Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Caretaker – Persistent Repetition of Phrases (2008; V/VM Test, Inglaterra)

The Caretaker é um projeto musical de James Kirby, músico e designer nascido em 1974, e mais conhecido pelo infame projeto V/VM, que prima mais pela provocação que pela qualidade musical. Kirby possui uma pletora de lançamentos por outros pseudônimos, mas talvez seu The Caretaker seja o que alcançou maior respeitabilidade nos últimos anos. Kirby ainda é responsável pelo selo V/Vm Test Records (no site dele é possível não apenas obter mais informações como ter acesso a muitos de seus lançamentos gratuitamente). Em 2008, além de lançar Persistent Repetition of Phrases pelo projeto The Caretaker, Kirby ainda lançou o álbum Bleaklow pelo projeto The Stranger, de sonoridade mais agressiva e soturna. (MM)

* # *

É difícil, talvez desnecessário, fugir de uma abordagem impressionista para este tipo de álbum. Persistent Repetition of Phrases é daquelas obras que funcionam plenamente como experiência auricular quanto como conjunto de proposições não musicais que reforçam o que ouvimos ampliando o seu alcance.

A singularidade do projeto The Caretaker pode ser apreendida por suas qualidades negativas, em especial por aquilo em que difere de outros representantes da música experimental, do drone e das chamadas esculturas sonoras. Isso por que, diferentemente de um Philip Jeck, James Kirby não trabalha com o detrito, com as possibilidades musicais do defeito em vinis. Pelo contrário seu método está em justamente preservar o que resta, apesar do defeito, ou seja, apesar de utilizar meios semelhantes, seus propósitos e interesses são diversos. Diferentemente de um Kevin Drumm, seu método reside menos na forma que na criação de um nicho emocional, na preservação de certos estados, ou pelo menos, na evocação daqueles momentos irrecuperáveis através de pequenos resquícios. James Kirby também não possui o virtuosismo de C. Spencer Yeh e seu Burning Star Core: Seu modus operandi é simples: drones, loops e samples tirados de vinis antigos; a sobreposição de ruído e trechos instrumentais, onde esses últimos aparecem sempre distantes, quase irreconhecíveis – como se ouvidos ao longe ou recordados vagamente. É certo que o The Caretaker é de longe o que de mais emotivo existe neste tipo de música.

Assim, poderíamos dizer que o mérito maior do The Caretaker é fazer uma espécie de performance da memória, elevando as idéias esboçadas pelos entusiastas da hauntology a outro patamar. O próprio nome Caretaker já entrega parte do sentido do projeto: o cuidar, o preservar algo que aparentemente já foi perdido. Um dos discos anteriores dele chamava-se Deleted Scenes, Forgotten Dreams, outro Recollected Memories From the Museum of Garden History. Os nomes das faixas delimitam ainda mais o alcance do nome, uma vez que os títulos referem-se a estados ligados à perda de memória e doenças degenerativas do cérebro que requerem atenção e cuidados especiais, muitas vezes à cargo de caretakers. O disco trata da perda da memória justamente reunindo pequenos fragmentos através da repetição, de loops, tape hiss, drones, músicas antigas, esquecidas. Usando de recontextualização, deslocamento desses trechos musicais, e imersão no ruído, ele tenta a preservação do que resta da memória que evanesce, pequenos detalhes que nos mantêm humanos. Fazendo uso do princípio de que as memórias mais antigas muitas vezes resistem a desaparecer no doente de Alzheimer, mas apenas para retornar descontextualizadas, fugidias. (Fazendo um exercício de substituições, acaso Sara Polley fosse Julian Schnabel, Persistent Repetition of Phrases seria a trilha sonora perfeita para Longe Dela). Assim, tudo parece interligado, as frases repetidas de quem perde a memória curta e os loops; a deterioração do contato com o mundo e a vida como a conhecemos e os vinis defeituosos, inúteis; a expressão que não trai qualquer reconhecimento diante dos entes queridos refletida em todo o aparato que Kirby cerca-se para realizar menos um exercício acadêmico que uma quixotesca tentativa de preservação, como se não soubesse que também seu disco vai desaparecer em algum desvão da rede ou qualquer sebo de discos usados e talvez por isso tenha incluído fantasmagorias como a idéia de regressão no título da sexta faixa. Justamente por tudo isso não falo de nostalgia mas do embate com o fim certo. E junto ao Quixote poderíamos pensar em um Bartleby às avessas, insistindo em dizer sim, permaneço apesar da morte. (Marcus Martins)

