Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Geiom ft. Marita – “Reminissin'” (Shackleton Refix) (2008; Berkane Sol, Inglaterra)

“Reminissin'” é até agora a faixa mais grudenta e acessível saída do movimento dubstep. O vocal de Marita é produto direto da fascinação desses produtores ingleses recentes pelo rhythm&blues americano. A produção de bateria, contida, faz o máximo para aproximar-se do house, mantendo todavia o contratempo sacolejante do 2step ativo o tempo inteiro. “Reminissin'” caiu nas graças de Appleblim, que decidiu fechar seu Dubstep Allstars vol. 6 com ela, e também entrou na coletânea formadora de opinião da Souljazz, Steppas Delight. Mas, ao mesmo tempo, a faixa deixa entrever uma submissão mainstream e uma certa lapidação de algumas das coisas mais interessantes no dubstep (o baixo soturno, a complexidade da bateria) em prol de um maior unanimismo, o sonho do dubstep goes mainstream. Aí pedem pra produtores renomados fazer remixes. Skream e Kode9 fizeram os seus cada um, mas o sujeito que realmente surpreendeu foi Shackleton. Sua versão, ou melhor, seu refix, é ao mesmo tempo: a) uma mostra de que o produtor andou aproveitando suas trocas de remixes com Ricardo Villalobos para estudar as progressões, as sutilezas de composição e os timbres do alemão, e se encantou com os tempos pares; b) um enorme tributo ao “Blue Room” do Orb, ele mesmo uma espécie de remix inconfesso de “Fast Forward into Dub”, do Mad Professor. Nesse Shackleton Refix de “Reminissin'”, não temos uma predominância dos atabaques costumeiros de suas produções pela Skull Disco, e a faixa nada tem de dubstep. É um dub atmosférico nos moldes psicodélicos de grave profundo e sons desgarrados (alguns, naturalmente, da voz de Marita, com versos ou simples fonemas jogados no delay ou processados de outra forma) flutuando quase aleatoriamente, com elegância e charme (ou seja, mais no modo climático do Orb do que no selvagem de Mad Professor). Aos poucos, ali pela metade da faixa, ela vai soltando os elementos que a compõem pelo caminho e deixando apenas o grave, a marcação de contratempo e a entrada de uns guizos fenomenais que são o destaque da faixa. A faixa continua em sons de prato e uns sons espectrais parecidos com feedbacks eletrônicos, até terminar calma e sutil, como se não tivesse deixado nenhum estrago pelo caminho. Shackleton não só é um dos mais interessantes produtores de dubstep em atividade; é também um daqueles que pensa mais à frente na maneira como aliar as forças de cada gênero em nome da criação sonora sem rótulos e fronteiras. (Ruy Gardnier)

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Publicado em 18 de julho de 2008 por em Uncategorized.
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