Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Fagner – Orós (1977; CBS, Brasil)

Raimundo Fagner Cândido Lopes nasceu em 1949 na cidade de Orós, no estado do Ceará. No início da carreira, junto a nomes como Belchior e Ednardo, formou o grupo Pessoal do Ceará. Sua primeira gravação solo aparece em 1972 no compacto dividido com Caetano Veloso. Em 1973 lançou seu primeiro álbum, Manera Frufru Manera. Orós é seu quarto álbum de estúdio de um total de 24 que lançou até hoje, não contando os “ao-vivo”. Duas de suas canções foram objeto de processo judicial por conter poemas de Cecília Meirelles sem o devido crédito, sendo as mesmas retiradas de edições posteriores dos discos onde apareceram. Artista polêmico e de personalidade forte, foi aos pouco posto em uma espécie de ostracismo crítico, apesar da aclamação inicial, fazendo sucesso de público com participações em trilhas sonoras de telenovelas, compondo canções popularescas e tentando obter algum sucesso com regravações de outros artistas. (MM)

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Estigma, preconceito, escolhas equivocadas – a carreira de Raimundo Fagner parece marcada por uma forte ruptura entre o início, quando pareceu unir relevância criativa e sucesso comercial, com o lado mais romântico aprofundado nos anos 90. Posso dizer que há bem pouco tempo o nome Fagner era, para mim, sinônimo de “Borbulhas de Amor” (lançada em disco que já contava com pérolas como “Cabecinha no Ombro”). Ele era dos cantores que eu mais execrava e mesmo hoje quando isso não perdura, sua voz causa algum mal estar. Tudo mudou quando, há não muito tempo, um amigo disse, para meu espanto, que gostava muito de alguns discos de Fagner! Já tinha ouvido falar do seu elogiado início de carreira, mas sempre pensava que era mais um clichê, todo artista pichado na maturidade foi um gênio na juventude. Descobri então que Orós, seu quarto disco, tinha muitos fãs. Fui conferir e o resultado é que hoje sou apreciador não apenas de Orós como de vários outros discos dessa carreira tão peculiar.

O que nos leva a mudar a recepção a um artista, ou até mesmo a renegar obras que anteriormente tínhamos na mais alta conta? Será que apenas o temperamento forte do artista e a pobreza de sua obra posterior são suficientes para explicar isso? Aqui não tratamos de um músico esquecido, mas de um artista com alguma relevância no mercado fonográfico que passou a transitar longe da grande mídia e nem mesmo é respeitado por sua obra pregressa. Artistas celebrados como Caetano Veloso e Jorge Benjor tiveram, ou ainda têm, seus momentos de nadir criativo e nem por isso perderam seu séquito fiel de seguidores, tanto no público quanto na crítica. Cantoras como Gal Costa podem cantar pior que a Kelly Key e cometer gravações tão ruins quanto “Cabecinha no Ombro” e ainda são divas. E nem é o caso de que Fagner não tenha seus méritos reconhecidos quando surge a oportunidade; é que essas são raríssimas ou condescendentes. O que ele enfrenta é mais difícil de romper: o silêncio. Termômetro: uma rápida pesquisa no Google não revela qualquer resenha de Orós além de algumas linhas reproduzidas por blogs, onde constam mais informações técnicas que análise crítica.

Ainda assim, percebamos que Orós deveria ser um disco fácil de elogiar e celebrar, mesmo não gostando de Fagner. Temos um disco que à época foi saudado como um mergulho do artista em suas origens cearenses. Quer dizer, no lugar de apelo popular temos a reverência e a inspiração por aquilo que supostamente o fez ser quem era. Depois temos a impressionante lista de nomes de músicos com os quais ele cercou seu projeto. Como criticar alguém que deseja mergulhar na música nordestina e chama Hermeto Pascoal para fazer os arranjos? E para dar vida a tais composições e arranjos ele convida nomes como Dominguinhos, Itiberê, Robertinho do Recife, Chico Batera, J.T. Meirelles e o próprio Hermeto – parece até provocação, o nome do disco poderia ser Fagner e seus All-Stars. Todas as composições são originais, exceto “Flor da Paisagem”, que adequa-se à perfeição ao padrão do disco.

