Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Arnaldo Baptista – Loki? (1974; Philips, Brasil)

Cantor e compositor nascido em São Paulo, Arnaldo Baptista foi líder d’Os Mutantes e com esta banda alcançou seu maior sucesso, aliando o formato pop ou da música popular brasileira convencional às experimentações avant-garde, especialmente influenciados pelo maestro e parceiro Rogério Duprat. Com Os Mutantes esteve na ponta-de-lança do Tropicalismo, colaborando com os luminares do movimento, em especial com Tom Zé. Depois de lançarem diversos discos (número que pode chegar a nove) que tanto encantaram como fizeram coçar a cabeça de muitos em suas platéias, Os Mutantes se dissolveram e Arnaldo iniciou uma irregular carreira solo com Loki?, mantendo o ritmo com o soturno Singin’ Alone, gravando ainda um punhado de álbuns irregulares, que foram afetados pela deterioração da saúde, aparentemente causada pelos excessos no uso de drogas. Em 2004 voltou à cena com o surpreendente e bom Let it Bed. Em 2006 participou de uma inesperada e anti-climática turnê d’Os Mutantes. (MM)

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Álbuns que refletem ou foram produzidos durantes ou logo após uma separação consistem um capítulo na história da música pop, desde a pungência e sofisticação de um Blood on the Tracks até a tumultuada separação de Richard e Linda Thompson, as brigas regadas a muita coca do Fleetwood Mac que culminaram em Rumours, passando pelo Sea Change de Beck – todos estes parecem veículo para algum tipo de relação extra-musical com a composição artística, seja lidar com a dor, entender o acontecido, lavar a roupa suja, etc. Se tratamos de um disco de fim-de-caso, estamos distantes do azedume irônico de um Marvin Gaye (Here, My Dear), ou das lamúrias e saudades que fizeram a fortunas de muitos cantores.

No caso de Loki? temos um híbrido muito distante do padrão choroso, pois não apenas detectamos referências ao fim do relacionamento de Arnaldo com Rita Lee, como também o álbum é um grito de liberdade após a separação d’Os Mutantes, que seguiram desfigurados nos caminhos do rock progressivo. Loki? não é apenas um álbum de rompimento com parceiros (que de qualquer forma, participam do disco, à exceção de Sérgio Dias, sendo que Rita tem uma participação quase invisível nos vocais de apoio de “Não estou nem aí” e “Vou me afundar na lingerie”), é também delírio e desencanto, ficamos na dúvida se toda a assertividade de Arnaldo é sincera ou tentativa de impor uma barreira diante da dor e da dúvida; é desencanto com o caminho d’Os Mutantes e do rock do momento (“Não gosto de Alice Cooper / Onde é que está meu rock’n’roll?”).

Suponhamos que em um momento de dúvidas, Arnaldo resolve buscar nas raízes o apoio, usando estruturas tradicionais do rock inicial, fazendo menção às composições de seus heróis desbravadores (mas não deixando de ser um dos loucos dos anos ‘70) e a temas assemelhados à música clássica; as faixas primam pela beleza e variedade dos arranjos e pela intensidade da performance.

Daí uma das maiores peculiaridades deste álbum que começa cheio de dúvidas, mas também cria de partida uma das imagens cruciais para o entendimento do álbum: “O que é isso, meu amor? / Será que eu vou morrer de dor? / O que é isso, meu amor? / Será que eu vou virar bolor?” Demonstrando ao mesmo tempo a sensação de estagnação e sufocamento mas, quando se poderia pensar em uma faixa lamentosa e derrotada, tudo é envolvido em entorno cômico, desde os vocais loki, irônicos, auto-derrisórios até o arranjo rico, calcado no piano à Jerry Lee Lewis e no acompanhamento discreto da cozinha d’Os Mutantes. Nada de experimentos, música concreta ou atonalidades; claro tratamos de onde está o rock’n’roll? Bem aqui.

Curioso que se o disco marca o fim de sua relação com Os Mutantes e de seu casamento com Rita Lee, o tom das faixas é bem de “não estou nem aí”, de chutar o pau da barraca (como em “Não estou nem aí” e “Vou Me Afundar na Lingerie”) e desejos de fuga; mesmo em uma faixa como “Desculpe” (referência a “Desculpe Baby”?), não há lamento ou justificativas; e se nas últimas faixas o tom é mais sombrio, o desencanto é causado por razões externas, pelo estado de coisas, pela deterioração da sociedade de consumo (“o modelo do meu carro, que eu comprei só a seis meses, já está fora de moda”).

