Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Spring Heel Jack – Songs & Themes (2008; Thirsty Ear, EUA)

Spring Heel Jack é uma dupla inglesa (Londres) formada por Ashley Wales e John Coxon. Os caminhos iniciais do Spring Heel Jack datam de meados dos anos 90, quando o duo gravava drum’n’bass preocupado em chacoalhar mais a cabeça do que o quadril. Dos cinco discos desse período, talvez o mais celebrado seja Busy Curious Thirsty (1998). A partir de Masses, em 2001, Wales e Coxon iniciam uma série de colaborações com músicos de jazz na chancela da Blues Series capitaneada pelo pianista Matthew Shipp para a Thirsty Ear Recordings. Mudando inteiramente de registro, o duo passa a explorar o terreno da improvisação livre (Live) e da tradição do jazz em geral. Além de Wales e Coxon, Songs and Themes conta com o trompetista Roy Campbell Jr., o saxofonista John Tchicai, o baixista John Edwards, o baterista Tony Marsh, Orphy Robinson no vibrafone e as participações especiais de J. Spaceman (vulgo Jason Pierce, do Spacemen 3 e do Spiritualized) na guitarra em “1000 Years” e “Garlands”, de Mark Sanders na bateria em “Silvertone” e Rupert Clervaux na bateria em “Clara” (RG)

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Além de totalmente genial, a carreira do Spring Heel Jack é também imprevisível. Não é só o fato da transição brusca do drum’n’bass, mesmo em chave mais experimental, para o jazz livre, mas acima de tudo a auto-reconstrução a cada disco. Para quem tinha feito o majestoso Live (2003), com duas longas e colossais faixas free, fazer algo com a concisão e o controle de Sweetness of the Water (2004) era um passo inesperado. E agora, o flerte com a tradição, já no título do disco: canções e temas, a estrutura canônica, a melodia. Mas se engana redondamente quem crê que com isso a dupla inglesa tenha iniciado um momento de esmorecimento criativo e atenuação da experimentação. O universo sonoro escolhido pelo SHJ nesse disco pode ser menos aventuroso do que outros, mas o que eles fazem com ele é inovador e estimulante, seja pelas músicas que se situam em algum lugar entre o jazz, a composição clássica e a experimental, seja pela completa integração da eletrônica como instrumento de improvisação (o que não é exatamente novo, mas aqui atinge níveis de mestria até hoje inalcançados de sutileza e coesão).

Songs and Themes se estrutura em algumas melodias, que no entanto não se balizam como temas nem canções. As faixas não evoluem no sentido tema-improvisação costumeiro do jazz, nem nos moldes fixos da canção. As melodias têm mais um valor em si do que um sentido de progressão. Aliado ao fato de que não existe nenhum instrumento marcando o tempo, essa forma de composição acaba dando ao disco uma forte sensação de flutuação, de belas melodias tradicionais jogadas num recorte contemporâneo que atribui a elas o caráter de drone.

A maior parte das faixas se baseia no exímio e lírico trabalho de metais de Roy Campbell Jr. e John Tchicai, mas o meu destaque pessoal vai para o trabalho de bateria de Tony Marsh. Livre da necessidade de pontuar o andamento, a bateria trabalha desenhando no tempo e encaixando-se como mais um instrumento melódico. Ainda que não seja free, existe um sentimento de livre improvisação que percorre o disco: a idéia de que o todo é mais importante, e que tocar é ajudar a preencher de sons até atingir a emoção e a intensidade desejada. Assim, parte do gosto do disco vai em perceber as sutis intervenções de vibrafone, dos samples e de todos os sons que ficam em segundo plano. É um disco em que se ouve tudo com incrível nitidez, tanto pela gravação impecável quanto pelo senso de economia da composição, que nunca faz muitos músicos tocarem ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, se a coesão em busca do clima certo é decisiva, a estruturação nas melodias-guia também é. E há quanto tempo não se vê no jazz uma preocupação em criar melodias ao mesmo tempo líricas e modernas, afastadas daquela imagem pieguíssima do smooth jazz? No jazz contemporâneo, em matéria de beleza de tema, só consigo imaginar o songbook Masada de John Zorn como termo de comparação. Ou, um pouquinho mais atrás, os discos do Wayne Shorter nos anos 60, com a mesma ambição melódica dentro de um espírito experimentador, naquele caso as inovações modais.

Ao mesmo tempo, existe um mistério que paira sobre esse Songs and Themes que aparentemente se apresenta de forma tão acessível. As contínuas audições, mais do que fazerem clarificar nossa relação com o disco, deixam-no mais misterioso ainda. Há algo de inapoderável nesses sons flutuando num ritmo não marcado, algo de paradoxal no sentimento ao mesmo tempo nostálgico e contemporâneo evocado pelo disco, algo não-determinável que no entanto coloca o disco lá no alto do que vem sendo feito em música nos dias de hoje. (Ruy Gardnier)

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Embora Songs and Themes seja um disco realizado por um ensemble criterioso, talhado segundo sofisticados critérios de estruturação e sentido de dinâmica musical, por mais que se ressalte o aspecto cerebral de sua música, não se pode deixar de notar a força emocional com que eclodem os temas e canções contidas neste álbum. É o papel do inesperado, da supresa, que faz com que Songs and Themes seja certamente um dos discos do ano e um dos melhores do grupo. Por todo o álbum, percebe-se elementos de um suspense musical dos mais intrigantes do momento, no qual muitas vezes o ouvinte é arrebatado. Em “1,000 Years”, a guitarra do convidado J. Spaceman detona, em meio a uma progressão drone, uma curiosa reviravolta; “Folk Players” e “Silvertone”, que se valem do sax barítono para sustentar as geniais modulações multiinstrumentais. E a impressionante “Garlands”, que se inicia com um vibrafone pueril, pontuado por uma percussão pesada e agressiva que, pra surpresa do ouvinte, eclode num belíssimo tema de trumpete. Um dos trunfos do álbum é o jogo com as intensidades, com a alternância de climas diferenciados.

Songs and Themes às vezes se parece com os últimos álbuns de estúdio da dupla: estruturas musicais aparentemente soltas, emolduradas pelo auxílio providencial das intervenções eletrônicas. Mas, diferente de Amassed e The Sweetness of the Water, histéricos e vigorosos, Songs and Themes demonstra uma capacidade extraordinária de trabalhar com elementos mais simples e até mais melódicos do que se poderia esperar. Certos climas são afeitos àquelas estruturas criadas por Miles Davis durante a época do segundo quinteto, onde baixo e bateria iam progressivamente decompondo as células originais, enquanto os instrumentos solistas preenchiam essa cama ou com repetições ou com a exploração de sonoridades extraordinárias (relembro o solo de Herbie Hancock em “Footprints”…). Observa-se, assim, a valorização da percussão, das intervenções eletrônicas e de alternâncias mais radicais como forma de ressaltar o clima e dar espaço para a ambiência.

Dando prosseguimento à sua trajetória fascinante, a dupla Spring Heel Jack põe em xeque não somente o jazz, mas toda a música contemporânea. E eu acrescentaria: não só reitera a eleição do jazz como o princípio adequado para criar suas idéias musicais, mas também estabelece um novo sentido para o próprio gênero, direcionando-o para a criação de estruturas sonoras, e retirando-o da pasmaceira individualista que o tomou em meados dos anos 70. Nos idos de 95, 96, quando o grupo se dedicava a trabalhar sobre o drum’n’bass, corria a opinião de que este gênero seria o novo jazz. Penso que isto ocorria não pelo caráter improvisador, mas por conta das modulações rítmicas que guardariam uma profunda semelhança com a liberdade com que a base do jazz, ou seja, a “cama” para o solo, era construída. Portanto, a passagem para o jazz, operada pelo Spring Heel Jack, não se configurou exatamente como uma guinada, mas sobretudo como uma correção de rumo, pois, como se percebe hoje, o drum’n’bass acabou por se cristalizar em uma manipulação safada de patterns digitais pré-gravados. A adoção do jazz como princípio trouxe a possibilidade que Ashley Wales e John Coxon desejavam: expandir o trabalho com estruturas musicais possibilitando um diálogo maior não só com a gama de sons eletrônicos – fato que parece não interessar aos jazzistas de cátedra -, mas alçando a sonoridade dos instrumentos convencionais a uma outra dimensão. (Bernardo Oliveira)

