Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Roland Kirk – Volunteered Slavery (1968; Atlantic, EUA)

Saxofonista, flautista, na realidade multi-instrumentista, Roland Kirk (Rahsaan Roland Kirk a partir de 1969) é um músico de jazz tão genial quanto idiossincrático, famoso por suas técnicas de tocar vários instrumentos ao mesmo tempo e utilizar instrumentos pouco conhecidos, como o manzello, o stritch e a flauta de nariz, além de adicionar golpes de humor à música sendo tocada. Como Hermeto Pascoal e Frank Zappa, a persona de gênio maluco ficou mais famosa do que o essencial, que é o brilhantismo e o talento do artista. Sua carreira discográfica vai do começo dos anos 60 até meados dos anos 70, e seu estilo eclético é recheado de referências a várias épocas e estilos de jazz, do ragtime ao free, mas ele geralmente fixava base no hard bop e no jazz soul/gospel/cósmico. Kirk também era famoso por sua técnica de respiração circular, que o permitia tocar por muito tempo sem parar para pegar ar. Entre seus discos mais celebrados estão Domino, The Inflated Tear, Blacknuss, Bright Moments e este Volunteered Slavery. (RG)

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Para aqueles que decidem descobrir jazz sozinhos e não viveram o momento, não só o nome de Roland Kirk não é um dos iniciais pontos de descoberta (esses seriam Miles, Coltrane, Ellington, Dizzy, Bird, Mingus, Monk…), como o próprio momento do jazz em que o artista apareceu com maior presença foi um tanto obscurecido pelo free jazz, pelos experimentos com rock e gêneros latinos que dariam no fusion, pela morte de John Coltrane e assim por diante. Os artistas que decidiram no final dos anos 60 abrir suas experimentações de jazz no caminho do funk e do soul não estavam apenas tentando abocanhar um nicho de mercado, mas acima de tudo transformar sua música e suas apresentações ao vivo numa espécie de celebração ritualística (não à toa, a maior parte dos pilares do gênero tocou com John Coltrane e recebeu a influência musical-espiritual de seu mestre). É uma música em que a espiritualidade dança freneticamente, motivada pelos ganchos vocais ou os temas tocados nos metais, e também, claro, pelos guizos e marcações de uma bateria funky. E é também a congregação de várias manifestações musicais de música negra, que reunidas assumem naturalmente a postura do poder negro que seria característica daqueles tempos.

Roland Kirk talvez seja o artista que mais caracteriza essa guinada do jazz, por suas provocações políticas, pela religiosidade evocada pelo gospel, pela maneira abrangente e generosa como prestigia seus ídolos e influências e constrói um amálgama de todas as épocas, pela maneira como pega hits pop (em Volunteered Slavery “My Cherie Amour”, de Stevie Wonder, “I Say a Little Prayer” de Burt Bacharach e Hal David, e “Hey Jude” como música incidental da faixa-título, todos singles enormes na época) e transforma em outra coisa, pela irreverência no tocar (a notar o som estridente de assovio bem-humorado característico em várias faixas) e principalmente por um swing bem profundo.

Em Volunteered Slavery, a primeira parte é gravada em estúdio e a segunda é um trecho de sua apresentação no festival de Newport. No lado A, temos composições originais que privilegiam o coro e o funk, transformando-se em mantras, como em “Volunteered Slavery”, que começa com um tema tocado-cantado e em seguida o abandona por um tema tocado num crescendo que deságua em “Hey Jude”. “Spirits Up Above” e “Search for the Reason Why” são canções entoadas por um coro misto e os próprios títulos já deixam entrever a inclinação religiosa gospel (mas pulsante, nada chorosa). Entre as releituras de hits, “My Cherie Amour” é mais discreta, com Roland Kirk fazendo a melodia original na flauta e alterando uma ou outra nota e transformando-a num autêntico tema de jazz. Já “I Say a Little Prayer” é uma experiência incrível de intensidade, fazendo brotar uma fúria sulfúrica e selvagemente dançante de um original bastante palatável (ainda que genial). Os gritos de Roland Kirk, os temas funky inventados na hora e os dois falsos finais da faixa só acrescentam o interesse e o espanto.

