Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Moondog – “Hardshoe (7/4) Ray Malone” (1956; Prestige, EUA)

Se cotejarmos a vida e a obra de Louis Thomas Hardin, o Moondog, com suas influências declaradas, chegaríamos a um estranho paradoxo: como este senhor, que faleceu em 99 aos 83 anos, conseguiu criar uma música tão popular e comunicativa, mesmo guiado pelo aporte erudito que caracterizava sua formação e gosto? As pequenas peças musicais criadas por ele, que tanto influenciaram os Residents, conseguiam extrair profundidade através de pouquíssimos elementos e procedimentos relativamente simples. É que, discípulo de John Cage, Moondog sabia que a expressão total da música não está propriamente no som, mas no pensamento, isto é: reside num espectro de imagens suscitados pelo som, e estas imagens são as figuras, os modelos e, no caso de Moondog, a novidade da música. “Hardshoe (7/4) Ray Malone”, faixa de seu segundo álbum lançado em 1956 (More Moondog), é uma obra composta por quatro ou cinco percussões sobrepostas, que se tornam gradativamente complexas e entrelaçadas até eclodirem num baticum alucinado em 7/4. A despeito de sua complexidade, no entanto, a faixa é doce e lúdica. Reporta a algo da tradição erudita, se a considerarmos como uma música particularmente atenta à questão do pensamento musical, mas exprime o approach rítimico, eminentemente black, das ruas de Nova Iorque, onde Moondog viveu durante 34 anos de sua vida. Uma peça de síntese, mas, sobretudo, de expressão de uma lógica musical muito própria. Num certo sentido, a liberdade de Moondog, e de outros autores da segunda metade do século XX, é precursora do aspecto fragmentário da música contemporânea, com sua avessão à generalidade dos movimentos e uma compulsão irrefreável à “política de autor”. (Bernardo Oliveira)

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Qual a melhor forma de aproximação com a obra de Moondog: a análise detida de cada um dos muitos aspectos de sua vida e obra, com cada uma de suas incoerências ou no caso de quem se interessa em especial por música, como é o caso neste espaço, isolar sua produção musical? Não tenho resposta, mas posso afirmar que ouvindo a presente faixa, não há como ignorar a sensação de estranheza, de algo incomum e pouco semelhante à obra alheia. Então, se você conhece alguns poucos dados de sua vida nas ruas de Nova Iorque, de sua roupas fabricadas em consideração ao mito de Thor, a cosmogonia criada por ele mesmo… a música adquire outro aspecto: a obra do gênio excêntrico, do louco talentoso – a visão única e sem precedentes.

Em Hardshoe (7_4) Ray Malone temos os instrumentos peculiares, construídos por ele próprio, os padrões rítmicos de coçar a cabeça – algo só repetido pelas programações mais livres de um Autechre. A faixa é uma combinação de erudição, investigação musical e acessibilidade, justificando o interesse por sua música além do exotismo que a superfície sugere. A faixa não resume a contribuição de Moondog à música, mas é boa porta de entrada a este universo rico e colorido. (Marcus Martins)

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Publicado em 1 de maio de 2008 por em Uncategorized.
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