Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Nico Muhly – Mothertongue (2008; Bedroom Community, EUA)

Nico Muhly nasceu em 1981 e estudou música clássica e literatura na Universidade de Columbia e estudou composição na prestigiosa Julliard School. Muhly vem traçando trajetória paralela entre seu trabalho de compositor e produtor de obras alheias, além de ser responsável pela gravação de muitas obras de Philip Glass nos últimos anos. Sua respeitabilidade no mundo fechado da música clássica vem crescendo, apesar de sua grande relação com a música pop, compondo muitas obras por encomenda, incluindo peças sacras e sendo condutor em uma série de concertos que contou com Antony Hergaty (do Antony and the Johsons) como solista. Como produtor, trabalhou com nomes como Björk, Will Oldham, The National, Rufus Wainwright entre muitos outros. Em 2007 lançou seu primeiro álbum de composições próprias, Speak Volumes, que foi seguido em 2008 por Mothertongue, além de um álbum de composições para trilha sonora do filme Joshua. Apesar da pouca idade já conta com um vasto crédito como compositor tendo sido agraciado com uma noite de apresentações dedicadas a suas composições no Carnegie Hall.(MM)

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Mothertongue não é um grande disco, ao menos não daqueles que vai mudar perspectivas. Nico Muhly não vai redirecionar – por hora – a música erudita, pop ou experimental. Isso nem é necessário. Ainda assim, é revigorante ver como um incensado compositor jovem busca absorver o máximo de possibilidades e cria um disco híbrido, repleto de desvios e liberdade. Com um currículo de produções e participações em obras de músicos de prestígio, diversos trabalhos tocados por orquestras respeitadas e com um disco de estréia que apesar de muito bom, parecia esconder as cartas, Muhly conta com seu carisma e juventude para ser uma das grandes apostas para trazer interesse de público a gêneros que supostamente estão mortos. Suas referências podem oscilar entre Ligeti e Björk, Brahms e o Radiohead, sem aparente hierarquia. Neste álbum em especial, ele parece influenciado por composições para coro e pelo trabalho de Meredith Monk. Mas tudo isso é apenas exercício de aproximação, pois um exame detido do álbum revela que cada uma das escolhas de Muhly reflete mais escolhas coerentes que o simples ato de citar nomes e listar referências.

Apesar da crescente respeitabilidade no meio erudito, Muhly abusa no trânsito entre estilos, indo do experimento vocal ao folk, intercalando passagens dissonantes que não pertencem exclusivamente a qualquer dos gêneros. Suas composições se aproximam mais do controle da composição clássica que da improvisação e do acidente que conduzem à música pop, mas, ainda assim, estes são elementos muito presentes em sua música e um de seus grandes trunfos é justamente não ter pudor em empregar qualquer elemento que tenha à mão e que sirva a seus propósitos.

Em dez faixas e durante quase cinqüenta minutos, Mothertongue aprofunda procedimentos encontrados em Speak Volumes e investe com maior ímpeto na experimentação. O álbum, produzido por Valgeir Sigurðsson (produtor de Björk, CocoRosie, Múm), é dividido em três seções distintas (“Mothertongue”, “Wonders”, e “The Only Tune”), que formam uma espécie de tríptico em que cada uma das partes representa um diferente enfoque das investigações de Muhly a respeito da memória e das suas relações com a linguagem.

A primeira parte consiste em um experimento vocal em quatro movimentos, tendo como principal intérprete a mezzo-soprano Abigail Fischer, que canta a lista dos endereços dos locais onde ela residiu, misturada a ruído; efeitos eletro-acústicos; arranjos para cordas (ora delicados, ora dissonantes), piano e metalofone; sons de alguém tomando banho, comendo torradas (“Shower”) ou fritando ovos (!). Todos estes elementos entrelaçados formam o conjunto de peças mais efetivo do álbum, resultando em uma tensão permanente que nunca evidencia sua origem – uma espécie de mal-estar não identificado mas permanente, um fluxo que no lugar de apresentar uma narrativa, vence pela saturação. Um dos métodos para alcançar este efeito foi a constante alternância de tempo e tom com grande impacto. Falando sobre a composição, Muhly disse que:

“I tested myself and managed to write down two pages filled with numbers, addresses, the names of the states, the capitals of the countries in West Africa (surprisingly), friends’ phone numbers in other countries, a social security number, my mother’s old, old studio number from the mid 80’s. The result of this is ‘Mothertongue’ the song, which mimics this process of discovering all the codes and numbers that make up my – and Abigail Fischer, the singer’s – personal archaeology”.

Aqui identificamos uma das grandes distinções da obra de Muhly para a música clássica convencional – o nível de manipulação de estúdio e a forte presença da mão de Sigurðsson tornam difícil imaginar uma reprodução fiel de tais gravações por uma orquestra, uma vez que algumas das mais fortes características das peças são empregadas na pós-produção aproximando-se muitas vezes mais da noção de escultura sonora que de composição em sentido estrito.

A segunda parte (“Wonders”) segue o mesmo padrão de arranjos vocais de “Mothertongue” mas é composta especialmente para cravo, trombone, percussão e voz; e se ela perde em complexidade e é composta por referências mais simples, seu resultado é o mais barulhento e Muhly intensifica ao limite o uso de contrastes e dissonâncias até a cacofonia. Os vocais e o trombone ficam a cargo de Helgi Hrafn Jonsson, que canta um poema do século XVII e não consegue alcançar completamente o propósito disto, apesar dos argumentos de Muhly em entrevistas, sobre sua meditação sobre ansiedades relativas ao período histórico na Inglaterra à época do poema, encapsulado no verso “These things seem wondrous, yet more wondrous I, whose heart with fear doth freeze, with love doth fry.” Assim, podemos restringir a faixa como observações a respeito de viagens e medos frente ao desconhecido com seus progressos e recuos bem apresentados pelas harmonias (dissonâncias) vocais.

A terceira parte, intitulada “The Only Tune” começa como alívio diante da intensidade das seções anteriores, toma as formas da música folk e sua imensa capacidade de transmitir narrativas. Baseada em simples composições para voz, cravo ou banjo, surpreende pela simplicidade, em especial na faixa “The Old Mill Pond” cantada pelo artista folk Sam Amidon acompanhado de seu banjo que inicia convencional para apenas no final, o arranjo vocal aproxima-se da complexidade de “Mothertongue” e obtém grande efeito com a entrada de diversos efeitos e uma explosão ao final, com piano, percussão e field recordings das mais diversas origens. Os meios empregados impressionam mais quando sabemos que tal seção conta a história de alguém que mata a própria irmã e um dos sons concretos utilizados são os de facas de açougueiro se amolando e sons de uma baleia sendo cortada – sinistro. Tal história faria parte da memória de infância de Muhly, que a ouvia de seus pais e tentou impor o contraste entre a suavidade da música folk e a violência da história, o que apenas aumenta o efeito das canções. A seção termina com a faixa “Skip Town” que pouco contribui para o efeito geral do álbum e parece bem gratuita e deslocada das outras partes.

Apesar da independência das seções, e a despeito da aparente falta de unidade entre elas, existe um fio que une todo o trabalho, quer seja tematicamente em torno de questões de linguagem, quer seja o fato de Muhly estar interessado em possibilidades no uso da voz e a ressonância disso enquanto eco da memória e da falta de comunicação apesar de todas as inovações tecnológicas e de toda ansiedade por isso causada. Muhly é conhecido por seus interesses em diversas áreas do conhecimento e por seu método de composição que parte, antes da música, de fragmentos de memórias, material coletado em livros, filmes e música alheia – criando uma colcha de retalhos que vai informar seu processo de composição. Um dos elementos que percorrem todo o álbum é a idéia de que listas e arquivos pessoais podem transmitir algo que está fora do alcance mais imediato reprodução da memória. Todas estas informações servem para elucidar muito da música, e seu excesso absurdo é apenas resultado das próprias preocupações do compositor, não sendo gratuitos em qualquer momento. Havendo interesse nisso ou não, bastaria a simples audição do álbum para transmitir a sensação de ansiedade e desconforto, de um acúmulo excessivo que apenas nos faz mirar o vazio e nos apegar às pequenas memórias que nos permitem saber quem somos. (Marcus Martins)

