Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Keiji Haino & Tatsuya Yoshida – Hauenfiomiume (2008; Magaibutsu, Japão)


O guitarrista Keiji Haino e o baterista Tatsuya Yoshida são conhecidos por representarem a vanguarda musical japonesa. Desde a década de 70, Keiji Haino desfila pelos mais diversos gêneros, do rock ao free-improv, passando pelo drone e por experiências próximas do campo erudito. Trabalhou com Peter Brötzmann, Derek Bailey, John Zorn, Boris, entre outros, e participou de inúmeros grupos, como o Fushitsusha e o Vajra. Tatsuya Yoshida é de uma outra geração, mas igualmente prolífico: tocou em grupos como Acid Mothers Temple e Painkiller, mas ficou conhecido pelo duo de prog/noise Ruins. Hauenfiomiume é a terceira colaboração entre os dois. Em tempo: um mês após lançarem Hauenfiomiume, a dupla lançou a quarta colaboração, o álbum-gêmeo Uhrfasudhasdd.

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A sopa de letrinhas que batiza cuidadosamente as dezesseis faixas deste Hauenfiomiume, indicam que Keiji Haino e Tatsuya Yoshida têm plena consciência de que seus respectivos trabalhos operam sobre o campo do inominável e, portanto, do imprevisível – embora isso se possa dizer também da música dos Boredoms, do OOIOO e de Otomo Yoshihide, por exemplo. Tanto as faixas, quanto a disposição interna do álbum evocam no ouvinte uma tensão constante, uma prontidão: aguardamos o próximo passo, a próxima cartada. O que acontecerá?

Uma das primeiras vezes que me deparei com esse sentimento de instabilidade e fascínio musical foi com o “Quarteto para o fim dos tempos”, de Messiaen. A cada momento eu me surpreendia com as modulações absurdas que o compositor francês propunha como apanágio do fim do mundo. Minha impressão era de que, a cada seqüência de acordes, emergia uma sonoridade contígua à monstruosidade. E esta é uma questão: porque o monstro nos parece “monstruoso”? Será que é meramente uma questão de hábito, que refutamos por trazer instabilidade para a vida prática? Será que “monstruosas” são as experiências sensoriais que afastamos por não sabermos lidar com elas? Neste caso, sou pragmático. Para mim é muito claro que, como escreveu Gilles Deleuze, inspirado no filósofo holandês Espinosa, “nós não tendemos para uma coisa porque a julgamos boa, mas, ao contrário, julgamos que ela é boa porque tendemos para ela.” Da mesma forma, o monstruoso e a repulsa que ele nos provoca são imanentes aos nossos valores, não ao “monstro”.

Se eu não estiver delirando, podemos dizer que Haino e Yoshida são bandoleiros fora-da-lei, extremamente prejudiciais ao convívio social. Como os álbuns anteriores da dupla, Hauenfiomiume opera justamente sobre a reificação do monstruoso: cada faixa remete a uma experiência fragmentária, a um encontro da sensibilidade ordinária com a conjuração de estranhas formas musicais, a destilarem o espectro de canções (em “Mkdoijadihffo”), de improvisos jazzísticos (em “Yeudhujiuasich”), de riffs e seqüências do mais puro noise, da mais singela japanese bamboo flute (em “Mdjofollswufph”), das manipulações digitais mais estapafúrdias (reparem em “Lakdddffkouwwe” como esta manipulação chega a um nível demencial…). Digo espectro, porque trata-se de um processo de descodificação, no qual a dupla trabalha por deslocamento de certas formas musicais consolidadas, manipulando-as e sintetizando-as nas composições. Hauenfiomiume agrupa, de forma coesa e admirável, uma série heterogênea dessas experiências.

