Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Uusitalo – Karhunainen (2007; Huume, Finlândia)

Uusitalo é um dos vários projetos de Sasu Ripatti, produtor finlandês detentor de pseudônimos como Vladislav Delay, Luomo e Sistol. Ele também é fundador do selo Huume, o qual tem sido abrigo para seus próprios trabalhos. Ripatti domina quase todas as vertentes da eletrônica, passeando pela house, pelo techno, pelo ambient e pelo glitch. Já lançou mais de uma dúzia de discos ao longo de dez anos. Karhunainen é um de seus trabalhos mais recentes e o terceiro sob a alcunha de Uusitalo. (T.F.)

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Qual a diferença entre o techno e o funk? Um anda bonito, o outro elegante. É mais ou menos por aí. O techno contemporâneo, cada vez mais reduzido ao rótulo de minimal, é, na verdade, um dos gêneros mais prolíficos e criativos do momento. Muito ainda se lerá sobre techno nestas páginas. Não apenas porque os que aqui escrevem são entusiastas desse estilo, que transformou a música moderna após sua aparição há mais de vinte anos, em Detroit, mas, principalmente, por se tratar de um gênero em evolução constante. Desde os alemães até os americanos, e passando por outros países europeus, o techno está sempre transmutando pelas mais diversas formas. No momento, a bola da vez é o techno minimal, chefiado por Ricardo Villalobos. Mas enquanto alguns nomes têm recebido mais atenção, em especial o supracitado, com sua compilação de material próprio, Fabric 36, é Sasu Ripatti que, a meu ver, fez um dos discos mais interessantes do ano passado.

O flerte de Ripatti com o techno minimal é inevitável, até porque, como disse Carl Craig, tudo que possui aquele “boom-chik-boom-chik” característico é derivado, de certa forma, do Basic Channel. No entanto, há outro elemento mais chamativo na música do produtor finlandês, que não é a house, nem o glitch e, muito menos, a ambient. É o funk. Se Karhunainen começa com a ambiente e climatizadora “Vesi Virtaa Veri”, é somente para dar espaço ao techno-funk de “Korpikansa”, com seu riff grave, hipnótico e envolvente por quase sete minutos. Aos poucos, a música vai crescendo, são testados timbres de contratempo até que a batida toma outra forma. O riff continua inabalável. É mais ou menos assim ao longo do disco: a essência continua sempre a mesma, com seu groove funk e pesado. O que Ripatti faz é adicionar barulhos, dando mais acuidade e complexidade aos seus ritmos pesados.

Ripatti é um detalhista. Assim como Villalobos, a diferença na sua música consiste nas intervenções insistentes ao ritmo predominante. Porém, em Villalobos, parece haver uma certa progressão, e o que era tímido e quase inaudível no início, mais tarde se torna chamativo e espalhafatoso. Em Ripatti é o contrário. As manipulações são significativas desde o início. As pequenas mudanças e progressões são inevitáveis, mas seu 4/4, que às vezes se transforma em outros intervalos de tempo, não é tão seco e indelével: está sujeito a alterações conforme o percurso. E, claro, há o diferencial maior: a veia funk. Por esse e outros motivos, que não podem ser postos em palavras, devido à grandeza sensorial do ritmo, Karhunainen é um dos discos mais excitantes de techno dos últimos anos. Mesclando elementos de house, dub e ambient a um techno de pulsação funk e estrutura minimalista, Ripatti fez um disco extremamente contagiante e esplendoroso. (Thiago Filardi)

