Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Gianluca Becuzzi & Fabio Orsi – Muddy Speaking Ghosts Through My Machines (2007; A Silent Place, Itália)

Fabio Orsi é conhecido por sua facilidade em unir o uso dos field recordings (seus ou alheios) com peças de improviso em sua guitarra, construindo tapeçarias complexas e de raro teor evocativo. É um dos mais jovens membros da rica cena italiana junto a nomes como o do prodígio Valerio Cosi. Gianluca Becuzzi é veterano escultor sonoro, com muitos lançamentos sob vários aliases, como Kinetix; e junto ao My Cat Is An Alien é desbravador da música eletro-acústica/eletrônica na Itália. Um dos fatos mais interessantes da atualidade é a perfeita interação entre as gerações, com muitos lançamentos compartilhados–como o presente álbum e o também excelente duplo Stones Knows Everything. (MM)

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A união de dois artistas de características diferentes pode gerar algo novo, uma sobreposição de técnicas, a anulação de ambos ou uma simples incongruência de estilos. Muddy Speaking Ghosts Through My Machines está entre as duas primeiras opções. As manipulações eletrônicas, o drone e as instalações sonoras de Becuzzi se adequam perfeitamente às investigações mais orgânicas de Orsi; e ainda que as individualidades sejam preservadas, o resultado difere daquilo que ambos estão acostumados a apresentar.

Orsi já havia trabalhado com samples de Alan Lomax no lançamento que dividiu com o My Cat Is An Alien, denominado For Alan Lomax. Mas aqui nos deparamos não apenas com o uso próprio de uma gravação famosa nos meios do field recording: eles trataram de afogar as gravações em um oceano de manipulações, drone, linhas acústicas que não apenas modificaram mas transfiguraram sua matéria-prima em objeto de memória longínqua, em fantasmagoria. Parecem demonstrar que estas canções pertencem não apenas a outra época, como também a outro mundo que ficou perdido, falando uma linguagem que soa ao mesmo tempo familiar e alienígena. Quando os vocais blues aparecem em meio à barreira de ruído branco, estando tão distantes de seu contexto original, temos a sensação de reconhecermos velhos conhecidos que não vemos a muito tempo e que, apesar das marcas do tempo, ainda permanecem ali.

Um guia interessante para o disco são os títulos e a organização das faixas, começando e terminando com distinções geográficas e temporais [North of Me(At Midday) e South of Me(At Midnight)] e tendo como peça central uma espécie de suíte em três partes que se refere a um estado de espírito que permanece durante um período de tempo demarcado pela chuva [I’m Happy Here (before the rain), I’m Happy Here (during the rain) e I’m Happy Here (after the rain)], funcionando como mapa de percusso narrativo proposto e sugerindo a necessidade de acompanhamento de tal percurso para se deixar impregnar pelos sons.

A estrutura fundamental das faixas é uma base construída por drones que ocupam maior ou menor espaço à medida que estas evoluem, sempre permeados pelos samples de gravações antigas de Lomaxx e pela guitarra de Orsi, teclados antigos e outros sons que surgem, flutuam e depois submergem no caldo de cultura das faixas, criando estranheza e organicidade–como se as ouvíssemos através de um televisor antigo e defeituoso–, equilibrando-se entre nostalgia pelo que não pudemos conhecer e um certo vampirismo. Este talvez seja o mais bem acabado exemplo do que nos últimos anos se qualificou como hautology; e de modo mais efetivo que os mais badalados nomes associados ao conceito, Becuzzi e Orsi criaram uma obra espectral e de fôlego. (Marcus Martins)