* # *

A música não está só no ouvido. A persistente repetição dessa frase talvez comece a dar vazão aos problemas propostos por James Kirby, na sua versão The Caretaker, no seu “Persistent Repetition of Phrases”. Mais do que um disco, The Caretaker produz uma espécie de experimento científico pelos cantos recônditos da mente que acolhem os sons e lhes dão abrigo. Lugares empoeirados, nem sempre remexidos, onde o cérebro aloja traços que, com o tempo, vão perdendo um pouco de sua materialidade e clareza e tomando a forma de algo que se considera fantasmagórico.

Reforçando a idéia de uma repetição persistente está a noção de eco, um som produzido que é primeiro espectral, depois remoto, depois fugidio, e, por fim, já turvo. Um pouco como as propriedades das imagens que a gente carrega na lembrança e vão se desvanescendo com o tempo; mas também como o som que se ouve ao longe, que parece vir de alguma colina vizinha, de um ponto que não se sabe precisar aonde fica. No disco, antes de mais nada, há sempre uma cama flutuante de acordes, edulcorada pelos estalidos e chiados de discos de vinil (marca do tempo). Aos poucos, eventualmente, surgem melodias longínquas, pianos de outras eras, tempos de música de salão. Mas não se trata de fazer uma análise faixa a faixa. As canções são afrescos, lugares ora habitados, ora inabitados, abandonados. É um disco que impõe uma condição de audição, pede um olhar para o abismo aonde o som reverbera dentro de nós. A música não está só no que se ouve, a matéria que vibra e nos atinge; está também na mente e na memória, já um tanto imaterial. No abismo que está aos pés de The Caretaker, a música pode ser encontrada mesmo na lembrança perdida (amnésia), ou na demência senil (mal de Alzheimer), ou em experiências extáticas (como regressões a vidas passadas). Eco imaterial e imponente. (Tiago Campante)
*#*

A primeira audição de Persistent Repetition of Phrases faz lembrar um misto de melodias kitsch, som de carro do gás, new age e o som de fantasmas (caso eles tivessem um). Ampliando a intimidade com o disco, vai ficando claro o propósito de James Kirby com esse projeto The Caretaker (o artista é talvez mais famoso pelo polêmico e irreverente V/VM, trabalhando volta e meia com as idéias de plágio e paródia): trabalhar aspectos espectrais do som, imprimir um caráter de peso, densidade do tempo no som. A estratégia aqui é algo semelhante à de Philip Jeck, ao trabalhar com discos antigos, com a distorção ocasionada pelo processo do tempo, com a baixa fidelidade e com os sons de estalos dos discos antigos. Mas as estratégias e os objetivos são bem diferentes (ainda que os resultados, à primeira vista, pareçam se comunicar). Um bom exemplo das intervenções de sonoridades “novas” às toadas e melodias antigas utilizadas aqui é “Von Restorff Effect”, lá ao final do disco, que sobrepõe uns sons quase de dub a uma balada à base de piano e metais. O efeito conseguido unindo dois tempos e sonoridades diferentes é intrigante. “Poor Enunciation”, ao trabalhar em cima de um coro e criando ecos em sons de estalo, talvez seja a que mais claramente evoca uma sensação de passado aterrador, tão duro quanto abstrato. Mas Persistent Repetition of Phrases é mais cativante quando trabalha com essas melodias batidas que parecem já estar fincadas no nosso subconsciente, como se fosse um som já-lá-o-tempo-todo, sons surrados pelos clichês e pela facilidade melosa da frase melódica. Isso acontece, num crescendo, nas quatro primeiras faixas do disco, culminando com “Long Term (Remote)”, quase um hino abstrato, tamanha a solenidade e austeridade da faixa, que basicamente repete uma melodia distorcida pela amplificação e, imaginamos, por efeitos de delay, e utiliza os chiados de vinil para encher o som. Ao fim, a coisa mais impressionante do disco é como ele transforma esses sons a princípio palatáveis e límpidos nessa parede de memórias, assombrações e incertezas que ouvimos. (Ruy Gardnier)

