Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Beth Carvalho – Na Fonte (1981; RCA Victor, Brasil)

A primeira aparição de Beth Carvalho para o grande público foi em 1968 no Festival Internacional da Canção, defendendo “Andança” (de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós). No ano seguinte, lançaria seu primeiro álbum, reforçando o vínculo com a bossa nova mas, ao mesmo tempo, indicando um interesse pela tradição do samba. Fortemente inspirada por Elizeth Cardoso, Beth gravou compositores como Mano Décio da Viola, Cartola, Martinho da Vila, o recém-falecido Darcy da Mangueira, Candeia e a dupla que a acompanharia durante toda a carreira, Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, consolidando-se como a maior sambista do país. Em 1976, levada ao pagode na quadra do Bloco Cacique de Ramos, em Ramos, subúrbio do Rio de Janeiro, tomou contato e contribuiu para a projeção de um grupo de sambistas que compunham e tocavam de forma diferenciada, entre eles o grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Almir Guineto e Jorge Aragão. Na fonte é seu décimo álbum de carreira.

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Em meados da década de 80, quem quisesse ouvir o samba oriundo das escolas ou vinculado ao Cacique de Ramos tinha que frequentar os pagodes, como o “Caldeirão sem fundo”, no Morro do Tuiuti, ou o “Pagode do Arlindo” na Piedade. Uma outra opção era ligar na 104.5, Rádio Tropical FM, a única no dial que se dedicava ao gênero. Eram tempos difíceis para o samba. E assim como Martinho da Vila, em meados da década de 60, reabilitou o gênero com seu talento inestimável, Beth Carvalho também foi responsável pelo fortalecimento de um contexto social, cultural e político que desembocou, anos mais tarde, no reinado de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. Por isso, não hesito em dizer: a maior cantora de samba (do Brasil, do Mundo) é Beth Carvalho. Elza Soares, Dona Ivone Lara, Alcione, Jovelina Pérola Negra, Elizeth Cardoso me fascinam, mas Beth são muitas. Seu alcance como artista é ilimitado. Recentemente cheguei a seguinte conclusão: todos conhecem Tim Maia e Beth Carvalho. São os artistas mais populares do Brasil. Digo: profundamente populares, silenciosamente entranhados nas paradas de sucesso privadas e públicas de todo o Brasil. Assim como “Não quero dinheiro”, “Vou festejar” é uma espécie de termômetro: assim que começa, evoca efusividade, alegria. Beth é essa cantora maravilhosa e Na fonte é sua obra-prima. Por vários motivos. Por sua abrangência de gêneros e estilos (o partido alto, o samba-enredo, a toada, o samba-canção…), por seu poder de síntese histórica e musical (é um disco de “abertura”…), por conter o trabalho de uma cantora em seu ápice criativo, por catalisar um grupo de artistas geniais, por assumir e projetar uma nova roupagem para o samba, pela capa maravilhosa, pelo astral e pelo repertório irretocável.

Antes de mais nada, consideremos a importância do pagode do Cacique de Ramos para o samba e o papel decisivo de Beth Carvalho e Na fonte para consolidá-lo. Na composição, a síntese eminentemente urbana dos estilos característicos de morros, regiões e escolas de samba como Portela, Mangueira e Império Serrano. Na instrumentação, três novos elementos, uma sonoridade dinâmica, radicalmente sincopada e aberta à improvisação: o banjo, adaptação do instrumento afro-americano realizada por Almir Guineto (por sugestão de Mussum); o repique de mão, criação de Ubirany, do Fundo de Quintal, que reproduzia com as mãos o que no repique das escolas era tocado com a vareta; e o tam-tam, instrumento do bolero, trazido para o samba com a função de realizar “cortes” sobre a marcação do surdo. No arranjo, conta-se que o maestro Rildo Hora hesitou em pôr todos os instrumentos de corte tocando juntos, sob a alegação de que o arranjo possivelmente resultaria “atravessado” – gíria carioca para designar o samba mal executado. Ao que parece, Beth insistiu, provavelmente porque, freqüentadora, conhecia as manhas dos ritmistas do Cacique, sabia de sua eficiência. Basta dizer que, hoje, raros são os exemplos de artistas de samba que não se utilizam da roupagem proposta pela turma de compositores e instrumentistas que, todas as quartas-feiras se encontrava para jogar bola e cantar samba embaixo da tamarineira. Assim, Na fonte pode ser considerado tanto um retrato de uma época, mas também como uma obra atemporal. Registra o encontro de Beth com o samba do Cacique, mas não se esgota no mero registro.