O que Keiji Haino e Tatsuya Yoshida nos oferecem é sua expressão. E aqui devo ser taxativo: é sob o ponto de vista da expressão que devemos avaliar os trabalhos artísticos. Mesmo que, eventualmente, esta expressão nos pareça estranha e despropositada. Hauenfiomiume exprime a síntese de duas visões musicais extremamente cultas e intelectualizadas, mas que conseguem agregar surpresa e sabor à sua produção. A despeito de eventuais momentos em que os ouvidos menos acostumados chiarão, e da capa tenebrosa, desde já a pior do ano. (Bernardo Oiveira)

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Será possível definir estritamente o que seria uma obra de arte exitosa? Quais os critérios adequados para tal entendimento? No caso específico da música, o que seria uma obra bem acabada e que atenda não apenas a “seus propósitos” quanto aos critérios do que seria uma obra-prima? O próprio conceito de obra-prima já é polêmico, pois parece que em muitos casos, a idéia de polimento termina por substituir a idéia de alcance e abrangência.

Tenho poucas respostas para essas indagações e esse não é o objetivo do presente texto. “Uhrfasudhasdd” não é uma obra-prima em qualquer entendimento (nem se presta a ser), mas algumas dessas reflexões servem para melhor observar a forma como ele é construído. Sua forma fragmentária, mais assemelhada a esboços que a obra cuidada; a sensação de improviso que temos nas audições; a aparente falta de uma organização coerente das faixas – tudo isso facilita o descarte do disco, temos uma coleção de sobras ou raspa de tacho de artistas excessivamente prolixos.

Mas acho a idéia preguiçosa. É verdade que Haino seria beneficiado por um tempo maior no lançamento de seus projetos. A duração de sua carreira e a limitação de sua área de ação causam desgaste e deixam a impressão de que ele apenas está repetindo ações antigas e melhor sucedidas.

Ainda parece que o caminho não é esse. Repito que não se trata de um grande disco, talvez nem seja um bom disco (confesso que muitas das faixas, em sua pretendida intensidade apenas deixam o tédio como companhia), mas é instigante. Penso, de forma vã, nos diários de Kafka – aqueles esboços que em sua momentaneidade faiscam de energia que nem sempre é encontrada em seus contos. Talvez seja a urgência, a justa falta de maturação. Um elogio da velocidade como as melhores obras do punk e do hardcore. Apesar de confessar não ser apreciador da carreira de Haino(sempre preferi os óculos escuros do Lou Reed), não tendo grande apreço por seus mais conceituados discos, entendo que aqui ele fez algo mais importante. Como bom artista do século XX ele soube fazer um corte epistemológico e exibiu as raízes de sua própria música e daquilo que vem se servindo a mais de trinta anos e do que acreditamos que se possa fazer com isso (dá forma como isso é percebido). Isso até funciona como um corte em sua própria carreira, temos psicodelia, drone, improvisação, hardcore, noise, gritos primais entre tantos outros estilos, sem que o disco caia na armadilha do balanço de carreira. Nada mal para um tiozinho. (Marcus Martins)

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Dois aspectos saltaram de cara aos ouvidos durante as audições de Hauenfiomiume, projeto de Keiji Haino e Tatsuya Yoshida. De um lado, a sofisticação musical de dois instrumentistas faixa preta, para usar uma referência típica das artes marciais, tão caras aos orientais. De outro, a irrecuperável crueza quase conceitual na exploração sonora animada por uma raiz rock e uma alma jazzística, improvisadora.

Trata-se de uma exploração quase mineral do som, que se faz como quem perfura um poço de petróleo com a sutileza de uma broca do mais puro e duro diamante. Haino de posse de guitarra, violão clássico, flauta… Yoshida a cargo de bateria, teclado, baixo. E os dois se revezando em improvisos vocais que alternam gritos e sussurros de acordo com o ambiente que se pretende habitar: no caso de “Ryufoispjekkossd”, a mais longa faixa do disco, ora há o sussurro e a flauta como que passeando pelo bosque, ora há gritos e ruídos distorcidos num tsunami auditivo, caos e ordem.

Essa exploração se dá na toada de improvisações em que a principal meta parece ser deixar que a própria música se faça expressar por si, em diversas camadas, sem preocupações com gêneros e convenções. Como acontece em projetos assim, há momentos menos inspirados, mas há momentos seminais como “Wacqdhiepdhii”, curiosamente conservadores (quase pop, para soar provocativo) como a levada de “Vjndoiphllkaudo”. E há, sobretudo, o virtuosismo de “Lakdddffkouwwe”, onde a panela de pressão ferve mesmo. Yoshida, que afinal foi quem editou e mixou o disco, parece estar no controle. Para começo de conversa, quebra tudo na bateria. E não deixa por menos na hora de desconstruir a música com cortes e efeitos que produzem uma massa sonora que desafia o ouvinte. (Tiago Campante)

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Por um lado, entendo quem considera tanto Keiji Haino quanto os Ruins (ou Derek Bailey, que trabalhou com ambos) inaudíveis. Por outro, não consigo compreender como ambos não encantam ouvidos mais livres. Keiji Haino é um desses prodígios inacreditáveis que consegue tirar barulhos inimagináveis da guitarra e de sua voz, indo da nota e do murmúrio ao esporro e ao grito com a maior desenvoltura. Seus discos estão entre o free-improv, a sessão de descarrego e a arte performática. Tatsuya Yoshida, 50% dos Ruins, é um baterista virtuoso com fascinação por andamentos quebrados, polirritmia, velocidade e as loucuras mais variadas, lembrando uma mistura entre Patife Band, Frank Zappa e Fantômas. Nos dois casos, é invenção misturada com vitalidade. E, talvez o que me encante mais, são dois músicos que, através do domínio de seus instrumentos, chegaram à conclusão que as sonoridades “primitivas” são tão ou mais interessantes que os sons conseguidos através da aprendizagem (mas, claro, a aprendizagem dá mais repertório e abre mais possibilidades de invenção, que eles sem dúvida aproveitam…), e que é possível trabalhar sem essa barreira bem-pensante.

Hauenfiomiume tem 16 faixas, cada uma com um nome mais absurdo que outro e entrando em registros totalmente discrepantes do registro musical convencional. Vamos às três primeiras: “Yeudhujiuasich”, um minuto e meio de guitarra tangida solo; “Ryufoispjekkossd”, uma faixa longa que começa com murmúrios, alaúde e eletrônicos para depois descambar num esporro com estridências múltiplas e intervenções de um vocal gritado, gutural; “Wacqdhiepdhii” trabalha com uma programação eletrônica de bateria e guitarra com andamento quebrado em loop à qual se acrescentam flauta e guitarra, até que tudo pára, entra uma sonoridade marcial, industrial, e mais tarde volta o esquema original, que, vale dizer, faz lembrar idm ou math rock. É possível mesmo supor que falta critério musical, mas o real jogo desses músicos é de fazer do deslizamento de gêneros o verdadeiro critério para suas experimentações.

De um modo geral, Hauenfiomiume tem sonoridades próximas ao power rock instrumental defendidos por gente como Battles ou o King Crimson de Red e Starless & Bible Black. Mas na verdade o jogo vai para muitos lugares, alternando composições com momentos improvisados (ou ao menos dando essa impressão), criando vocais em línguas inventadas, estabelecendo loops amalucados, criando variações bizarras dentro da mesma música. É claro que, com esse tipo de proposta, não dá pra ter 100% de acerto e idéias geniais a cada minuto. Mas elas estão lá e existe a cada faixa algo a impressionar pelo inusitado ou pela beleza do resultado. Minha faixa preferida, por exemplo, é “Lakdddffkouwwe”, que eu naturalmente chamo de “a doze”, aproveitando a ordem do álbum. Ela começa com um riff bacanérrimo de power rock que é rapidamente abandonado e depois vira uma brincadeira de alternar um barulho no esquerdo e no direito da caixa de som (ou nos fones de ouvido), fazendo depois entrar a bateria e reestruturando aos poucos o trabalho da guitarra. É um disco que, como o Circle de Boom Bip e Dose One recentemente proposto por esta camarilha, transmite tamanha liberdade, dado o escopo de experimentação dos músicos, que restitui a idéia de arte como invenção vertiginosa que não tem fronteiras, questiona noções preconcebidas de gosto e brinca com a matéria artística como espaço pleno de possibilidades de rearranjo. E disso os experimentais japoneses, Haino, Ruins, Boredoms, Asa-Chang e alguns outros volta e meia nos lembram e espantam com sua versatilidade agressiva e brincalhona ao mesmo tempo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 14 de julho de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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