Apesar de um certo grau de experimentações, o disco é todo construído em timbres suaves, longe das atonalidades agressivas de discos experimentais que marcaram a música brasileira pregressa. Contrapontos curiosos seriam discos de Caetano Veloso como Transa e Araçá Azul, que marcam uma virada de costas de Caetano a seu público; Orós, por sua vez, nunca abandona a acessibilidade, mesmo com o expressionismo dos vocais de Fagner e com as melodias que, apesar de muitas vezes inspiradas em raízes nordestinas, pouco têm da familiaridade do cancioneiro popular. Os arranjos de Hermeto Pascoal são em grande parte responsáveis por isso, nunca deixando os momentos mais experimentais cair no obtuso. Outro ponto é a rara lucidez de Fagner ao lidar com suas composições mais radicais sem perder o poder de comunicação. Isso sem apelar para o romantismo raso que dominaria sua produção mais recente. O uso de cada modelo é tomado com tal liberdade que em alguns momentos é difícil perceber onde está a volta ao forró identificada na época. Orós é tanto forró quanto jazz em sua abordagem de ruptura e conciliação. Passando de momentos de singela psicodelia a improvisos com naturalidade, nenhuma das intervenções dos convidados toma mais que o espaço necessário, e o trabalho de músicos como Lincoln Olivetti, que em discos futuros pesariam de forma desconcertante, aqui estão plenamente integrados. O disco consegue ser o mais experimental de Fagner e um dos trabalhos mais ligados a estruturas tradicionais de Pascoal, funcionando à perfeição em ambos os níveis.

“Cinzas” dá o tom do disco, começando ousada e quase psicodélica, e a mão de Hermeto Paschoal não se deixa confundir, como acontecerá por todo o disco. A bela “Flor da Paisagem” (Robertinho de Recife/Fausto Nilo) ganha arranjo luxuoso para cordas, flauta, guitarra e percussão discreta criando um perfeito cenário para Fagner tanto ser emotivo quanto brincar com as possibilidades vocais criadas pela letra. A pungente “Esquecimento” (Fagner/Brandão), com uma das mais belas letras de Fagner, antecede a épica “Romanza” (Fagner/Belchior/Fausto Nilo) com sua estrutura progressiva e acelerada, vocais tremulantes e intensos, ambas demonstrando intensidade em registros bem diversos. Preparando caminho para as experimentações de “Epigrama nº 9″(Fagner/Cecília Meireles), com harmonias complexas e transições de ritmo de grande riqueza, incluindo no final interferências eletrônicas e teclados junto aos arranjos para metais que aos poucos vão tomando espaço, até desintegrarem a música. “Cebola Cortada” deve ser a música mais popular do disco, com sua melodia simples, das que mais remetem às raízes nordestinas, e arranjo rico para cordas e acordeão, e vocais inspirados que contêm o que se poderia dizer que é o melhor de Fagner. Na faixa-título, Fagner limita-se a tocar guitarra e brincar com seus vocais, mas a grande estrela é o piano de Pascoal que compõe uma base firme e inspirada para os metais jazzísticos e as improvisações de Fagner. “Fofoca” fecha o disco com nova predominância do piano, sustentando os arroubos do restante dos instrumentos e das harmonias vocais; e sua letra talvez contenha uma das possíveis chaves para a decadência do prestígio de Fagner.

Orós é daqueles discos clássicos que não apenas fazem parte do cânone da MPB como também a reinventaram e, ao fazê-lo, criaram seu canto próprio. No seio da MPB, Orós parece esquecido, mas reluz toda vez que algum sensato lembra de lançar-lhe um pouquinho de luz. (Marcus Martins)

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Embarcar em Orós, de 1977, é uma viagem tanto para o ouvinte como parece ter sido para o próprio Fagner. Nascido em Orós, Ceará, o cantor emigrou para o Sul Maravilha a fim de consolidar a carreira e, neste disco, se dedica a uma pirueta de retorno às origens surpreendente para quem, anos mais tarde, ficaria marcado pelos versos “Quem dera ser um peixe/Para em teu límpido aquário mergulhar/Fazer borbulhas de amor/Pra te encantar”.

No disco, ao mesmo tempo em que Fagner divide com velhos companheiros dos tempos de “Pessoal do Ceará” (Belchior, bem como Fausto Nilo, Petrucio Maia) as honras das composições, ele tem a companhia de um grande craque na produção e nos arranjos.

E é Hermeto Pascoal quem, de modo geral, dá o tom experimental às canções do disco. Seja com orquestrações sofisticadas, seja explorando sonoridades marcantes da época (os efeitos das guitarras, o som da bateria), mas, sobretudo, ele merece crédito pelo que o disco tem de insubmisso (a começar pela escalação do time de músicos).