* # *

No site do produtor The Caretaker, lê-se: “The Caretaker começou em 1996, inspirado na seqüência do salão em O Iluminado de Stanley Kubrick”. Adiante, ele afirma: “depois, o som foi ficando soturno e ainda mais abstrato com o tempo, mudando da idéia inicial do salão mal-assombrado para territórios envolvendo a mente e sua habilidade de reaver memórias.” Com estas linhas em mente, tomemos a constituição da faixa-título: uma nuvem de ruídos – mais especificamente estática e white noise manipulados por efeitos – envolve uma breve seqüência harmônica ao piano, retirada de um velho disco de ballroom music – valsas e foxtrotes que animavam os salões europeus até meados do século XX. Conforme os ruídos poeirentos envolvem a harmonia repetida à exaustão, a faixa vai adquirindo uma forma sonora evocativa, que, como pretende o produtor, tem o poder de reportar aos mecanismos mais recônditos da memória humana. O resultado musical pode soar um tanto quanto árido para aqueles que tem dificuldades com a música abstrata, mas faz delirar aqueles que não abrem mão de um hermetismo mais arrojado.

Sei que alguns amigos leitores não simpatizam muito quando ligo a particularidade de certos trabalhos a contextos mais amplos, mas agora será inevitável, já que o que mais me admira aqui é uma certa perspectiva sobre a criação musical, a qual poderíamos chamar provisoriamente “música de procedimentos”. E, ao afirmar isso, pretendo indicar duas características de Persistent Repetition of Phrases que definem as coordenadas desta perspectiva. Primeiro, que na fronteira entre o serialismo e a música eletrônica, sucedeu-se o alargamento do pensamento musical na esteira da multiplicação e interação de meios. A integração entre meios técnicos e culturais, propiciou um outro registro do pensamento musical, calcado mais na experiência e no background individual do compositor do que em sua cultura propriamente musical. Wagner e Stravinsky também dialogaram com outras esferas que não a musical, mas visando a volatilização e a expansão do discurso musical. Na “música de procedimentos” não se tem por objetivo principal o discurso musical, mas a própria experiência: ela se torna o elemento que possibilita o extravasamento do som, sua ramificação nos mais diversos âmbitos da vida. A “música de procedimentos”, portanto, é essencialmente voltada para o exterior, em oposição à interioridade da música chamada “erudita”. Persistent Repetition of Phrases é um exemplo contudente de uma música que recorre quase que exclusivamente a elementos extra-musicais e para-musicais para produzir um discurso sonoro que dialoga com o cinema, a fotografia, a memória e, de um modo geral, com as imagens.

Esta relação com a imagem, embora projete o compositor a um grau de manipulação mais sutil da matéria sonora, o prende também à dialética própria desta matéria. Quero dizer: se por um lado, a música é produzida a partir de experiências e procedimentos que remetem a um contexto imagético, ela, no entanto, não é imagem, mas som. De forma que, na contradição, ocorre a dissolução da dialética sonora, e conseqüente “dramatização” da música, isto é: não se trata mais de notas, harmonias e ritmos, mas de climas, ambientes e tramas sonoras. Podemos dizer que, em detrimento do equilíbrio que dá o tom da palavra harmonia, a “música de procedimentos” privilegia a tensão decorrente das sonoridades extra-musicais. A música é composta como um quadro, contra o qual os sons se lançam na intenção do drama. The Caretaker representa perfeitamente este aspecto musical contemporâneo, assim como o trabalho de Phillip Jeck, Daisuke Miyatani e Jacaszek. No caso particular de Persistent Repetition of Phrases, o drama vem em favor dos mais profundos objetivos do produtor, já que The Caretaker deseja operar no campo da evocação e da memória.

Por exprimir uma relação muito específica com a exterioridade e com o alargamento da dimensão musical; por propor a desmusicalização da música como forma de acelerar a dramatização do discurso sonoro; e por operar nessas duas frentes de combate, engrossando as fileiras contra a estagnação do som e a petrificação do sentido, The Caretaker e Persistent Repetition of Phrases representam o que há de mais inovador e desafiante na música contemporânea. Ainda que, a esta altura, a palavra música já me soe tão problemática quanto insuficiente. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Um comentário em “The Caretaker – Persistent Repetition of Phrases (2008; V/VM Test, Inglaterra)

  1. Pingback: bolachas grátis. » Blog Archive » The Caretaker - Persistent Repetition of Phrases [2008]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 22 de julho de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: