Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kevin Drumm – Imperial Distortion (2008; Hospital Productions, EUA)

Nascido em 1970 e oriundo da cena experimental de Chicago, Illinois, Kevin Drumm é um guitarrista e operador de eletrônicos que confunde a todos lançando discos inclassificáveis, que parecem superar as barreiras do heavy metal, do drone, do ambient, do noise, free improv e do minimalismo (apesar de, pontualmente, alguns discos chamarem mais certos gêneros que outros). Seus primeiros discos solo se baseiam na intervenção de barulhos intermitentes, mas foi com Sheer Hellish Miasma, de 2002, um disco entre sonoridades noise que lembram o metal mais extremo, que Drumm atingiu maior reconhecimento e atenção por sua carreira. Além de seus trabalhos solo, lançou discos e se apresentou em sessões improvisadas com artistas como Jim O’Rourke, Ken Vandermark, Mats Gustafsson, MIMEO, Taku Sugimoto, Phil Niblock, Tony Conrad, John Butcher, Ralf Wehowsky, Axel Dörner, Daniel Menche, Dan Burke e Prurient. (RG)

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“Distorção imperial” depois de ter feito o “mero miasma infernal”; era de se esperar o mesmo tipo de vandalismo sonoro rigoroso que caracterizava o soberbo Sheer Hellish Miasma, um desses discos que servem como marcos definidores em campos artísticos (no caso, o noise). Kevin Drumm é um fanático pelo imaginário do metal e pelos seus sons, e isso fica claro nas escolhas de timbres de feedback que ele sempre faz, soturnos, guturais, como os cultores do death e do doom. Ouvi-lo é sentir que tem alguém processando detritos sonoros e utilizando um vocabulário musical distinto e mais abstrato, atingir por outros caminhos um similar reino de podridão – mas ao mesmo tempo algo mais. Esse algo mais, Imperial Distortion torna mais fácil conhecer. Ledo engano o daquele que preferir ver nesse trabalho novo de Drumm apenas uma guinada para suculentos drones encantadores de feedback: cada persistência de som, cada pausa intencional, cada variação assumem-se como posições conceituais, quase filosóficas, de encarar a passagem do tempo, as deteriorações provocadas pelo mundo, os aspectos randômicos dos encontros que podem orientar ou desorientar nossas vidas.

A própria capa do disco mostra uma visão de cima de coisas jogadas a esmo na relva. Um caos discreto, vários elementos heterogêneos aproximados mais por sua posição do que por sua adequação ao conjunto. Como as seis faixas de Imperial Distortion, a capa parece interpretar e defrontar-se com um mistério amplo da existência, a vida, e narrá-la não através de seu oposto (a morte, a deterioração total), mas das permanências e lentas variações letárgicas que carregamos conosco pelos dias, pelos meses, pelos anos. Se o noise em volumes inaudíveis é o miasma do inferno, o drone é a vida, em sua monotonia, em seu emprego do tempo e das tonalidades, em sua atividade. Sabemos que é perigoso interpretar em termos de substantivos nobres as expressões propostas pela arte (sempre tênues, fluidas, sem se deixar levar pelas precisões e objetividades da racionalidade), mas nesse caso Kevin Drumm parece não deixar outra hipótese: pelo trabalho visual, pelos nomes das faixas e pela imponência do projeto, há algo de definitivo e retumbante que parece ser orquestrado aqui.

Seis faixas entre 15 e 20 minutos. O volume é baixo, tornando delicadas as mudanças operadas nos contornos das distorções. Com as repetições o tempo parece se estender, e o ouvido reconhecer o mesmo como diferente e o diferente como o mesmo – em todo caso deixar-se perder na parede de ruído criada por Drumm. Os drones podem até ser envolventes, como em “Romantic Sores”, mas eles carregam consigo uma densidade, uma solenidade, um peso que recusa as interpretações ambient. O disco não se articula entre a dupla diferença/repetição, mas entre permanência/desaparecimento. Em “Guillain Barre”, a que abre o disco, três dinâmicas distintas aparecem em pedaços da faixa, uma com sonoridades de sinos bastante distorcidas, noutra um drone grave e espectral, e ao final um outro, mais agudo, que some e retorna, até acabar de vez. O decisivo aqui são as operações de tempo, e de dinâmica de faixa: os drones vão insidiosamente levando ao apego, a construir nossa percepção no ritmo que eles nos conduzem, e depois somos pegos pelo pé com sua alternância. Por mais de 100 minutos somos entretidos com esses sons inauditos, com esses sons lentos e pesados, com a música se construindo cheia de minúcias e delicadezas, até que ao fim de “We All Get It in the End” volte surpreendentemente o miasma do inferno, na figura de um ensurdecedor ruído de estática que domina a faixa por seus últimos minutos. Pela variação extremada do registro, depois de mais de 100 minutos de enlevo – como sair dos Selected Ambient Works 2 de Aphex Twin e entrar de cabeça em Merzbow –, somos sem piedade entregues à podridão, à deterioração, ao abrasivo do noise. Um final surpreendente, e que amplifica as ressonâncias temáticas do disco.