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É um trabalho capcioso e desnecessário tentar rotular a música de Nico Muhly, pois esta transita por diferentes terrenos, às vezes firmando-se em algum deles, mas sem se fixar em nenhum por definitivo. Há um quê de minimalista nas variações e progressões dos temas, especialmente a primeira parte, “Mothertongue”, composta em quatro exercícios, na qual as influências de Ligeti (no uso das vozes) e Reich (na tensão harmônica) se mostram evidentes. Entretanto, Mothertongue está para além do clássico moderno. Muhly é talentoso e versátil o suficiente para unir formas quase opostas de se fazer música (e ainda entendidas desta maneira até hoje), como a música erudita e a canção pop. A segunda parte “Wonders”, divida em três, marca uma ruptura de Muhly em relação ao tema anterior. Uma ruptura, porém, consciente e que não abandona por completo o tratamento clássico dado anteriormente. Em vez de várias vozes sobrepostas falando rapidamente, o que se ouve é apenas um cantor, entoando de modo dramático uma melodia bastante carregada, que pelos arranjos, poderia até ser comparada à fase mais obscura e experimental da cantora alemã Nico (algo entre os discos The Marble Index e Desertshore).

É notável que Nico Muhly detenha uma habilidade que confere a poucos músicos. Sua versatilidade está diretamente ligada a um aspecto camaleônico de seu caráter. Seja Philip Glass, Antony Hegarty ou Will Oldham, todos os músicos com quem Muhly colaborou parecem emprestar-lhe um pouco de sua música, de sua essência, de sua personalidade. Se na primeira parte de Mothertongue o compositor norte-americano está mais para um Philip Glass, na segunda, explorando canções dolorosas e arrastadas, está para um Antony Hegarty. Já na terceira parte, a insistente “The Only Tune”, Muhly se aproxima bastante de Will Oldham, principalmente no que se refere a trazer a tradição do folk para os tempos modernos e atualizá-la, dando-lhe nova roupagem. Dessa forma, ele comprova toda sua destreza, passeando por pólos musicais opostos, formatos arcaicos, mas conferindo-lhes coesão e experimentalismo. O conceito de Mothertongue pode até parecer um pouco óbvio, afinal, o que Muhly pretende explorar aqui são diferentes maneiras de se expressar através da língua humana, ou maternal. Por vezes o disco é demasiadamente explícito e pouco sutil na sua construção e reprodução. Mas esta é uma das características do compositor estado-unidense, que consegue trazer uma unidade impressionante a uma linguagem musical tão eclética e ambiciosa. O principal trunfo de Mothertongue é provar que estilos aparentemente tão antagônicos e impenetráveis entre si, como o pop e o clássico podem, enfim, caminhar juntos. (Thiago Filardi)

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As quatro partes de “Mothertongue”, a peça que dá inicio ao segundo disco de Nico Muhly, dependendo do repertório que já se tem, podem evocar muitas lembranças musicais. “The Murder Mystery”, do Velvet Underground, pela profusão de vozes simultâneas que causa uma confusão que tira o chão; “Farmer in the City”, primeira do disco Tilt de Scott Walker, pelo vocal melodioso que evoca uma sensação de terror iminente (além do fato de que os cantores cantam numerais); e “Hope There’s Someone”, de Antony & the Johnsons, pelo lirismo desgarrado diante do vazio. Claro que nenhuma dessas comparações explica a música, mas dá um pouco do clima instaurado. O principal propulsor da faixa é a voz humana, modulada de forma a criar um labirinto de fundo e ao mesmo tempo responder rítmica e melodiosamente às intervenções de piano e outros instrumentos, além de registros de campo. Fica claro que, incorporando os sons familiares da rotina de uma pessoa e fazendo uma cantora dizer uma série de endereços, ele busca um estatuto para a música que se conecte às vivências “não musicais” do cotidiano. Mas, sinceramente, a proposta – que, confesso, não depreendo inteiramente – me seduz menos que o resultado, que mistura vigor e cálculo para criar uma série de variações muito inventivas e culminar num clímax de deixar boquiaberto.

Em seguida, voz e cravo. Do erudito experimental somos transportados para o folk britânico de séculos passados ou para as baladas do King Crimson. Trata-se de “The Wonders”, em três partes, que alterna momentos de um madrigal do século XVII e altera bruscamente a estrutura para fazer competir vozes, trombone e cravo, saindo ríspido das harmonias doces para entrar no desequilíbrio contemporâneo. A proeza é tão fascinante quanto a da faixa anterior.

Em seguida, uma nova série de três partes intitulada “The Only Tune”, que trabalha com o repertório do folk americano e repete elementos de uma mesma frase, e trabalhando de maneira semelhante à segunda peça do disco: inicialmente contornos de folk tradicional, banjo em uso costumeiro, e a faixa evolui rumo à fragmentação e ao descontínuo que vão num crescendo de voz e instrumental até o fim da segunda parte. A terceira parte, mansa e doce, relata uma história inteiramente oposta à tranqüilidade evocada. Pelo trabalho experimental em cima de um repertório tradicional, a peça evoca Sufjan Stevens e o fantástico Song Cycle, de Van Dyke Parks.

“Skip Town”, única faixa “solta” do disco, lembra, pela marcação rítmica feita pelo piano, algumas vinhetas do Drukqs de Aphex Twin.

Como se percebe de todas as referências declinadas, Nico Muhly chuta para todos os lados em Mothertongue. O que não era de se esperar em intento tão ambicioso e tão cheio de pompa era que desse certo, mas incrivelmente dá. Apesar da algo desconfortável sensação de que tem alguém fazendo esforço demais para fazer uma obra monumental colando tudo aquilo que acha, Muhly tem um real toque de Midas que geralmente falta a esses maximalistas que adoram chamar atenção pelo espalhafato (como, err, Matthew Barney). Que venham novos discos e a confirmação de um grande artista. (Ruy Gardnier)

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Não que Mothertongue seja exatamente uma obra-prima, mas é impressionante o preciosismo com que Muhly produz sonoridades híbridas, que remetem ao folk, ao minimalismo, ao dodecafonismo, ao canto gregoriano e por aí afora. Nas três suítes e na faixa avulsa que compõem o álbum, a marca de um produtor que, ainda jovem, cria uma linguagem tão desafiadora quanto instigante. Me admiro muito com trabalhos como este, produzidos mais precisamente nos últimos cinqüenta anos, que habitam uma zona de indistinção entre procedimentos e sonoridades do universo pop e erudito. Mas também me coloco a seguinte questão: ao invés de indicar onde se produz o suposto intercâmbio entre os dois universos, não deveríamos de fato analisar a obra sem “distinguir a indistinção”? Porque, no fim das contas, é o que os críticos acabam fazendo: relevando aquilo que a obra põe como irrelevante, destacando justamente aquilo que muitas obras propõem como superado e desgastado. E cá estou eu, gastando algumas linhas sobre o assunto enquanto Nico Muhly já se encontra anos-luz desta discussão. O crítico que se vire para criar uma abordagem compatível com a novidade desta música. (Bernardo Oliveira)

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Publicado em 24 de junho de 2008 por em Uncategorized.
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