Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mats Gustafsson & Yoshimi – Words on the Floor (2007; Smalltown Superjazzz, Noruega)

Yoshimi & Mats Gustafsson - Words on the Floor

Mats Gustafsson é um saxofonista sueco de free jazz e improvisação livre, conhecido por suas parcerias com luminares do gênero como Derek Bailey, Barry Guy e Peter Brötzmann, assim como com músicos de outras áreas, como o Sonic Youth. É também membro do conjunto de free jazz The Thing, com Ingebrigt Haker Flaten e Paal Nilssen-Love. Yoshimi P-We é baterista do conjunto noise/psicodélico japonês Boredoms e líder do conjunto feminino OOIOO. Entre seus múltiplos projetos estão o Free Kitten, com a baixista Kim Gordon do Sonic Youth, e UFO or Die, com Yamatsuke Eye, nos anos 80. Ela também canta, toca trompete, teclado e guitarra.

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O free improv, ou improvisação livre, talvez siga sendo (junto com o noise de gente como Merzbow) o gênero mais radical e extremo da música contemporânea. Não só pelos seus momentos de intenso vandalismo sônico (e Words on the Floor tem os seus), mas principalmente pela dificuldade em lidar com a plena liberdade do artista em experimentar seus sons livre de qualquer amparo estrutural que sirva de guia para facilitar a audição e a deglutição do que está sendo apresentado. Mas, se existe esse revés inicial, em compensação ele fornece, talvez mais do que qualquer outra seara da música, um terreno mais vasto para o músico mexer com suas sonoridades, brincar com seus timbres fora do registro melódico e do andamento, desenvolver outras formas de dialogar com os outros instrumentos e músicos que o acompanham.

Nesse aspecto, Words on the Floor é modesto. O disco entrega seu modus operandi logo na primeira e curta faixa, 3 minutos. É um disco sobre a voz, sobre o canto sem palavras e sobre como intervir ou colaborar com esse canto. Além da voz de Yoshimi P-We, o disco tem o saxofone e outros instrumentos de metal, tocados por Mats Gustafsson, e a apetrechos eletrônicos, operados pelos dois, que servem tanto para ser fonte de som como para manipular os sons que saem da boca e dos instrumentos.

No disco todo, a preferência é por sons que não exatamente constituam melodias, ou “campos sonoros” (talvez seja mais o caso de dizê-lo) reconhecíveis. O sax busca timbres inesperados e notas curtíssimas, sempre fora do registro que se espera de um sax de jazz. A voz de Yoshimi alterna, ora entre o grito e o fôlego em manter a mesma nota gritada, ora na condução da voz como canto de ninar, com paradoxal ternura.

O verdadeiro coração do disco é a segunda faixa, “And The Children Play Quietly With Words On The Floor”, com seus 42 minutos de pura invenção. Tirando os poucos momentos em que o sax sobressai, aos 23 e aos 38 minutos, a composição é dominada por Yoshimi e conduzida por sua voz, e volta e meia o sax e os eletrônicos são chamados a encontrar a nota dada na voz da cantora, criando uníssonos drone fascinantes (no final do minuto 11 e no final do 19) ou dobrando a voz e capitalizando na distância criada (minuto 21). “And the Children…” funciona como várias pequenas faixas, com elaboração de idéias até chegar num crescendo, e em seguida partindo para outra idéia e assim por diante. Apesar dos momentos de alta contagem de decibéis, Words on the Floor é bastante moderado em todos os elementos que usa, e os utiliza de forma meticulosa, em especial a forma como a manipulação eletrônica é feita sobre a voz, com dilatações, mudanças de timbre e cortes bruscos. É certamente um dos pontos fortes do disco.