Aliás, se não existem experimentos modernos, às referências à música clássica, como no início de “Uma Pessoa Só” e os arranjos para corda, já derruba qualquer argumento de que se trata de um disco tímido, a música progride quase sinfonicamente até o arrebatamento funk e depois nos elementos se fundindo como numa coisa só. Algo que poucos além da dupla Baptista/Duprat conseguiria. “Não estou nem aí” começa com o piano já sedimentado como base do disco mas logo percebemos que o ponto alto serão os ataques de metais fazendo refletindo o desejo de decolar, de encarar o que vier; desejo de vida, apesar da morte certa. “Vou me afundar na lingerieinveste no nonsense, desfilando frases que apenas fazem sentido quando pensando que ele não tem cabeça e vai “deslanchando pé em baixo”. Os arranjos dos vocais estão em seu ápice, variando de acordo com o tom do disparate, transitando da distorção ao deboche.

Talvez a faixa mais representativa do álbum seja a que dá título ao álbum; “Cê tá pensando que eu sou loki?” é obra prima indiscutível, um dos ápices da capacidade de Arnaldo em criar imagens precisas e hilárias, provocadoras e sinceras. Aqui, mas que em qualquer outra faixa, ele parece assumir um personagem (loki?), versão malandro velho de si, apoiado nos vocais preguiçosamente ennui/irônico e no arranjo suingado com alguns dos mais leves arranjos de cordas de Duprat. A partir de “Desculpe” o disco muda o foco, sai o bufão e entra certa melancolia, o arranjo tem por esteio a guitarra e alguma espécie de sintetizador. Continuando ladeira abaixo, “Navegar de Novo“, apenas acompanhado pelo piano, o foco passa ao exterior, dentro de sua instabilidade, ele pensa na sociedade e lamenta quase demagogo, mas político, clamando por conjuntos habitacionais e abertura política em um candor que apesar de triste, beira o despropósito mas uma vez. “Te Amo Podes Crercomeça aliando a contenção da faixa anterior com arranjo semelhante à “Desculpe“, e talvez seja o momento em que ele cede com mais fraqueza ao lamento e o sustento da faixa vem mais uma vez do arranjo, impedindo a gratuidade da coçada de ferida. “É Fácil” termina declarando amor a si embalada por uma guitarra acústica com pequenas interferências plugadas, funcionando como uma pequena coda.

Tudo isto pode significar muito pouco; inferências sobre situações que cercam a produção de um disco que, independentemente de tudo, triunfa pela capacidade extraordinária de seu perpetrador – e que lamentavelmente definharia depois deste disco, ainda mantendo sua criatividade no seco Singin’ Alone. Loki?, apesar das dúvidas e dificuldades, é lúcido e um tesouro do rock’n’roll. (Marcus Martins)

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O ano de 1974 representou uma crise nos eixos paradigmáticos do rock ‘n’ roll. Após o seu auge, no final da década de sessenta, com o rock psicodélico, o gênero sofreu diversas ramificações e passou a ser um dos estilos mais ecléticos e abrangentes da música no século XX. Era como se fosse um amadurecimento. Tudo começara com uma explosão adolescente, depois passara pela descoberta de alucinógenos, que expandiram as capacidades de criação da mente e, então, era momento de fazer experimentações mais radicais, transitar pela autoparódia, ou partir para o estado reflexivo e introspectivo. Em 1974 era como se o rock estivesse acabando, e, de fato, estava. Porque, de algum modo, ele resistira bravamente até este ano, fora através de estilos inovadores e extremamente criativos como o glam rock, o progressivo, o folk-rock, o proto-punk americano, e o krautrock alemão.

Na faixa de abertura de Loki?, “Será que Eu Vou Virar Bolor”, Arnaldo Baptista diz não gostar de Alice Cooper e indaga onde está o seu rock ‘n’ roll, negando, dessa maneira, os artifícios e os excessos que haviam estragado o rock, exatamente como Lester Bangs prevera muitos anos antes. A (m)egalomania do progressivo e do rock de arena haviam dominado “a indústria” da música popular de meados dos anos setenta. Todos os grandes nomes já mostravam sinais de enfraquecimento: Zeppelin perdera o brilhantismo do começo e se perdia na grandiosidade do hard rock que eles próprios ajudaram a catapultar; Bowie, com toda sua esperteza e autoconsciência de um grande marketeiro, aniquilou seu alterego maior, Ziggy Stardust, mas ficou sem rumo. No mesmo ano, lançou o belo Diamond Dogs, de conceito sofisticado (inspirado em 1984 de Orwell), que, contudo, não se nivelava aos seus três discos originais anteriores; Roxy Music perdera Brian Eno havia um ano e, apesar de continuar lançando discos consistentes e originais, estes já não possuíam mais o mesmo impacto; o krautrock vivia seu último grande momento, com seus maiores grupos lançando obras-primas como IV, do Faust, Soon Over Babaluma, do Can, Musik von Harmonia, do Harmonia, Zuckerzeit, do Cluster e Autobahn do Kraftwerk. No entanto, alguns grupos já não demonstravam mais o mesmo preceito radical (o que viria a se concretizar com quase todas as bandas no ano seguinte). Phaedra, do Tangerine Dream, por exemplo, marcou o começo do que viria a ser a new age anos depois, e na qual eles se estagnariam e tornar-se-iam expoentes maiores; Lou Reed também estava completamente perdido, atirava para todos os lados e em 1974 lançava Sally Can’t Dance, um disco proto-punk, mas com elementos de hard rock e rock de arena. No próximo ano, seria sua rendição, com Metal Machine Music, que mesmo sendo um dos discos mais radicais e extremos da época, não nega que o artista e o próprio rock já haviam perdido uma base sólida; os Stooges haviam acabado e Iggy Pop só retornaria com a ajuda de David Bowie, alguns anos depois, coincidentemente na mesma época em que a eletrônica se alastraria por toda a Europa e o rock voltaria em uma nova fase dourada; outros grandes artistas como Leonard Cohen, Neil Young e Van Morrison lançavam obras definitivas, mas demasiadamente auto-reflexivas e introspectivas, que denotariam uma reclusão ainda maior dos mesmos, ou uma consciência de que era época de renovarem suas próprias estéticas musicais.

Percebe-se em quase todos os discos dos nomes supracitados um uso predominante do teclado. Diamond Dogs, de Bowie, coloca o teclado como instrumento central, o que ele havia feito em Hunky Dory e em Aladdin Sane, mas enquanto no primeiro o teclado era um elemento orgânico inerente à música, que flertava com o folk, no segundo era utilizado de forma vanguardista, nunca ouvida antes no rock. O teclado de Diamond Dogs, entretanto, era um teclado comum, que não tinha nada de especial. Em Country Life, do Roxy Music, nota-se um uso mais acentuado do teclado na sua acepção sonora mais comum, ao contrário dos experimentos e paisagens sonoras que Brian Eno fazia com o sintetizador nos discos em que participou. Na Alemanha, Tangerine Dream, Cluster e Kraftwerk elevavam o sintetizador ao instrumento catalizador de todas as sonoridades componentes da música.

Ainda havia espaço para bandas e artistas à parte de tudo, como o King Crimson, que lançava dois discos primos no mesmo ano (Starless and Bible Black e Red), o flanco de Canterbury, com Robert Wyatt, Henry Cow e Gong, que possuíam um discurso mais enviesado e contrário a tudo que era feito no rock da Inglaterra (não é à toa que o Henry Cow era rotulado de rock in opposition). O fator mais agravante, entretanto, era o rock progressivo, que havia conquistado um mercado gigantesco e tomava proporções animalescas. À exceção de Genesis, que lançava um disco maravilhoso, The Lamb Lies Down on Broadway (apesar de excessivo), Yes, Emerson Lake & Palmer, Jethro Tull e Rick Wakeman traziam uma estética cada vez mais brega e afetada para o rock que, portanto, estava sendo esvaziado de sentido. E para corroborar, nessa primeira metade da década de 70 nasciam deformidades advindas do prog e do hard rock, como Camel, Utopia, UFO, Queen, Nazareth, Renaissance, Kiss e até o próprio Alice Cooper, que Arnaldo diz não gostar. 1974, para se ter uma idéia, foi o ano em que Eric Clapton ficou mundialmente famoso com sua versão de “I Shot the Sheriff”, o que não foi de todo mal, pois, ao menos, foi importante para espalhar o reggae pelos EUA e torná-lo conhecido a uma audiência branca.

Loki?, primeiro disco solo de Arnaldo Baptista, após o fim dos Mutantes, nada mais é que o prenúncio de o fim de uma era que alguns não aceitavam. Isso fica óbvio em “Será que Eu Vou Virar Bolor?”, primeira e sintomática faixa do disco. Como o próprio título elucida, Arnaldo tem medo de desaparecer, de virar mofo, resíduo cósmico. Ainda na mesma canção ele diz que vem se apegando aos seus sonhos, ao passado, à sua velha motocicleta e que não gosta do Alice Cooper. Fica evidente, portanto, o desespero e solidão de um artista que viu seus sonhos acabarem e que não tem mais no que se apoiar. Sua geração agora precisa de artifícios e maquiagem para poder se expressar (Alice Cooper) e parece estar inclinada a ideais vazios e publicitários. Sua vida pessoal também está na pior. Sua banda, tão representativa de uma época e importante para a música brasileira, havia acabado, seu relacionamento com Rita Lee desmoronava e o mais importante, o seu bom e velho rock ‘n’ roll, que ele ajudou a inovar, misturando-o a ritmos brasileiros, não era mais como ele o conhecia na sua juventude. O rock estava morrendo e Arnaldo não aceitava essa condição. É por esse motivo que ele resolveu entrar em estúdio, com dois ex-colegas dos Mutantes (Dinho e Liminha) para gravar um disco em um take só, pois, só assim poderia mostrar toda sua lamúria e inconformismo, ao mesmo tempo, sem desprover o rock ‘n’ roll do que ele tem de mais sagrado: a performance enérgica e avassaladora.

Talvez por isso Arnaldo tenha escolhido o teclado para ser o instrumento centralizador de Loki?. De alguma forma, ele deseja voltar aos velhos tempos, aos tempos do enfurecido Jerry Lee Lewis. E somente com o teclado ele poderia alcançar tal estética, uma estética que remete ao boogie rock e sem querer, ou inconscientemente, ao glam rock e aos paradigmas da época. Porque o teclado, como já dito, estava cada vez mais em voga no rock, seja no progressivo, ou no glam rock, que é o que encontra maiores paralelos com a música de Arnaldo. Foi no mesmo ano de 74 que a dupla americana Sparks lançou o disco Kimono My House, que traz uma nova conotação para o instrumento no rock (e não A Night at the Opera do Queen, como muitos pensam), com um certo ar clássico, mas de estrutura perfeitamente pop. E Loki? se aproxima muito dessa estética. O teclado de Arnaldo que ao mesmo tempo tem a ferocidade do boogie rock, destila vários fraseados clássicos. Outras analogias com o glam podem ser delineadas através dos riffs de baixo e teclado, extremamente melódicos e que seguem intervalos de semitom em sentido à nota mais grave. Os histrionismos que Arnaldo faz com sua voz também o remetem a Bryan Ferry.

Para além das comparações, Loki? é um disco de inconformismo e desesperança. O uso abusivo das drogas fica evidente em quase todas as letras (especialmente quando ele diz que quer voltar pra Cantareira, na faixa de abertura), mas, mesmo assim, elas parecem levar a um sentido único: o de um homem que se sente cada vez mais solitário em um mundo no qual a tecnologia segue um avanço desenfreando, assim como a civilização, e com a qual ele não consegue mais se identificar. Seus sonhos de juventude se findaram e ele não consegue mais se adaptar ao mundo atual. Tudo mudou e tudo está mudando. É por isso que ele diz que vai se afundar na lingerie e no refrão canta “xuxu beleza”, “tomate maravilha”. É uma certa paródia com as gírias da época, assim como “bicho”, que ele canta com tanta entonação em “Cê Tá Pensando que Eu Sou Loki?”, outra faixa central do disco. Nesta mesma canção ele diz que é malandro velho e não tem nada com isso. Afinal, é o velho drogado e roqueiro que é o “loki”? As drogas são apenas seus escapes e seus elementos de transcendência dos sentidos. Arnaldo não é o “loki”. “Loki” são as pessoas que aderem ao sistema de um mundo injusto, despreocupado com as causas humanas, excessivamente consumista e que foi capaz até de destruir o maior sonho da juventude: o rock ‘n’ roll. E é com esse intuito que ele grava Loki?, apenas com baixo, teclado, bateria e alguns arranjos (proporcionados pelo mestre Duprat, diga-se de passagem). Sua ex-namorada também participa dos backing vocals e ele parece dedicar todas as canções a ela, com direito a uma nova versão de “Desculpe, Baby”, agora apenas como “Desculpe”. Algumas músicas parecem até serem improvisadas, como “Navegar de Novo”, na qual ele mistura inglês com português e muda de linha melódica bruscamente. Assim como a derradeira e espetacular “É Fácil”, na qual ele toca intensamente um violão de 12 cordas e canta somente três frases (“Eu e amo/Como eu amo você/É fácil”). É esse o rock ‘n’ roll que Arnaldo busca: o rock frugal, desprovido de artifícios e maneirismos, o mesmo que Lester Bangs pregava ao final dos anos sessenta. Afinal, a única maneira de se encontrar num mundo tão transformado, é remontando à sua razão de vir e existir. E para ele é o rock, assim como ele veio, na forma de expressão e força juvenil, na forma de Jerry Lee Lewis, na forma do profeta desamparado. (Thiago Filardi)

