Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sir Richard Bishop – Polytheistic Fragments (2007; Drag City, EUA)

Sir Richard Bishop é um guitarrista/violonista americano de Phoenix, Arizona (EUA). Também conhecido como Rick Bishop, ele fazia parte do lendário trio americano Sun City Girls (com seu irmão Alan Bishop e Charlie Gosher), notável por sua irreverência anárquica e pelo flerte com diversas tradições musicais não-ocidentais. Em 1998, lançou seu primeiro disco solo, Salvador Kali, pela gravadora Revenant, do violonista John Fahey. A partir de 2003 deslanchou sua carreira como artista solo, lançando por vezes mais de um álbum por ano. Em 2007, além de Polytheistic Fragments, lançou também While My Guitar Violently Bleeds. (RG)

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Antes da vitória do individualismo como ideologia e do consumo como seu corolário (ajudado pelas tecnologias de reprodução e distribuição, que nos possibilitam a audição no conforto de nossas casas), a música assumia um caráter gregário e muitas vezes religioso. A grandeza de emoção conseguida pela música servia como metáfora ou via de acesso à experiência de religação com o divino, ou então era uma oferenda a ele. Necessariamente essa música tinha que estar ancorada nos repertórios tradicionais de cada comunidade, que por reconhecer a linguagem musical e se reconhecer na música executada assumia um grau de pertencimento e identidade muito fortes.

Hoje, no entanto, a história é outra, como outra é nossa relação com a música e com os fluxos de identidade. A velocidade da comunicação e a facilidade para troca de sons entre músicos e do público com diversos sons de diversas tradições deslegitima primorosamente as ideologias que ainda buscam sons autóctones e endógenos à tradição de cada cultura.

Assim, é com alguma ironia que Sir Richard Bishop, violonista/guitarrista versado em vários métodos de interpretação e eterno curioso por sonoridades não-ocidentais, intitula seu disco como Polytheistic Fragments, como se cada faixa fosse um tributo a um único deus/tradição mas que ao fim, mais que somar, os deuses se anulam e o que sobra é o resquício material desse ato de devoção, o som, a composição. Mais uma forma de afirmar o ecletismo inequívoco de nossa época e o radical desligamento dos amparos tradicionais de auto-compreensão através da identidade, do pertencimento, etc. Sir Richard Bishop está em outra: seu amor aos laços com o divino só existe porque através dele nasce uma expressão.

Polytheistic Fragments resplandece em momentos de incrível beleza a partir do que pode um homem diante de um violão ou guitarra (ou piano, mais comedidamente). O acompanhamento, quando há, é reduzido a um pano de fundo, a uma função de preenchimento, jamais intervindo na melodia principal. As músicas de Polytheistic Fragments contém uma limpidez e uma imediatidade de emoção que por um momento achamos que estamos ouvindo um álbum de standards, algo similar aos songbooks de Ella Fitzgerald. Não porque as melodias são reconhecíveis (não são), mas pela frontalidade, pela concisão, pela nitidez da interpretação e pela incrível fluência – Richard Bishop pode estar tocando a coisa mais difícil do mundo, mas existe tanta graça no dedilhado que ouvimos tudo como se fosse a coisa mais fácil e alegre do mundo.

Muitas músicas solares: “Cross My Palm with Silver” começa o disco evocando a guitarra espanhola, “Elysium Number Five” parece um jazz dos anos 40 com seu tema adorável, “Quiescent Return” é uma balada que faz pensar em John Fahey e na tradição do violão americano, assim como “Tennessee Porch Swing”, e “Ecstasies in the Open Air” fecha o disco usando violão, depois guitarra, e ao final as duas são executadas juntas, chegando a uma sensação de clímax que coroa a sensação de vastidão e de graça que povoa o disco todo. Tirando “Ecstasies…”, todas as outras figuram violão solo, sem acompanhamento, e possivelmente representam o que de melhor o disco tem a oferecer em simplicidade, numa beleza tão patente que a palavra “clássico” quase brota na boca.

Em outra chave, a menos imediata e mais densa do disco, “Hecate’s Dream” traz à tona a deusa grega associada à magia negra para fazer a guitarra quase se transformar em cítara, “Saraswati” evoca a deusa hindu do conhecimento e das artes e é a única faixa do disco não baseada em instrumento de cordas, mas em piano (curiosamente, Saraswati é sempre retratada com uma veena, um instrumento de cordas, na mão). Junto com “Free Masonic Guitar” e “Cemetery Gates”, elas compõem a parte mais audaciosa do disco no que diz respeito a sonoridades novas e formas de beleza mais ocultas. “Canned Goods and Firearms” aproxima de forma lúdica e graciosa a guitarra surf da guitarra de jazz dos anos 30-40.

Tudo isso, resta dizer, com um supremo gosto pela síntese, com um foco e uma ciência da variação com critério que muitos jamais esperariam de um membro do Sun City Girls. Não que aqui ele soe diferente do que era. É só que fazia parte da estética do Sun City Girls a idéia de gemas preciosas não-esculpidas. Polytheistic Fragments, ao contrário, nos entrega vários diamantes meticulosamente talhados. While My Guitar Violently Bleeds pode ser mais visionário, mas Polytheistic Fragments é supremo em sua beleza límpida e desenvolta. (Ruy Gardnier)

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Uma máxima, polêmica: músico não entende música. Virtuosismo e vanguarda nem sempre se entendem, como se pode observar, por exemplo, na música instrumental brasileira contemporânea de Yamandú Costa e Hamilton de Holanda ou no jazz “tradicional” de Joshua Redman. Ocorre neles um excesso de técnica e um déficit na criação e concepção, como se a única particularidade que a música pudesse oferecer a seus ouvintes fosse a presença instruída do músico e seus dotes. Por outro lado, o conservadorismo do instrumentista, e não da música, nem sempre interdita a criação, como é o caso de Hermeto Pascoal e Edu Lobo, dois instrumentistas geniais no aspecto criativo, mas que em entrevistas desqualificam preconceituosamente a “musiquinha” e os “musiquinhos” – o primeiro referente à música estrangeira, o segundo àqueles que não correspondem à técnica necessária para reproduzir a “boa música”. Tanto o primeiro tipo – o instrumentista competente e conservador – quanto o segundo – competente e criativo – se caracterizam por um culto do approach técnico, ora no contexto da linguagem musical, ora num contexto xenófobo. De um modo geral, trata-se de uma certa fidelidade não à música propriamente, mas à uma visão da música como “estilo”, como expressão nacional, ou algo que o valha…

Sir Richard Bishop é um músico de outra cepa. Embora extremamente virtuoso como os artistas citados, não se importa com nada que não seja a música, não contrai “compromissos” de qualquer natureza, e, se os tem, não os enuncia orgulhosamente. Ex-guitarrista do prolífico e espetacular Sun City Girls, Bishop mantém um trabalho solo igualmente admirável. Destes trabalhos, Polytheistic Fragments é o mais palatável e bem humorado, mas também o mais “estranho”, pois leva justamente esse descompromisso com estilo e gênero a níveis espetaculares. Nele, podemos escutar uma slide guitar bluesística, com interferências elétricas em “Hecate’s dream”, um new age intrigante em “Saraswati”, um flamenco histérico em “Cross My Palm With Silver”, uma polca elétrica em “Canned Goods & Firearms”… E “Cemetery Games”, na minha opinião a mais interessante do disco, que lembra um daqueles baiões dissonantes de Hermeto Pascoal, temperados por uma percussão hindu fake. Por outro lado, não acho que seja possível dizer que a principal característica de Polytheistic Fragments seja a diversidade, mas justamente seu oposto, a unidade. O trabalho de Bishop move-se numa região onde já não é mais necessário nem produtivo orientar-se por concepções genéricas. A unidade de seu trabalho reside na ampla expressão dos arranjos, das composições e mesmo das intenções de cada álbum. Bishop, como Miles Davis, é um músico para além da música, supraestilístico, para quem a música não é simplesmente um meio de expressão, mas, a própria expressão, a própria vida “falando” sua linguagem caótica… (Bernardo Oliveira)

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Sir Richard Bishop é um virtuoso, em todos os sentidos. Não apenas é um exímio violonista e guitarrista, que domina perfeitamente a técnica de seus instrumentos, mas um virtuoso na arte de interpretar. Nada mais apropriado, então, que intitular um disco de Polytheistic Fragments. Bishop é detentor de diversas crenças: ele passeia por um violão flamenco com a mesma facilidade que executa um blues cheio de slides ou uma balada. Quase todas as faixas são minimalistas e basta a presença de um ou mais violões para que se obtenha um resultado parco na constituição, mas riquíssimo na variedade sonora e estilística. “Cemetery Games” é a única faixa com percussões e, por isso, quebra brilhantemente o politeísmo mais que coerente do disco. Bishop peca somente pelo excesso de virtuosismo, que, vez por outra, faz com que a audição se torne um pouco maçante e saia do foco melódico, que é sua especialidade. É impossível não comparar Polytheistic com seu disco-primo e também criativamente intitulado, While My Guitar Violently Bleeds. A analogia é feita porque, apesar da diferença notável no tratamento ao violão/guitarra, os dois possuem alguns elos em comum. “Zurvan”, primeira música de While My Guitar, poderia muito bem fazer parte de Polytheistic, pela aproximação sonora que Bishop faz no violão. A diferença reside na forma de explorar os efeitos da guitarra. Polytheistic é predominantemente um disco de violão clássico, enquanto While My Guitar é mais experimental e movido por uma guitarra drone, de caráter aventuroso e que está pouco preocupada em tocar harmonias e melodias palatáveis ao ouvido. Ao meu gosto, Bishop, eclético como é, se sai melhor como um intérprete de diferentes gêneros e estilos no violão, do que como um guitarrista de drone rock. São as diversas crenças musicais de Bishop que contam, ao final, e Polytheistic impressiona não apenas pela propriedade com que Bishop incorpora estilos tão distintos no violão, mas pela própria beleza contida em si. (Thiago Filardi)

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Sir Richard Bishop sempre rejeitou as facilidades, a cafonice disfarçada de bom gosto; de sua aparência ao seu estilo na guitarra e aos títulos de seus discos, passando por tudo relacionado ao carnaval ruidoso do Sun City, o que menos encontramos é o reconhecimento tranqüilo de um estilo, ou o conforto de criar um cantinho e se alojar. Depois de décadas se dedicando às loucuras do Sun City Girls, grupo que flertou com a genialidade e a tolice em cada um dos seus lançamentos, sem auto-indulgentes e libertários, Bishop parece firme na decisão de aposentar seu antigo grupo, após a morte do baterista Charles Gocher, para dedicar-se a uma carreira solo que, em comparação com outros guitarristas experimentais de sua época ou que o antecederam, é ainda titubeante e em busca de maior desenvolvimento.

Justamente por causa desta recusa em se limitar a um estilo, ouvir um novo lançamento de Bishop pode ser um choque. Em cada um ele parece querer cobrir um novo campo, canibalizar uma outra influência, uma região diferente do planeta. Bishop parece servir-se do que está à mão, seja a guitarra dedilhada, o raga, a música indiana, as inflexões do extremo oriente, o folk mais tradicional tanto da América, da Europa, quanto da África; sem querer perder qualquer um dos muitos matizes.

Polytheistic Fragments é seu primeiro álbum com ampla distribuição, e sua construção parece ter levado em conta esse fato; mais do que a coesão interna, Bishop parece ter procurado, através de composições novas, apresentar um leque de estilos diferentes – ainda que todos eles tendam mais para um resultado suave. Assim, mesmo estando diante de um conjunto de faixas que, em alguns momentos, alcançam grande beleza e rara lucidez, a audição não deixa de ser insatisfatória, por não ter um fluxo ou narrativa que mantenha o interesse por toda a sua duração. Além disso, embora não estejam presentes as irregularidades bruscas de qualidade em algumas faixas, tudo que aqui está já foi melhor apresentado em álbuns anteriores, ficando muito distante do impressionante While My Guitar Violently Bleeds. O que não impede que aguardemos com certa ansiedade os seus novos rumos e qual a marca que estes fragmentos representarão no corpo de sua obra.

Talvez o que mais me incomode seja o fato de que algumas músicas parecem se contentar com certa facilidade; e mesmo que por baixo disso se escondam alguns tesouros, não consigo perder a impressão de que ao lançar este álbum junto com o While My Guitar…, ele tenha dedicado estas peças a uma maior aproximação com um público que tenha interesse neste tipo de música e que não teve maior contato com seu trabalho. Público, esse, que não deve ser escasso, vide o crescente número de bons guitarristas que se aventuram por searas semelhantes. (Marcus Martins)

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Um comentário em “Sir Richard Bishop – Polytheistic Fragments (2007; Drag City, EUA)

  1. rui carvalho
    16 de maio de 2008

    boa informação

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Publicado em 13 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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