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E lá se vão vinte anos que o dub atmosférico-eletrônico nasceu com Alex Paterson e seus comparsas do The Orb. Mais influente impossível. Eles inventaram uma maneira de aplicar o dub a toda e qualquer música que se baseasse em padrões rítmicos repetitivos e foi tão longe quanto criar faixas de 40 minutos que funcionavam mesmo sem batida-guia. Hoje, já existe toda uma tradição e diversos gêneros ou subgêneros sendo formados, seja na chancela do já clássico selo Basic Channel (ou do mais atual Rhythm & Sound, que paga tributo ao reggae de que seus sons se originaram), seja no mais recente Echospace, seja em artistas como Pole ou Sasu Ripatti. Ripatti é mais famoso pelo nome de Vladislav Delay, nome com o qual assinou um dos discos mais influentes da estética glitch/clicks+cuts, Anima, incorporando os sons incidentais, estalos, vozes, burburinhos ou demais ruídos eletrônicos e efeitos típicos do dub (delay, distorção, reverb) ao cerebralismo rítmico do selo Mille Plateaux e artistas congêneres. A exuberância de Anima reside no sentimento de amplidão quase psicodélica de sons em que o ouvinte, sem o amparo rítmico da batida para situar os sons oferecidos, sente-se suspenso numa vibrante profusão de sonoridades vindas de todos os lugares, criando uma expansividade notável. Uusitalo é o nome do projeto de house mais atmosférico de Ripatti, que reserva o nome Luomo para fazer um som mais voltado para a pista de dança. No segundo disco como Uusitalo, Karhunainen, vemos os sons de assinatura típicos de Ripatti, aqui se desenvolvendo ao longo de batidas, graves e riffs melódicos bastante característicos do house. E aí começa o problema. Primeiro, que o que é oferecido aqui, ainda que bem executado e por momentos gracioso, em termos de timbre não difere muito da produção padrão do gênero. Já na parte dos sons mais pessoais de Delay, eles estão aqui, mas a marcação forte no 4/4 impede que eles atinjam uma expansividade mais significativa, e eles acabam submetidos à condição de decoração luxuosa para as faixas. Como exceção, “Konevista”, a quarta faixa, que começa como um reggae meio desconjuntado em que dois loops rítmicos assimétricos acabam transformando a faixa em outra coisa (bom… house, mas o que interessa é a forma como a mudança se opera). “Sikojen Juhla” tem tipo semelhante de mudança, mais perceptível, mas ainda assim interessante. Fora isso, um disco com introdução e coda atmosféricas e um recheio simpático porém previsível. (Ruy Gardnier)

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Uma característica curiosa da música produzida a partir de softwares é a dimensão gráfica que o som adquire quando codificado pela máquina. Tanto na gravação quanto na composição, as reproduções gráficas dos sons formam desenhos curiosos, que acabam por incentivar uma outra relação do músico e do operador com a produção. No caso da composição de ritmos e batidas, isso é particularmente interessante, porque ainda que o músico possa compor se utilizando de um suporte (um teclado, por exemplo), tudo o que ele toca é traduzido para a linguagem de máquina que, por sua vez, reproduz desenhos simétricos, regulares, que, obviamente, passam a ser reconhecidos por aqueles que trabalham com eles diariamente. Muitas vezes, num estúdio de gravação, assistimos à seguinte cena, no mínimo engraçada: o músico mostra ao operador, com o dedo indicador, onde está localizado o trecho que lhe interessa modificar. Ele não se utiliza nem da referência sonora do instrumento, nem da referência teórica e escrita da partitura, mas da referência gráfica produzida pela máquina. O operador, por sua vez, desenvolve a estranha habilidade de reconhecer os sons através de gráficos de freqüência. E isto importa em alguma medida, sobretudo quando grande parte da música interessante que se faz hoje concentra sua força criativa no ritmo. Ao deslocar a percepção do ritmo de sua orientação meramente auricular, produtores e músicos desenvolvem outros modos de percepção, visuais, corporais, etc. Por este aspecto visual, as construções rítmicas adquirem uma volatilidade maior, e – por que não dizê-lo? – uma emancipação em relação ao rigor do metrônomo privado – aquele julgamento moral que emerge tão logo nos defrontamos com um ritmo “estranho”.

Neste contexto de instabilidade rítmica e decomposição estrutural do ritmo se inscreve este Karhunainen de Sasu Ripatti, aqui utilizando um de seus heterônimos, Uusitalo. Craque do glitch, Ripatti apresenta com Uusitalo uma faceta mais dançante que em seu trabalho como Vladislav Delay ou Luomo. Isso não quer dizer de modo algum que sua música obedeça à ditadura do 4/4. Ao contrário, em Karhunainen, a decomposição gradual do 4/4 é, se não a regra, ao menos um método: a música começa, aparentemente estável, orientada por aquele andamento que qualquer mortal acompanha com o pé, mas, pouco a pouco, é tomada de assalto pelas intervenções rítmicas desestabilizadoras dos clicks & cuts, transfigurando-se em outra coisa. Em “Sikojen Juhla”, a faixa mais bacana do álbum, esse procedimento é seguido exemplarmente, assim como em “Nälkälaulu”. Como na música de Philip Glass ou Frank Bretschneider, o procedimento criativo depreende uma notável força imagética, pois as estruturas sonoras em decomposição assemelham-se às estruturas das representações digitais, que por sua vez são evocadas na audição e na composição, reforçadas pelo convívio com a máquina e sua reprodução gráfica.

