Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Autechre – Quaristice (2008; Warp, Inglaterra)

Oriundos da cidade inglesa Rochdale, o Autechre é um dos mais prolíficos, influentes e inovadores grupos de música eletrônica das duas últimas décadas. Em 15 anos, a dupla formada por Rob Brown e Sean Booth lançou 9 discos, explorando ritmos e sonoridades criadas a partir da combinação de técnicas e equipamentos novos e antigos, que lhe valeram o duvidoso rótulo de Intelligent Dance Music (IDM). Quaristice é o nono disco da dupla, lançado pelo renomado selo Warp.

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À exceção da possibilidade de apreciação teórica que se pode realizar da música estocástica de Iannis Xenakis e da música aleatória de John Cage, algo próprio de certas obras do século XX nos conduz a pensar que, em detrimento de toda lógica, busca-se uma interlocução do som com algo que está fora da “música”. Percebe-se no trabalho de alguns compositores uma necessidade de “desmusicar” a música de certos elementos cristalizados pela cultura. Neles, a trinca tradicional harmonia, melodia e ritmo já não opera em conformidade com os ditames da escrita contrapontual ou com a música clássica tradicional, nem entra em choque, como em Stravinsky. Antes, aponta para uma dupla dimensão, orgânica e intelectual, do som. Obviamente que não me refiro à mímese da natureza, com em “La Mer”, de Debussy, mas a uma dialética onde o som é, ao mesmo tempo, “desnaturalizado” e despido da música, isto é, tomado por uma indistinção radical entre natureza e cultura como se as forças naturais encontrassem no som o “meio” para sua expressão. A complexidade formal de Xenakis, e toda a filosofia que se pode depreender de seus trabalhos, não corresponde de forma alguma à experiência da obra: ao contrário, ela exprime uma interlocução com imprecisões e descontinuidades que não se observam nem na linguagem corrente, teórica ou musical, nem mesmo na própria natureza, pois o som que ouvimos não encontra lugar em nenhuma das duas esferas. Me refiro, portanto, à busca pelo aprofundamento de uma outra lógica criativa para o som, que se apresenta de forma impopular, absolutamente desvinculada da canção, e que permeia o trabalho de Cage, Xenakis, a música contemporânea de Berio e Penderecki, a música eletro-acústica, a guitarra de Arto Lindsay, a retomada eletrônica do drone, alguns soundscapes criados por Fennesz, a obra de Frank Bretschneider, David First, Black Dice (e Eric Copeland) e a música eletrônica do Autechre, entre outros. Todos esses artistas têm em comum a adoção de uma síntese dialética: destituir o caráter “musical” da música para enriquecê-la e, sobretudo, livrá-la dos seus maiores perigos, a saber, a cristalização do gênero, a ditadura da canção e do mercado, e por fim, a própria imposição do costume.

Fico à vontade para situar Quarisitice neste contexto, embora este disco mais reafirme do que acrescente à obra do grupo. Se para alguns críticos o disco parece mais “palatável” (se é possível utilizar essa palavra…), isto se deve à relação que muitas composições estabelecem entre uma sonoridade mais ritmada que descontínua, e que já havia sido contemplada no último disco, Untilted, de 2005. Mas, antes de fechar a questão, um pouco mais de paciência e atenção revelam que, por trás das 20 faixas (!) que compõem Quaristice, residem tanto o Autechre dos discos anteriores, como também, e até por conta disso, um outro Autechre, que promove o diálogo entre instrumentos e aparelhos novos e antigos, que prossegue compondo diagramas musicais, e que a cada disco tanto reporta a toda essa história de pesquisa, quanto nos traz os últimos resultados de sua ampliação. Peças como “Rale” e “bnc Castl”, entre outras, podem ser consideradas como modelos clássicos no repertório do grupo, e algumas outras podem parecer simplórias demais, como a faixa de abertura, “Altbizz” e “Paralel Suns”. Ainda assim Quaristice apresenta momentos que poderíamos chamar “únicos”, embora estejam em perfeita conformidade com o álbum como um todo. Entre eles, destaco “Steels”, “Tankakern”, “The Plc” e, as melhores, “IO” e “WNSN”, pérolas que reiteram o caráter científico do método do Autechre. Na medida em que a base de sua música está justamente na busca, e não na aquisição, cada experiência remete simultaneamente ao todo e ao novo. Quaristice é, portanto, mais um documento de viagem, um relatório, do que propriamente um “álbum”, tal qual estamos acostumados. E, como tal, comporta pontos de interpretação, questões, divergências, e acaba por mais fazer pensar do que ouvir propriamente. (Bernardo Oliveira)

