Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Daisuke Miyatani – Diario (2007; Ahornfelder, Japão)

Daisuke Miyatani vive na pequena ilha Awaji no Japão, aparentemente trabalhando em uma livraria. Estes dados biográficos, ainda que escassos, ajudam a entender sua forma de produzir, surgindo até a dúvida sobre sua veracidade, pois a remissão a certos clichés japoneses ou mesmo ao Kafka à Beira-Mar de Murakami parecem evidentes. Diário é seu primeiro álbum com lançamento internacional, feito do selo alemão Ahornfelder, que reúne outros artistas da mesma linhagem. Miyatani possui no currículo outros lançamentos, mas as informações disponíveis são poucas; e o acesso, difícil para quem não reside no Japão.

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Daisuke Miyatani parece desejar menos o espaço de músico que de escultor sonoro, o que pode causar estranheza, pois quando pensamos em alguém assim denominado, pensamos em Christian Fennesz ou Philip Jeck, por exemplo. É claro que o lugar dele se encontra bem distante destes; sua construção é muito mais evocativa, e o título do presente álbum já entrega a que se propõe–um diário, registro sonoro da pequena ilha onde Miyatani reside e trabalha. O seu lugar na música japonesa contemporânea também é peculiar: nem é aventureiro, barulhento e psicodélico como Boredoms, Acid Mothers Temple, nem é IDM, pop, ou lounge como Tujiko Noriko, ficando mais próximo de Akira Kosemura e seu belo It’s On Everything.

A união dos sons cotidianos–registrados pelo ouvido atento para unir gravações de field-recordings com a guitarra tocando notas pontilhadas, quase ao modo de Derek Bailey–cria um clima de familiaridade; em outros lugares, melodias parecem ser apenas ensaiadas, propondo menos a construção que o rascunho, e isso, aliado a sons de xilofones e o ruído de fitas cassetes, cria uma sensação de quietude e contemplação.

A maior parte das faixas é bem curta, valendo menos individualmente que contribuindo para a criação de um ‘estado emocional’ do álbum, como se fossem entradas isoladas de um diário que fazem pouco sentido fora de seu contexto. São gravações de caminhadas em terreno arenoso, manipulações eletrônicas que remetem ao som de insetos, evocando a idéia que podemos ter do ambiente ilhéu daquela região do planeta com suas praias pedregosas e frias e a sensação de solidão e isolamento que isto proporciona. Talvez, menos que um diário, as faixas sejas compressões de imagens de todo uma paisagem, como haikais.

Miyatani trabalha exemplarmente as idéias de espaço negativo, com redes de pequenos ruídos que apenas parecem evidenciar o silêncio que as permeia, como quem procura um conceito para o termo ambiente que se distancie das convenções do gênero; e no lugar de compor uma atmosfera e ali desaparecer, ele pede imersão e audição cuidadosa.

Talvez o maior mérito do disco seja o fato de que, apesar de toda sua especificidade geográfica e da natureza de sua composição, eu possa ouvir suas composições nos headphones e lembrar de um lugar que nem conheço. Este é um promissor primeiro álbum de quem espero espiar o diário mais vezes.(Marcus Martins)

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A escrita em diário tem suas características próprias: fragmentária, submetida à variação dos humores cotidianos, intimista, frágil… e quase sempre é mais um idioleto do que uma forma de comunicação. Em Diario, Daisuke Miyatani se aproveita de todas essas características para compor um disco vulnerável e coerente, em que as faixas começam meio já começadas, terminam bruscamente antes do real fim ou trabalham sem um senso mais amplo de evolução dentro das melodias propostas. O cardápio: violão dedilhado, eletrônica montando drones, gravações de campo (trens, chuva, barulhos de fita, talheres, etc.). Em alguns momentos, cada um deles separado, em outros um ajuda o outro, criando mais possibilidade de interação entre sonoridades. Confesso que as faixas de violão solo com delicados e longos intervalos entre as notas não me cativa muito, e tampouco os momentos abstratos e repetitivos de “Water Lights” e “Hum”, essa última parecendo saída de um baú de recusados do Selected Ambient Works 2 do Aphex Twin. O ponto alto do disco acaba sendo logo no começo, com a manipulação eletrônica de notas no violão amparadas por uma casa de barulhos de chuva em “Rain Melodies”, a doce torrente de ruídos de fita acompanhada de violão e xilofone em “Old Tape”, e por fim a fennesziana “Summer Child”, com seus simpáticos barulhinhos envolvendo o violão lacônico num raro momento de lirismo que escapa da beleza meramente naif ou idiossincrática. A escuta não deixa de ter seu interesse, porque Daisuke Miyatani sabe imprimir a seu som a característica buscada de diário e porque não é algo que tenha muita gente fazendo por aí. Mas está longe de entrar no meu panteão de japoneses experimentais, onde estão Asa Chang & Junray, Aki Tsuyuko, Otomo Yoshihide, Acid Mothers Temple, OOIOO, Boredoms, etc. (Ruy Gardnier)

