Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Lou Reed / Laurie Anderson / John Zorn – The Stone: Issue Three (2008; Tzadik, EUA)

Issue Three

Lou Reed é cantor e guitarrista, um dos pilares do rock americano seja com seu seminal grupo Velvet Underground, seja em sua carreira solo recheada de discos antológicos. Laurie Anderson é violinista, cantora e tecladista, além de artista visual e performática, cineasta e escritora, e figura decisiva da vanguarda artística americana desde os anos 70. John Zorn é saxofonista de jazz e música improvisada, com extensa e variada carreira discográfica, abrangendo diversos estilos de música, além de dono do selo Tzadik, uma das referências nos Estados Unidos para música improvisada, jazz, música experimental e música judia. Os três são novaiorquinos, de nascença (os homens) ou adoção (Anderson), e se uniram para o terceiro volume de apresentações ao vivo feitas na casa The Stone, no East Village de Manhattan, um espaço sem fins lucrativos para música experimental com direção artística de John Zorn. (RG)

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Todo mundo gosta de Lou Reed. Mas e Metal Machine Music, quem ouviu? Todo mundo ama The Velvet Underground & Nico (como se pode não amá-lo?), mas raramente alguém vai destacar “European Son” como uma faixa especialmente preferida. E pouca gente sabe que em muitas ocasiões os shows do Velvet Underground tinham enormes explosões de distorção e feedback de guitarra que iriam influenciar praticamente toda a música noise com ênfase em guitarra tanto nos EUA (Sonic Youth) quanto no Japão (Les Rallizes Dénudés, Fushitsusha). Então, nenhuma surpresa em ver Lou Reed escalado para uma noite de janeiro de 2008 no clube The Stone ao lado de sua nova esposa (e namorada por décadas), a estimadíssima Laurie Anderson, e do grande padrinho da música experimental americana afeiçoada ao jazz e ao noise, John Zorn. Juntos, os três realizam um atestado de boa saúde musical e reiteram seu enorme interesse por novas e aventureiras experiências no terreno do som.

O disco é composto de três faixas sem nome. Quem faz primeiro as honras da casa é Lou Reed, dedilhando sua guitarra sozinho. Lírico, ele parece buscar uma saída para as notas que executa, e a partir do momento que consegue, liga a distorção de sua guitarra e parte para um som mais cheio, alternando entre acordes muito graves e dedilhados agudos. A viagem vai se intensificando até se aproximar dos seis minutos, quando Reed começa a trabalhar com o feedback, e logo em seguida entre o alucinado sax de John Zorn encontrando as notas para dialogar com o agudo ruído que sai do efeito sonoro. Segue a partir daí uma dinâmica impressionante entre os dois, geralmente Reed buscando barulhos graves que enchem o som enquanto Zorn brinca de fio desencapado, ou então Reed trabalha com notas mais precisas e Zorn corre atrás dele para criar fraseados de diálogo. Ali pelo minuto 17, quando os dois rapazes já fizeram seu poderoso torneio para ver quem dá o agudo mais intenso, entra a mocinha com seus barulhinhos eletrônicos que evocam arranhões. Entram altíssimos sons de órgão e finalmente estão os três artistas no palco. Entradas geniais para cada um deles.

Quem inicia a faixa 2 é Laurie Anderson, com sons de violino que se confundem e transformam-se num emaranhado. Mas é quando a guitarra de Lou Reed parte para a distorção que a violência começa a reinar para valer, vindo de todo trio. Resulta um amálgama surpreendentemente quente, guiado pelos poderosos graves nascidos da guitarra de Reed e pelos sons etéreos que Laurie Anderson tira de seus apetrechos. A coisa se amaina lá pelo oitavo minuto, quando Zorn fixa-se numa mesma melodia para a parede de distorção de Reed. E é a ele mesmo que é dada a chance de finalizar a faixa, em alto volume.

John Zorn começa delicadamente o terceiro e último momento do disco. As dinâmicas entre os instrumentos são mais tênues aqui, mais buscando criar texturas sonoras do que solar. Mas no quinto minuto a guitarra de Lou Reed aumenta, no que é acompanhada pelo violino de Laurie Anderson, e a brutalidade começa a pipocar, primeiro cada um separadamente, depois juntos de novo buscando adensar o som, culminando num clímax de drones.