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Não é fácil ser o Autechre: desde o começo de sua carreira eles tomaram para si a tarefa de depurar progressivamente a música eletrônica de todo ornamento inessencial, e paralelamente buscando a todo custo uma maior complexidade na construção das batidas e uma sutileza na pesquisa de timbres para fugir dos tons costumeiros na eletrônica, preferindo em geral uma sonoridade metalizada, fugind tanto quanto possa de qualquer calor humano. A equação foi chegando à perfeição em LP5, que permanece um marco na carreira do grupo. No entanto, mais do que permanecer no topo de seu domínio, gloriosamente o Autechre foi caminhando por caminhos desconhecidos até por eles, reis do perfeccionismo e do controle minucioso de cada milésimo de segundo. O que fez com cada audição dos discos seguintes do grupo, Confield, Draft 7.30 e Untilted, fosse uma experiência aventurosa mesmo para fãs escolados do grupo.

Quaristice se encaixa na mesma categoria, mas de forma oposta. Enquanto os outros discos eram tão secos e focados em si mesmos que transformavam a audição numa experiência desértica, a música quase se bastando a si mesma de tamanha coerência e unidade, o novo disco aponta para vários lados e as faixas por vezes acabam de forma brusca ou dão pouca ou nenhuma continuidade ao que vinha sido trabalhado anteriormente (entre faixa e faixa e por vezes dentro da mesma faixa). Não que o som do Autechre não se identifique aqui: faixas como “The PLC” e “Chenc9” não fariam nenhum estranhamento num dos discos clássicos do grupo, e em geral é possível remeter quase todos os sons do disco a outras faixas de discos anteriores (deles ou do Gescom, projeto electro do duo – “Fwze”, por exemplo). O que muda é uma questão de procedimento. Estamos acostumados em ouvir o Autechre esperando um encadeamento sonoro meticulosamente arrumado, com desenvolvimento das idéias lançadas e aproveitamento completo de todas as células sonoras trazidas à tona. Quaristice funciona muito como o oposto, como um gesto de gratuidade: as sonoridades estão lá, mas elas pedem para ser amadas pelo que elas são, não pelo que elas se tornam; as músicas parecem borrões incompletos de faixas a serem talhadas ao antigo modelo do grupo; e, acima de tudo, há uma versatilidade que sempre pareceu avessa aos princípios do grupo.

Teoricamente, isso faz de Quaristice um disco necessário, quase um Inland Empire, para fazer a comparação entre as artes. Mas não significa que o ato material de audição carregue todo o poder da guinada que o Autechre deu com esse disco. Ainda que o começo se ouça muito bem, de um fôlego só (as quatro primeiras ou, tomando mais afinidade com o disco, as sete primeiras), as 20 faixas e os 73 minutos do disco pesam forte, e a dupla não consegue criar um substituto equivalente em exuberância aos modelos de composição dos discos anteriores. Não que isso comprometa a audição, o desconforto do Autechre em jamais institucionalizar seu som leva Quaristice a lugares muito interessantes e desconhecidos. O problema está em conseguir cativar de cabo a rabo. (Ruy Gardnier)

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É muito difícil falar de um disco como Quaristice. Ou melhor, é muito difícil escutar um disco como Quaristice e associar todas as idéias presentes em cada faixa de maneira a formar uma linha lógica no cérebro. Que a dupla inglesa é capaz de criar uma música complexa e de poucos parâmetros, já sabíamos, mas, de certo modo, Quaristice parece uma seleção completamente aleatória de improvisações eletrônicas interpostas entre si. A intenção é essa: atirar um número infinito de informações sem dar espaço ao ouvinte concatenar todos os signos sonoros. Isso faz com que Quaristice se torne uma audição extremamente desafiadora, pois além de não possuir uma centralização e aprofundamento naquilo que está sendo executado, como em discos anteriores da dupla (especialmente os três primeiros), é longo e perpassa pelas mais diversas formas de se fazer música eletrônica.

Talvez o duo estivesse querendo fazer uma analogia com o mundo contemporâneo, cada vez mais caracterizado pela confusão de signos auditivos. Indo adiante na analogia, é possível comparar Quaristice com o episódio que Chantal Akerman fez para o filme “O Estado do Mundo”. Neste, Akerman posiciona a câmera em frente a prédios de propagandas luminosas e chamativas de Xangai, de maneira que observemos todas as poluições visuais e sonoras daquele lugar. Mas enquanto Akerman faz sua análise através da estaticidade da câmera, que permanece parada, deixando que todos os elementos componentes daquele ambiente se formem e invadam a tela, o Autechre envolve o ouvinte através do caráter extático de sua música, da profusão contínua de sonoridades pouco familiares. É o êxtase que induz o ouvinte à estáticidade, pois o número de informações e sons é tão grande que não há outra saída senão o estado de pura imobilidade e absorção.