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Que a riqueza de um álbum não se concentra necessariamente em sua dimensão musical, não é novidade pelo menos desde John Cage. Por uma questão lógica, música é, antes de mais nada, uma operação perspectiva sobre o som, uma palavra “moral” que mais designa o que ela não é do que é propriamente. Bom exemplo deste perspectivismo musical é este plácido, mas instigante, “diário” sonoro de Daisuke Miyatani, um jovem manipulador de sons que se dedica a flagrar pequenos retratos, perspectivas sobre o tempo – não o tempo filosófico, abstrato, mas o próprio acontecimento. Sua audição sugere um minimalismo, mas que não é calcado na repetição, caracterizando-se mais pela utilização de alguns poucos e bem escolhidos elementos que sublinham a dicotomia do jogo. A valorização do silêncio e dos espaços “em branco”, reforçam o peso do aqui e agora; mas este mesmo silêncio é como que agitado por cordas que vibram e, ligeiramente, cortam o espaço, conjugando a dimensão onírica da melodia com a experiência de estranhamento suscitada pelos trechos mais abstratos. A vacuidade do sentido, a “inocência do devir”, a expressão/impressão da duração nas coisas, nos afetos. A noção de “tonalidade da alma”: intensidades irrepresentáveis. E no entanto, estamos ali, sentados, atentos, estabelecendo uma conexão entre a palidez do retrato e o turbilhão da vida. Aliás, trata-se, sobretudo, da vida: a superioridade do instante, mas também o poder da reminiscência – a fita cassete, o chiado… A pouca idade do autor não interdita a profundidade, embora a leveza seja um dos grandes trunfos desse Diario. Um retrato musical, certo, mas, antes e sobretudo, uma perspectiva sobre (e talvez contra) a música. (Bernardo Oliveira)

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Diario começa com “View”, um pequeno prólogo, no qual ouvimos o barulho de um trem passando e loops manipulados por Miyatani. A princípio, uma pequena amostra de seu cotidiano. É como se ele estivesse na estação e nos descrevendo aquele momento, mas em forma de música. Desse modo, Diario é constituído basicamente por pequenos excertos de um cotidiano melancólico e de tom nostálgico, nos quais a posição central é tomada por um violão gravado de forma caseira e que dá, portanto, um clima lo-fi e despojado ao disco. Miyatani usa e abusa da musique concrète, a ponto de explorar todos seus clichês; além de trens, ouvimos barulho de água, de chuva caindo, de carros passando na estrada, de chaves ou metais se mexendo e de inúmeras outras partículas pertencentes ao mundo exterior. Ele também faz questão de não dissimular o processo de gravação: é possível escutar todos os mínimos detalhes do estúdio, como folhas de partitura sendo viradas, o artista murmurando no intervalo das gravações e os movimentos de seu corpo. Miyatani quer que tudo soe natural, o que é um tanto ingênuo hoje em dia, tendo em consideração a quantidade de trabalhos feitos em cima disso. Não há mais nenhuma novidade em mostrar a gravação em seu estado bruto, destituído de aperfeiçoamentos técnicos. Miyatani não pode dissimular, entretanto, que foi feita a decupagem do material gravado e que o alinhou de maneira a criar uma ordem narrativa ao disco – mesmo querendo que tudo pareça natural, ele não pode evitar que seu trabalho seja um “natural editado”. Miyatani também atira para todos os lados e não hesita em esconder suas influências. Em faixas como “Summer Child”, “Water Lights” e “Hum” ele se aproxima inevitavelmente da ambient music de Brian Eno; ou o próprio tratamento que dá ao violão na maioria dos trechos musicais, cortando-o com loops – algo que a dupla The Books faz há mais de meia década. Em “Dokusho-Chu”, quando ele emite harmônicos no violão e os deixa soltos no ar, é impossível não pensar na fase mais tardia de Derek Bailey. Há belos momentos, como “Iindayo”, por exemplo, quando ele toca um lindo arpejo no violão da forma mais simples e límpida possível, deixando apenas que apreciemos a beleza da melodia. Diario, por fim, é uma audição agradável, porém lhe falta autenticidade. Como um fidedigno diário, tem seus dias de mais inspiração e beleza, e outros entrevados, de menor encanto. Resta ao ouvinte saber se o cotidiano desse artista é interessante o suficiente para que o inspire em seu próprio.(Thiago Filardi)

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Publicado em 7 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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