancioneiro de primeira linha. The Good Son, talvez sua maior obra-prima, foi o apogeu desse novo cantor/compositor, que atingia um grau elevadíssimo de criatividade, musicalidade e poeticidade. Foi o disco mais centrado de sua carreira, quase todo composto de instrumentos acústicos, no qual os arranjos encontravam seu primor em apuração e complexidade.

Em 1996 o Bad Seeds passou por uma reformulação – quando entraram Jim Sclavunos (ex-integrante do Teenage Jesus and the Jerks) na bateria e percussão e Warren Ellis (membro fundador do grupo instrumental Dirty Three) no violino – e a música do Bad Seeds passou por um abrandamento. As baladas, antes contrabalanceadas aos rocks mais pesados, se tornaram predominantes. Esse conceito sonoro durou até Nocturama, de 2003, quando já estava completamente esgotado. Foi após esse disco que Blixa Bargeld, membro de longa data do Bad Seeds e uma de suas cabeças mais criativas e geniais, deixou a banda. Apesar da mediocridade dominante em Nocturama, a última faixa ,“Baby I”m on Fire”, um rock ensandecido, de aproximadamente quinze minutos e que destoava de todo o material do disco, indicava que a sonoridade do Bad Seeds estava em momento de transição e havia aquela esperança de que eles voltariam a experimentar novas formas de fazer música. Devido à saída de Bargeld, ou não, o disco duplo Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus, lançado rapidamente no ano seguinte, mostrou exatamente o inverso: nunca Cave se mostrou tão acomodado aos aspectos formais de sua música. No piano suas composições estavam cada vez mais óbvias, mais presas a facilidades de harmonia e composição. O próprio Cave afirmou poucos anos depois que sua maneira de tocar piano se tornara automática; sua mão não conseguia escapar de fazer as mesmas coisas, de seguir as mesmas velhas progressões de acordes, de tocar as mesmas notas. Tendo em vista todas essas dificuldades, Cave deu um tempo do Bad Seeds e formou o Grinderman com os seus escudeiros fiéis Jim Sclavunos e Warren Ellis.

O Grinderman foi como que sua retomada ao rock e a impressão que passou foi que ele queria reincorporar elementos do noise e do blues do início de carreira. Foi uma tentativa fracassada, pois além de não possuir um Blixa Bargeld, ou sequer um Mick Harvey, quanto mais a banda tentava se aproximar da intensidade sônica do início, mas se afastava da mesma. A maioria das canções não passava de rocks blueseiros e afetados, que de novos, ou renovados, não tinham nada. Parecia um disco mais rock do Bad Seeds, porém pouco inspirado. Os trechos instrumentais de formas abstratas e agressividade noise, mergulhavam na auto-indulgência. De certa forma, Lazarus é uma espécie de continuação a essa retomada roqueira de Cave, porém desprovido das pretensões estéticas do Grinderman. Mesmo com todos seus defeitos, Lazarus é, possivelmente, o disco mais coeso e mais centrado do Bad Seeds desde Let Love In. Ainda que proporcione belos momentos (todos concentrados no Lado B do álbum), como “Hold on to Yourself” e “Jesus of the Man” – relembrando o bom baladeiro que é -, Cave não consegue mais nos surpreender ou ao menos nos interessar em sua música. A banda é afiadíssima, mas à exceção de Mick Harvey e Warren Ellis – que descarregam lampejos criativos aos arranjos e aos espaços vazios das canções -, o resto é todo burocrático e não vai a lugar algum. É entristecedor, mas há de ser dito: Nick Cave se transformou em um artista preso às suas próprias formalidades. (Thiago Filardi)

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Nick Cave foi indicado ao Hall da Fama Australiano, é Doutor Honoris Causa, ganhou uma penca de prêmios e homenagens, fez cinqüentinha esse ano e já lançou mais de trinta álbuns com todas as encarnações de suas bandas e projetos solo para trilhas sonoras. Como outros nomes mais celebrados que ele, Cave criou tanto uma marca sonora pessoal aliada a seus vocais expressivos (que melhoram a cada ano) quanto uma persona inconfundível, burilada através dos anos em letras violentas, idiotas, complexas, confessionais.