No lado B, das três faixas musicais (as outras são falas do músico, do apresentador e aplausos do público), duas são mostras do prodígio musical-técnico-humorístico de Roland Kirk, que em “One Ton” faz do som de soprar seu instrumento, de seus gemidos e dos sons de buscar ar fontes sonoras autênticas de criação musical, e em “Three for the Festival”, além de proezas similares às de “One Ton”, trabalha com sua técnica de tocar três instrumentos ao mesmo tempo e ser um naipe de metais de um homem só. Mas o centro desse lado do disco é o tributo a John Coltrane, num medley de três temas do artista: “Lush Life”, “Afro Blue” e “Bessie’s Blues”. Só louco para emendar uma balada, um tema radical, quebrado, e um blue elegante, mas Roland Kirk não só o faz, como o faz com o charme e a selvageria característicos de John Coltrane. Não só os solos são de primeira linha como as passagens de um tema para outro impressionam pela fluência, ainda que se passe de A a Z (a notar a mudança quando o acompanhamento sai de “Afro Blue” para “Bessie’s Blues”).

Ao final de Volunteered Slavery (mas é algo que também se pode dizer de um punhado de discos de Rahsaan Roland Kirk), temos a genial sensação da comunicabilidade plena entre todas as coisas, de que na música, como na vida, tudo é possível, de que humor rima com rigor e intensidade com ritmo. Podemos fazer muitas coisas com esse sentimento. Chamar sua origem de obra-prima é apenas uma delas. (Ruy Gardnier)

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Não quero parecer preconceituoso nem injusto, pois compreendo e admiro a proposta e o trabalho de Roland Kirk: uma música americana negra total, construída a partir de todas as contribuições possíveis. Mas, do ponto de vista do resultado, tanto Volunteered slavery quanto Blacknuss, seu precursor, são trabalhos menos brilhantes de um grande e excêntrico saxofonista. Não que a mistura desenfreada com gêneros e ritmos não contenha seus momentos e encantos, mas tenho preferência por sua fase propriamente jazzística, sobretudo na Mercury de onde saíram pérolas do “bebop malicioso”, como We free kings e I Talk with the Spirits. Como se trata de gosto, e não de juízo (sic), é fundamentalmente importante ter cuidado para não sair numa diatribe desmesurada, detonando um grande músico por conta de um trabalho menor.

Assim, me pergunto: o que dizer de Volunteered Slavery que ilumine mais a genialidade de Roland Kirk, do que os eventuais escorregões? Em primeiro lugar, o soul music e o rhythm & blues constituem sua fonte primária, mas, ao contrário do Miles Davis de Bitches Brew e do Dizzy Gillespie de “A night in Tunisia”, não funda nenhum território, não confunde os colecionadores e pesquisadores – e neste caso, vale dizer que a mistura de funk, jazz e rock de Bitches brew traz novas perspectivas ao funk, ao rock e ao jazz. Ainda assim, em “Search for the Reason Why” e “Spirits up above” podemos entrever momentos de exuberante alegria, que testemunham o espírito livre e intuitivo com o qual Kirk construía seu ambiente musical. Uma outra característica a ser notada é que não se trata propriamente de uma mistura, já que o disco é relativamente dividido em uma parte soul/R&B e outra jazzy. Mas é aí que até mesmo em um disco fraco se entrevê a assinatura do grande artista. Pois ainda que lance mão de outros gêneros e ritmos, Kirk não descarta o conceito-jazz, isto é, a idéia de que a música é uma manifestação essencialmente extática, aberta para a festa, o improviso e a descontração. Aqui, o jazz está presente, sobretudo, em “espírito”, inundando o disco de uma energia própria e vigorosa.

Neste viés, conjugando uma pegada R&B com a volatilidade do jazz, Volunteered Slavery acaba por conduzir a outros aspectos da música de Kirk, dignos do mais atento interesse. Mas que me fazem perguntar pelo que seria se Kirk direcionasse este vigor musical para post-bop que vinha trilhando desde 1961. Se, sobretudo, não caísse na esparrela de confundir o engajamento pseudo-libertário do ideário político de sua época com o aspecto de “show de variedades” que seus shows foram adquirindo até que ele sofresse o primeiro derrame, aos trinta e nove anos. (Bernardo Oliveira)
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Rasham Roland Kirk é daqueles nomes em que penso quando acho, em geral, a cena do jazz atual tão entediante – não é que os músicos não sejam bons e seus discos e apresentações sejam desprovidos de qualidade mesmo perante a espantosa produção de seus antecessores. O problema não está em igualar a capacidade de expandir fronteiras como Miles Davis, ou dar novo sentido à idéia de sublime, como John Coltrane. O problema está na necrofilia. Kirk flertava, ou mesmo mergulhava no pop ou em qualquer elementos musical que estivesse à mão, tudo podia fazer parte de sua música sem hierarquias estanques. E mesmo que tenha enfrentado crítica, ninguém podia afirmar que ele fazia música desprovida de vida, de pathos. E é justamente isso que causa desconforto ao ouvir quem veio depois. O problema não é o repertório, pois a própria noção do repertório jazzístico foi por ele ignorada, talvez um dos poucos exemplos de músico que ignora tais fronteiras e mantém uma produção ricas e inventiva seja Otomo Yoshihide e suas bandas jazzísticas, passeando tanto pela vanguarda quanto por “Strawberry Fields Forever”.

