Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Itiberê Orquestra Família – Pedra do Espia (2001; Jam Music, Brasil)

A Itiberê Orquestra Família nasceu nos idos de 1999, a partir de uma Oficina de Música Universal conduzida na Escola Villa-Lobos, no Rio, por Itiberê Zwarg, integrante do grupo de Hermeto Pascoal. O projeto se firmou nos Seminários de Música Pro Arte e decolou de vez quando Itiberê se motivou com a idéia de criar uma orquestra de música popular com instrumentistas jovens e engajados, sem os “vícios” de músicos veteranos mais interessados em bater ponto do que em fazer música. Pedra do Espia é o primeiro disco da orquestra, que depois gravaria Calendário do Som, com canções de Hermeto Pascoal.

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Uma família que tem como pai Itiberê Zwarg e como avô Hermeto Pascoal tem, ao mesmo tempo, uma grande fonte de inspiração e sabedoria musical, e uma grande responsabilidade. Um dos artistas mais singulares do Brasil, Hermeto desenvolveu um estilo de criação que tem na orquestra sua terceira geração. Trata-se de uma profissão de fé na música; uma relação de amor com o som que começa no ouvir para só então ir para o tocar; e a certeza de que é preciso muito trabalho para se lapidar cada canção como quem faz uma jóia.

O que se ouve da Itiberê Orquestra Família é o resultado da aplicação desse método. Uma sonoridade que Hermeto primeiro chamou, no título de seu disco de 1973, de música livre, e depois chamaria de música universal. Uma festa de celebração do som, em seus mais variados ritmos, harmonias e melodias. Um universo ainda mais rico e intrincado quando se leva em consideração o que é uma orquestra em ação, com violino, violoncelo, viola, piano, sanfona, escaleta, flauta, flautim, voz, guitarra, clarineta, clarone, saxofones, trompete, melofone, trombone, violão, viola nordestina, cavaquinho, bandolim, baixo elétrico, bateria e percussões. Sob a batuta de Itiberê, compositor e arranjador do disco, os instrumentos conjuram uma música riquíssima.

A audição de Pedra do Espia encanta ao mesmo tempo que surpreende. São tantas nuances, tantas variações, que é preciso calma para acompanhar. Especialmente porque Itiberê subverte certas convenções, usando os instrumentos e as vozes em “funções” diferentes das que lhes são normalmente atribuídas, como dar aos sopros uma função mais rítmica que melódica em certas ocasiões.

Os jovens músicos da orquestra família correspondem à responsabilidade de estar à altura das complexas proposições musicais de Itiberê com talento, comprometimento, muita energia e, salpicada, uma dose de imaturidade que dá ao disco um caráter de promessa de que mais estaria por vir. Cada nota é tocada com minúcia, cada batida é feita com afinco. Exemplos disso são o incrível entrosamento exibido em “Na Carioca” e “Bota pra Quebrar”, o suíngue de “Forró no Encontro dos Rios”, a sutileza dos arranjos vocais de “Muito Natural” ou o hiato que é “Vale de Luz”, um dueto de piano (Vitor Gonçalves) e clarineta (Joana de Castro) que se destaca no meio de canções tão cheias de instrumentos.

O conjunto da obra é um som que chama a atenção também pela sua qualidade orgânica, humana. Com cada vez mais recursos tecnológicos sendo transformados em música, chega a soar diferente aos ouvidos um disco basicamente executado por tantos homens, mulheres e seus instrumentos. Mais impressionante ainda é ver a orquestra em ação, ao vivo, tocando, diante dos nossos olhos, aquilo que já parece incrível em estúdio. É ver para crer. (Tiago Campante)

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O advento da Itiberê Orquestra Família, de certa forma, não representa apenas uma renovação na música instrumental brasileira. De forma mais decisiva, ela aponta definitivamente para a eternização das influências de Hermeto Pascoal no seio da música instrumental praticada no país. Considerando que esse terreno foi muitas vezes utilizado como lote de xenofobia e/ou aparelho criador/reprodutor de folclore (ou seja, a arte que perde vibração e se cristaliza, museificada, em cultura), por si só a evidência da criação desse grupo já é auspiciosa. E Hermeto é um mundo. Só ele parece controlar a química que faz com que sua música seja ao mesmo tempo vanguardística e acessível, violenta e sutil, tradicional e alienígena, densa e bem-humorada, experimental em arranjos, timbres, composição, execução e filosofia. É um homem que envereda em sua busca pela beleza sem os preconceitos habituais, e por isso encontra-a sempre em lugares improváveis, desérticos. Ou seja, tê-lo como mestre implica necessariamente em trabalhar buscando uma beleza frenética, cheia de tensões e mergulhos.

O mínimo a dizer é que a Itiberê Orquestra Família e seu Pedra do Espia, primeiro disco do grupo, passam tranqüilamente no teste. É um disco totalmente maravilhado por Hermeto, nas composições em polirritmia, nos arranjos, na dinâmica entre gêneros regionais e intervenções jazzísticas. Itiberê Zwarg é assumidamente um discípulo e trabalha “à maneira” do mestre, e sua orquestra pode ser vista como uma contribuição “de escola”. Mas quando essa família se junta para tocar, o que se vê e ouve não é a subserviência conhecida do academicismo, mas pura vibração e exuberância, deslumbre com as possibilidades da música.

E Pedra do Espia dá total vazão a essas possibilidades. São 30 instrumentistas, 16 faixas e 93 minutos de música. É um disco inteiramente coeso no conceito, na qualidade da execução e nas variações possíveis de orquestração. Talvez “Doce”, música de abertura do cd2, seja aquela que apresenta de forma mais completa o conjunto: temas facilmente guardáveis, mudanças surpreendentes de andamentos, improvisações, equilíbrio entre eufonia e dissonância, e, claro, energia. Mas trata-se mais de um exemplo perfeito de faixa-soma do que de um destaque, uma vez que o disco inteiro passeia por caminhos de aventura e excelência, mantendo o nível lá em cima.

O único senão, confessadamente covarde, seria pedir que se reproduzisse a inominável energia que brota das apresentações ao vivo do grupo. Nelas, o som sai mais cheio e selvagem, e talvez uma certa limpeza em Pedra do Espia possa ser interpretada como o preciosismo do clean, sempre um risco (vide a estética ECM). Mas, como em nenhum momento existe prejuízo da criatividade ou da ousadia, a suspeita se desfaz e podemos curtir a orquestra & família Itiberê numa boa. Discaço. (Ruy Gardnier)

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Sendo impossível avaliar este trabalho sem recorrer ao nome e à música de Hermeto Pascoal, convém então precisar as qualidades particulares que Itiberê Zwarg e sua “orquestra família” destilam neste maravilhoso Pedra do espia – digo maravilhoso para entregar logo o veredito, e passar diretamente às loas. Pedra do espia traz um total de dezesseis faixas, cada uma com um trajeto específico, rigorosamente inserido no universo musical de sínteses e climas criados por Hermeto Pascoal. Hermeto ressoa no álbum, sem dúvida: através da mistura descompromissada de jazz e ritmos brasileiros, das harmonizações inusitadas, dos improvisos empolgantes, da irreverência… Mas, fora a possibilidade de considerarmos a participação de Itiberê na construção desse precioso vocabulário, e a conseqüente reprodução desta contribuição no álbum da Orquestra, o que se pode depreender da experiência de ouvir Pedra do espia é a potência de um discurso sonoro para o qual se aplicam adjetivos e expressões como “livre” e “sem regras”, mas que, na verdade, exprime exatamente o oposto: Pedra do espia se define por uma disciplina rigorosa. Disciplina em termos de composição: todas as faixas apresentam desenhos melódicos e harmônicos, dinâmicas e ritmos diversificados, mas absolutamente coerentes com o “conceito” do projeto; disciplina em termos de execução: os músicos são virtuoses, mas não caem no discurso vazio do virtuosismo, valorizando o essencial, isto é, a música; disciplina na produção, que exprime equilíbrio entre a concepção apolínea e o vigor dionisíaco. É claro que algumas faixas são mais representativas desta disciplina do que outras. E isto ocorre no mais das vezes quando Itiberê e sua orquestra-família estendem as faixas, multiplicando as convenções e dinâmicas, sobrepondo melodias e harmonias com método, ampliando o vocabulário hermetiano com admirável perspicácia. São as faixas mais longas que melhor exprimem o que a orquestra-família tem a dar. A faixa-título, por exemplo, uma suíte inconfessa que conta com a participação do mestre Hermeto, traz um número de variações e convenções surpreendente, lembrando às vezes os excessos positivos de um Mr. Bungle. Na belíssima e complexa “Toada cigana”, onde trata-se exatamente de produzir uma sonoridade entre uma série de variações do mesmo “tema”, a toada… Assim, a disciplina eficaz e única da Orquestra família de Itiberê Zwarg, se mostra, enfim, na própria disposição do grupo, quero dizer: o álbum não é duplo à toa, mas por conta de uma expressão inequívoca e abundante que percorre todos os seus noventa e três minutos. (Bernardo Oliveira)

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Nem vale o esforço divagar sobre a validade de boas intenções, projetos relevantes e de boa proveniência; iniciativas do tipo podem inundar o mercado fonográfico em determinados momentos para serem esquecidas rapidamente. São veteranos desesperados para salvaguardar seu legado; são jovens tanto querendo demonstrar respeito por suas raízes e influências quanto tentando pongar na respeitabilidade alheia. Mas também são visões que merecem estudo; são projetos iniciados, talvez até acabados, por outros artistas mas que ainda deixam margem para novas idiossincrasias. Aqui entra a Itiberê Orquestra Família. Iniciada como projeto pedagógico por Itiberê Zwarg, os frutos ali colhidos o levaram a vislumbrar a criação de uma nova orquestra, seguindo os caminhos que ele ajudou Hermeto Pascoal a traçar anteriormente.

Se o caso não é de oferecer grande contribuição ao legado de Pascoal, temos ao menos a firmeza e a concentração no aspecto que interessa, a música. Daí vem o mérito dessa formação: cada uma das faixas que compõem este longo álbum é repleta de energia e vontade de fazer música. E isso não é resultado de condescendência e simpatia pelo projeto, mas da mera audição de um álbum que, apesar da duração excessiva, não se apóia exclusivamente no passado dos músicos que lhe dá pedigree.

Um dos méritos mais evidentes da orquestra é executar as idéias de Pascoal com fluidez e alegria aliada a grande precisão. Nada ali é indulgente e gratuito. Apesar do estilo livre ou universal pregado pelo método, não há espaço para exibicionismos. Resta evidente que Itiberê conseguiu que seus jovens músicos aliassem objetividade com exuberância.

Apesar da falta da explosão que podemos encontrar tanto na música de Hermeto quanto em nós enquanto a ouvimos, reconheço que isso seria pedir muito, e não custa regozijar com um grupo de entusiastas que professam seu amor à música e ao legado de músicos que construíram uma das sonoridades mais singulares das últimas décadas. (Marcus Martins)

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Sobre campante

Tiago is FC Brazil's Rio de Janeiro-based member. He was a member of the original team at Lance!

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Publicado às 27 de julho de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
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