Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

M.I.A. – “Bird Flu” (2007; XL Recordings, Inglaterra)

Que o multiculturalismo tenha se tornado o discurso dominante, mesmo a despeito de todo ódio racial e religioso, não há dúvidas. Aliás, que se faça uma correção, breve, mas necessária: multiculturalismo é uma expressão redundante e inócua, na medida em que toda cultura é produto de intervenções externas e internas ao estado. O estado, como Deus e o dinheiro, são apenas ilusões que operam sobre a crença e os modos de vida. Essas crenças, catalogadas e demonizadas pela racionalidade burguesa européia em oposição à selvageria irracional do “novo mundo”, no entanto vigoram ainda hoje como apanágio do welfare state e das guerras territoriais: crença na religião, na comunicação, na autoridade… Mas este fato não interdita a possibilidade de que, volta e meia, nos admiremos com a capacidade de alguns artistas de exprimir um aspecto radical da multiculturalidade, geralmente artistas que representam o outro lado da questão. O espírito caótico com que M.I.A. desenhou seu álbum Kala, de 2007, não corresponde exatamente a uma atitude de confronto com a Europa crente e racista, mas sobretudo de apropriação. O que a Europa representa hoje? Um amontoado de países e contextos culturais, recortados arbitrariamente pela gana monetarista? Sim, mas que cada vez mais incorpora os insumos do refluxo da colonização. A expressão mais radical deste refluxo é a miscigenação inevitável das pessoas, da arte, dos espaços urbanos… E, sobretudo, da música, absolutamente tomada pela influência africana, caribenha, brasileira, oriental…

A estranheza da faixa “Bird Flu” me remete a esse contexto: o ataque inicial, “timbaleiro”, deflagra uma bangra carregada nas tintas, tal como a capa do disco. “Most of us stay strong shit don’t really bound us!”: estas palavras, ditas por uma moça do Sri Lanka que, obviamente, teve problemas com a rigorosa imigração inglesa, emolduradas por uma música expressiva e sem igual, adquire uma forte conotação política. A originalidade de M.I.A., entretanto, não é produto do Sri Lanka nem de um crossover, mas de uma visão de mundo que mais define do que relativiza a Europa contemporânea. O que a Europa representa hoje? A música de M.I.A. já não pode ser arrolada num contexto de “multiculturalidade”, o que suporia uma europa pré-cultural, ou mesmo edênica. Ela representa a própria Europa, perdida entre seus afazeres morais, suas estruturas de compensação, sua inviabilidade nacional, suas eternas indefinições, sua incompletude constituinte, seu cosmopolitismo fajuto. Mas, também, sua estranheza, sua criatividade. Em uma palavra: sua “modernidade”. (Bernardo Oliveira)

* # *

Como pode alguém ser tão agressiva e tão sexy ao mesmo tempo? E como pode alguém ser tão na-na-na, como cançãozinha de criança, e tão percussivamente violenta, como é M.I.A. ao longo de “Bird Flu” e de todo seu segundo disco, Kala? É um pouco esse paradoxo de mocinha revolucionária,de bebê com uma Uzi na mão, que espanta e entusiasma a respeito de M.I.A. “Bird Flu” é a segunda faixa do disco, e é aquela que estabelece a cantora em relação a sua audiência primeiromundista, e ela não deixa dúvidas: ” bird flu gonna get you / made it in my stable / from the crap you drop / on my crop when they pay you”. Mas o que M.I.A. e “Bird Flu” tem de mais especial é a incrível criatividade de sua música, sua aparente acessibilidade sabotada por barulhos vindos de todos os lugares, pela percussividade tribal áspera que terroriza o pop e nos entrega o melhor doce envenenado que provamos nos últimos tempos. Uma das melhores músicas dos últimos anos. (Ruy Gardnier)

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Publicado em 10 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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