Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Preston Ari Swirnoff – Maariv: Four Pieces of Electroacoustic Music (2008; Last Visible Dog, EUA)

Preston Swirnoff é um jovem e prolífico músico americano, que divide seu tempo entre projetos que pouca semelhança guardam entre si, passando desde o dub do Habitat Sound System, ao rock do The Shining Path e às colaborações com Ilya Monosov em alguns projetos. Maariv: four pieces of eletroacoustic music é seu primeiro álbum solo, foi gravado entre 2004 e 2005 e apresenta um lado até então não explorado de sua música.

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Você ouve Maariv: four pieces of eletroacoustic music e imagina que Preston Swirnoff seja um cara cerebral, rígido – imerso na perene busca de meios para se tornar o novo artífice da música contemporânea; aí, é claro, você visita a página do myspace e lê que o cara gosta de Stooges e Tropicália, pesquisa no google e descobre que ele se envolve em alguns projetos, um deles é uma banda de reggae/dub, outro é mais rock – aí você sacou: Preston Swirnoff quer ser o novo homem renascentista, quem sabe fazendo companhia a Jim O’Rourke.

Ok, aqui importa o que ele faz em Maariv, e ouvindo o disco nem temos pista de tão múltiplos interesses musicais: o disco é austero e controlado, sem excessos. Se cada uma das faixas é adepta de um tipo de composição, o disco, com pouco mais de trinta minutos, não perde tempo com firulas. Sempre rondando as possibilidades do universo da eletroacústica, diferentemente do outro resenhado da semana, Swirnoff não flerta com modernidades; suas composições estão incrustadas numa linhagem precisa de investigação musical: fontes acústicas inseridas em contexto elétrico/eletrônico, não apenas sobrepostos, mas formando unidade. Apesar de a maior parte das faixas ser bem ruidosa, a sensação nunca é de saturação ou de perda de nuances.

Maariv filia-se mais diretamente ao trabalho dos músicos reunidos na coletânea Ohm – Early Gurus of Eletronic e à obra de músicos como Charlemage Palestine (que lançou recentemente pelo Sub Rosa o intenso álbum duplo From Etudes to Cataclysm), Ligeti, La Mont Young, o gamelan e todo tipo de minimalismo acrescido de manipulação de fitas e camadas de ruído.

“Maariv 1 (For Piano & Electronics)” como em todas as outras faixas, no título já está entregue a base da composição, embora não seja explícita a procedência do elemento eletrônico. O piano opera em meio ao caos de ruído branco, feedback, noise; em alguns momentos ele traça linhas melódicas precisas, em outros momentos parece se ater a mais um elemento percussivo.

“Maariv 2 (For A Room Full Of Organs)” deixa menos espaço que a faixa anterior; não é difícil imaginar que uma grande quantidade de teclados foram utilizados em sua composição atonal. É o tipo de faixa para ser escutada em alto volume para melhor perceber a riqueza de uma composição que mesmo construindo um drone de grande densidade, não perde a riqueza de se poder escutar cada um dos teclados empregados.

“Maariv 3 (For Electric Guitar)” tem por base a guitarra, mas o elemento que primeiro se destaca são os sons que se assemelham a sinos – que permanecem em primeiro plano por boa parte da faixa -, além de alguns glitchs que submergem por alguns momentos. A guitarra parece modificada, e a linhas melódicas se sobrepõem e desaparecem para ressurgir adiante; o resultado se assemelha ao que músicos como Colleen e Emanuele Errante vêm fazendo nos últimos anos. Essa é a faixa onde os elementos têm mais espaço para se desenvolver, pois nas outras, pela própria natureza dos elementos envolvidos, temos muito mais a formação de um drone que de uma música anotada, como Swirnoff faz parecer.

“Maariv 4 (For Four Tape Machines)” volta à carga drone com toda intensidade e em suas linhas repetitivas lembra algo de Reich ou Charlemage Palestine. Em sua curta duração, fecha o disco em tom elevado e depois que o silêncio é restabelecido, parece que alguns ruídos escaparam e nos acompanham por algum tempo.

