Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

György Ligeti – “Atmosphères” (1984; Wergo, Alemanha)

Em 1957, o romeno György Ligeti deixa sua terra natal por questões políticas, e, recém-chegado a Colônia, integra com Karlheinz Stockhausen o Studio de Música Eletrônica. A esta altura, sua obra começava a adquirir um corpo próprio, desvencilhando-se da contribuição fundamental de seus conterrâneos, os compositores Béla Bártok e Zoltan Kodály. Isso se percebe mais especificamente em “Apparitions” (1958-9), e nas obras eletrônicas “Artikulation” (1957) e “Glissandi” (1958), cujo aspecto juvenil denotava, entretanto, as mais amplas aspirações. Pois a direção que a obra e a vida de Ligeti tomavam era, de forma geral, a de uma emancipação total: da política de seu país, de sua formação e, sobretudo, das limitações da música contemporânea, presa aos métodos e instrumentos tradicionais. Em suma, uma libertação radical tanto do pensamento acerca da música, quanto da música enquanto estrutura de pensamento.

Anos mais tarde, em 1978, refletindo sobre as relações entre música e política no artigo “On music and politics”, Ligeti declarou que embora não fosse um “esteticista”, considerava que a música, assim como a matemática, não oprime, “não é nem democrática, nem anti-democrática”, não possui portanto uma orientação política e social prévia. Entretanto, existiria uma dimensão própria da música, simultaneamente distintiva e constitutiva, que definiria não somente suas estruturas lógicas, mas também uma materialidade extra-acústica e, por que não, extra-musical. Que estranha dicotomia! Por um lado, Ligeti afirma a “inocência” da música e da criação artística em detrimento de possíveis apropriações: apesar de “um quarteto de cordas de Mozart refletir uma situação social”, definitivamente não se confunde com ela. Por outro lado, ele reconhece, primeiramente com Marx, que as condições materiais e econômicas determinam em alguma escala a criação propriamente artística, e, depois, que o discurso sonoro encerra uma dimensão no pensamento. Haveria portanto relações entre a música e a situação social, entre a música e o pensamento, embora, contraditoriamente, uma fosse independente da outra. Existem nas considerações de Ligeti algumas questões que se conectam plenamente à constituição e ao resultado da peça “Atmosphères”, de 1961. Para ele, se é possível considerar as dimensões não-musicais da música, estas seriam o seu pensamento, sua lógica e suas representações gráficas. O som, por sua vez, depreende esta lógica, mas somente em uma abordagem indireta, analítica. Em segundo lugar, por mais que se possa dizer que a música exprime a época e o contexto, lhe é também indiferente, pois, como as grandes ações históricas, ressoa de forma desigual e, muitas vezes, independente. É o caso por exemplo, da apropriação que o próprio Ligeti realiza da música africana, sem se utilizar de sua sonoridade, mas do conceito de “movimento”, de simultaneidade entre simetria e assimetria, do caos como método. Emancipação e relação se imbricam nas considerações, mas também na música de Ligeti.

Assim, em “Atmosphères”, Ligeti não só reforça seu interesse na ampliação do espaço sonoro, como também leva a cabo uma dimensão da música que encontra sua expressão criativa também no pensamento e na estruturação propriamente dita. “Atmosphères” é uma peça para orquestra com 56 instrumentos, cada um tocando uma nota diferente, compondo séries sobreposta de clusters, reproduzindo uma sonoridade caótica e estranha aos ouvidos acostumados com a harmonia tradicional. Primeiramente concebida para ser uma peça eletrônica, “Atmosphères” é um dos primeiros exemplares do método batizado por Ligeti como micropolifonia, e aplicado posteriormente em “Volumina” (1961-2) e em peças para piano. Através dele, não só obteve, em um só movimento, uma emancipação muito específica da música em relação ao pensamento musical tradicional, mas também uma “reintegração” do som à sua expressão propriamente “orgânica”, liberta das amarras da instrumentação e da harmonia tradicional. Entendo que o movimento de Ligeti em direção à música eletrônica fora um primeiro passo na tentativa de ampliar o espaço sonoro para além dos atributos musicais clássicos, ritmo, melodia e harmonia. Para isso, destacou uma quarta característica, o timbre, sobre o qual a eletrônica poderia atuar de forma mais abrangente, devido à possibilidade de multiplicar os sons produzidos pelos instrumentos tradicionais. Se os três primeiros elementos podem ser considerados passíveis de uma representação gráfica, o timbre, sendo o único elemento especificamente sonoro, teria sua representação inviabilizada fora da experiência propriamente sensorial, auditiva. Sua materialidade, portanto, só poderia se apresentar na própria composição e execução. O efeito de massa sonora de “Atmosphères” tem por objetivo criar no espectador a sensação de um ataque sonoro, contínuo e em bloco, como forma de remetê-lo a uma sensação caótica de envolvimento e indistinção. Mas “Atmosphères”, apesar de ter nascido num contexto onde a música eletrônica realizaria intervenções na própria materialidade do som, foi composto para ser tocado pelos tais – a esta altura, entre aspas – “instrumentos tradicionais”.

Popularizada pelo filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, “Atmosphères” foi, se não a primeira, a mais contundente peça na qual Ligeti trabalhou a questão da emancipação do som e da relação do discurso musical com seus atributos extra-musicais. Apelando à dimensão extática do “corpo”, mas ligando-o simultaneamente ao cérebro, “Atmosphères” produz um discurso que alça a música a uma outra exterioridade, não exatamente política no sentido institucional, mas a uma outra dimensão do político. Ao reproduzir uma indistinção radical entre ritmo, melodia e harmonia, o resultado sonoro de “Atmosphères”, na verdade, supera-os na intensa volatilidade do som e na própria experiência e transcorrência do tempo. É uma composição com um forte cunho filosófico, que não apela propriamente à “razão”, mas, no entanto, possui uma expressividade sonora altamente rebuscada, capaz de ocasionar momentos de perplexidade e reflexão. Em “Atmosphères”, som e música, assim como corpo e pensamento, são uma mesma matéria, constituem um mesmo problema. E talvez pudéssemos dizer que “Atmosphères” atordoa porque expõe sonoramente, dionisiacamente, esta indistinção. Seu conteúdo político reside na produção, em nós, de deslocamentos radicais no plano do pensamento e da percepção. Ligeti propõe, através da música, não uma adesão à política institucional, mas àquilo que Nietzsche chamava “grande política”: uma política da afirmação plena do corpo e do pensamento, uma “transvaloração de todos os valores”.

Por capitanear uma fragmentação do discurso musical; por considerar as máquinas como “parceiras” na expansão do espaço sonoro; por considerar uma dimensão musical simultaneamente extática e reflexiva; e, sobretudo, por escolher esse caminho privilegiando o timbre e as texturas, penso que Ligeti é hoje um dos compositores mais influentes do seculo XXI. Mesmo ao inserirmos sua contribuição no contexto da vanguarda moderna, o que nos levaria a considerar a relatividade desta “emancipação”, ainda assim temos que reconhecer que o engenho e a expressividade radical de sua obra permite que situemos “Atmosphères” entre as mais impressionantes e intrigantes composições do século XX, junto a “Metastaseis” de Xenakis e “4’ 33’’” de John Cage, entre outras. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “György Ligeti – “Atmosphères” (1984; Wergo, Alemanha)

  1. claudio
    9 de maio de 2008

    ruy, adorei o blog com os amigos!
    só fodões em pauta, legal mesmo.
    🙂
    abraços
    tem tb o http://descobrindobandas.zip.net , fora esse que linkei.

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Publicado às 8 de maio de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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