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A principal questão especulativa que Muddy Speaking Ghosts Through My Machines parece levantar — com todo vigor, diga-se de passagem — é o estatuto dos “sons naturais” no mundo contemporâneo. Nem tanto pela aproximação dos contrários evocada pelo título (lama/computadores, real e simulação, fantasmas/lama, carnal e espectral), mas acima de tudo pelas sonoridades reivindicadas para compor as camadas sonoras que fazem o disco. Efetivamente, por cinco faixas que mantêm uma unidade exemplar, o que temos é uma reunião de sons de natureza (grilos, chuva, etc.), melodias de guitarra repetitivas entre o lírico e o melancólico, alguns teclados, sons sintetizados de laptop e as vozes das cantoras gravadas pela família Lomax em suas peregrinações para gravar os cantos populares do sul dos Estados Unidos. Temos aí, percebe-se, o encontro de algumas tradições, o folk, a música concreta, a música ambient e o pós-rock, e o disco tem uma forma particular de parecer com tudo isso mas ao mesmo tempo construir sua linguagem musical própria.

Em sua lógica de fazer todos seus sons aparecerem, ganharem terreno e sumirem ao longo de cada faixa, Muddy Speaking Ghosts Through My Machines soa como a viagem de uma espaçonave encontrando fortuitamente ondas sonoras emitidas pelo planeta terra ao longo de seus últimos 60 anos. Apesar de evidentemente composto, o disco dá a impressão de que temos diante de nós uma fulgurante diversidade de objetos sonoros encontrados, dando a idéia de percurso e movimento, mas um trajeto nada objetivo, letárgico, sonhador.

Estruturalmente, o disco pode ser visto como um interlúdio, uma faixa única dividida em três partes (e quase 40 minutos) e uma coda, com nomes que evocam um cidadão a esmo num campo, entre o meio dia e a meia-noite, no meio de que cai uma chuva. “I’m Happy Here” é o nome que recebe cada faixa do meio do disco, com as variações antes/durante/depois da chuva. Dessas, a que mais imediatamente revela sua beleza é “I’m Happy Here (Before the Rain)”, que se inicia com duas melodias de guitarra que evocam as partes mais lentas do Godspeed You! Black Emperor e que evolui para um intenso clímax de teclado e sons sintetizados que lembram gaita de fole. Mas é um álbum a ser ouvido como um todo, algo obsessivamente, até que se perca a sensação de estranhamento e se ouça com familiaridade. De preferência em trânsito, andando ou no ônibus. Mas sempre atento, porque a beleza de Muddy Speaking Ghosts Through My Machines reside nos detalhes e na elegância total da construção das sonoridades presentes no disco. (Ruy Gardnier)

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Já foi o tempo em que vigorava um certo mal-estar quanto ao sampler, e à validade dos métodos que seu uso implicava. A crítica musical partilhava com os músicos profissionais a desconfiança de que o sampler traria o fim do labor musical, o esgotamento da “autenticidade”, e, no caso particular dos músicos, do emprego. O tempo passou e clássicos do sampler foram definitivamente reconhecidos, como Check Your Head, dos Beastie Boys e Fear of a Black Planet, do Public Enemy – para citar dois álbuns especificamente importantes nesse aspecto. Digo isso para mostrar consciência e evitar que não soe como reacionários meus comentários acerca desta parceria entre o jovem Fabio Orsi e o experiente Gianluca Becuzzi, italianos ligados à música experimental. A colagem proposta com o título sugestivo de Muddy Speaking Ghosts Through My Machines, me remete àquelas experiências vazias que caracterizam as artes plásticas contemporâneas, sobretudo as que vivem da prerrogativa duchampiana da “descontextualização”: o sentido da obra está mais no caráter comunicativo do discurso (a citação, a alusão, a sobrecodificação), do que propriamente na exploração de novas “políticas do som”, como seria o caso, por exemplo, de Zappa, Coltrane e, atualmente, Hanno e o dubstep. Resumindo: Muddy… se conjuga com um discurso de “vanguarda”, mas não ultrapassa o enquadramento mercadológico que a vanguarda adquiriu de uns anos para cá. Assim, os excertos de Alan Lomax são utilizados e respeitados em sua unidade sonora original; e quando são desconstruídos, é a partir de manipulações óbvias, como delays, flangers e outros efeitos que, mal utilizados, equivalem a verdadeiras citações ipsis literis, redundâncias que deveriam ser evitadas por aqueles que se pretendem “experimentadores”. O senso crítico e o gosto pela invenção correm sérios riscos, caso não se atente para as armadilhas criadas pela institucionalização da “experimentação”: proliferam os selos e as pretensões experimentais, sem uma música que justifique plenamente o rótulo. Sob a nomeclatura evasiva criada pelas publicações estrangeiras (“avant-folk”, “experimental-blues”, “ambient-roots”, etc) escondem-se o ímpeto mais reacionário e conservador. Aquela mesma “facilidade” que, na argumentação ultrapassada que prejulgava o sampler, comprometeria o labor, hoje pode ser deslocada daquele contexto e aplicada a certas pretensões, perfeitamente atribuíveis a este álbum. Pois é a banalidade da “experiência”, e não a capacidade de experimentar, que compromete o trabalho de Orsi e Becuzzi. (Bernardo Oliveira)

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O ultimo fim de semana na cidade do Rio de Janeiro pôs à prova Muddy Speaking Ghosts Through My Machine. Com um clima úmido, chuvoso e nublado, se pode testar a eficácia do conceito sonoro do disco, composto de cinco seqüências lógicas: “North of Me (At Midday)”, as três variações de “I’m Happy Here (Before, Under e After the Rain)” e “South of Me (At Midnight)”. Becuzzi e Orsi souberam trabalhar magnificamente com seus seguimentos climático-temporais e conseguiram transmitir de forma abstrata (música) o sentimento abstrato de um acontecimento abstrato (a variação climático-temporal). Nesse sentido, deve-se tirar o chapéu para os dois italianos, que não apenas sintetizaram perfeitamente a sensação inerente a tais mudanças climático-temporais capazes de regular nosso estado de humor e espírito, como conseguiram traçar um diálogo imediato com o ouvinte (pelo menos eu), que à exposição de tais forças da natureza, se sensibiliza e se identifica com o que está sendo executado musicalmente. É um caso raríssimo de sintonia emocional, e que mostra como a música de Becuzzi e Orsi pode trazer reações químicas tão fortes e precisas ao corpo humano.

A sonoridade de Muddy Speaking é minimalista e sutil, mas repleta de variações texturais, de forma a representar suas próprias mudanças climáticas referidas nos títulos indicativos. Um drone indelével acompanha todo o disco, que ora é intensificado, ora reduzido a volumes mais baixos, quase a ponto de não notá-lo. As faixas mais melodiosas são “Before the Rain” e “After the Rain” (talvez por serem os momentos em que as emoções estejam mais carregadas e precisem ser representadas mais dramaticamente), que possuem belos arpejos de teclado, violão ou guitarra (todos eletronicamente processados) repetidos à exaustão. Novos elementos são adicionados e a música vai crescendo até, finalmente, explodir e depois voltar para o drone de origem. “After the Rain” representa um dos pontos mais altos e, ao mesmo tempo, um dos mais baixos do disco, pois durante seu prolongamento fixa um piano demasiadamente dramático e muito parecido no seu timbre e tempo àquele de Before and After Science, disco de Brian Eno de 1977. Os samples de Alam Lomax são extremamente bem utilizados, a ponto de Becuzzi e Orsi emularem melodias do blues em seus próprios aparatos eletrônicos; algo alcançado por poucos atualmente – vale notar – como, por exemplo, Ekkehard Ehlers. Muddy Speaking Ghosts Through My Machines é um disco de beleza suprema e que encanta por seu requinte sonoro e conceitual. Sua articulação com o clima, tempo, emoção é tão perfeita que, se escutado nas ocasiões descritas pelos próprios títulos das músicas, pode deixar um sentimento de melancolia irreversível. (Thiago Filardi)

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Publicado em 7 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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