Com uma carreira que já ultrapassou as três décadas, é difícil esperar dele grandes mudanças, apesar da temática cristã cada vez mais presente. Ainda assim, mesmo que não se equipare a alguns de seus melhores álbuns – como ‘Murder Ballads’ ou ‘Boatman Calls’ -, cada novo lançamento é um sopro, melhor, um bafo alcoolizado de intensidade e paixão.

Depois do bom mas inchado e às vezes tedioso álbum duplo ‘Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus’, do projeto sacana Grinderman e de alguns sinais de cansaço e esgotamento (vide Nocturama), ele volta com um exercício de feliz energia. A influência do Grinderman é explícita e festejada; e apesar de haver poucas faixas curtas, a pegada quase pós-punk permeia todo o disco. Mas onde Grinderman era simples e direto, ao retornar para o limbo dos Bad Seeds, ele volta a investir na riqueza de imagens e sons que sempre lhe foi peculiar.

A voz de Cave está cada vez mais limpa e cheia de nuances; lançada à frente da elegância, da precisão e das guitarras musculosas dos Bad Seeds, ele assume seu personagem e nos conta algumas histórias.

É possível que o vigor do disco tenha sido influenciado por sua temática livremente calcada em episódios da mitologia cristã tais como a ressurreição de Lázaro – história que Cave conta que o impressionou e incomodou muito em sua infância. E a idéia de transpor a ação para Nova Iorque, por mais estranha que seja, deve ter dado o ar contemporâneo que Cave buscava. Ele ainda fala na influência da vida de Harry Houdini, mas o fato é que suas letras nunca são simples contar de histórias; todas estão costuradas em seu modo conhecido de compor. Mas com toda a seriedade do tema, não falta espaço para o humor – como na faixa-título, hilária desde o nome.

Desde muito Cave expia e pisoteia sua culpa cristã e parece menos estar compondo canções que construindo sua própria religião. Irmãos, oremos.(Marcus Martins)

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Nick Cave é o único sujeito do rock contemporâneo com o direito de receber o bastão de Lou Reed ou Leonard Cohen na modalidade de poeta/contador de histórias maldito, com um universo de fracassados, desviantes, seres subterrâneos, abandonados do sonho cor de rosa e da vida de plástico, um universo onde se joga o jogo da perdição, dos excessos, das obsessões e da redenção quase sempre impossível. Nick Cave tem duas facetas, a de lírico, ao piano, e a de porteiro do inferno, cantando vociferante contra uma banda violentamente barulhenta. No disco anterior, Abbatoir Blues / The Lyre of Orpheus, as duas facetas estavam funcionavam à perfeição separadas. Em Dig!!! Lazarus, Dig!!!, o desespero catártico joga o volume pro alto e os instrumentos fazem de tudo para provocar a inquietação, estridente ou grave, que as histórias narradas pedem. Inicialmente as composições e a instrumentação podem sugerir que Nick Cave está conciliando seu poder abrasivo com o pop mais acessível. Mas quando percebemos as nuances de bateria, entre a programação eletrônica e a poderosa execução de Jim Sclavunos, as intervenções abusadas da guitarra de Mick Harvey e a utilização de eletrônicos por Warren Ellis – e, melhor ainda, quando percebemos o efeito que todos esses instrumentos constroem junto, associados à mais uma vez genial imaginação de poeta de Nick Cave e à incrível energia que ele emprega em seus vocais, percebemos que estamos observando os Bad Seeds em pleno vigor. Há momentos em que o pique cai um pouco, como “Hold On To Yourself” ou “Midnight Man”, mas em geral a intensidade permanece em níveis bem altos, seja na velocidade e tensão sônica de “Today’s Lesson”, seja pela força sentimental da melodia de “Jesus of the Moon”. É um disco de muitos destaques individuais, pontuais em cada faixa, mas é a precisão do todo, aliada à potência lírica de Nick Cave, que torna o disco especial. Em “We Call Upon the Author”, talvez a melhor e mais desesperada faixa do disco, as mazelas do mundo são trazidas à tona e entregues ao criador, Deus em pessoa, para serem explicadas. “More News From Nowhere” tem sua forma pessoal de lembrar Leonard Cohen pelo simbolismo de salvação (“Her hair is like the wine dark sea in which sailors come home”), Lou Reed pela enumeração de personagens e Bob Dylan pela narrativa críptica e extensa, mas é profundamente pessoal em sua forma de construir uma narrativa em forma de pesadelo sobre encontros, fins de relacionamento e a passagem do tempo que torna tudo obsoleto. Em recente entrevista, Cave menciona que Dig!!! Lazarus, Dig!!! é sobre a sensação de impotência no mundo contemporâneo, e sobre a imprecação como forma de tentar chacoalhar alguma coisa a despeito dessa mesma impotência. Em letra, composição e música desse Dig!!! Lazarus, Dig!!!, as inquietações de Nick Cave impressionam por sua contundência e talento de poeta maldito. É um belo disco de um grande artista. (Ruy Gardnier)