Além de trazer essa turma à tona, Beth teve o mérito de incorporar suas descobertas ao próprio trabalho, de forma pessoal e intransferível. Ela não foi como Paul Simon, o explorador alegre e bem intencionado, a sintetizar ritmos com timidez e excesso de cautela. Beth não se conteve com a mera influência, mas incorporou toda sua experiência e, em contrapartida, enriqueceu a “fonte”. Assim, o repertório do disco contém os já gravados Cartola e Nelson Cavaquinho, respectivamente em “Motivação” (com Dalmo Castelo) e “Deus me fez assim” (com Guilherme de Brito), mas já traz um número consideravelmente maior de compositores do Cacique: duas pérolas de Jorge Aragão, “Pedaço de ilusão” (com Sombrinha e Jotabê) e “Tendência” (com Dona Ivone Lara), uma de Arlindo Cruz, “Grande erro” (com Marquinho China e Adilson Victor) e o grande Almir Guinéto em “É, pois é”, parceria com Luverci Ernesto e Luiz Carlos da Vila, outro nobre frequentador do Cacique. Como se não bastasse, Na fonte traz ainda a Velha Guarda da Portela, em “Gorjear da Passarada”; Padeirinho da Mangueira em “Salve a Mangueira”; a dupla Wilson Moreira e Nei Lopes em “Morrendo de saudade”; Paulinho da Viola em “Dança da solidão”; e um final arrebatador, verdadeiro nocaute poético, com a toada “Alpendre da saudade” de João Pacífico e daquele que compôs o clássico que revelou Beth, Edmundo Souto. Todas meticulosamente arranjadas, executadas com vigor juvenil – reparem na cozinha da abertura, “Virada”, do portelense Noca e nos tamborim de “Pedaço de ilusão”. A interpretação de Beth transborda um lirismo simultaneamente enérgico e comovente. Como poucas, ela sintetiza a simplicidade herdada da bossa nova e a exuberância de Elizeth. Quando o álbum termina, tem-se a certeza de que ele encerra a assinatura atemporal de uma artista com extraordinário poder de agrupar e catalisar o que há de melhor no samba e adjacências.

Frank Zappa se referia à sua obra como um projeto-objeto, isto é, uma série seqüenciada de álbuns que, em última instância, refletiam uma concepção, um conceito, uma idéia majoritária. Neste caso, proponho uma compreensão do trabalho de Beth Carvalho sob seu aspecto artístico, isto é: a curiosidade antropológica e a pesquisa in loco se converteram em uma postura criativa e, sobretudo, uma concepção muito própria do samba e da música brasileira. Na fonte é a mais alta expressão de como essas habilidades se articulam para formar um dos projetos-objeto mais consistentes e empolgantes de toda a música brasileira. (Bernardo Oliveira)

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A potência de criação de um intérprete tem, digamos assim, um viés “autoral” no momento em que se dá a opção pelos compositores cujas músicas serão interpretadas. Beth Carvalho sempre fez questão de apresentar “gente nova”, em suas próprias palavras (pode linkar pro Dicionário Cravo Albin), em cada disco seu. E Beth Carvalho na fonte é um momento singular do que a própria cantora parece tratar como um projeto de vida.

Vivendo fase de grande popularidade em 1981, Beth nem por isso deixou de arriscar. Mesclou canções de compositores veteranos como Cartola e Guilherme de Brito com temas de compositores então em começo de carreira, como Jorge Aragão e Arlindo Cruz. O resultado é um disco lindo, plural, que passeia do samba-canção ao partido alto, na força da batida do pagode. Se o samba, como diz o parceiro Bernardo, hoje é um gênero que convive com a questão do conservadorismo, esse disco traz à tona um momento de plena vitalidade de sua autora, de seus autores (por que não?).

Desde “Virada”, sucesso do álbum, a “Alpendre da Saudade”, toada de pegada sertaneja, cada faixa é uma surpresa, um facho numa direção inesperada, quase o oposto do referido conservadorismo atual. E, para não me alongar sobre o impacto da cozinha do Cacique de Ramos (bem exemplificado em “Grande Erro”, para mencionar uma faixa só), ou sobre a sabedoria da Velha Guarda da Portela em “Gorjear da Passarada”, vou ao ponto de três músicas: “Pedaço de Ilusão”, “É, Pois É” e “Tendência”. Aí sintetizada está uma combinação fatídica de poesia, melodia, arranjo e ritmo.

Trata-se de um braço mais “feroz” do samba, inovador do ponto de vista rítmico, marca de introdução de instrumentos como o repique e o tantã. Em “Tendência”, por exemplo, há até o luxo de um arranjo de cordas. Enfim, uma obra revitalizante e importante de uma cantora no auge. Sim, é preciso dizer também: a voz de Beth, em Na Fonte, é uma espécie de instantâneo da artista na plenitude. (Tiago Campante)

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Tem umas discussões que eu conduzo meio homericamente, certo de que algum dia as pessoas notarão como óbvias e ficarão incapazes de entender como se achava o oposto em tempos idos. Uma delas é defender o “Rap do Simpático”, do Mr. Catra, como mais importante do que tudo que o Chico Buarque fez nos últimos quinze anos. Outra delas é defender Beth Carvalho como a maior cantora brasileira no período pós-Elizeth Cardoso (a quem considero imbatível). E pasmo que as pessoas ficam discutindo entre tantas outras e sequer mencionem Beth Carvalho. Imagino dois motivos possíveis: a) pela discografia voltada quase que exclusivamente ao samba, ao passo que seria mais chique e de “bom gosto” filiar-se à MPB; b) pelo modo de cantar, que privilegia a limpidez, a simplicidade e a força, não se avançando para cima da música, não chamando atenção para si mesma, sua extensão vocal ou quaisquer proezas. Beth Carvalho é vulcânica, subterrânea. Sua voz tem uma pressão, um calor interno, que raramente se vê numa cantora; ou, se se vê, ele é desperdiçado em amostras chamativas, no despejo da fúria. Em Beth, esse calor é modulado em ginga e numa prosódia invejável, com preferência para estender certas vogais mantendo a nota e o volume inalteráveis – algo que aliás lhe virou um toque característico. Ela aprendeu tudo que podia de Elizeth e adequou os ensinamentos melhor que todos à interpretação específica do samba: uma humildade fundamental que resulta em servir à música e uma maneira de abrilhantar seu repertório através de toques discretos e uma garra enorme. A maior sambista, sem dúvida.

Parte do que faz Beth Carvalho tão grandiosa é também a abertura que deu à sua carreira, permitindo guinadas e mostrando um olho inequívoco para novas manifestações no samba. Deu atenção a Nelson Cavaquinho numa época em que isso não era moda, e virou madrinha da geração de sambistas do Cacique de Ramos, gravando canções, chamando-os para tocar e dando apoio sempre que possível. Na Fonte não é a primeira vez que ele os chama ou grava suas faixas (vinha fazendo desde 1978), nem foi um disco que explodiu músicas do grupo (como “Vou Festejar”, 1978; “Coisinha do Pai”, 1979; “Caciqueando”, 1983), mas é um disco em que o feeling se insinua com mais clareza, e em que as faixas se misturam mais coesamente aos outros favoritos do repertório de Beth Carvalho.

É um disco que começa dinamitando, com “Virada”, um samba de teor revolucionário e andamento a mil por hora. “Escasseia”, mantendo o pique, é um samba filosófico sobre as idas e voltas da vida. “Grande Erro”, sentimental, completa o trio de devastadores que dá início ao disco. Cabe notar em todas essas três faixas, em especial em “Grande Erro”, o arranjo que aproveita toda sessão rítmica e faz cada elemento contribuir de forma distinta com retoques pontuais ou contribuições à levada. Depois de “Salve a Mangueira”, o lado A entra em modo melancólico, com “Morrendo de Saudade” que prepara ao ápice que é “Motivação”, samba-canção de Cartola e Dalmo Castelo que termina com os versos que iniciam “As Rosas Não Falam”. A lição elizethiana é totalmente incorporada, dando à sentimentalidade e severidade da faixa uma modernidade no canto direto e nas cordas discretas da orquestração.

O lado B começa com dois sambas sentimentais da turma do Cacique, ambos com disposição para hinos: “Pedaço de Ilusão” e “É, Pois É”. Segue “Dança da Solidão”, de Paulinho da Viola, e “Tendência”, parceria de Jorge Aragão com Dona Yvonne Lara. Com “Deus Me Fez Assim”, de Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, compõem um lado mais ameno no andamento e todos lidando com amor incerto ou terminado. A sobriedade de Beth nesse terreno é insuperável, delicada mas não frágil, forte mas cheia de pathos, discreta e personalíssima. Por último, uma balada rural, com viola e coro sertanejos, como pra lembrar à gente de que ela também se porta com toda propriedade fora do samba.

Na Fonte é um desses discos tão cheios de vigor que a gente nem acredita. Repertório perfeito, coeso, ordenação das músicas toda certa, uma vibração que reúne o clássico e o moderno, além, claro, de uma vivacidade que em outros tempos o samba tinha com tanta facilidade e hoje pena a ter em nome de falsas idéias de reverência, profissionalismo e bom gosto. Mas Na Fonte é mais que isso: é afirmação do ápice de uma cantora, amparada por músicos de primeira categoria e por um sentimento de euforia que só se tem quando se experimenta. (Ruy Gardnier)

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Beth Carvalho era sinônimo de samba em minha infância. O problema é que eu não gostava de samba em minha infância, ou pelo menos da maior parte das coisas que lembro daquela época. Assim, durante muito tempo já me dava enjôo só de ouvir falar, achava a própria figura dela desagradável, sem nem mesmo conseguir dar uma explicação. Como em muitas outras situações, com o passar do tempo, tive a oportunidade de acertar as contas com minhas preferências, meus preconceitos.

É verdade que continuo não sendo um grande conhecedor de seus discos, mas é difícil não sucumbir à beleza de muitos dos momentos que tornam “Na Fonte”, não apenas um dos grandes discos de samba de sua época, mas também um dos grandes discos de samba desde então. Apesar do disco ter grande variação, o clima é quase sempre de exaltação, mesmo nas faixas mais melancólicas, transborda um nível de energia raro, daqueles apenas encontrados em obras que não apenas alcançam grande proeza artística como são resultado de uma reunião ímpar, algo próximo do que os Novos Baianos fizeram em “Acabou Chorare” – é impossível não sorrir ouvindo cada elemento surgir e embalar a voz límpida e poderosa de Beth, a forma como o leque de convidados e a própria energia catalizadora da estrela não distraem a atenção do verdadeiro astro do disco – o samba.

Existe algum saudosismo que parece contradizer a vontade de trazer uma marca própria e isso deixa a impressão de que tratamos de saudosismo retórico, como se Beth, apesar de ter muitos motivos para ter saudade de inúmeras coisas (especialmente àquelas ligadas ao samba que já então passava por um escanteamento), trata seu objeto quase como um gênero, sem perder a paixão. O disco une dois elementos que muitas vezes parecem de difícil conciliação, a precisão e o virtuosismo bem captado de uma cuidadosa gravação de estúdio e a descontração e a energia transbordante das rodas de samba (bem representada pela capa luminosa, onde Beth parece irradiar beleza). Beth tanto bebeu na fonte como cavou um pouquinho mais fundo e achou água fresca. (Marcus Martins)

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Um comentário em “Beth Carvalho – Na Fonte (1981; RCA Victor, Brasil)

  1. Luiz Leite
    28 de outubro de 2008

    Poucas vezes tive a oportunidade de ler uma crítica tão coerente e digna como esta. Não tenho mais palavras pra expressar o que senti ao lê-la. Parabéns!

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Publicado às 13 de julho de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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