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É um tanto audacioso que o Spring Heel Jack tenha intitulado seu último disco de Songs & Themes. Afinal, a música do Spring Heel Jack está (e sempre esteve) menos para a forma esquematizada da canção popular que para a forma livre da improvisação. A segunda palavra do título, “themes”, talvez seja mais apropriada ao que a dupla inglesa faz, pois, em seu último disco, temas próprios são executados, em especial os relativos ao free jazz e improv, nos quais parece haver uma grande aquiescência aos grandes mestres. Não é à toa que eles dedicam uma canção a Paul Rutherford, lenda jazzista que já colaborou com a dupla em discos anteriores. Há também uma música chamada “Dereks” (possível alusão a Derek Bailey?). Além de Rutherfod e Bailey, um nome importante a se lembrar é Evan Parker, um dos precursores do free jazz inglês, e que também participou de formações passadas do grupo e parece ser uma influência clara para os dois, tanto na forma de fazer soar o trompete, quanto na disseminação de um gênero radical e totalmente livre na sua composição.

Songs & Themes impressiona pela sua sutileza. Quase todos os temas são acompanhados de um teclado ou instrumentos de corda, que lhes dão um clima sorumbático. Os vibraphones, com sua sonoridade mais delicada, são postos de maneira a contrabalancearem com o ar sombrio introduzido pelas cordas e o teclado. É um disco quase todo acústico, exceto pela participação de J Spaceman em “1,000 Years” e por interferências noise em “At Long Last”. Os pistons, apesar de nem sempre estarem executando linhas melódicas simples ou convencionais, são tocados de modo extremamente suave. A bateria e a percussão, por vezes quase inaudíveis, são magnificamente timbradas e se desdobram em ritmos e tempos complexíssimos.

Em retrospectiva, até que não é tão surpreendente o fato do Spring Heel Jack estar chamando suas improvisações de canções. Uma das funções do duo (agora um grupo praticamente), desde a época em que fazia drum’n’bass, sempre foi chacoalhar com o formato da canção moderna, em crise já há algum tempo. Verso/refrão/verso? Não, o Spring Heel Jack prefere pegar as influências mais radicais do jazz do século XX e transformá-las em artefatos da música contemporânea. Afinal, antes de tudo, é preciso reinventá-la, e se o Spring Heel Jack tem uma papel a ser desempenhado no mundo, é este. (Thiago Filardi)

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Que os caminhos do Spring Heel Jack são imprevisíveis já sabíamos, que eles gostam de remexer os gêneros, seja o free jazz, seja o drum’n’bass, idem. Mas eu realmente não esperava uma virada milesdavisiana, uma redução do caos para a composição controlada. É certo que o título já avisa o que virá: canções e temas. E canções é algo que nunca foi comum no repertório de John Coxon and Ashley Wales.

O disco se apresenta calmo, estudado, mas repleto de desvios; situações onde a leitura das faixas pode tanto ser da busca de um lugar calmo quanto de segredos. A complexidade das composições agora é quase subliminar, muito distante da tormenta do Live, onde havia pouco espaço para a respiração; aqui temos cada respiro registrado, os instrumentos soam com mais individualidade. Este tipo de procedimento já estava presente em parte de The Sweetness of the Water, mas onde ali haviam umas duas ótimas faixas e uma massa de criações confusas e pouco instigantes, aqui temos clareza e, por que não?, quase romance. Isso por que os músicos parecem enamorados com o som de seus instrumentos.

Coxon e Wales novamente aparecem cercados de uma lista longa e cheia de músicos festejados, em especial os frequentadores assíduos do catálogo da Thirsty Ear. Reunindo elenco tão vasto, eles parecem reduzir sua participação do disco para muito mais conduzir os trabalhos de tantos luminares a seus propósitos – algo como Davis e Teo Macero criando o Bitches Brew, dados os devidos descontos. Assim, eles alcançam um resultado melhor desenvolvido e, principalmente, belo.

Curioso que, apesar da coesão do álbum, a gama de sons utilizada é ampla, desde a instrumentação jazzística mais convencional, com pequenas interferências eletrônicas, loops de instrumentos sampleados, toques de ruído branco e outros efeitos que aproximam algumas passagens de um som mais ambiente (além da guitarra de J. Spaceman que pratica aqui o que parece ter esquecido de fazer no mortinho Spiritualized).

Verdade que nunca fui grande apreciador da Thirsty Ear, mas não há como negar o valor e o gosto de ouvir músicos que põem seu virtuosismo a serviço da constante busca de novos caminhos para o jazz, distante da pasmaceira da maioria de seus contemporâneos. Songs and Themes apenas perde para o Live no catálogo do Sprig Heel Jack – o que não é pouco. (Marcus Martins)

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Publicado em 14 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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