Mas o pulo do gato de Kirk não é apenas o uso deliberado de elementos díspares, mas o uso preciso e irrepreensível de cada um desses elementos. As melodias doces, os trechos com acompanhamento vocal e as dissonâncias mais agressivas são coadunados com naturalidade e vigor; nada soa forçado e explorador, não havia modismo ou uma tentativa especial de agradar o gosto do público, apesar da acessibilidade ser um ponto evidente em suas incursões – tanto a preparar o público para passagens mais exigentes como para evidenciar qualidades insuspeitas em muitas dessas supostas concessões. E essa é das grandes contribuições de tais apropriações por músicos de jazz, deslocar o foco do elemento narrativo da canção, mudar o equilíbrio (ou mesmo o extinguir) para forçar o ouvido a perceber o que o senso comum e o hábito haviam exaurido.

Volunteered Slavery parece ser mais um capítulo daquela forma de espiritualidade através da música que era preponderante no jazz da época, sendo curioso que apesar de boa parte dos grandes nomes da época explorarem alguma forma de espiritualidade, cada um tinha uma abordagem própria, não sendo razoável juntar no mesmo compartimento posições tão peculiares quanto as de John Coltrane, Sun Ra, Albert Ayler, para apenas ficar em algum que faziam menções diretas. O caso de Kirk é menos evidente mas não menos peculiar, seu sincretismo era mais “carnavalesco” e engajado (não parecia haver grande distância entre o espírito e os aspectos materiais que afligem o homem – negro ou de qualquer outra origem); tomando a religiosidade como celebração o que seria compatível com a noção de escravidão voluntária. Tais idéias foram postas em prática no festival Newport Jazz de 1968, de onde foram tiradas as gravações do lado B de Volunteered Slavery. Talvez seja esse o ponto mais impressionante do disco, seja em termos técnicos a qualidade da gravação, seja a benção de que um momento tão único tenha sido capturado – na verdade, poderíamos pensar em flagrante, pois acontecimento dessa magnitude não poderia simplesmente ter seu registro programado, poderia ser apenas mais uma apresentação em Newport, mas putaquepariu: em cada um daqueles ataques, semelhantes a trombas d’água, Kirk parecia dizer “Vejam a LUZ”. (Marcus Martins)

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É com tamanha satisfação que ouço um álbum como Volunteered Slavery. Confesso que nunca havia ouvido nada antes desse magnífico saxofonista e fiquei um bocado impressionado não somente com sua incrível técnica de tocar mais de um instrumento ao mesmo tempo, mas com a forma com a qual se entrega a sua música. Kirk é um músico que exala musicalidade; suas melodias são sublinhadas de maneira incrível no coro e nos instrumentos de sopro; ele também toca com uma irreverência que é para poucos. Uma irreverência que está menos ligada à auto-paródia que à própria satisfação de um músico que possui um enorme regozijo ao tocar, o que, indo além da analogia mais óbvia referente à cegueira, o leva a comparações mais longínquas a músicos igualmente (ou quase tão) cegos como Stevie Wonder (a quem ele reverencia neste disco com a belíssima “My Cherie Amour”), Ray Charles e Hermeto Pascoal. Irreverência e vontade incomparáveis são fatores peremptórios no vocabulário desses músicos. Possivelmente devido à deficiência de um dos sentidos, esses artistas tenham adquirido uma sensibilidade mais aguçada para compreender e sentir a música e uma capacidade maior para criarem melodias e harmonias bonitas.

Volunteered Slavery já é belo título por si só: escravidão voluntariada para Kirk é sua total entrega à música. Ele escolheu ser um escravo por opção própria, porque, acima de tudo ama a música e deve tudo a ela. Esse amor à música está transcrito através de composições próprias e alheias, que vão de Stevie Wonder (na já citada “My Cherie Amour”) a John Coltrane (em uma suíte tributal, na qual ele emenda por último “Bessie’s Blues”) e que passam por Burt Bacharach (“I Say a Little Prayer”) e Mongo Santamaría (no mesmo tributo a John Coltrane ele toca “Afro-Blue”). Volunteered, apesar de toda a beleza, possui momentos menos inspirados e vibrantes. Pode até não ser o melhor disco do músico (como é dito por aí), mas é um disco que cativa pela proclamação de amor que dedica à música. E o ouvinte não encontra outra alternativa senão amá-lo igualmente. (Thiago Filardi)

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Publicado às 7 de julho de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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