Ainda que o que mais impressione nesse The Stone: Issue Three sejam as tensões criadas entre os instrumentos, cabe ressaltar o poder da guitarra de Lou Reed ao trabalhar numa dinâmica de improvisação livre, alternando seus graves fabulosos (alô Earth e Sunn O))), é pra vocês) com momentos bluesy de enorme inspiração lírica. Longa vida à casa The Stone, e que ela possibilite mais encontros preciosos como esse (a saber, o volume 1 conta com John Zorn, Dave Douglas, Mike Patton, Bill Laswell, Rob Burger e Ben Perowsky, e o volume 2 com Fred Frith e Chris Cutler). (Ruy Gardnier)

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Três personagens fundamentais da “tradicional” vanguarda novaiorquina, executando o mais vertiginoso free-improv dos últimos tempos: quem curte esse tipo de som, mal espera para pôr seus fones de ouvido e experimentar, minuto a minuto, as seqüências puramente abstratas criadas por estes verdadeiros ícones da música do século XX. De um lado, a guitarra de Lou Reed, uma das mais singulares da história do rock, passeando pelo noise e pelo blues “pentatônico”, como lhe apraz. De outro, Laurie Anderson, artista performática e multimídia, reproduzindo seqüências rítmicas, samplers, etc. E o grande John Zorn, responsável por uma verdadeira revolução no jazz chamada Masada, tateando coltraneanamente gritos, apitos e estridências afins. Juntos, produzem um álbum tão diversificado nas texturas e climas, quanto coeso na concepção geral. Cada uma das três faixas é composta por pequenas suítes que variam do noise absoluto ao drone mais soturno. Na primeira, Reed puxa uma melodia com a guitarra distorcida, enquanto Zorn inicia uma série de modulações free; o duelo culmina com as intervenções harmônicas de Anderson, apaziguando o sentido caótico que orienta a faixa. Na segunda, a mais intrigante do disco, um quarteto de cordas esquizofrênico – “wagneriano”, poderia dizer – formado pelos soundscapes de Anderson e uma estranhíssima e barulhenta textura da guitarra de Reed, leva o álbum ao seu ponto mais alto: uma seqüência melódica repetitiva, criada por Zorn, que conduz a faixa, aos trancos e barrancos, para o seu fim. A terceira também é belíssima, mas, nesse momento, preenchido pela beatitude do caos, tomo conhecimento dos verdadeiros objetivos do trio. The Stone, esta casa de shows em benefício da qual esse encontro foi organizado, tem por objetivo estimular não somente a produção da música experimental, mas também de revertê-la financeiramente aos próprios músicos, eliminando objetivamente o atravessador, tão prejudicial a este tipo de música. É claro que Zorn organizou o disco e o evento no sentido de divulgar a proposta; mas pode-se dizer também que sua escolha refletiu certas afinidades duradouras, que perduram graças a um contexto prolífico como o de Nova Iorque. Surgidos respectivamente nas décadas de 60, 70 e 80, Reed, Anderson e Zorn confirmam uma linhagem longeva e diversificada da música americana. Talvez, pela primeira vez, ela tenha se manifestado em bloco, de forma tão consistente quanto inequívoca. Podemos entrever, nas várias nuances que compõem este álbum, as diversas figuras que apontam o passado e o presente dessa linhagem. E em todos eles a marca de uma vontade inexorável, em contínuo estado de mudança. Um nobre e eterno desejo de vir-a-ser, evocado em todos os momentos desta música maravilhosa. (Bernardo Oliveira)

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Três nomes conhecidos, duas apresentações reunidas em um álbum beneficente, cujos fundos serão revertidos em prol da casa nova-iorquina Stone. Todos consagrados e atuando em suas áreas de conforto, em um ambiente propício com propósito louvável e praticando um tipo de improvisação livre onde não existem erros, tudo é agregado à massa sonora, tudo é acidente e ainda assim, planejado.

A imagem é ideal para exposições de ego, típica da masturbação virtuosista que provocam no ouvinte (ao menos em minhas audições) um tédio profundo e talvez seja isto que ocorra em muitos momentos de Stone: Issue 3; a fronteira entre o despojamento da apresentação e o pretensiosismo dos músicos é menos que sutil; mas ainda assim, dentro deste quadro negativo e ressalvas importantes, ouvimos alguma vontade de produzir – diante da falta de arrojo, temos gigantes que mesmo cansados ainda rosnam. Talvez esta queixa seja mais adequada a Lou Reed, o maior e o que corteja de mais perto o patético, seja através de leituras de Poe, óperas, exumação musical. Lou Reed e Laurie Anderson estão há algum tempo sentados na fama, envelhecendo confortavelmente longe da marginalidade (mas sejamos justos, ele, principalmente, tem todo o crédito, nós é que não precisamos tolerar sua majestade)… além de Reed, desde muito não tenho paciência com os projetos de Zorn, acho que já fazem alguns anos que ouvi um disco dele que merecesse uma segunda audição e seu nome apenas não caiu no limbo pelo fato de sua Tzadik lançar vez por outra música do mais alto quilate – às vezes parece que Zorn criou um programa de computador que toca generalidades de sax como se Zorn fosse… Assim, a aproximação com um álbum deste leva inicialmente a pensar que, entediados com sua própria vida tranqüila, eles resolveram se reunir e entediar a todos que se propuseram a ouvir o derramar de seu vazio e a melancolia pelo tempo que passou.

Mas isto não funciona exatamente assim, apesar de cair no genérico, de utilizar as facilidades de alternar momentos de intenso noise com calmarias que enfatizam o silêncio, o fato de Zorn não tomar frente da condução da apresentação; a constatação de que a guitarra de Lou Reed ainda demonstrar energia e vivacidade, transitando nas muitas variações de tom com elegância; e principalmente, que as intervenções de Laurie Anderson são o que há de melhor aqui, seja na manipulação lúcida de seu violino, seja no emprego preciso e inventivo de alguns samples que colorem as paredes cinzentas de Zorn e Reed. Sim, previsíveis e cansados, mas no domínio de sua arte e alcançam pequenas iluminações como se, olhando-se durante a apresentação, lembrassem que ainda têm dentes e que estes além de triturar os vegetais ainda mordem.

Talvez seja isso, muitas casas dedicadas a apresentações de música experimental das mais importantes dos EUA estão fechando, o cenário é cinzento e desolador, mas a música continua a ser produzida, seja por jovens ou velhos sem medo de tentar algo novo; seja por jovens emulando seus antecessores; seja pela velha-guarda satisfeita em fazer o que sempre fizeram com destreza, sem deixar a chama apagar. Longa vida a todos. (Marcus Martins)

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Os primeiros seis minutos de The Stone: Issue Three são totalmente descartáveis. Lou Reed, em um improviso desprovido de qualquer inspiração, despeja excrescências de sua guitarra: notas atrás de notas sem qualquer fluidez ou coesão. Parece mais um adolescente que acabou de ganhar uma guitarra nova e está tentando emular um de seus guitar heroes – por alguns momentos tem-se a impressão de que ele quer encarnar um Jimi Hendrix, seja pela distorção usada na guitarra, seja pelo início do riff de “Foxy Lady” que ele toca mais de uma vez -, testando as diferentes posições dos captadores, brincando com programações pré-programadas de pedaleiras vagabundas e solando uma pentatônica de forma desordenada e sem sentido, como se estivesse fazendo um belo improviso. A primeira faixa só começa a ficar interessante depois que entra o saxofone nervoso de John Zorn, e que passa a dialogar com a guitarra de Reed. Zorn, sempre afiado e ultra criativo, leva a música para uma nova esfera, iniciando todos os fraseados que Reed tenta, sem fortuna, acompanhar. Zorn testa timbres, toca notas extremamente agudas, fraseados inusitados e dá sempre uma boa solução para tudo. Até os riffs e solos desinteressantes que Lou Reed cria, ele não só acompanha, mas eleva, trazendo notas mais fluidas e um ar de free jazz magnífico. Na segunda parte já se pode ouvir melhor a intervenção de Laurie Anderson, que adicionando seu violino e seus eletrônicos aos dois outros instrumentos, estabelece uma junção caótica à improvisação. É possivelmente a faixa mais marcante do disco. A guitarra de Lou Reed se mostra menos preocupada em solar de qualquer jeito que testar timbres mais graves da guitarra, e que servem de camadas mais profundas para a música. Zorn e Anderson estão operando seus instrumentos loucamente e pouco importa se o que cada um está tocando é parecido com o que o outro está tocando. Todos querem fazer seus instrumentos soarem histéricos e radicais. Já a terceira parte é mais calma e todos parecem respeitar seus momentos de irradiação em pró da continuidade e progressão da música. O que ouvimos em The Stone: Issue Three são dois artistas ainda no auge de suas formas e outro, o gênio maior dos três, em um momento menos criativo, que começa atirando para todos os lados, mas se encontra ao longo do disco. Obviamente que está muito longe daquele cantor e guitarrista que criou o noise-rock com suas distorções incomparáveis e revolucionou o rock ao trazer uma maneira completamente nova de tocar a guitarra rítmica, numa levada funk ultra-acelerada. Também está distante daquele artista que em Metal Machine Music subvertia todas as regras do gênero do rock e levava sua exploração sônica ao último grau com uma sonoridade densa e intricada. Para o bem ou para o mal, The Stone: Issue Three serve para matar a curiosidade. (Thiago Filardi)

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Publicado em 9 de junho de 2008 por em Uncategorized.
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