O que por vezes espanta é: como Kevin Drumm, ou como qualquer um veio a se interessar por isso? Um disco colossal com drones em volume baixo numa época em que vários parecem correr atrás do auditivamente inominável, seja na chave da estridência ou na da saturação de sons. Um disco que parece atentar para a inevitabilidade de todas as coisas mas que constrói seu discurso sonoro com um artesanato tão meticuloso e rico em opções que faz com que seu autor pareça mais um demiurgo do que um poeta niilista. É um disco com um vigor estupendo, que exige uma atenção tamanha, uma adesão mesmo. Um disco para poucos (mas para todos que se interessarem), mas uma obra única e distinta dentro do cenário musical contemporâneo. (Ruy Gardnier)

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Da arte de se ouvir três vezes – Um dos procedimentos combinados aqui na Camarilha é o compromisso de ouvir cada disco pelo menos três vezes antes de escrever. De forma que os cem minutos deste Imperial distortion tiveram que ser negociados, bem como a caixa do Gas, Nah und Fern, escolhida para a próxima semana: são álbuns densos e longos, repletos de questões interessantes, mas que demandam uma disponibilidade nem sempre ao nosso alcance. O fato é que decidimos, sim, postar álbuns com duração acima da média, sendo o primeiro este do experimentador americano Kevin Drumm. E ai, devo dizer que me ocorre algo curioso com a prática de ouvir os álbuns da semana por três vezes: dependendo do enfoque e da pegada, alguns deles se revelam somente na terceira audição, como o Diario de Daisuke Myiatani, cujos detalhes emergiram tardiamente, mas com uma força inequívoca. Outros já me ganham de primeira, como o The Bug, London Zoo, que põe para dançar já na primeira faixa. Com Imperial distortion, Kevin Drumm me revelou a seguinte possibilidade: não só desde a primeira audição, mas desde a primeira faixa, fui tomado por um suspense, uma sensação eletrizante de curosidade pelo que viria a seguir. Aqui, a primeira audição se constitui inevitavelmente como nos filmes noir, que têm na surpresa seu trunfo maior…

Da arte de ouvir no fone – Apesar de extremamente desaconselhável para a saúde auricular, tenho o hábito de ouvir música no fone. Gosto de perceber as minúcias do intercâmbio entre a execução e a disposição dos sons – pois a forma como se grava também encerra uma dimensão criativa. É com os fones no ouvido que acessamos a materialidade do discurso musical. No caso de Imperial distortion, esta modalidade de audição permite compreender o papel do silêncio no trabalho de Drumm, uma particularidade deste álbum, já que o anterior, Sheer Hellish Miasmah, primava pela relação com a cacofonia. A duração das faixas reforça as articulações entre as pequenas variações de textura, intensidade e freqüência com o silêncio latente, já que após alguns minutos, o tom contínuo do drone acaba por evocar o vazio característico do silêncio…

Da arte de surpreender – Mas, ao mesmo tempo, a música de Drumm conduz o ouvinte como que por entre o labirinto: entramos por ele, tomamos contato com suas primeiras modulações, nos afeiçoamos com seu aspecto soturno, mas, ainda na primeira faixa, somo surpreendidos pela diversidade complexa que constitui as aparentes repetições. Tamanho preciosismo cria no ouvinte uma tensão pelo que virá: que tipo de manipulação, qual o clima com que Drumm construirá a seqüência? E aquele cenário que se tornara familiar desaparece para dar lugar a uma outra modulação, e assim será durante cem minutos de música. Dizem que Kevin Drumm é guitarrista, e isso faz com que fiquemos ainda mais intrigados, pois, se não me engano, a não ser pelas eventuais notas sintéticas que salpicam a segunda “Snow”, não há nenhuma evidência de trabalho de guitarra em Imperial distortion. E aqui, vale notar que, apesar da riqueza das alterações digitais, da inteligência característica deste trabalho minucioso, o tom e a relativa estabilidade de cada seqüência mantem-se intocado…