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Este disco não tem a aspereza desconjuntada do Birthday Party, nem o brilhantismo formal de The good son, os dois momentos mais geniais de uma carreira cheia de altos e baixos. Mas o que o faz de Dig!!! Lazarus dig!!! um disco mais que interessante é justamente um certo descompromisso que o cantor e compositor assume em relação ao seu passado (dig it?), descompromisso já encaminhado em Grinderman, sob a forma despersonalizada de uma banda – tal como o David Bowie de Tin Machine… Mas não se trata de um abandono do estilo bad seeds de ser. Aqui ainda identificamos as baladas sangrentas, os arranjos inegociavelmente bluesísticos, atestando um amor incondicional pela música americana, as aberturas “de efeito” (todo disco de Nick Cave começa de forma surpreendente ou, ao menos, efusiva…). Mas certas músicas obedecem a uma dinâmica roqueira mais descarada, como por exemplo “Today’s lesson” e “Albert goes west”; outras, a uma dinâmica pop, ainda mais descarada, embora interessante, como “More news from nowhere”. “Moonland”, ao contrário, poderia figurar nos melhores momentos de qualquer álbum dos Bad Seeds: textura percussiva composta espertamente por bateria e bongô, teclados e pianos esporádicos, e uma canção bem semelhante às que Bowie vinha escrevendo à época dos discos Heathen e Reality, isto é, melodias simples e eficazes, que permitem ao cantor exercitar sua expressão interpretativa. Outro destaque do disco é “Night Of The Lotus Eaters”, econômica, com um vocal mais falado, “à moda da casa”. Enfim, um disco para ouvir entre velhos amigos roqueiros, bebendo cerveja e comendo amendoins. Longe de ser uma obra-prima, Dig!!! Lazarus Dig!!! diverte pacas e dá provas do fôlego de Nick Cave. Mas o que se esperava de um songwriter rebelde de 50 anos, se não música como expressão de satisfação pessoal, como cântico em homenagem a si mesmo e a uma obra digna de nota? (Bernardo Oliveira)
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Um comentário em “Nick Cave & the Bad Seeds – Dig!!! Lazarus Dig!!! (2008; Mute, Austrália)

  1. Vê Barros
    1 de abril de 2008

    Olá meninos!

    Passei para dar uma espiadinha na página de vc´s… achei maravilhoso!!!

    Parabéns!!!

    Super beijos!

    ps: não é mentira… 😛

    Lindo, lindo!!

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Publicado em 31 de março de 2008 por em Uncategorized.
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