Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Bug – London Zoo (2008; Ninja Tune, Inglaterra)

The Bug surgiu em 1997 como uma dupla formada por Kevin Martin e DJ Vadim. Após a saída de Vadim, Martin passou a trabalhar exclusivamente sobre os ritmos jamaicanos, mais especificamente o ragga e o dancehall. Acompanhando o veterano The Rootsman, explorou sonoridades eletrônicas, às vezes com desmesurada e característica violência glitch. Prosseguiu experimentando nesta seara, acompanhado por MC’s como Warrior Queen, Cutty Ranks e Wayne Lonesome, entre outros. Mais de dez anos após Tapping the Conversation, The Bug chega a seu quarto disco, totalmente integrado ao movimento dubstep/grime, emplacando em 2007 três faixas de London Zoo (“Jah War”, “Skeng” e “Poison Dart”).

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Quem quiser compreender a afinidade entre a Inglaterra e o reggae, procure nos livros de história, por exemplo, pelos duzentos anos em que vossa majestade explorou, com mão de obra africana, a adocicada matéria-prima jamaicana. A influência do reggae na Inglaterra está ligada diretamente à afluência dos grupos étnicos provenientes da colônia inglesa, herança com a qual os ingleses ainda não souberam lidar com a devida gratidão e reconhecimento. Mas vamos deixar a ingenuidade de lado, pois muito já se escreveu e teorizou sobre as relações culturais entre “ocupantes” e “ocupados”, e não pretendo aqui fazer sociologia. Mas é importante frisar que, o contexto musical europeu e americano, tanto no que diz respeito ao mainstream como às vanguardas, têm na música caribenha seu elemento fundamental: mesmo o hip hop é tributário da música jamaicana em diversos aspectos, técnicos e artísticos. Não menos curioso é o embranquecimento do dub, apropriado conceitualmente por jovens oriundos dos países desenvolvidos, que o expandiram através de uma nova abordagem. Guardemos as críticas a este processo de apropriação e mitificação da cultura negra, e iluminemos o caráter de parceria entre a suscetibilidade do “ocupante” e a revalorização do “ocupado” que caracteriza o gosto inglês pela música jamaicana: ele representa uma realidade irreversível para a música européia contemporânea.

The Bug é um produtor que reafirma e ultrapassa esse contexto em diversos aspectos. Juntamente com o Basic Channel/Rhythm & Sound de Moritz Von Oswald e Mark Ernestus, Kevin Martin é responsável pelos momentos mais interessantes da exploração eletrônica da música caribenha, constituindo uma fonte criativa incontornável para o dubstep. Não me lembro de outra assinatura tão inconfundível como a que ele imprimiu nos discos Pressure e Aktion Pak, ou em sua parceria com o pioneiro Rootsman. Esses trabalhos se diferenciavam de toda a produção do gênero por conferir uma timbragem agressiva àquela batida característica do ragga, que tanto lembra o nosso baião e, dependendo da acentuação rítmica, algumas inflexões dos ritmos do candomblé. Dessa combinação surgiram clássicos como “Imitator”, “Politicians & Paedophies” e “Aktion Pak”, que, embora muito inovadores do ponto de vista formal, contavam com o flow irresistível de experientes MC’s anglo-caribenhos como Paul St. Hilaire, Wayne Lonesome, Tippa Irie, entre outros. É certo que Burial, Kode 9, Martyn, 2562, e todos os representantes dessa cena foram influenciados pela liberdade com que Kevin Martin manipulou a música jamaicana, com que destreza ele soube cooptar o trabalho dos Mc’s, embora o dubstep tenha tormado uma orientação bem mais reflexiva e suave.