Exemplos disso estão em “Romanza”, onde o cenário nordestino encontra sons indianos e vibratos vocais; em “Epigrama nº 9”, composição sobre poema de Cecilia Meireles; e, como não poderia deixar de ser, em “Orós”, a faixa-título, em que o piano e o teclado conduzem desde o início a festa que se segue (talvez não à toa, a faixa se beneficie de não ter letra).

A sensação que fica é de que, para Fagner, essa viagem a Orós é o marco. Mas, para Hermeto, a jornada ainda iria bem mais longe. (Tiago Campante)

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Nunca fui fã do Fagner. Quer dizer, para ser bem sincero, algumas coisas que eu gostava quando criança ainda se mantêm, como a lembrança de uma qualidade ao mesmo tempo sentimental e ríspida, salientado por uma voz rasgante, que é distintiva. Mas, ao mesmo tempo, sempre fui desses incapazes de compreender um culto a ele como se fosse da mesma envergadura de um Walter Franco, Jards Macalé ou Itamar Assumpção. Não é. Orós, apesar de ser de longe o disco mais ousado e desgarrado de Fagner, ajuda a entender um pouco o porquê. É um disco monumental do ponto de vista dos instrumentistas envolvidos e dos lampejos ocasionais. Mas é também um disco que deixa bastante a desejar na dinâmica entre a liberdade da composição – presa a alguns padrões de estrutura – e o desejo de liberação. Apesar de alguns grandes momentos de energia – que não é só instrumental, envolve e muito a força vocal de Fagner -, alguns versos são de doer de filosofice da natureza (“Quem acredita em sereia sabe os segredos do mar” se destaca) e as canções não ajudam muito, forçando os arranjos, aqui sob a responsabilidade do grande Hermeto Pascoal, a perderem a intensidade nos momentos em que as estrofes e os refrões aparecem. Mesmo os fãs ferrenhos hão de se lembrar, em Orós, dos momentos externos à estrutura da canção como os melhores do disco.
Não que Orós seja um mau disco, longe disso. É inclusive um disco altamente recomendável, e feito num momento que pode ser visto, dependendo do olho, como o arremate do momento mais rico da música popular brasileira, ou como o momento de início da estagnação e degeneração que culminou nos anos 80 e na diluição das experiências e das qualidades da maior parte dos grandes músicos dos anos 60/70. Inclusive, Orós em muitos aspectos remete ao momento maior de excelência e inovação de Milton Nascimento, o disco Milagre dos Peixes. Todos, naturalmente, hão de concordar que nem com todo o arroz com feijão do mundo Wagner Tiso chega a Hermeto Pascoal, mas em Milagre dos Peixes o projeto musical é todo coeso, e a estrutura das faixas permite com toda desenvoltura a liberdade alcançada na instrumentação. Em Orós, parece que Fagner quis fazer um disco de carreira regular tendo arranjos geniais como acompanhamento. Acompanhamento ao qual é dado, verdade seja dita, o primeiro plano em alguns momentos. “Cinza” e “Romanza” fazem isso muito bem, e há em sempre alguma coisa a ser destacada em cada faixa. Mas ao mesmo tempo Orós deixa um gosto amargo do que poderia ter sido e não foi. Ainda assim, um disco muito bom, que qualquer fã de Hermeto deve obrigatoriamente ouvir e que todos interessados em instrumental brasileiro vão encontrar muita coisa a emocionar. (Ruy Gardnier)

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Como leitor contumaz das revistas de música dos anos 80, fui exposto a uma série de argumentos, repisados à exaustão, que procuravam justificar a idéia de que os anos 70 foram para a música uma espécie de “idade média”, uma era marcada pelo obscurantismo do rock progressivo, pelo rebolado insípido da disco, e que, mais tarde, fora purificada pela virulência punk. Nenhum deles me convenceu, pois mais pareciam espasmos desconcatenados do “gostismo” paulista da Bizz, ou da especialização estreita da Metal ou da Roll. Para mim era muito claro que os anos 70 foram absolutamente brilhantes para a música, no Brasil e no mundo. Todos os grandes artistas realizaram grandes álbuns, como que estimulados por uma competição silenciosa, e até mesmo artistas nem tão significativos lançaram discos excelentes, quase sempre tomados por uma gana experimental: Djavan (os dois primeiros), Edu Lobo (Cantiga de longe), Alceu Valença (com a obra-prima Molhado de suor), Zé Ramalho e muitos outros. Penso que esses jornalistas que encamparam a luta contra os anos 70 tinham por objetivo a emancipação da música e a desvalorização do instrumentista especializado, negligenciando os diversos espécimes raros que surgiram nas franjas de um contexto musical tão rico que possibilitou que até mesmo Raimundo Fagner fizesse um grande disco.

Digo até mesmo porque nunca gostei de Fagner. Primeiro, por conta de seu canto afetado; segundo, por seu repertório impensado, excessivamente atento ao aspecto comercial; terceiro, por suas letras, um misto do modernismo nostálgico de Cecília Meirelles (de quem ele plagiou duas letras sem dar o devido crédito) e poesia popular que resvala quase sempre no excesso; quarto porque, de sua produção total, o único disco realmente ousado é Orós, graças ao elemento mágico chamado Hermeto Pascoal, responsável pela direção musical. Mas em que sentido se orienta essa ousadia? Eu diria que o Fagner de sempre se encontra em Orós, mas auxiliado e reforçado por arranjos surpreendentes: as cordas de “Cinza”, a bela faixa de abertura; os arranjos vocais de “Epigrama”; o galope afiado de “Romanza”, executado pelo trio Robertinho do Recife, Itiberê e Paulo Braga, com destaque para o percussionista Aleuda; o instrumental que dá nome ao álbum, onde Fagner explora uma vertente vocal que poderia dar o tom de suas interpretações, explorando altura próximas do médio-agudo, mas que infelizmente perdeu para o canto adocicado das baladas de novela. E o final, debochado e irreverente, com “Fofoca”, letra de Hermeto, cantada como um expurgo, nitidamente endereçada a alguém… Pode-se contar também as parcerias com Gonzagão e Ney Matogrosso, mas que nem de perto se comparam a Orós.

E ai fica a questão: Fagner soube utilizar a liberdade musical de Hermeto, ou foi beneficiado por ela? Fico com a segunda, já que, ao final da audição, lamenta-se que a capacidade criativa de Fagner não tenha se prolongado nos trabalhos seguintes. (Bernardo Oliveira)

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5 comentários em “Fagner – Orós (1977; CBS, Brasil)

  1. Arnaldo
    24 de outubro de 2010

    PODERIA ME ENVIAR AS MUSICAS DO LP DO FAGNER ORÓS

    GRATO

    ARNALDO

  2. Clayton Moreira
    31 de março de 2011

    Curioso o fato de que os blogueiros passaram a maior parte do tempo a desancar Raimundo Fagner e a acusá-lo de ser comercial. É pecado vender disco? As hoje celebradas gravações de Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas, a maioria delas com arranjos de Pixinguinha e Radamés Gnattali, não foram um sucesso de vendas na época em que foram lançadas? Fica a impressão de que se o artista consegue chegar com sua música ao grande público, é porque o povo não entende nada de música e então aquele artista não merece consideração por parte da crítica. No caso do disco analisado, parece que os blogueiros o tempo todo quiseram dizer que se trata de um grande disco, “apesar do Fagner”. “Orós” é tão genial quanto “Transa” e “Milagre dos Peixes” e Fagner tem o mérito de haver se cercado de artistas tão arrojados e talentosos. Poderia muito bem ele ter colocado uma instrumentaçãozinha básica de MPB-bossa nova com piano, baixo, bateria e um violão mal tocado, mas não. Colocou no mesmo balaio o tradicional (no melhor sentido do termo) Dominguinhos e o vanguardista Hermeto e mostrou que a música de qualidade é atemporal.

  3. Gustavo Suassuna
    25 de setembro de 2011

    Pra mim, o disco “Orós” é extremamente difícil de ouvir. Mas pra quem percebe algo além da estrutura simples de música que a mídia nos impingiu, é um disco de beleza rara, rara mesmo. Muito já se falou desse disco, e a única coisa que posso dizer é que ele mudou minha concepção de música, que a música pode ter um nível de beleza muito superior ao corriqueiro, mesmo que pareça uma melodia e harmonia totalmente desorganizadas e difíceis de digerir, mas onde ao mesmo tempo se percebe uma ordem, uma beleza que passa desapercebida a quem está desatento, a quem a sensibilidade musical está há tempos demarcada, bitolada. Pra finalizar, faço votos de vida mais longa ainda a “Orós”, que, afinal, já soma 34 anos de existência, existência ainda não devidamente considerada.

  4. marcelo
    5 de junho de 2012

    nordeste psicodélico dos bons

  5. Alexis Peixoto
    28 de maio de 2015

    Bons textos com opiniões interessantes. Agora, chamar Alceu Valença e Zé Ramalho de “artistas nem tão significativos” é dose, independente de gosto.

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Publicado às 21 de julho de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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