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Acredito que não há dúvida quanto à originalidade de Loki?, de como ele representa um intrigante retrato musical, tamanho o caráter idiossincrático de suas canções e arranjos. Conforme sedimentamos, ao longo dos anos, um convívio mais íntimo com sua urgência e seu nonsense, percebemos gradativamente esse aspecto de “retrato”, embora eu não deseje levar a questão para o campo psicanalítico, tanto por incompetência como por desinteresse. Mas noto que, apesar de contar com a colaboração do núcleo Duprat-Mutantes, Loki? traz impressa a marca de um nexo sui generis entre a singularidade e o caos: “sinta o pulso de todos os tempos”, canta Arnaldo, convidando “a mulher”, presente em todo o disco, a percorrer a série de novas experiências que constituem uma espécie de rito de passagem. Lamentando seu apego às coisas materiais, a existência de Alice Cooper e da Nasa, perguntando pelo seu velho rock’n’roll, aludindo a um suposto estado de maturidade (“sou velho mas gosto de viajar”) Arnaldo inicia a demarcação de seu universo em transe. É claro que em termos estritamente musicais e históricos, Loki? não é exatamente um oba oba formal, pois além de possuir uma diretriz instrumental coerente, tem também suas fontes e precursores (The Madcap Laughs de Syd Barrett ou Song Cycle de Van Dyke Parks, entre outros); mas não é menos verdade que, inseridos no contexto armado por Arnaldo, envolvidos por sua malícia associativa e alucinação poética, estas influências acabam por se dissolver na personalidade dionisíaca do autor. Esse processo, supostamente psicológico e individual, dissipa-se necessariamente na volatilidade de todos os sentidos: Loki? é uma “obra aberta”, que joga conscientemente com a instabilidade do acaso e da cifra, como estratégia para fugir justamente às regras estáveis da identidade. As palavras e os sons se tornam cúmplices descarados das inúmeras charadas que Arnaldo cifrou em Loki?. Nos tropeços na execução das faixas (sobretudo na memorável “Desculpe”), frutos da pressa com que ele queria acabar o disco, podemos entrever sua urgência ambígua, acelerando a transformação, mas reivindicando uma possível estabilidade do “outro lado”. No entanto, esta estabilidade não se confirma e Arnaldo Baptista se precipita no terror. Não que, com isso, eu queira associar Loki? a uma espécie de relato, a indicar todos as evidências de um processo degenerativo, não! Mas devo frisar que a alta consciência que produz o disco de forma alguma compactua ou participa daquilo que Kant chamava sensus communis, o sentido comunitário que define, em suas próprias palavras, “o mínimo que sempre se pode esperar de alguém que pretenda chamar-se homem”. A comunidade exige que seus artistas se comuniquem numa linguagem minimamente aceitável, compreensível. A comunidade exige, portanto, o “comum”, aquilo que garante a vida em sociedade. Ora, a altivez de Loki? exprime justamente um senso oposto, que prescinde do “mínimo” e do “comum” para ver a luz do dia. Aqui, todas as identidades e sentidos se sobrepõem, recortam-se uns aos outros, “numa pessoa só”, num só momento, eterno e fugaz, mas sobretudo irônico. Trata-se, portanto, de uma identidade que se sabe fictícia, que se reconhece como “máscara”, e não como “essência”, pois seu processo de auto-conhecimento está necessariamente atrelado a um processo de esfacelamento da realidade. Assim, Loki? é tão desafiante quanto ambíguo: ele nos traz uma música preenchida pela expressão total do incomum, do invulgar, ainda que recortado pela peculiaridade de uma consciência que ama a si própria tanto quanto ama todo o universo. (Bernardo Oliveira)

