Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Aviões do Forró – “Chupa Que É de Uva” (2008; IR CD’S, Brasil)

Usualmente eu volto do trabalho andando, por volta de uma da tarde, atravessando um dos bairros mais complicados de Salvador, localizado bem ao centro da cidade, é extremamente populoso e violento, mas claro que a esta hora do dia o que se vê são muitas pessoas na rua, seja deslocando-se a algum destino, seja apenas ficando ali, gastando tempo, conversando – é um clima que apenas é visto nos bairros mais pobres, normalmente afastados do centro da cidade, ou ao menos naquelas regiões de acesso “perigoso”. Nunca presenciei qualquer situação que corroborasse a fama – justa – do local, o que vejo é aquela alegria relaxada, sem grande exigência. Todo esse ambiente é muito barulhento – trânsito, alto-falantes, pessoas gritando e música, muita música saindo de casas, lojas, carros e os famigerados alto-falantes presos aos postes públicos criando uma massa sonora que deixa pouco espaço para o silêncio. É nessas horas que tomo contato com um tipo de música que evito ouvir, que preferiria ignorar mas que é a verdadeira trilha sonora da cidade – o pagode mais suburbano que não chega ao rádio, o exército de cantores e cantoras armados com um teclado que toca a mesma base repetitiva para todas as músicas, seja arrocha, brega, forró, sertanejo, um tipo de minimalismo que a tudo iguala. Pode, até deve, ser preconceito, mas uma das coisas fáceis de perceber é que boa parte das pessoas liga muito pouco para o que estão ouvindo, seja por que ligam pouco se a reprodução sai de condições mínimas para uma audição razoável (alto-falantes estourados, sons de carro distorcidos, rádios de pilha sem qualquer fidelidade) ou pela curiosa situação onde o grande sucesso é porcamente regravado por um desses generalizadores, o que importa não é ouvir exatamente um certo produto, mas o produto certo, aquele que todos devem ouvir. A explicação para isto, apresentado de forma tosca e simplificada é motivo para texto de maior fôlego que talvez eu não possa dar cabo.

Não é difícil ver pessoas dançando na rua, especialmente homens bebendo e crianças e não deixa de chamar atenção quando crianças, com perfeito domínio da letra cantam com evidente jubilo “Vem meu cajuzinho / Te dou muito carinho / Me dá seu coração / Me dá seu coração” imitando os trinados agudos da característicos da vocalista do Aviões do Forró. O que se percebe é que toda esta parte e a subseqüente é cantada com grande expectativa, quase ante-gozo do refrão, gritado com toda apoteose: Na sua boca eu viro fruta / Chupa que é de uva / Chupa, chupa / Chupa que é de uva”. Digo isso sem qualquer juízo moral, a música nem de perto é das mais erotizadas da temporada, mas é curioso como seu sucesso se difundiu de forma rápida e peculiar.

“Chupa que é de Uva” é provavelmente o grande sucesso de 2008 no Nordeste, certamente na Bahia – onde pode ser ouvida a todo momento, levando pessoa a dançar no meio da rua, fazendo grande sucesso entre as crianças. Pela forma como a música foi recebida, fica fácil perceber que mais que o aspecto musical, o maior trunfo da música foi as inúmeras possibilidades de piadas de cunho sexual gerado pelo refrão, sendo muito mais citada, como um bordão, que cantada e aparenta que poucos sabem mais que seu refrão. Assim, parece que as crianças cantando a letra, aguardando o refrão, parecem apenas cumprir uma obrigação, aguardando o momento do êxtase encapsulado no refrão.

O Aviões do Forró é uma banda de Fortaleza que muito se assemelha a um empreendimento empresarial; focada em atender, supostamente, a certa demanda popular, é dos maiores sucessos de público no Nordeste, sem passando abaixo do radar da mídia tradicional. O som deles seria uma espécie de “forró de arena”, que poucas semelhanças possui com o cânone do forró, em especial pela quantidade de misturas a que foi submetido, sendo no fim muito semelhante a bandas como Calypso. Neste época do ano onde acontece um grande êxodo para as cidades do interior dos estados do Nordeste, não há vez para Ana Carolina, Ivete Sangalo ou qualquer outra, a grande diva será Solange Almeida. No fim, sei pouco o que dizer disso tudo, o incômodo vem menos da falta de qualidade predomina na música de maior apelo popular no Nordeste que o particular aspecto empresarial que uniformemente domina o mercado. O modelo seria uma espécie hibrida da boy/girl band, onde os empresários não apenas são os grandes beneficiários financeiros como também determinam cada aspecto do produto, seja dos músicos, do material a ser gravado, do direcionamento “artístico”, das roupas, etc; unindo isso a uma forma de Motown às avessas, uma produção serializada de música que prescinde de qualquer aspecto musical, para unicamente atingir metas comerciais pré-estabelecidas. Um bom modo de perceber algumas dessas coisas é o texto da página da Wikipédia da banda. Outra vez, temos um pequeno grão de um problema muito mais complexo e de nuances que precisam de mais matizes para ser compreendido, nuances essas aliás, inexistentes na música que mas parece uva azeda, que destrói o paladar e faz perguntar a Deus do céu, por que tamanha judiação? (Marcus Martins)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 21 de junho de 2008 por em Uncategorized.
%d blogueiros gostam disto: