Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Black Francis — svn fngrs (2008, Cooking Vinyl, Inglaterra)

Black Francis é Charles Michael Kittridge Thompson IV, nascido em Boston (EUA), em 1965. Já foi o Black Francis dos Pixies, uma das bandas mais importantes do rock no fim dos anos 80 e começo dos anos 90, quando atingiu reconhecimento crítico e no meio musical. Depois, basicamente nos últimos 15 anos, foi Frank Black, em carreira solo. Em 2007, voltou a ser Black Francis e, depois de Bluefinger, lançou este ano Svn Fngrs, um mini-LP gravado em menos de uma semana, com guitarra, voz, baixo e bateria.

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Enquanto ponderava a indicação de Svn Fngrs na minha estréia na Camarilha, conversava com o Bernardo sobre a relação curiosa que a gente estabelece com um artista que conhece há muito tempo. Tal é o caso de Black Francis, que nós conhecemos como principal compositor e cantor dos Pixies, depois acompanhamos durante os tempos de Frank Black e, agora, voltou a ser Black Francis, solo. E o Bernardo me perguntou se eu achava que ele tinha mudado muito nessas idas e vindas de pseudônimo. Bom, não. Não muito.

E, ao indicar Svn Fngrs, fui ouvir o disco pensando em quais razões moviam Black Francis/Frank Black adiante. Sucesso comercial é que não é. Quem viu o DVD loudQUIETloud sabe que isso ficou mal resolvido para os Pixies, que encontraram sucesso na turnê de retorno, mas àquela altura já pareciam ter mágoas e tristezas demais na bagagem. Os tempos de êxito crítico também ficaram para trás. Qualquer disco que Frank Black/Black Francis tenha lançado nos últimos 15 anos foi sempre julgado e condenado em comparação com os Pixies (confira aqui, por exemplo). Então, o que move Black Francis?

Talvez seja simplesmente teimosia. Junto com os tempos de Pixies, ficou para trás a era da indústria cultural as we knew it, ou seja, aquela fase das nossas vidas em que todo mundo ouvia mais ou menos as mesmas coisas, os CDs internacionais não chegavam ou chegavam com atraso aqui. Hoje em dia, até um gigante como Bob Dylan pode lançar um belo disco (Modern Times), fazer um clipe com a Scarlett Johansson e vir tocar no Brasil que ninguém dá muita bola.

Por outro lado, hoje em dia o artista não precisa ficar preso às determinações da indústria fonográfica e pode lançar suas músicas mais à vontade. Então, se o sucesso não veio na época que poderia para Black Francis, ele ao menos pode gravar e lançar tudo o que faz, gostemos nós ou não. E é o que ele vem fazendo, seja quando acerta (Fastman Raiderman, 2006) ou quando passa ou pouco mais longe (Bluefinger, 2007).

Svn Fngrs não está nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Tem momentos diferentes, como a pegada meio funkeada de “The Seus”. Tem sonoridades mais familiares como “Garbage Heap”, que traz ecos da obra-prima Teenager of the Year (o que é um elogio meio torto). Tem tropeços como “I Sent Away”, mas um artista como Black Francis nunca faz feio de verdade. Há sempre arranjos vocais sutis e bem bolados, levadas de guitarra singelas e honestas, quase cafajestes (“Half Man” e “The Tale of Lonesome Fetter”). Afinal, no som de Black Francis está presente quase uma enciclopédia do rock: lá estão o próprio Dylan, David Bowie, Tom Waits, Lou Reed, Rolling Stones, Beach Boys.

O fato é que Black Francis está aí, nem que seja por teimosia. E assim como toda teimoisa tem um pouco de burrice, tem também um tanto de perseverança, o que não deixa de conter uma potência de afirmação. Talvez por isso ele encerre o disco dizendo “When they com to murder me/I’m already gone bye-bye” (Tiago Campante)

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Desde que ouvi The Cult of Ray, absolutamente todos os discos de Frank Black/Black Francis me fizeram retornar aos seus dois primeiros discos solo, o homônimo Frank Black e Teenager of the Year, e a Trompe le Monde, último disco dos Pixies que é, a sua maneira, já um começo da carreira solo para o cantor (parece incrivelmente mais com os dois primeiros solos que com os três outros discos dos Pixies). svn fngrs pode até ser mais interessante que a média de qualidade dos discos de Frank Black desde 1996, mas não evita o refluxo nostálgico aos momentos de maior inquietação artística e experimentação com composições, gêneros e arranjos. Uma época em que ele surpreendia pela versatilidade e a mistura de fúria e doçura que já impressionava com os Pixies, e que no começo solo expandiu seu repertório do metal ao reggae.

svn fngrs começa bem, com “The Seus”. Não é uma faixa grandiosa, ela tem aquela cara meio burocrática de rock de veterano, com aquele bumbo marcando, aquela caixa seca. Mas o vocal domina: partes faladas desaguam em canto, alternância de voz aguda com grave, e uma maneira hilária de dizer “ban-di-doooooh” que leva um sorriso à boca. “Garbage Heap” e “Half Man” representam muito bem a razão da pouca atenção dada ao cantor hoje em dia: as composições são ok até, mas sua medianidade combina muito mal com os arranjos óbvios escolhidos na gravação. Existe até a impressão de que, na voz e no violão, as qualidades das músicas seriam ressaltadas. “I Sent Away”, ao contrário, é um rockão de verdade e justifica todo o peso dado ao arranjo de bumbo batendo três vezes, guitarra alta e esporrante e versos curtos, além de uma charmosíssima paradinha de bateria. Dá até pra esquecer o solo de gaita, que no entanto não incomoda. “Seven Fingers” é o lado vaqueiro do cantor; quem gostar que compre. “The Tale of Lonesome Fetter” também é um rock rotineiro, sem nada a se destacar. Mas tem surpresa no final: “When They Come To Murder Me” é a única que em algum momento faz lembrar a época áurea de Frank Black, em especial aqueles hits que dosam muito bem melodia ganchuda e punch (“Headache”, “Abstract Plane”). Mas nada que não me dê o impulso automático de ouvir “Los Angeles” ou “Parry the Wind High, Low”. (Ruy Gardnier)

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Antes de especular sobre a arte do heterônimo, devo perguntar: como avaliar um EP, e mais especificamente, este EP? Como expressão parcial de um trabalho vindouro? Como retomada? Como pequena brincadeira? Como caça-níquel? A empreitada já oferece dificuldades preliminares, mas aqui o buraco é mais embaixo, pois trata-se do cantor e compositor Black Francis. Após anos assinando como Frank Black, e lançando uma série de álbuns que variaram da genialidade ao pastiche, Francis retornou com Bluefinger e lança agora este svn fngrs. Entretanto, me parece que este EP encerra uma espécie de tentativa desesperada de fugir a um estilo de composição e arranjo que começaram timidamente em Bossanova e, mais agudamente, em Trompe le monde. Um estilo que marcou o fim dos Pixies e o início da carreira solo de Francis, próximo do folk, do rock rural e das referências culturais do pop americano. E, neste caso, o EP representaria uma tentativa não de retomada, mas de recriação. Se o “eu é um outro”, como dizia o poeta, o heterônimo pode representar a aposta do artista em outras inflexões de sua personalidade criativa. No entanto, não se trata de catar no álbum aquelas composições belas, simples e estranhas que fizeram nossas cabeças no final dos anos 80, nem de buscar um novo Teenager of the year (a obra-prima de Black), mas de tentar compreender o caráter do heterônimo, isto é: em que movimento se inscreve esta mudanca e em que sentido svn fngrs a representa.

Bem, a primeira audição mostra que esta mudanca não ocorre propriamente. Vejamos. Quando começa a primeira canção, “The Seus”, tomamos um susto: seria a redenção? Uma guitarra desconjuntada e dissonante rasga a introdução, enquanto os vocais atacam: “you are a bandido!” Mas lá pelas tantas, a batida funk se converte num daqueles inconfundíveis e suaves refrões com os quais Frank Black preencheu boa parte de seus álbuns. “Garbage heap” dá prosseguimento ao EP, e aqui já se trata de um delicioso escorregão, porque é uma daquelas faixas muito semelhantes a algumas do Teenager of the year: balada com tecladão irônico e bateria bem marcada, que faz traz uma certa alegria ao ouvinte, fã e descompromissado. “Half man” segue na mesma direção, o que nos faz pensar que uma política dos heterônimos aqui não surte muito efeito. Já “I sent away”, a segunda melhor do EP, nos devolve a esperança: rock’n’roll pesado e rápido, com letra surrealista. “Seven fingers” também traz um sabor de déjà vu, pois é mais um daqueles rocks característicos de Frank Black, com violão, marcação nos ton-tons da bateria e refrão estilo “chá-com-pão” (na Tijuca dos anos 80, qualquer batida rock 4/4 era “chá com pão”, sobretudo naquela pegada Ramones…). “The tale of lonesome fetter”, a terceira melhor, tem um refrão bacaninha, marcado exclusivamente por acordes de guitarras e tambores. O álbum termina com “When they come to murder me”, mais um rock à moda da casa, que traz no próprio título o problema do álbum: quem morreu? Quem está morto? Quem morrerá? Afinal, o heterônimo traz um sentido, ou uma “inflexão” própria? Mas, então, existiria um eu referencial? Bem, deixa pra lá…

No fim das contas, SVN Fngrs acaba residindo no hiato entre o sabor relativo e a mesmice. Coisa que Frank “Black” Francis vem fazendo há muito tempo. (Bernardo Oliveira)

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Ser Charles Thompson, também conhecido como Frank Black ou Black Francis, não é nada fácil. Também, ninguém mandou ter sido um dos artífices não apenas de uma das maiores bandas da história do rock, mas também um dos pilares do que veio a ser chamado de indie-rock, criando o modelo a ser seguido por todos os jovens que queriam criar uma banda após ele. São poucas as bandas relevantes criadas após o início dos anos 90 que não carregue alguma herança. Após a interrupção abrupta na trajetória da banda, Black Francis mudou sua alcunha para Frank Black e lançou uma pá de álbuns solos, acompanhado de seus amigos católicos.

Alguns álbuns iniciais deram a impressão de que teríamos uma versão pessoal para o legado dos Pixies, mas o que aparentemente aconteceu foi a acomodação criativa, com álbuns cada vez mais presos àquilo que ele próprio ajudou a criar, sem qualquer pretensão de grande contribuição para o legado estabelecido.

SVN FNGRS parece se beneficiar de sua curta duração e da utilização solta de um suposto conceito para fazer um dos álbuns mais instigantes de Mr. Black em muito tempo. Sete canções em pouco mais de vinte minutos, cantadas com intensidade e variedade suficiente para esquecermos de pelo menos uns cinco álbuns chatos que ele lançou na última década, começando com os esquecíveis The Cult of Ray e o recente Christmass. No fim, o lado conceitual parece desculpa para lançar qualquer coisa, ou repetir de forma aguada as incursões pelo bizarro que tanta singularidade trouxe a suas composições desde os Pixies. Um dos pontos de apoio de sua música vem sendo uma certa aposta em composições cruas, com muitas referências ao punk, especialmente à música dos The Stooges, mas o que já rendeu grande vitalidade em discos anteriores, mas aqui apenas serve de muleta e desculpa para o mais do mesmo. A produção é pouco polida para simular agressividade, com a suposta preservação das raízes que aqui parecem já um pouco apodrecidas…

Ainda assim, diga-se que não se trata de grande música, nada que não possamos encontrar em álbuns anteriores ou até mesmo em obras de seus imitadores. Nada que vá figurar em listas de melhores do ano ou que não caia no esquecimento daqui a não muito tempo. Por que permaneceria muito tempo ouvindo SVN FNGRS quando poderia ouvir Frank Black? Fora de questão.

Nem seria o caso daquele artista que cria uma forma de trabalho e apenas vai compondo uma Obra, pois apesar de não serem meras repetições, muitos dos discos dele poderiam ser regravações de discos anteriores, maior exploração de possibilidades abandonadas no frenético início dos anos 90. mas não, temos um gênio que se contentou em jogar fácil, jogar para a galera. Ah, licença que eu vou ali ouvir Teenager of the Year. (Marcus Martins)

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Sobre campante

Tiago is FC Brazil's Rio de Janeiro-based member. He was a member of the original team at Lance!

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Publicado às 28 de julho de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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