Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Shuggie Otis – Inspiration Information (1974; CBS, EUA)

Shuggie Otis é cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista nascido em Los Angeles, na Califórnia. Filho do músico, empresário, DJ, dono de gravadora e apresentador de TV Johnny Otis, Shuggie (nascido Johnny Otis, Jr.) se aventurou cedo pela música, apresentando-se em clubes noturnos com seu pai e tocando com músicos mais experientes. Assinou com a CBS e em 1969 lançou seu primeiro disco, Al Kooper Introduces Shuggie Otis. No ano seguinte saiu o LP Here Comes Shuggie Otis, produzido pelo seu próprio pai. Em 1971 foi lançado Freedom Flight, que contém a canção “Strawberry Letter 23”, gravada com bastante sucesso em 1977 pelo The Brothers Johnson. Inspiration Information chegou às lojas em 1974 e só teve uma edição para CD em 2001, pelo selo Luaka Bop, de David Byrne. É o último álbum de estúdio do músico californiano, que até hoje continua fazendo gravações esporádicas de caráter colaborativo. (TF)

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Quando em 2001 o selo Luaka Bop de David Byrne reeditou em CD o último LP de estúdio de Shuggie Otis, já era hora de desenterrar um tesouro tão precioso como este. Não que o disco tenha sido ouvido por muitos (e até hoje continua um tanto desconhecido), mas, ao menos, formou uma nova legião de admiradores do músico norte-americano (eu incluso, que, aliás, não fui conhecer o disco exatamente em 2001), que em 1974 trazia evoluções às inovações trazidas por Sly Stone, Jimi Hendrix e Stevie Wonder em termos de composição e texturização e também criava uma sonoridade que, de certa forma, serviria de anteprojeto para a carreira musical de Prince, um dos artistas de maior sucesso da década de 80.

Inspiration Information tanto não é uma obra-prima da música moderna quanto do soul, funk ou rock (afinal, qual o estilo apresentado por Otis?), mas é extremamente visionário e que mostra novas possibilidades para a música pop miscigenada dos EUA. Trata-se também de um álbum que põe à prova todo o talento do músico, que, anteriormente, havia feito discos ainda muito influenciados por Jimi Hendrix e com guitarras cheias de excesso na sua virtuosidade e que mergulhavam na auto-indulgência. Ainda que fosse capaz de verdadeiras pérolas pop como “Strawberry Letter 23” e as outras canções adicionadas à versão de 2001 do disco, faltava uma coesão maior na sua sonoridade, assim como certos riscos a serem tomados, pois talento sempre lhe houve de sobra. Coincidentemente ou não, Inspiration Information foi seu último disco, que apesar de possuir um teor mais experimental em relação às suas criações mais antigas, traz sucessos imediatos como a faixa-título e cria melodias grudentas, presentes ao longo de todo o LP.

A faixa-título é imediatista e pegajosa, mas a seguinte, “Island Letter”, é lenta e constrói todo um clima para envolver o ouvinte. “Sparkle City”, talvez a que eu menos goste do disco, tem uma guitarra funkeada e uma produção um tanto quanto banal para os parâmetros da soul music e do próprio Inspiration Information. “Aht Uh Mi Hed” (com as brincadeiras silábicas e onomatopéicas que Prince abusaria mais tarde), a última do lado A, começa com um pattern de bateria bastante distinto e que lembra as inovações de percussão trazidas por Sly Stone alguns anos antes. Aqui a produção do disco fica bem clara, na sua precisão de timbres, no seu arrojo e na sua capacidade de climatização, unindo instrumentos muito bem dinamizados na gravação e que, por acaso, foram todos tocados pelo próprio Otis, à exceção das orquestras e dos instrumentos de sopro.

Não só multi-instrumentista, mas cantor, compositor, produtor e arranjador. Otis faz tudo isso e um pouco mais em Inspiration Information. Talvez por isso venha a comparação inevitável com Prince, que ficou conhecido anos depois por ser faz-tudo em seus discos, pelo menos, antes de se unir ao The Revolution. Mas enquanto Prince sempre optou por timbres mais pesados e pasteurizados, Otis era quase como um purista na utilização dos instrumentos e na timbragem dos mesmos. No lado B do disco, e o que merece maior destaque, ele cria uma ambiência sonora bastante invejável, com texturas lindíssimas e sonoridades cristalinas. A percussão de tão bem gravada, timbrada e por soar quase mecânica em alguns momentos, passa a impressão de que é eletrônica ou que foi programada de algum modo. Com “Pling!” e “Not Available” Inspiration Information termina de forma magistral, com órgão, baixo, vibrafone, guitarras e percussões tão sutis na sua execução que transmitem uma delicadeza e uma sensibilidade impressionantes para um músico de 20 anos recém completos.

Otis pode não ser tão conhecido como Prince ou tão inovador musicalmente como um Sly Stone, mas é um artista de talento visionário, inigualável e inspirador. (Thiago Filardi)

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Redescobertas costumam ter alguns aspectos negativos de que pouco se costuma falar. O principal deles talvez seja a superestima na tentativa, louvável, claro, de se tentar fazer justiça a algo esquecido ou pouco considerado. Na tentativa de chamar a atenção para algo legitimamente digno de nota, existe o risco de superdimensionar a importância e criar termos de comparação que não fazem nada bem aos discos em questão. Com Inspiration Information parece se dar exatamente isso: o editor do Allmusic, Stephen Thomas Erlewine, em sua resenha do relançamento, basicamente discute o hype em cima do disco, comenta o estatuto de originalidade e as comparações feitas com os grandes mestres da música negra ao invés de ir direto ao ponto e analisar a música.

É um disco um pouco contraditório. Nele, a gente ouve toques daquele pop sofisticado cujo maior representante naquele momento era o Steely Dan e que anos depois constituiria fonte para repertório de rádios de easy listening; ouve-se também coisas que poderiam aproximar o disco do jazz comportado que se transformaria no nefasto smooth jazz dos anos 80 ou, na melhor das hipóteses, uma interpretação pessoal moderada das loucuras do jazz cósmico de Sun Ra, Alice Coltrane ou Rahsaan Roland Kirk; mas também ouve-se um compositor inspirado para ganchos pop e acima de tudo um artista disposto a levar o rhythm & blues para lados ainda inexplorados, seja na instrumentação ou na atmosfera meditativa característica do álbum, mas fortemente pronunciada no lado b. É principalmente nesse aspecto aventuroso que Inspiration Information sabe ser mais cativante.

“Inspiration Information” abre o disco numa levada de soul leve que ganha pela pegada pop da composição, que atinge momentos solares no coro do refrão e provoca aquele feelgood de tarde de domingo. “Island Letter”, por sua vez, já prepara o disco para seu lado mais lento e viajandão, com um longo momento instrumental de guitarra cheia de efeito, teclados e vibrafone. “Sparkle City” parece equilibrar os momentos instrumentais, agora com orquestração, com ou soul de andamento mais rápido. “Aht Uh Mi Hed” começa com uma programação de bateria vagabunda de teclado e, pela delicadeza e sofisticação do arranjo, se transforma numa balada elegante e climática.

[Aliás, é possível argumentar que esse é o disco que melhor tenta dar estatuto artístico à programação de bateria desses teclados tão característicos da música de barzinho ou de churrascaria].

O lado b ouve-se melhor como uma grande faixa única em que alterna momentos de guitarra, órgão, teclado, ora em solo, ora em diálogos de instrumentos. O resultado é por vezes emocionante quando evoca a solidão meditativa, com notas sendo gentilmente colocadas ao longo de cada faixa. Mas em alguns momentos o som recai numa finesse algo modorrenta, como evidenciado em “Pling”. Quando começa a última faixa do disco, a excitante e rápida “Not Available”, a gente percebe o que estava faltando: a guitarra, elemento mais original desse disco, com um swing inequívoco e um toque todo pessoal.

No geral, é um disco que não consegue resolver todos os problemas que coloca (em especial as tensões entre o pop-jazz da banda de Donald Fagen e o soul/r&b de suas tradições), mas que ao menos os coloca de uma maneira original. Caso sua carreira discográfica tivesse se mantido, possivelmente ele teria lapidado as experiências de seu lado b em algo magnífico, lendário. Mas isso pertence ao reino das hipóteses. Como é, Inspiration Information apresenta ora verdadeiros momentos de lirismo, ora momentos de swing aguado. Mas os momentos bons, a maioria, sustentam o interesse no álbum. (Ruy Gardnier)

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Se eu precisasse definir Inspiration information em uma ou duas palavras, diria que a elegância e o comedimento são os termos mais adequados. Combinando elementos do soul e do rhythm & blues, o multiinstrumentista Shuggie Otis produziu um álbum onde cada faixa, cada arranjo, cada elemento se comporta de um modo muito peculiar no quadro geral do gênero. Em que sentido? Geralmente, o soul se apresenta através de faixas concisas, refrões fortes, instrumentações objetivas, como se pode ouvir na música de Otis Reading, Ray Charles, Aretha Franklin… Mas neste álbum, Otis preferiu se fixar na dimensão soft do gênero, trabalhando mais na minúcia da dinâmica e das texturas do que nas canções propriamente. Ouçamos, por exemplo, a faixa de encerramento, a instrumental “Not available”: uma levada de guitarra, uma bateria quebrada, um baixo super-recortado e, de repente, a guitarra muda a levada e a mesma textura retorna, desta vez sobre um clima diferente… Ou na faixa de abertura, “Inspiration information”, onde a concepção do baixo com a bateria se articula para produzir um suingue. Reparem também no contrabaixo de “XL-30”, na delicadeza de “Pling!” (de onde parece ter saído toda a música do Azymuth) e em outros detalhes que salpicam todos os trinta e poucos minutos do disco. Ao final, Shuggie se mostra um criador no mínimo peculiar. Não que seu talento faça frente a outros gênios, como os já citados, além de Curtis Mayfield e o próprio James Brown. Não faz. Mas, tal como o Salgueiro, a escola de samba carioca, Shuggie não é nem melhor nem pior: apenas diferente. (Bernardo Oliveira)

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Meses atrás, passando os olhos pelas listas de infindáveis mp3 que coleciono, me deparei com o nome de Shuggie Otis e seu Inspiration Information> Lembro ter ficado impressionado com o disco quando primeiro tive contato, por volta de 2001, quando a Luaka Bop relançou o álbum com muita fanfarra na imprensa. Pensei em propor o disco, mas não o fiz e terminei esquecendo. Agora que o disco entrou na pauta, fui ouvir novamente um álbum com que já não tinha contato há, pelo menos, dois anos. Lembrava do caráter r&b e psicodélico; do soul leve, quase easy-listening que dotava o álbum de sua aura delicada e marcante. Apesar de lembrar bem das faixas e de momentos específicos, a primeira audição foi reveladora – como se trancado em uma casa quente e abafada, logo ao abrir a porta uma lufada de vento fresco e revigorante me surpreendesse em um fim de tarde de verão.

Inspiration Information não é uma obra-prima, à sua época chamou muito pouca atenção; Otis não gosta de falar do passado, da gravação do disco, mas aparentemente esta recepção fria o marcou, não gravou mais nenhuma canção de sua lavra após. Também, ele apareceu com um pequeno clássico quase sonolento em um ano que acompanhava o nascimento do punk, do heavy rock e do progressivo, da disco music; os hits passavam de ABBA aos Eagles, com pouco espaço para a timidez de Otis, ainda estávamos no reino de Stevie Wonder, que neste ano lançava seu belo Fulfillingness’ First Finale.

Assim, a “culpa” da pouca atenção é do próprio Otis, na expectativa de uma boa recepção após o grande sucesso de sua composição “Strawberry Letter 23” na gravação do The Brothers Johnson, o resultado não atendia às expectativas da época, que não parecia dar muita atenção para este tipo de soul quase meditativo, introspectivo e com laivos nova-erísticos. Acrescente-se ainda que, apesar de ser um guitarrista dotado, arranjador com excelente ouvido para adequar experimentações formais a padrões estabelecidos, Otis não era um grande cantor, não possuindo grande capacidade vocal nem suas interpretações eram as de maior vigor. Em uma época de Marvin Gaye, Sly Stone e Curtis Mayfield… Álbuns inigualáveis como What’s Goin’ On, There’s a Riot Goin’ On e Superfly foram lançados entre 1971 e 1972. não é difícil imaginar a excitação de um garoto que cresceu em estúdios e tocava com o pai usando óculos escuros para esconder a pouca idade.

Como Wonder, Otis era um ás do estúdio. Se nos discos anteriores a figura do pai aparecia como sombra, em Inspiration Information é ele quem domina completamente sua produção, contando com ajuda de outros músicos apenas como apoio e para os arranjos de cordas e metais. Sua ambição de se aproximar, igualar ou mesmo superar os titãs de sua época pode voar solta.

As faixas, apesar de construídas nas bases do R&B, soul e até mesmo um funk sem muita agressividade, primam pela desobediência. Onde deveriam possuir ritmo forte e marcado, são leves e quase espectrais; o trabalho de guitarra possui um tom psicodélico estranho até mesmo ao Funkadelic (que neste ano lançaria o fundamental “Standing on the Verge of Getting It On”). Elementos alienígenas surgem a todo momento sem interromper o fluxo da música. Linhas de piano, vibrafone e órgão criam algo como melodias paralelas antes de desaparecer. Em uma época em que os músicos estavam se permitindo tudo e o excesso era o padrão, a transgressão de Otis foi ser cerebral e emotivo dentro de um controle absoluto de suas composições, sem parecer gratuito ou improvisado; é a concretização dos três anos de burilagem e paciência. O disco funciona como a exibição de um pequeno universo, dentro de seu próprio tempo, antes fechado na cabeça de Otis – um lugar onde caberiam uma consciência quase cósmica, aliada a referências da cultura americana, latina e oriental, onde o estúdio aparece como instrumento tão importante quanto sua guitarra, piano, baixo e os muitos outros instrumentos. Os arranjos, ainda que em momento algum abandonem a leveza, não deixam de ser exuberantes. A fantástica guitarra em “Island Letter” é apenas um dos exemplos do que, nas mãos de outros músicos, estaria mixado alto e bem à frente dois outros instrumentos para salientar o virtuosismo do intérprete.

Apesar de alguns creditarem ao disco um caráter inovador que ele não possui, seu grande mérito é ser o reflexo feliz dos desejos de um músico criativo e que teve plena possibilidade de desenvolvimento. A lamentar que uma carreira tão promissora foi interrompida de forma tão brusca; pensar que Otis tinha apenas 21 anos quando lançou o disco que começou a compor quando tinha apenas 18 anos é melancólico. Inspiration Information é daqueles discos que poderia ficar dormindo por longos períodos e, ao ser redescoberto (desenterrados), resplandece. (Marcus Martins)

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Publicado às 29 de junho de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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