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O mergulho desabusado no sentimentalismo místico de Loki? espantou muita gente que não previa essa faceta de Arnaldo Baptista. Mas quem tivesse prestado atenção dois anos antes na última música de Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, “Superfície do Planeta” (creditado como Rita Lee mas na verdade um autêntico disco dos Mutantes), já poderia perceber o lirismo cósmico, quase messiânico de Arnaldo, ao clamar a um Deus extraterreno da música para colocar graça no mundo.

Loki? é um disco esquisito, exagerado, de uma emotividade desgarrada e um mergulho fundo em excessos que talvez não perdoássemos em outros artistas. Mas, tal como Sérgio Sampaio, a entrega é do tamanho da idiossincrasia, e dá vazão a uma sensibilidade distinta a que só os artistas realmente grandes podem aceder. Em Loki?, Arnaldo é cantor e pianista (à exceção do violão de 12 cordas na última faixa) e canta sobre amor e incompatibilidade, sobre culpa, sobre as dificuldades do mundo, mas acima de tudo sobre as reações que as coisas do mundo têm sobre ele. O tom reflexivo dá a forte sensação de um solilóquio feito através da música, da ruminação de algumas (ou muitas) noites mal dormidas pensando em infortúnios pessoais ou universais.

Na primeira faixa, “Será Que Eu Vou Virar Bolor?”, ele se questiona sobre seu estatuto. Virei adulto, cansei, perdi meu rock’n’roll, essas dúvidas são as de um homem ficando velho? Na sonoridade, o rock psicodélico e irreverente dos Mutantes dá lugar a baladas, ou, nos momentos mais agitados, um rock meio vaudeville. Mas a rebeldia vem com a mesma intensidade, nos floreios de piano alternando a velocidade, nas frases insanas (“Quero decolar toda manhã”, “Vou me afundar na lingerie” e assim por diante) e no modo desabusado de cantar, freqüentemente autoparódico mas ainda assim sincero em seu descarrego, em momentos até soando como Maria Bethânia.

Ainda que as faixas mais conhecidas pertençam ao lado A, o clímax está lá no final, que emenda “Desculpe”, “Navegar de Novo” e “Te Amo Podes Crer”. Duas faixas de amor nas extremidades, mas um amor infinito, sem tempo: “Sinta o pulso de todos os tempos comigo”, na primeira, que encontra um par perfeito em “Vivo a pensar pra frente/Quando não mais houver cidade/Eu vou te achar/Com mil anos de idade”, da terceira. “Navegar de Novo”, a mais excessiva das faixas do disco e da carreira de Arnaldo Baptista, trata da estupefação do indivíduo diante do mundo moderno, das coisas rápidas, da opressão individual através de conjuntos habitacionais que distilam a homogeneidade, e ao mesmo tempo é incapaz de não ser esperançoso, apostando no futuro brasileiro e mesmo na expansão espacial. A ingenuidade mais banal, pelo grau de emotividade, transforma-se na utopia mais maravilhosa: “Conquistar o espaço/Navigaire de novo (cantado em sotaque português forçado)/Descobrir as novas terras que existem por aí/I’m sure of that/Acima da velocidade da luz/Pois não existem tais barreiras/Já que a luz é relativa também”. Pode não ser minha música preferida de Arnaldo Baptista, mas só perde para “Dia 36”, “Bomba H Sobre São Paulo” e talvez mais uma ou duas, dependendo do dia.

Ainda que Arnaldo Baptista seja acompanhado em baixo e bateria por seus colegas de Mutantes, Liminha e Dinho, e conte com os backing vocals de Rita Lee, Loki? é um disco extremamente solitário, mesmo introvertido (não é à toa que ele diz “Desculpe/Mas eu vou me fechar”). Que Arnaldo consiga passar toda essa intimidade e fazer desaguar sua sensibilidade heterodoxa através de um disco tão incomum e exigente, é um prodígio. Desses que só são permitidos aos gênios. (Ruy Gardnier)

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Publicado em 26 de maio de 2008 por em Uncategorized.
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