Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Portishead – “Silence” (2008; Universal, Inglaterra)

Postar “Silence” tem uma implicação negativa: não sendo a melhor faixa do novo e excelente disco do Portishead, sua escolha isolada não se justifica. Pois bem, por que então? Tendo pouco a dizer, a escolha de uma faixa emblemática possibilita o comentário breve, porém interessado, sobre todo o álbum. No caso, penso que Third, o melhor e mais audacioso disco do Portishead até então, tem uma característica muito curiosa: seus arranjos são estranhamente calcados em transfigurações de dinâmicas e estruturas essencialmente vinculadas a diversas vertentes do rock – “Threads” lembra Black Sabbath, “Nylon Smile” um punk rock, “We Carry On” é Joy Division, etc. Claro que uma tal afirmação leva a perguntar se não valeria uma resenha completa. Mas embora “Silence” se apresente como uma canção demasiado simples, ela sublinha perfeitamente essa característica central do disco, configurando uma porta de entrada promissora. A primeira audição já pega o ouvinte pelo braço, com sua batida frenética, desenhada por um andamento polirrítmico (2 vezes 4/4, duas vezes 6/4 e depois uma vez cada um), que vai progredindo à revelia do canto desesperado de Beth Gibbons. A faixa vai ganhando dramaticidade conforme a letra vai descrevendo um processo de agonia, até culminar com um encerramento abrupto e inesperado (silence?). Excelente faixa, das melhores do ano (junto com “Threads” e “Machine Gun”, do mesmo disco), que deixou muito freqüentador de vernissage por aí de orelha em pé. (Bernardo Oliveira)

* # *

Muito complicado uma banda em total superexposição cult, como o Portishead, se reinventar recrudescendo seu som, tornando-o mais desértico. A dupla entrou no panteão chique dos anos 90 equacionando sensualidade e depressão, e a fórmula funcionou tão bem que os singles do primeiro disco servem tranqüilamente de trilha sonora para um strip tease mais moderninho. O segundo disco já mostrava que eles não estavam muito confortáveis com essa imagem, e Third vem estilhaçá-la de vez. Não que certas faixas não deixem entrever um erotismo de drama queen em desespero, mas esse sentimento não se vende nada fácil. É preciso entrar no universo soturno, denso, insidioso que Third desenha para poder prová-lo. “Silence” é possivelmente a faixa mais rápida do disco, mais orientada para a pista. Nem de longe é a minha preferida (“Machine Gun”, matadora), mas abre o disco muito bem, fazendo o ouvinte ser bem recebido (ao menos em comparação com o resto), instalando-o no clima por vir, com programação de bateria a base de tambores insistentes e barulhinhos repetitivos até que entra a casa de teclado climático, a guitarra e, finalmente, a voz da diva, única, aguda e carregada de sofrimento como sempre. “Silence” abre um disco inventivo e bem cuidado que dá mais sentimento de “doom” do que a maioria dos discos do gênero. O que mais poderíamos pedir? (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “Portishead – “Silence” (2008; Universal, Inglaterra)

  1. jaac
    15 de julho de 2008

    boa postagem. Tava sem grana e baixei o disco, no começo do ano. E o que significa aquela ‘lei tríplice’ citada no início do disco? será que tem alguma coisa a ver com o clima sofrido da silence?

  2. m.
    16 de julho de 2008

    sobre a tal lei tríplice e o trecho em português, você pode ler aqui: http://www.gardenal.org/trabalhosujo/2008/06/its_time_to_learn_portuguese.html

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Publicado em 17 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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