Ocorreu que, em sendo o preceptor muito antenado e disponível, sua produção incorporou as inovações de seus discípulos. Assim, em 2007, The Bug editou três singles que, embora sonoramente distantes de suas produções anteriores, podem ser considerados verdadeiros clássicos da cena dubstep/grime: “Jah War”, “Skeng” e “Poison Dart”. A primeira, um grime pesadão com uma batida indescritivelmente sincopada, conta com os incríveis MC’s, Killa P e Flowdan; a segunda, somente com Flowdan, uma das melhores faixas de 2007; e a terceira, também um reggae, conta com a voz inconfundível de Warrior Queen. Alguns dirão que estes singles representam uma concessão de Martin no sentido de garantir sua vaga no bonde da história. Esses certamente não perdoarão a correção de rumo que estes singles e, particularmente, seu novo álbum, London Zoo, representam. É que as faixas de London Zoo têm, como os singles citados, uma pegada mais palatável, um inédito apelo melódico e, sobretudo, contorna o peso contrabalanceando-o com a intervenção dos Mc’s. Em uma comparação rápida, podemos dizer que, do ponto de vista da estrutura, enquanto o Rhythm & Sound cultivava a suavidade como meio de ressaltar as canções (“Jah Rule”, “Poor People Must Work”…), The Bug construía texturas sonoras para receber a intervenção free-style dos MC’s. London Zoo, no entanto, traz verdadeiros refrões: além das já citadas “Poison dart” e “Skeng”, podemos considerar como exemplo “Too much pain”, a belíssima incursão soft “You and me” e os hits potenciais “Angry” e “Murder we”. Em todas elas, a marca concisa e afiada do produtor, mas revestida de uma roupagem mais vigorosa que propriamente agressiva. Lamento somente a última faixa, “Judgement”: melodia piegas sobre uma batida sem graça, sem justificativa.

The Bug se tornou menos áspero para dar espaço ao discurso, ao intrincado trabalho da rima e da poesia, e, creio eu, para conferir ainda mais credibilidade ao seu trabalho. Pode haver, nas bordas da produção artística, algumas questões de cunho sócio-cultural, como a garantia de paridade civil por parte do parlamento inglês e da rainha, questões que me incomodam certamente e que estão longe de se resolverem: a mãe preta continua enchendo a mamadeira do melting pot universal, sem que isso se converta em uma melhoria real da vida dos imigrantes na Europa. O rap bling bling deu sua resposta, mas alardear ascensão social não me parece um caminho razoável. A música que emana desse disco é exitosa graças à interação efetiva, e não mítica, entre membros de diferentes realidades históricas. É claro que ninguém permanece irremediavelmente preso a elas, e London Zoo documenta uma relativa emancipação, testemunhada pelo teor político das letras. Se o álbum reflete de alguma forma essas questões, isso obviamente não compromete sua audição, pelo contrário: a torna mais irresistível, mais interessante e, no meu caso particular, dia a dia mais prazerosa. (Bernardo Oliveira)

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London Zoo é o quarto disco do projeto The Bug e, apesar de seu posicionamento na cena atual não ser o de inovador, as criações de Kevin Martin aparecem como resultado do amadurecimento deste grande produtor que apesar de não trazer de volta a agressividade de álbuns anteriores, é tão ou mais contundente pela precisão em que constrói bases que se adequam à perfeição ao trabalho dos MCs convidados. O que chama atenção para outro destaque do disco, apesar da grande variedade das produções e dos estilos bem distintos dos MCs, o disco é coeso e demonstra a existência de uma construção bem pensada, apesar de funcionar à perfeição como coleção de singles.

Martin continua a trabalhar com os ritmos jamaicanos, porém, é nítida a influência do modo de produção do dubstep em seu estilo, dividindo um espaço, em seus interesses, com o dub-techno alemão do Basic Channel e assemelhados. As sonoridades eletrônicas mesclam-se a batidas orgânicas e pulsantes, cada detalhe parece não apenas bem sucedido como necessário. Note-se que, por tratar-se de um álbum de canções, Martin foi generoso com seus vocalistas ao privilegiar os vocais na mixagem, sem os afogar nas camadas sonoras bem próprias do dub. Aqui opera uma das grandes mudanças no trabalho do The Bug, a contundência das faixas não mais depende da violência, da produção ‘estourada’, que apesar de ter produzido resultados peculiares e bem sucedidos, ameaçava cansar e se transformar em cacoete. E mesmo o lado mais ambient demonstrado em Pressure nem sempre convencia como obra original, fazendo excessivas referências ao trabalho dos alemães.

A secura, a produção sem gordura, sem exibicionismo, Martin não precisa mostrar que sabe produzir através de virtuosismo tolos ou exagerar no posicionamento das linhas de baixo para agradar a certos modismos do dubstep. Gênero este que, sem dúvida, deve muito às investigações de Martin com o dub, o techno, o dancehall, o ragga e todas as interseções destes gêneros que povoam a música experimental, com força, desde os anos 90. Assim, ao mesmo tempo em que Martin processa em retorno a influência que exerceu, sua abordagem do gênero é rica por justamente não tomar o dubstep como apenas um groove, rejeitando produzir apenas para criar um certo tipo de som, em momento algum ele abandona um certa ética que acompanha toda o seu trabalho e que foi responsável pela agressividade de lançamentos anteriores e aqui não se rende a certas suavidades e perfumarias que cortejam o trabalho de alguns dos mais festejados produtores jovens; por isso mesmo, ele fica próximo do grime e sua agressividade sem concessões, sem cair na produção tosca que acompanha a música de alguns produtores do gênero – assim, Martin parece tentar reunir o melhor de dois mundos, sem abandonar suas convicções.

Em um mundo ideal, diversas faixas de London Zoo seriam tocadas em rádios, em especial as duas faixas com Warrior Queen que deveria ser the next big thing! Claro que a agudeza das letras pode tornar algumas das faixas de digestão mais problemáticas para um público mais amplo, mas a verdade é que, por não participarem do grande esquema que domina a distribuição e divulgação de qualquer objeto cultural, e no caso da Inglaterra, por não serem queridinhos da NME, poucas chances existem para isto acontecer fora de círculos de apreciadores do grime/dubstep, que diga-se a verdade, é um ghetto. Mas no lugar de lamentar os fatos, melhor é afirmar que London Zoo apresenta-se não apenas como um dos bons lançamentos do ano, não apenas no dito ghetto do dubstep/grime/dancehall, mas da música contemporânea, sem limitações, o que pode chocar alguns dos fãs do trabalho pregresso do The Bug, pois este London Zoo deve ser ouvido junto a trabalhos de produtores como Wiley, D-Bridge, Flying Lotus, ou mesmo trabalhos mais ou menos comerciais, como os recentes de Lil Wayne, Bun B, ou N.E.R.D. (Marcus Martins)

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Parece que toda a força de expressão característica do rock reside, hoje em dia, em estilos como o grime, dubstep e nos sobreviventes gêneros jamaicanos como o dancehall e o ragga. No início da década de setenta o rock perdia o encargo de principal meio politizador e instrumento articulador das necessidades e angústias juvenis para o reggae e por quase uma década e meia foi o rap o gênero musical mais vital e capaz de pronunciar os brandos raivosos da juventude. De uns cinco anos para cá, o rap perdeu a força (assim como o rock anos antes) e criou-se um vácuo. Qual o ritmo capaz de satisfazer as necessidades dos jovens e preencher o vazio deixado pela baixa de criatividade do rock e do rap? Aproximadamente nesta mesma época se desenvolveu um novo gênero na Inglaterra, advindo do garage e do 2-step: era o grime, uma espécie de rap britânico, mas com todas as particularidades que os ingleses afro-descendentes puderam contribuir com seus sotaques e rimas diferenciados. Quase que paralelamente, outro estilo estava surgindo (também oriundo do 2-step, mas com o baixo de freqüências gravíssimas e morosas características do dub jamaicano): o dubstep.

London Zoo não é um disco de grime, sequer de dubstep. A música de The Bug estaria mais próxima do dancehall e do ragga, a exemplo do uso dos vocais e das batidas fortes e ameaçadoras. Mas tanto o grime quanto o dubstep são estilos que não existiriam sem as maiores tradições rítmicas da Jamaica, sempre muito bem abraçadas e representadas pelos ingleses. Foi o Reino Unido, aliás, que serviu de propagador e disseminador do reggae e do dub, tamanho foi o impacto desses estilos na cultura britânica. London Zoo é um verdadeiro zoológico, uma esbórnia musical que congrega todas as formas musicais mais urgentes e diretas presentes na cena underground inglesa e regida pelo produtor Kevin Martin, que pegou o embalo do dubstep e o adicionou à sua sonoridade regada de ritmos jamaicanos. O disco é repleto de sintetizadores minimalistas, baixos profundos, batidas vigorosas e vocais enérgicos. Une também algumas das melhores faixas lançadas como compactos e/ou em coletâneas de dubstep nos últimos meses como “Skeng”, “Jah War” e “Poison Dart”. Outros destaques vão para “Insane” (uma das melhores faixas do ano desde já), com participação avassaladora de Warrior Queen, “Too Much Pain”, com Aya e Ricky Ranking e a belíssima instrumental “Freak Freak”, que só reitera o talento de Kevin Martin como produtor e beatmaker. Chegamos a uma época do ano em que os discos definitivos começam a aparecer e a cativar o ouvinte. E London Zoo, mesmo não podendo ser restritamente decretado em sentenças curtas, é um puro deleite do início ao fim. (Thiago Filardi)

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A primeira vez que eu ouvi falar em The Bug foi no EP de remixes que Richard D. James lançou em 2003, Smojphace (a outra faixa era um remix de uma faixa dos primórdios do 808 State). Bastou ouvir “Run the Place Red”, primeiro o remix e depois a versão original, para salivar imaginando todo um submundo britânico inacessível mesmo à midia, cheio de sons dançantes e ao mesmo tempo abrasivos como os que esse produtor fazia. Inevitavelmente, a busca por sons parecidos não rendeu muitos frutos, já que The Bug não era exatamente “mais um”, mas sim um produtor de ponta, e também porque no momento não havia um banco de dados como o discogs para facilitar a busca. Algum tempo depois, descobri o disco Pressure e foi a confirmação de um talento ímpar, tanto pela criatividade quanto pela área de interesse totalmente própria e incomum.

Aí ano passado, no meio da febre do dubstep e de seus chachoalhantes contratempos, surgia uma faixa tão anômala quanto apaixonante. Tratava-se de “Skeng”, inacreditavelmente lenta, soturna, econômica nas batidas e nos elementos acrescidos a ela, contando com os graves e assustadores vocais de Flow Dan, um rapper/cantor com dialeto de gueto jamaicano e uma incrível precisão de gingar seus vocais no ritmo da música. Apesar do baixíssimo BPM, da criatividade rítmica da produção e do climão insidioso, a faixa não se encaixa no universo do dubstep. Mas, mesmo assim, ela foi assimilada ao movimento, entrando nas discotecagens e nos playlists dos programas de rádio associados à febre do gênero. De alguma forma tortuosa, a “cena” que eu prefigurava ouvindo aquela faixa em 2003 estava estabelecida e bastante prolífica – ainda que o som experimentasse para outra direção em relação à que eu imaginava.

London Zoo apresenta os três singles lançados por The Bug em 2007 – além de “Skeng”, “Jaw War”, outra com Flow Dan, e “Poison Dart”, com a rapper Warrior Queen. A notícia ruim é que são disparado as melhores faixas do disco, e as que chegam perto da excelência delas são colaborações com os mesmos MCs: “Insane” com Warrior Queen e “Warning”, com Flow Dan, com direito até à típica melodia vagabunda de tecladinho característica das produções de grime. São facilmente as faixas em que existe mais pressão, tanto pela vitalidade dos cantores/MCs quanto pela incidência de sons fortes para encher a produção e criar uma sonoridade mais suja e caótica. Há ainda outra muito digna de nota, “Fuckaz”, tendo por MC o digníssimo Space Ape, mais conhecido por suas parcerias com Kode9.

As outras faixas, aliás concentradas na primeira parte do disco, oferecem uma faceta mais convencional ao trabalho de produção de The Bug. Canções com refrões repetidos à exaustão, algumas vezes com dose excessiva de sacarose ou então uma batida ragga apenas protocolar, e temos algumas faixas não exatamente ruins, mas sem brilho em sua regularidade – caso de “Angry”, com Tippa Irie, ou “You and Me”, com Roger Robinson. Mas as faixas com vocal de Ricky Ranking realmente excedem o limite: melosas, abusando do clichê (o no pain/no gain de “Too Much Pain”), com produções que apresentam deslizes semelhantes (coros, sinos, sonoridades bem batidas), essas faixas representam o lado mais fastidioso do disco, incapaz de conjugar tradicionalismo com inovação.

A única faixa instrumental do disco, “Freak Freak”, se não decepciona, também não encanta especialmente. Se faz algo, é ratificar como Kevin Martin consegue criar composições climáticas e abstratas com seu universo de predileção, o ragga, o dancehall, o reggae, e com suas sonoridades preferidas – a bateria no delay, os ecos, etc. Ainda que London Zoo não apresente o artista no momento mais criativo e ousado de sua forma, é sempre um prazer reavivar o contato com um produtor tão determinado e pioneiro quanto Kevin Martin e seu The Bug. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 15 de junho de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , , .
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