Me refiro a esse aspecto visual das sonoridades contemporâneas, porque Karhunainen tinha tudo para ser um disco palatável, com suas linhas de baixo um tanto óbvias, com seu minimalismo “de pista”. Mas o sentido de estrutura que delineia todo o álbum, e mesmo as sonoridades mais abrasivas e orgânicas, se apresentam como elemento ativo, transformando composições inicialmente banais em momentos de verdadeiro interesse. (Bernardo Oliveira)

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Usando livremente as qualificações difundidas por Ezra Pound quanto à criação artística, poderíamos dizer que Sasu Ripatti é um diluidor/repetidor, com produção sempre consistente e esmerada, que tem momentos de mestre. Tal mestria é especialmente identificada nos primeiros lançamentos de seu projeto Luomo e em alguns dos muitos outros álbuns que lançou sob vários pseudônimos, valendo destaque para o belo álbum Explode, lançado em conjunto com sua esposa, sob a alcunha de AGF/Delay. Tampouco podemos deixar de lembrar os disquinhos lançados pelo fundamental selo Chain Reaction, que lançou uma série de obras primas nos anos 90. O projeto Uusitalo, apesar de datar da época em que Ripatti lançou o importante Vocalcity do Luomo, apenas ganhou importância com o lançamento de Tulenkantaja, em 2006, e de Karhunainen, em 2007.

Não entendo muito bem o motivo da profusão de aliases, pois inexiste grande discrepância sonora entre os lançamentos do Uusitalo e os lançados com outros nomes (apesar da maior incidência do dub em algumas faixas); mas também não há nada parecido com o álbum Entain ou com as produções para o selo Chain Reaction (como o álbum Mutila). Verdade que aqui estamos um pouco distantes da música para a pista do Luomo, o que não significa que não se possa dançar, com satisfação, ao som de faixas como a que intitula o álbum. Sim, aqui temos certa instabilidade proposital do beat, a interferência de elementos percussivos de música concreta, alguns field recordings, mas nada que justifique a confusão de nomes – tal fetiche, diga-se, não é exclusivo de Ripatti, no mundo eletrônico.

Karhunainen começa e termina com faixas instrumentais que funcionam menos como amarra que com o papel de chill-in e chill-out. As oito faixas restantes trafegam pelo já conhecido território de techno minimalista praticado por Ripatti: linhas de baixo sedutoras, beats desconstruídos, faixas que se desenvolvem lentamente com a introdução cuidadosa de novos elementos durante toda a sua duração. Não parece haver grande variação, mas quase nunca ouvimos a mesma coisa (diferentemente do Luomo, onde, apesar de haver mudanças, estas são mínimas e esparsas). Um ouvinte mais descuidado poderia pensar que ele errou, mas o erro é completamente programado; um desvio que enriquece o resultado. Assim, faixas como “Korpikansa” ou “Karhunainen” assemelham-se a produções do Luomo sem a precisão cirúrgica, dando lugar a música menos dançante porém de maior ressonância. Tais momentos surpreendem, e imaginamos o dj a rir de quem tenta, na pista, adaptar o corpo às mudanças inesperadas.

Um dos problemas do Uusitalo é que o projeto parece algo entre um laboratório e um brinquedo de Ripatti, nunca ascendendo a vôos em altitudes já alcançadas por ele. As faixas não apresentam grande unidade; o álbum está sustentado apenas na qualidade da produção. Temos entrelaçados o uso ímpar de field recordings, a colocação dos samples vocais, a percussão de música concreta, a desconstrução da batida e os glitchs, click and cuts, em que ele demonstra virtuosismo mas um tanto de frieza. (Marcus Martins)

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Publicado em 5 de maio de 2008 por em Uncategorized.
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