Todas essas características fazem de Quaristice um disco instigante, inquieto, florescente, que mesmo depois de inúmeras audições ainda é capaz de causar estranheza. Mas, acima de tudo, um álbum de valor inestimável, que, ao mesmo tempo em que é condizente com o estado do mundo, está à parte de tudo que tem sido feito na música – mesmo a eletrônica. Visionário é pouco: Quaristice chegou a um nível ainda não compreendido pela mente humana. (Thiago Filardi)

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Autechre. Bicho curioso, algo entre um dos seres imaginários de Borges e alguma destas criaturas encontradas no fundo do mar. O que fazer com elas? Um pouco de curiosidade, um pouco de reconhecimento permeado pelo bizarro, um pouco de riso e medo. Muita distância.

Na corrida eletrônica dos anos 90, além de não se encaixarem em qualquer categoria(IDM, piada), eles causaram muito mais assombro que vontade de dançar; sua música é tanto evolução quanto beco sem saída. Foram louvados por sua experimentação, atacados de hermetismo; sempre sugerindo que o ‘elemento musical’ era colocado em perspectiva. Estaríamos diante de uma das mais rebuscadas formas de escultura sonora; no caso deles, arquitetura.

Depois de quase duas décadas de atividade e mais de uma dúzia de lançamentos entre álbuns e eps, longe vai o tempo em que ainda causavam espanto, apesar de não terem cedido a qualquer forma de acessibilidade ou utilizarem estratégias especiais para atrair público e sua música ter continuado tão exotérica quanto antes, ou pior. Quem aprecia sua música, tende a continuar assim e quem os ignorou até aqui, continua feliz assim.

Mesmo em um álbum com recepção fria quanto o Untilted, continuavam muito à frente de seu tempo. Na verdade sua condição na história da música eletrônica é impar, sua filiação é tangencial e remota e é quase impossível identificar prole. A relação de artistas experimentadores mais jovens com eles é preponderantemente de admiração, quando citados como influência é rara a identificação em estratégias de produção.

Quaristice é seu nono álbum e representa alguma pequenas mas importantes mudanças. Desde Tri-Repetae não reuniam tantas faixas em um álbum, mas ali tratava-se de álbum duplo e aqui, no lugar de faixas com mais de cinco minutos, temos quase uma totalidade de faixas curtas, com mudanças significativas de faixa a faixa. Outro ponto é o álbum começar e terminar com faixas que podem ser consideradas ambient,com a presença de melodia, ou pelo menos melodia para o padrão Autechre e em diversos momentos do disco, por baixo das intrincadas programações pequenas linhas se insinua, ainda que tímidas diante das construções gigantescas das batidas.

Mas a maior contribuição encontrada para o cânone do Autechre deve ser dada ao uso da manipulação da voz em algumas faixas, que mesmo presente como resquício em álbuns anteriores, aqui traz um elemento novo, afiliando-se ao trabalho de marcos como o Plux Quba de Nuno Canavarro ou o Automatic Writing de Robert Ashley. A voz é destituída de sua ‘corporeidade’ sugerindo fantasmagoria e distância. A voz é utilizada como elemento sonoro destituído de significado textual, neste caso, complementando o elemento percussivo, como em ‘The Plc’ e ‘Lo’. Talvez apresentando um desvio para o autismo de música deste tipo, com sua aparente pouca comunicabilidade.

O que se percebe em Quaristice é que nada de novo é apresentado, não há susto, mas tentativa de retrabalhar métodos já utilizados, fazendo misturas diferentes dos mesmos ingredientes. Talvez por isso, o álbum prescinda de unidade, usando o maior número de possibilidades, valorizando a variedade.

O resultado final é desigual, pulverizado; no lugar da construção de edifícios inimagináveis, o Autechre apresenta uma série de ruínas representadas pela instabilidade da programação; uma certa decadência de um modo de trabalho que atingiu seu ápice em Confield. Percebendo que não havia mais para onde evoluir, depois de catedrais que lembram o trabalho de Gaudí, de tão extravagantes e inigualáveis, o Autechre parece se contentar em assistir a tudo ruir. Lindas, intransponíveis ruínas. (Marcus Martins)

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Publicado em 21 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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