Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jacaszek – Treny (2008; Miasmah, Noruega)

Jacaszek é um músico polonês que trabalha na interseção de instrumentos acústicos e elementos eletrônicos. Treny é seu segundo álbum solo.

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Investigar novas formas – ou, pelo menos, uma forma própria – em qualquer expressão artística não é tarefa tranqüila. Quando tal empreitada ocorre em um meio tido por embotado, ou mesmo morto, como a composição clássica contemporânea, tudo parece pior. O caminho mais traçado pelos músicos nos últimos anos tem sido o da absorção de outros idiomas musicais, como o rock ou o jazz. No caso das interseções com a música eletrônica, nem há que se falar em absorção, pois foi no seio da música dita erudita mais experimental que surgiu a idéia de se utilizar meios eletrônicos para criação musical. O que os jovens compositores trazem de novo é, talvez, a adequação ao repertório clássico das técnicas mais recentes de manipulação e composição eletrônica – uso de samplers modernos, programas e plug-ins – no momento em que a experimentação eletrônica deixou a seara clássica e passou a ser domínio não apenas da vanguarda, mas também dos músicos pop. Talvez por isso não deixe de ser sintomático que o uso da manipulação eletrônica aqui encontre menos parâmetros no uso dado por compositores como Xenakis, Stockhausen, Ligeti, que nos processos empregados por Aphex Twin, William Basinski, Murcof, ou mesmo no modo como um DJ Shadow edita os vocais inseridos nas verdadeiras suites que são certas faixas de seu Entroducing… A maior herança que artistas como Jacaszek têm dos compositores do século XX é espiritual: nomes como Arvo Part e seu minimalismo sincrético, Debussy, Satie, Morton Feldman – todos deixaram uma lição de rigidez estética associada a grande impacto emocional.

No caso de Jacaszek, temos um artista que não abandona os instrumentos mais clássicos, compondo para voz, grupos de cordas e metais, aparentemente processando o resultado e ali agregando elementos eletrônicos. Um ponto ético para Jacaszek parece ser a repulsa ao uso de samples de outros artistas; todas as partes de seu álbum foram compostas e tocadas por músicos disponíveis, com arranjos criados especialmente para o álbum e posterior manipulação do resultado, seja para simples alteração, seja para construção de loops.

Quando ouvi Treny, o primeiro nome que me veio à mente foi o do islandês Johánn Johánnsson, em especial a faixa Odi et Amo do álbum Ënglaborn, com seu uso de canto lírico (apesar de os vocais serem processados por Johánnsson em um vocoder peculiar; ao passo que, em Treny, estes parecem loops límpidos) e cordas melodramáticas trabalhadas em loops que se sobrepõem e criam um efeito simultâneo de estranheza e arrebatamento. Outras conexões podem ser feitas com o trabalho de Max Richter, embora este trabalhe predominantemente com o piano, o tom sombrio e contido e o uso da manipulação eletrônica são semelhantes.

Também podemos situar Treny na linhagem de lançamentos do selo Miasmah, que é mais afeito a criações atmosféricas, com o livre emprego de influências eletrônicas, clássicas, de trilhas sonoras, doom, field recording etc. Treny se colocaria como o menos experimental e o mais afeito à música clássica. Curioso é que não consigo ouvir o disco como “clássico contemporâneo”, e apenas o colocando em perspectiva frente a seus pares recentes é que tal imagem pode surgir, adequando-se mais ao uso do tropo do gênero do que à composição nos moldes clássicos para criar um híbrido, nada inovador, mas que é instável e elegante. Talvez por isso Jacaszek não tenha alcançado o resultado de um Death Center, Elegi ou Rafael Anton Irisarri, todos do Miasmah, que parecem menos preocupados em encontrar uma conexão com qualquer gênero que em criar um trabalho internamente coerente e ainda ousado.

Neste contexto, a declaração de Jacaszek sobre sua pretensão de criar uma linguagem própria parece ingênua ou – pelo menos – alienada, não apenas pelo que seus contemporâneos vêm produzindo como por aquilo que é produzido há décadas, por compositores clássicos e populares.