Como quase todo free-improv, é para se ouvir sozinho, de preferência com fones, em grande atenção. Porque a beleza está nos detalhes e no misto de candura e violência que o disco lentamente constrói e proporciona. (Ruy Gardnier)

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A primeira faixa, “Soundless Cries with Their Arms in the Air”, é uma composição modal, que explora o diálogo microtonal entre voz e o saxofone “preparado”. A segunda, “And the Children Play Quietly with Words on the Floor”, é um tour de force de quarenta e dois minutos, composta por uma série de diálogos semelhantes ao da faixa um. Traz uma sonoridade onde também se valoriza a voz, e as inserções eletrônicas realçam e pontuam o silêncio à sua volta. Duas peças musicais refinadas e abstratas, que dialogam com a música aleatória sem abrir mão de estruturas. É maravilhosa a confusão generalizada que caracteriza a fragmentação da produção musical contemporânea. Não que eu lamente isso, muito pelo contrário: a confusão não é mais indeterminação do que indistinção entre os diversos níveis de produção musical. É maravilhoso e impressionante. Num dia ouvimos o roqueiro Frank Zappa, executando uma de suas “peças” varesianas em Yellow Shark. No outro, uma parceria “contemporânea” entre o saxofonista Mats Gustafsson e a baterista e cantora do Boredoms, Yoshimi. Qual a relação possível entre os dois álbuns? Claro, já nos cansamos de afirmar a queda das barreiras entre popular e erudito. Mas o que ocorre hoje é que procedimentos de composição, pesquisas de timbres, pensamento crítico quanto à método, estrutura e emissão, característicos do aporte erudito, migram para o campo popular… Ora, o que estou a fazer aqui se não afirmar a distinção, quando o assunto é justamente a sua dissolução absoluta. O artista e o cientista, o dj e o engenheiro criador de patterns e plug-ins, ambos trocam figurinhas no horizonte da música contemporânea com a mesma intensidade com que se individuam os resultados musicais. Observa-se hoje uma fragmentação radical do universo musical, a transformação do autor em mônada, em uma ilha com regras e lógica imanentes, independente das definições parametradas em suportes (música eletrônica) ou períodos históricos (música clássica). Servindo-se da história, da produção intensa, das trocas de informação e da tecnologia, estas mônadas reproduzem uma pluralidade de discursos musicais. De um ponto de vista geral, Words on the Floor exprime essa fragmentação: Gustafsson e Yoshimi criam momentos que, por mais que a memória busque no arsenal das sonoridades contemporâneas, ainda assim não encontra similares. (Bernardo Oliveira)

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Mats Gustafsson é conhecido por trabalhar com nomes como Thurston Moore, Jim O’Rourke, Derek Bailey e grupos como The Thing, entre muitas, infinitas colaborações….. Yoshimi Yokota é baterista do Boredoms e líder do OOIOO, além de participar de alguns outros projetos com nomes como Yuka Honda e Kim Gordon. Ou seja, ambos são familiares com o mundo das experimentações e circulam junto a artistas de interesses díspares.

Dois músicos menos conhecidos por suas individualidades que por suas colaborações se juntam em um projeto: não haverá muitas dúvidas quanto a suas capacidades em criar um espaço de convivência dentro da música, ambos parecem imbuídos daquela qualidade dos melhores colaboradores que é ouvir o que os outros desenvolvem como ouvir o que a sinergia do grupo produz no ambiente.

O disco consiste de duas faixas e a primeira serve como a água com gás antes de uma refeição – limpa o palato como preparação ao que virá. Digo isso por que, não fugindo das metáforas da mesa, as idéias ali são pouco desenvolvidas e colocada ao lado da faixa seguinte, quase desaparece. Assim, “Soundless cries with their arms in the air” começa um drone de sax emudecido, ou algum dos outros metais utilizados no disco, acrescido de sutis ruídos eletrônicos; aos poucos Yoshimi vai ganhando presença, os músicos ora se acompanham ora parecem duelar na dissonância.

“And the children play quietly with words on the floor” – começa com percussão e pequenos exercícios vocais, no início pouco notamos da presença de Gustafsson, depois entram os metais, junto a outro ruídos eletrônicos; a percussão desaparece, o sax toma e cresce ao ponto de junto com os vocais, lembrar algo de grito primal e recorrente por toda a faixa a lembrança do trabalho de vocalistas como Yoko Ono, Patty Waters em seu momentos mais experimentais ou nos momentos mais obtusos chatas como Maja Ratkje.

O maior sucesso da colaboração é o de aproveitar com excelência o espaço negativo; quando em alguns outros trabalhos de Gustafsson a intensidade de sua performance pouco deixava a acrescentar, aqui sua execução é cuidadosa e nunca chega a suplantar os vocais de Yoshimi que ocupam o centro da performance, chegando ao ponto de, quando ausente, aumentar a sensação de vazio que envolve os outros sons. Os momentos menos interessantes surgem quando ruídos e manipulação digital ocupam um lugar central e não nada acrescentem ao diálogo dos dois, pois a virtude desta colaboração reside no investimento em dualidades, ocupar e abrir espaços, com pouca construção melódica e muito investimento no atrito com sucessivas modificações de tom: os músicos testam as possibilidades de certos procedimentos; às vezes sugerindo uma única linha melódica, outras vezes dissonância e alienação do parceiro. O objetivo parece, por mais intensa que seja a execução, o de evidenciar o vazio que a tudo circunda e o que resta é a alteridade.

Ainda assim, apesar de resultado interessante, não consigo ver muitos motivos para renovadas audições desse trabalho, mas este é um dos riscos de se abandonar na experimentação, as buscas mais ousadas podem resultar em não sair do lugar. Este não é o caso de Words on the Floor, mas também não vai muito longe. (Marcus Martins)

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Duas conotações podem ser extraídas de Words on the Floor: a primeira explica-se pela falta de palavras – nenhuma palavra com significado é exalada da boca de Yoshimi, apenas gemidos, gritos e uivos. A música desprovida de linguagem verbal, portanto, daria sentido ao título, que diz “Palavras no Chão”, ou seja, todo e qualquer tipo de vocábulo foi sacrificado e dispensado em função do teor improvisatório do disco. Afinal, palavras não são necessárias quando se pode expressar através de sons, que não se comunicam diretamente e logicamente ao ouvinte, mas que são passivos de variadas formas interpretativas e assimilativas; já a segunda conotação tem mais a ver com o nome da segunda, última e predominante faixa do disco, “And the Children Play Quietly with Words on the Floor”. Há algo de infantil na voz de Yoshimi e na sua conduta. Ao lidar apenas com emissões vocais ruidosas e não-verbais, ela se desloca para uma condição mais primitiva, própria da criança. Para Gustafsson também não é diferente: ele acompanha Yoshimi (ou é ela que o acompanha? Ou será que a química entre os dois é tal a ponto de um prever e antecipar o passo do outro e vice-versa?) e toca seus instrumentos de maneira impulsiva, o que o aproxima igualmente do universo infantil. É como se os dois fossem crianças brincando com palavras (“words”) no chão. De palavras (“words”), entende-se num sentido abstrato, semiótico; logo, tais palavras podem ser tanto signos verbais quanto musicais. O fundamental é a impressão a ser passada de que os dois estão entrando em contato com tais signos pela primeira vez – exatamente como crianças, quando lhes é apresentada o mundo, a linguagem verbal e musical. O objetivo em Words on the Floor é experimentar com quaisquer tipos de linguagens e, por isso, faz jus ao que melhor existe da música de improvisação. O improv nada mais é que uma forma de expressão responsável por resgatar os sentimentos mais primitivos e naturais do artista, e que por não ser pensado e lapidado, comunica-se instantaneamente ao ouvinte. E, paradoxalmente à música pop, que tem estrutura mais rígida e, supostamente, é feita para cativar de imediato o ouvinte, a música improv, com sua não-linearidade e forma livre, pode afetar seu sentido de modo mais impactante e imediato, o que não significa que será assimilada e entendida rapidamente. (Thiago Filardi)

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Publicado em 12 de maio de 2008 por em Uncategorized.
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