Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Radamés Gnattali – Radamés Interpreta Radamés (1958; Todamérica, Brasil)

Não é exagero dizer que o gaúcho Radamés Gnattali foi um dos mais fundamentais e brilhantes artistas do século XX. Pianista, arranjador, maestro, arquiteto e artífice da música brasileira moderna, trabalhou durante 30 anos na Rádio Nacional, sendo um precursor dos arranjos de cordas para música brasileira – especialmente notadas em “Lábios que beijei”, sucesso na voz de Orlando Silva e “Aquarela do Brasil”, com Francisco Alves, gravada em 1939. Compôs peças para teatro e cinema, inclusive para filmes como Tico Tico no fubá e Argila, de Humberto Mauro. Manteve amizade com artistas como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Tom Jobim, Cartola, Villa-Lobos, Donga, João da Baiana, Francisco Mignone, entre outros. Radamés interpreta Radamés foi lançado em 1958, e retrata fidedignamente a versatilidade genial de instrumentista e compositor através de maxixes, sambas e choros. O LP foi relançado algumas vezes, sob o título Radamés e a bossa eterna, fazendo alusão a uma orquestra que simplesmente não existe na gravação. Aqui, Radamés é acompanhado pelo Quarteto Continental, composto por ele, Pedro Vidal Ramos (contrabaixo), Luciano Perrone (bateria), José Menezes (violão e cavaquinho), além do auxílio luxuoso de Heitor dos Prazeres no afoxé e reco-reco.

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No mesmo ano em que lançou este álbum, Radamés Gnattali esteve envolvido com mais dois projetos fonográficos: as peças “eruditas” Brasilianas n. 7 e 8, para piano e saxofone tenor, contando com Aída Gnattali no piano e Sandoval Dias no sax; e Radamés Gnattali em ritmo de samba, álbum no qual o compositor interpreta os sucessos de amigos do samba, como Ataulfo Alves, Bide e Marçal. Dez anos antes, com o mesmo grupo que gravou Radamés interpreta Radamés, o maestro lançou, pela gravadora Continental, a canção de sua autoria “Fim de tarde”, para alguns o prenúncio mais claro do estilo de arranjo e composição que mais tarde viria a caracterizar a bossa nova. Durante este período, a produção de Radamés dialogava tanto com a música erudita, como com a música popular, muitas vezes promovendo uma sonoridade indistintiva entre os dois registros, expressando sua preocupação neste sentido inclusive em entrevistas. Pode-se dizer, sem exagero, que Radamés é um músico moderno por definição, atento aos paradigmas constitutivos (e desconstrutivos) da música feita no mundo, mas que sempre manteve a ênfase de seu discurso voltada para a música produzida no Brasil. O pensamento à vontade para circular por entre as vanguardas mais radicais, porém integrado a uma lógica produtiva interna, que se articula entre as cadências e sonoridades criadas no Brasil, sem abrir mão da vocação antropofágica. De certo modo, Radamés prefigura aquilo que Hermeto Pascoal veio a consolidar mais tarde: uma música total, culta no discurso e no som, incorporada de todos os elementos possíveis, ainda que eqüacionados num formato específico. A habilidade de Radamés, sua mobilidade, foi fundamental para a música brasileira do século XX, e poderíamos até dizer que, junto a Ismael Silva (inventor do samba urbano), Clementina de Jesus (o elo perdido) e Luiz Gonzaga (o primeiro grande astro nacional), Radamés realizou o trabalho mais determinante da música que se fez e que se faz no Brasil. Indistinção entre popular e erudito, entre nacional e mundial: a música de Radamés representa uma fonte inesgotável de inspiração e estímulo, embora nem sempre de uma maneira condizente com sua genialidade.

Não há dúvida que Radamés interpreta Radamés é um exemplo contundente da presença decisiva do maestro e compositor na música brasileira, pois, em doze faixas, quase todas de sua autoria, desfila pelo choro, pelo maxixe e pelo samba com a espontaneidade e o poder de síntese que caracteriza a música brasileira. Equilibrado, o álbum traz uma série de momentos admiráveis, graças a alguns princípios que parecem nortear sua composição e execução. Primeiro, alia, de forma aparentemente simples, rigor e sentimento, equilíbrio e improviso. Traz uma ousada concepção de arranjo, que só encontra paralelo na história do choro com o álbum Confusão urbana, suburbana e rural, de Paulo Moura. Como a música de Tim Maia, cuja audição não permite a adequação imediata em nenhum gênero (“Coroné Antônio Bento”, por exemplo, é rock, baião ou soul?), da mesma forma Radamés e seu quarteto criam peças com alto teor de originalidade: choros amaxixados (“Zanzando em Copacabana” e “Papo de anjo”), chorinhos “eruditos”, com forte apelo clássico (“Pé de moleque”), samba-canção (“Amargura”, que mais tarde ganhou letra de Alberto Ribeiro), samba de fato (“Escrevendo para você”, uma das poucas parcerias do disco, com o mesmo Alberto Ribeiro) e até mesmo um fox-samba (“Gatinhos no piano”), num dos momentos mais ousados de todo o disco. (Aqui, deve-se levar em consideração que o chamado foxtrote representava o espírito americano na década de 40, papel que o rock’n’roll veio a desempenhar alguns anos mais tarde. Isto, obviamente, despertava a ira dos conservadores, puristas e xenófobos que não pouparam críticas à música livre de Radamés…).

Não quero aqui tirar lições nem conseqüências morais de um trabalho tão expressivo e, apesar de sua candura, vigoroso. Mas, numa época em que se retomam argumentos vetustos acerca de uma suposta “raiz” da música brasileira, nada como repor ao debate o ponto de vista de artistas que, embora relativamente esquecidos, contribuíram para a música que se faz hoje por estas bandas. E, nesse caso, visto que muitas vezes a ignorância é irmã do esquecimento, vale destacar essas palavras de Radamés, tão irônicas quanto amargas: “Quando as coisas estão acontecendo, ninguém dá importância nenhuma. Mais tarde é que vão se lembrar, aí ninguém sabe mais nada”. A julgar pela música brasileira que se ouve por aí ultimamente, na qual os artistas se destacam pela capacidade de emulação, parece que tanto o esquecimento quanto a ignorância tomaram proporções nefastas. Radamés interpreta Radamés pode até não ser antídoto, mas, certamente, documenta uma direção divergente da que a música de mercado brasileira vem tomando, configurando-se em documento precioso da peculiaridade de nosso talento. (Bernardo Oliveira)

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Para quem não tem grande familiaridade com a música de Radamés Gnattali duas coisas podem ser percebidas; na verdade uma delas me assaltou após ter ouvido o disco algumas vezes: mesmo que as faixas requeiram audição atenta, muitas vezes esqueci o que estava ouvindo e tal esquecimento não foi por ter evadido a pensar em outras coisas. Isso ocorreu não por qualquer característica de música de fundo, mas por uma certa naturalidade – tudo ali é melódico, preciso, os arranjos ricos a agradáveis; chega a ser vergonhoso não dizer: é lindo.

Este esquecimento é especial pelo fato de tratarmos de um tipo de música que é inquestionavelmente datada; assim, me vi às voltas com memórias que não eram minhas, passagens de filmes, livros, outras músicas – clichês e fotografias – pequenos quadros que se construíam em meus pensamentos e que pouco tinham com o que estava ouvindo. O que não deixa de ser um dos trunfos do álbum para além de suas qualidades musicais. Apesar de caracterizar o som de uma época, de um modo de produzir música; na verdade, Gnattali foi, segundo me consta um dos artífices deste “som” aqui no Brasil, talvez não como simples criador, mas como alguém que levou a música e seus arranjos a outro patamar e que nos possibilita todo tipo de leitura e que continua a influenciar os jovens instrumentistas que nem mesmo viveram enquanto ele ainda tocava e hoje apenas conhecem suas músicas por regravações, edições escassas e raras.

Quanto à construção das faixas, pouca a dizer. A proeminência do piano conduz a construção das faixas, mas talvez uma das riquezas esteja na forma como ele arranjou o acompanhamento dos outros instrumentos, que parecem servir de mero pano de fundo para as figuras melódicas do piano; a percussão delicada, marcando o ritmo sem tomar espaço, o cavaquinho e outras cordas, todas no tempo certo, naturais como a respiração e que, pensando bem, marcam uma ruptura com certo tipo de música, bem afeita á época em que Gnattali começou a produzir, cordas melodramáticas e à frente dos outros instrumentos, arranjos histriônicos e desnecessários, prontos para abraçar o canto sofrido de interpretes pouco sutis (claro que as mudanças do processo de gravação e os microfones de melhor qualidade ajudaram a mudar o panorama, as gravações ficaram melhores, os cantores não mais precisavam do dó de peito para serem ouvidos no microfone, etc). É fácil esquecer a importância deste tipo de papel, mas também é verdade que podemos prescindir disto para louvar Gnattali.(Marcus Martins)

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É impossível, para mim, ouvir um disco de 1958 de Radamés Gnattali e não ficar nostálgico em relação ao que foi a música brasileira um dia. Nostálgico de uma era que não vivi e, que talvez por isso, me faça observá-la com admiração e maravilhamento. Porque sei que não há nada de igual ou que se equipare à música de Radamés nos dias atuais. Isso me faz pensar em uma época na qual quase todos os gêneros musicais regionais estavam em ebulição e seus artistas à flor da criatividade. O que mais incomoda, portanto, é a ciência de que não há nenhum músico hoje em dia com as qualidades de Radamés, ou um por cento delas. Desconheço qualquer músico que saiba unir sua virtuosidade a uma criatividade fervorosa, em função do avanço formal da música brasileira; ou alguém que saiba tocar com tanta precisão, versatilidade e emoção; que entenda tão bem o espírito do samba, do choro e saiba reproduzi-los não de modo redundante, mas singular; ou então que saiba transmitir toda sua emoção para as pontas dos dedos, fazendo com que o piano soe mais belo e vívido. Faltam também bandas de apoio como o Quarteto Continental, que possuam o verdadeiro gingado do samba e consigam acompanhar um piano de harmonia complexa e melodia pululante, sem afrouxar a base rítmica forte e consistente. É mais fácil dizer, então, que a música brasileira acabou e que vive de uma reciclagem barata; que já teve sua época e todos seus grandes músicos já se foram ou estão velhos. Contudo, isso vai de encontro com a proposta desse blog, que tem como objetivo e mote falar da música contemporânea, seja brasileira, seja mundial, mas que julguemos ter alguma relevância. Um blog que, por outro lado, serve também para falar de discos antigos, importantes ou não, mas que nos agradem ou cativem em alguma instância. E, nesse caso, voltemos ao tempo para falar de um disco lançado há cinqüenta anos e por um músico extinto há vinte. E podemos abordar a arte de Radamés porque música é atemporal e Radamés Interpreta Radamés permanece um disco sublime, que ainda seduz pela sua sonoridade elegante, concisa e emocional. Os músicos e a cena musical, no entanto, não são atemporais. Estão condenados à dissipação. É por isso que posso dizer que Radamés está morto, assim como Pixinguinha e Antônio Carlos Jobim; assim como o samba, o choro, e a tão preciosa bossa nova; assim como as renovações estéticas, rítmicas ou quaisquer que sejam, nos últimos vinte anos, foram ínfimas se comparadas a quarenta, cinqüenta anos atrás. Tudo isso nos faz chegar à triste e inaceitável conclusão de que a música brasileira, depois de tanto agonizar, se encontra, mais que outrora, em um buraco sem fim. (Thiago Filardi)

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Um testemunho mais impulsivo consistiria apenas em reverenciar a extrema leveza e graça que surge da audição de Radamés Interpreta Radamés, um incrível sentimento – mistificadíssimo, é claro – da música se fazendo sozinha, sem esforço, como pura expressão de uma graciosidade da existência. Com efeito, é uma música que se apresenta de imediato como é, direta, de beleza imediata, um esplendor simples (de se ouvir/compreender). Apesar da variação de ritmos (choros, sambas, sambas-canção, maxixes) e andamentos, é um disco que se ouve inteiro, de um fôlego só, como um bloco inseparável. As próprias faixas assim se comportam: ainda que caiba parte à melodia escrita e parte à improvisação, a fluência do piano de Radamés Gnattali passa com desenvoltura de um a outro, de forma imperceptivel ou quase, como um elogio ao movimento eterno e sensual de todas as coisas.

A estrela em Radamés Interpreta Radamés é o piano, que paira na equalização acima de todos os outros instrumentos. Em seguida, a percussão, ou especialmente os “ch-ch-ch” proporcionados por pandeiro e/ou reco-reco, que dão uma vibração forte à forma graciosa com que Radamés brinca com as teclas de seu piano. O contrabaixo e o violão ou cavaquinho, os ouvimos volta e meia, mas mais no sentido de compor o fundo musical do que de criar tensões melódicas entre instrumentos. Assim, o arranjo prima pela concisão (nada de ornamental nas doze faixas), pela frontalidade e pela percussividade.

Não sou um enorme conhecedor da discografia de Gnattali, então não sei que papel o disco desempenha em sua carreira ou seu renome dentro da discografia do artista, mas considero-o uma audição essencial ainda assim. De alguma forma, Radamés Gnattali parece estar em toda a música brasileira, como orquestrador, compositor ou líder de grupo, dos anos 30 aos 60. Muito do que a gente aprende de forma inata que “é” a expressão brasileira vem dele. [Naturalmente, isso é fruto de muitas mistificações e sedimentações de percepção e historiografia que precisa ser devidamente investigada e geneologizada, mas em todo caso é a primeira percepção pergnante ao ter contato com essa música].

Num disco tão coeso e repleto de momentos geniais, é esquisito falar em destaques, mas ao mesmo tempo é necessário chamar a atenção de “Puxa Puxa” e da saidinha “Gatinhos no Piano”, mostrando a co-habitação natural entre os sons de dentro e os de fora da cultura do país. (Ruy Gardnier)

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Publicado em 18 de maio de 2008 por em Uncategorized.
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