Maariv não reinventa a música eletroacústica, quase tudo ali faz pensar em outros compositores, mas ainda assim, resta a clara impressão de um artista que aos poucos vai procurando um espaço para criar sons que ainda podem nos surpreender. (Marcus Martins)

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Ao ouvir Maariv, o primeiro baque se dá ao descobrir que a música contida no LP em questão é feita e tocada integralmente por um jovem músico americano que, além deste, tem inúmeros outros projetos de gêneros completamente diferentes. O segundo baque acontece ao ouvir as quatro variações de Maariv: se trata de uma música eletroacústica e minimalista da melhor estirpe e que suscita os compositores mais importantes do século XX: Steve Reich, György Ligeti, La Monte Young, Charlemagne Palestine e assim por diante.

Maariv é construído a partir de quatro temas, ou seja, quatro improvisações eletroacústicas. A primeira é para pianos e eletrônicos, a segunda para um quarto cheio de órgãos, a terceira para guitarra elétrica e a quarta para tape machines. É evidente que nenhum desses instrumentos ou suportes de fazer música são tocados em sua percepção mais comum. Nesse sentido, Swirnoff já demonstra toda sua capacidade de fazer soar instrumentos tão distintos, mas, no contexto do disco, tornar suas sonoridades tão próximas e tão fora do comum. Trata-se de um álbum extremamente denso e dotado de uma atmosfera sombria. Cada faixa é constituída por várias camadas dos instrumentos propostos no título e há quase sempre um drone ao fundo. O músico nunca deixa que o movimento da música cesse, faz somente com que mude a intensidade e a freqüência dos instrumentos.

Ao final, Maariv se mostra um disco capaz de proporcionar grande emoção, mesmo que contenha uma sonoridade assustadora e que nos faça perceber a insignificância da nossa existência diante de algo tão grandioso, tão espiritual. É por causa disso que Preston Swirnoff pode ser considerado um grande aprendiz dos compositores minimalistas do século passado, e que também é digno de um trabalho envolvente e de tamanha significância. (Thiago Filardi)

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Existe uma coisa entre todas (não são tantas assim) apresentadas em Maariv que impressiona ao nível da estupefação: o equilíbrio realizado entre as duas instâncias principais do disco, e instâncias que parecem antes se opor: textura e melodia. Seja na profusão barulhenta de sons de órgão da segunda faixa, seja nos momentos delicados de melodias de sininhos da terceira, o que existe de misterioso e encantador nesse disco de estréia de Preston Swirnoff como artista solo é a maneira como cada faixa se inicia estabelecendo uma textura encorpada – que se modificará sutilmente à medida em que cada faixa continua – e uma melodia nasce, nem exatamente repetida (o que a transformaria em parte da textura, de certa forma), nem exatamente construindo uma progressão melódica. O que parece mais interessar a Swirnoff é a criação de uma dinâmica entre os padrões eletrônicos de cada faixa e as inserções de outros materiais, sempre um diferente para nomear cada peça (piano e eletrônicos, órgão, guitarra, manipulação de fitas, respectivamente), e fazer com que as inserções ao mesmo tempo difiram da textura e se incorporem a ela.

Tudo isso cria algo de paradoxal em Maariv, fazendo a música ser ao mesmo tempo abrasiva em sua estridência mas também doce na alternância dos timbres de órgão de uma “Maariv 2 (For a Room Full of Organs)”, ou pelo modo como “Maariv 1 (For Piano and Electronics)” consegue ser solene e graciosa, pesada e fluida. Estamos aqui muito distantes de certa indulgência ambient que se resume em criar soundscapes monótonos. O soberbo talento de Swirnoff consegue criar um senso vibrante de variação em cada faixa, mantendo a composição focada em seus princípios estritos, mas suficientemente volátil para alterar sonoridades e conseguir novos sons de momento em momento.