Mesmo com tais ressalvas, a maior força do trabalho de Jacaszek vem da criação de um espaço peculiar onde o melodrama dos arranjos para cordas e os vocais líricos são deslocados e recontextualizados pelas manipulações eletrônicas: seu trabalho resulta em algo entre o espectral e o familiar. (Marcus Martins)

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Treny é um disco que, a princípio, me fez torcer o nariz. Não sei explicar se isso ocorreu devido ao classicismo presente na obra do compositor (que me incomoda, em algum nível) ou se foi pelo fato das músicas serem dramáticas demais. Instantaneamente os primeiros acordes de Treny já denotam certa semelhança com o disco Remnants of a Deeper Purity do Black Tape for a Blue Girl. E o flerte com o Black Tape não pára por aí. Os vocais femininos cheios de eco e que parecem extraídos de cantos gregorianos são colocados de maneira a criar uma atmosfera melancólica ao disco, o que é corroborado pelos demais instrumentos. O gótico parece realmente entranhado na música de Jacaszek. Com tanto reverb, tem-se a impressão que Treny foi gravado em uma igreja. O músico polonês deixa quase todos os instrumentos ressoando no espaço e depois os corta com loops de maneira que as linhas melódicas e harmônicas se repitam continuamente. É um artista obcecado com a sonoridade de sinos e com a música de igreja.

É interessante o modo como Jacszek manipula seu aparato eletrônico, fazendo com que este se contraponha aos instrumentos acústicos como o violoncelo e o violino. Na verdade, ele é tão sutil no tratamento aos eletrônicos, que, por vezes, mal dá pra distinguir se os instrumentos utilizados são acústicos ou não. Ele também o faz de uma maneira que esqueçamos da combinação ali presente. Isso é mérito também da sua composição de harmonias e melodias frágeis e extremamente bonitas. O ápice do disco acontece com “Zál” e “Powoli”, certamente as mais hipnóticas e cuidadosas na formação estrutural. O fato é que não há nada de essencialmente novo na música de Jacaszek. As músicas clássica e eletrônica andam juntas há, pelo menos, mais de uma metade de século. E se Treny é um disco que em alguns momentos incomoda pela melodramaticidade e pela semelhança com Black Tape ou Max Richter, ainda assim cativa pela beleza e fragilidade. (Thiago Filardi)

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Ouvindo atentamente Treny, perceberemos que os traços mais interessantes do disco são as colagens, com começos ou fins algo bruscos, e os sons etéreos de barulho, características levadas à perfeição respectivamente por Scott Herren e seu Prefuse 73 (ou, em algumas faixas que estão entre o que melhor se produziu nessa década, Asa Chang & Junray) e Christian Fennesz. Se há inovação não é de procedimento mas de vocabulário: ao repertório do hip-hop, dos barulhos de laptop ou da guitarra processada, temos violinos e vozes femininas de empostação lírica solfejando.

A mudança de registro para esses procedimentos eletrônicos recentemente inaugurados de fato dá ao disco de Jacaszek uma sonoridade bastante discernível, ainda que remeta muitas vezes aos dois artistas já mencionados, a artistas new age, ao grupo islandês Múm ou a um punhado de projetos de pós-rock escandinavos. Mas essa idéia de interação entre sons de tradições distintas não surge sem criar alguns problemas. O primeiro deles é que quase toda hora que surgem os instrumentos de cordas tangidas ou as vozes femininas, todo o resto da instrumentação vai para o pano de fundo, dando a impressão de um clássico “modernizado” no pior sentido do termo. O segundo é talvez mais contestável, mas ainda assim digno de nota: o uso solene da voz lírica, que dá às faixas a solenidade pesada e a qualidade etérea que povoam uma série de trilhas sonoras de filmes de suspense/terror dos anos 60 e 70, mas principalmente algumas das obras epigonais do kitsch mais inaudível, como o Concerto Saint Preux.

“Lament”, por exemplo, tem toda uma introdução extremamente burilada, com notas de harpa processadas e transformadas em sons bem particulares, mas logo na faixa irrompem a voz e os violinos bem mais convencionais e a riqueza iniciada se decompõe. “Orszula” começa evocando o mundo de fantasmas líricos de Angelo Badalamenti, mas novamente a tensão desaparece com a entrada das cordas. Os destaques acabam indo para “Tren IV” e “Martwa Cisza”, que conseguem moderar a grandiloqüência, fazendo o canto colaborar com a atmosfera construída

No geral, Treny é uma audição até curiosa, mesmo que tenda a enjoar algo rápido. Ainda que nem chegue perto da qualidade das obras dos artistas por quem Jacaszek se inspira, em alguns momentos o disco consegue se aproximar da graciosidade glacial de um Múm na época de seu segundo disco, mas não muito além disso. (Ruy Gardnier)

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Peço licença para situar Treny, novo álbum do jovem compositor polonês Jacaszek, no mesmo contexto de busca por outra lógica criativa para a produção sonora a que me referi na semana passada, em relação ao último trabalho do Autechre. E, pela segunda vez consecutiva, citar o compositor grego Iannis Xenakis: “Com o auxílio dos computadores eletrônicos o compositor se tornou uma espécie de piloto… navegando no espaço do som, através de constelações e galáxias sonoras…” Percebe-se, então, a identificação do recurso eletrônico e digital como suporte para a expansão do espaço sonoro. O que deve ser sublinhado, no entanto, não é propriamente a utilidade do suporte, mas a motivação. O foco não está nos procedimentos específicos dos computadores e suportes eletrônicos, mas na aspiração de ampliação do um espaço sonoro, à procura do desconhecido. E, na medida em que esta aspiração diz mais respeito ao pensamento, do que propriamente ao universo auditivo, pode-se afirmar que boa parte da música contemporânea, particularmente a música eletro-acústica, se concentra hoje na produção de discursos que projetam outra perspectiva sobre a produção sonora. O trabalho de Jacaszek está em perfeita conformidade com esta verdadeira profissão de fé da música contemporânea. Em seu Myspace, ele escreve: “Minha música tem um plano ambicioso: eu quero criar uma linguagem musical própria, pessoal e intransferível, na qual a manipulação eletrônica de sons gravados enriquece os instrumentos acústicos tradicionais.” Ampliar a gama sonora dos instrumentos tradicionais, enriquecendo-os, não configura, no entanto, um discurso próprio, como nos confirma a frase de Xenakis. O que teria este Treny para nos dizer de novo neste contexto?

Ocorre que, embora caibam essas aproximações discursivas, seria injusto e, no mínimo despropositado, comparar Treny à obra de Xenakis, ou mesmo de Ligeti. Não por conta de uma hierarquia qualquer, proveniente daquele velho debate “erudito x popular”, mas por uma diferença de propósito discursivo. Se os une a pesquisa, a investigação e a criação de outros discursos e espaços sonoros, os separa o propósito minimal e estruturalmente melódico de Jacaszek. Para ele, ainda importa definir e iluminar certas articulações melódicas e rítmicas que, tal como no trabalho de Brian Eno, adquirem outras cores. Aliás, a comparação com o Brian Eno de Music for Airports ou do lado B de Low é mais adequada. A música de Jacaszek se vale de um aporte “erudito”, mas dialoga perfeitamente com a harmonia européia tradicional. Sua novidade reside muito mais em inserções, do que propriamente em estruturas, e isso posso dizer particularmente em relação a dois elementos maravilhosamente manipulados em Treny: as cordas e as vozes. Por todo o álbum, a manipulação de temas executados por quarteto de cordas, e a inserção fugaz das vozes, em momento cruciais do disco primam por elegância e discrição. Ora são diferentes blocos harmônicos de cordas, em diversas tonalidades e alturas que, manipuladas, costuram as melodias ou irrompem abruptamente como detalhe (a exemplo de “Rytm To Niesmiertelnosc”, “Zal” e “Powoli”, uma das mais intrigantes do disco); ora são as vozes, absolutamente transfiguradas, que adquirem formas sonoras próximas de instrumentos de sopro.

Inclusive, transfiguração é uma palavra que define bem a sonoridade de Treny, pois assim que se tem a informação de que as composições são construídas através da manipulação de sons pré-gravados, sua audição se torna em parte uma cabra-cega, um jogo de adivinhação, de esforço de compreensão do que foi alterado e como. Pois nem tudo é magia formal e experiência auditiva nas transfigurações de Treny. Deve-se considerar também este olha-por-trás dos procedimentos, o interesse no “pensamento” propriamente técnico da empreitada. Por outro lado, em virtude de seu potencial pop, Treny é uma excelente porta de entrada para as sonoridades mais abstratas. Tendo a transfiguração como mãe, e o rigor como pai, ainda assim o álbum se comunica bem com os ouvidos acostumados à harmonia funcional, e se pode até dizer que, volta e meia, se torna “emocional” em excesso. (Bernardo Oliveira)

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Publicado em 28 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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