O resultado é um disco tão intenso quanto, digamos, Merzbow, mas ao mesmo tempo tão aprazível em sua audição quanto “Music for 18 Musicians” de Steve Reich (para situar talvez os dois limites do disco). Naturalmente, tata-se de um disco essencial. (Ruy Gardnier)

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Impopular, abstrata, intelectualista: nos últimos anos, a música eletroacústica tem conseguido fugir de seus mais ordinários rótulos, sobretudo através da popularização relativa de artistas como Ligeti (via Kubrick), Stockhausen (via Björk), Bernard Parmegiani e, mais recentemente, Jacaszek. Utilizando-se do aporte instrumental da composição erudita eletroacústica, estes artistas criaram outras aproximações e possibilidades, furando a linha dura do gosto popular, relativizando a “ditadura do instrumentista”, que reza ser a música produto daqueles que dominam os instrumentos convencionais. Mesmo em algumas obras não-inscritas no universo musical eletroacústico, como na de Vladislav Delay, Aphex Twin e Ricardo Villalobos, entre muitos outros, percebe-se a presença da técnica e do pensamento ligados a ele. Pois bem, o trabalho de Preston Swirnoff neste álbum é tributário de ambas as instâncias: tanto se refere ao universo eletroacústico, como à sua assimilação por outros estilos, notoriamente o drone e o minimalismo. É claro que, no que diz respeito a este segundo aspecto, até mesmo o trabalho de Jimi Hendrix pode ser tomado como exemplo, pois os feedbacks tão genialmente manipulados por ele foram criados num contexto de experimentação eletroacústica. Mas quando me refiro ao pensamento eletroacústico, desejo estabelecer uma diferença de propósito em relação à música “de mercado”, qual seja: a exploração e ampliação radical do universo sonoro, que destoa radicalmente da comunicabilidade imediata que os sons já codificados proporcionam. Neste sentido, Maariv: Four Pieces of Electroacoustic Music é tão ambígüo quanto fascinante.

A despeito da capa notoriamente desenhada para estabelecer um vínculo com o universo erudito, com sua economia de cores e proporções, o álbum prima por uma relação aberta com instrumentos e técnicas próximos da música “popular”. Composto por guitarras, tape machines e electronics, Maariv, entretanto, desafia a possibilidade de inserção do álbum em qualquer um dos atributos que delimitam o discurso erudito ou popular, pois até mesmo as influências de Swirnoff, detalhadas em seu Myspace, se relacionam com o nosso universo musical “globalizado”: Stooges e Bambaataa estão entre seus favoritos. Logo na faixa um (“For Piano & electronics”), já se explicita o talento de Swinorff para conjugar estruturas repetitivas com “paredes” de harmonias e pequenos detalhes – como a inclusão de uma inflexão ao piano que se repete de diversas formas. Embora a faixa dois (“For a Room Full of Organs”) possa ser referida explicitamente a “Atmosphères” de Ligeti, com sua indistinção programada entre harmonia, melodia e ritmo, as faixas um e três formam, no conjunto, um quadro musical próximo da música “étnica”, sobretudo se pensarmos nas evoluções rítmicas do balafon mandingue de El Hadj Djeli Sory Kouyate e nas manifestações polifônicas do tailandês Ensemble Chulawatit. A aproximação desses dois universos, entretanto, se dá de forma natural, sem alarde, sem passagens bruscas, sem propostas multiculturalistas, mas através da inegociável afirmação criativa de outras perspectivas sonoras.

O que se obtém em Maariv é, portanto, um quadro de intensa indiscernibilidade entre os diversos territórios musicais que vivem à margem da música de mercado. E, poderíamos até dizer, de síntese informada dos afluentes menos privilegiados que compõem a vasta extensão do universo sonoro contemporâneo. (Bernardo Oliveira)

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Publicado em 29 de abril de 2008 por em Uncategorized.
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