Das conclusões – A apavorante reviravolta que marca seus últimos minutos apenas confirma a tensão primordial que marca e caracteriza o trabalho. Imperial distortion tem mérito por sua concepção audaciosa, mas também por demonstrar como se produz com rigor e elegância no universo drone. O tamanho de suas faixas não impede que a música se torne, aos poucos, interessante e prazerosa, pelo contrário: é através de sua capacidade de criar ambientes e envolver o ouvinte, que a música de Drumm se impõe como uma das mais intrigantes da atualidade. (Bernardo Oliveira)

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Próximo a minha casa, uma construção tem atormentado meus dias. Aparentemente estão demolindo, com o uso de britadeira, um andar inteiro que haviam construído com concreto(!). Especialmente nas manhãs de sábado, quando posso dormir um pouco mais, o incômodo tem sido excruciante. Assim, costumo acordar já tentando identificar o barulho mesmo sem estar completamente desperto. No domingo, acordei tranqüilo, não havia barulho e o ambiente estava especialmente silencioso, fiquei algum tempo deitado e ao levantar percebi que o aparelho de som estava ligado. Ocorrer que apenas ao desligar o aparelho percebi que dele saia um zumbido uniforme e denso que eu não havia percebido antes e que preenchia o ar e consistia no suposto silêncio que até então ouvia. Passei então a ouvir alguns tímidos ruídos na casa e até o canto de alguns pássaros.

Seria essa a ligação perfeita entre e drone, o ruído branco e a música ambiente idealizada por Brian Eno? Acho que não. Mas ao lembrar que teria que escrever para a Camarilha um texto sobre a magnus opus (até agora) do Kevin Drumm, não pude deixar de fazer algumas conexões: o barulho atordoante e sem piedade da britadeira, e a densidade do drone confrontadas a Sheer Hellish Miasma e a Imperial Distortion e a capacidade de ambos em preencher o espectro sonoro de formas tão opostas e impregnantes; mas não apenas isso, também como mesmo distintos, ambos os discos parecem se complementar.

Me aproximei de Imperial Distortion com precaução. Ainda recordava da reação ao ouvir Sheer Hellish Miasma pela primeira vez, o mal-estar muito além da duração do disco (aliás, lembro muito mais da sensação do que da música em si, vez que apenas após uma segunda ou terceira tentativa consegui verdadeiramente ouvir o objeto que me causou tamanha reação). Mas tinha a recomendação de um amigo.

Imperial Distortion é outra coisa, mas ainda assim o dna é 100% Drumm e o maior deleite ao ouvir o disco foi que, apesar de toda a distância entre os discos, a primeira coisa que veio à memória após sua audição foi a primeira vez em que ouvi o Selected Ambient Works II do Aphex Twin. Poderia seguir pelo caminho fácil de comparações, ambos são discos duplos de longa duração e são exemplos de trajetos paralelos aos de maior sucesso de seus perpetradores em suas facetas mais agressivas. Mas o que enriquece a lembrança é o fato de ambos trabalharem com uma apreensão especial da música como textura, da música ambiente como algo diverso das idéias de Brian Eno: como algo que não desaparece mas que acrescenta e funde-se com o ambiente criando algo novo e inquietante. Imperial Distortion se coloca como a ovelha negra da irmandade formada por discos como o já mencionado SAW II, o The Disintegration Loops do William Basinski e o Tired Sounds of… dos Stars of the Lid.

O álbum começa repleto de pequenos ruídos envolvidos em camadas de drone; são intervenções de eco, reverberações, sinos, que aos poucos são reduzidos às camadas de drones estéreis sem cor, apenas variando pelo modo como as sobreposições são feitas, algo como o zumbido de vários eletrodomésticos. Os sinos, afogados no drone elétrico anunciam que o caráter imperial estará na dimensão da música e não no volume sonoro ou na quantidade de elementos. O anúncio de um fim, como o de uma procissão fúnebre.

Algumas faixas parecem organizada em torno de alguma forma de fading, onde a maior atividade inicial dá lugar a imobilidade do drone; algumas também parecem compor-se de distintas seções, como a transição ocorrida por volta de 06:20 em “More Blood And Guts”, com um respiro no drone e na volta, o acréscimo de elementos eletrônicos, para cair em doce placidez após os dez minutos.

Apesar de tratar-se de rigorosa música experimental com emprego de elementos escassos e “frios”, a forma como essas transições ocorrem e como cada mudança é introduzida não deixa de surpreender e emocionar, algo que esperaria de um Tim Hecker ou do Stars of the Lid, mas que sugere um novo olhar sobre a produção de Drumm, que aqui realiza um trabalho tão rico em nuances que consegue se destacar com distância em um ano repleto de excelentes lançamentos de mesma cepa.

Fora a segunda faixa, intitulada “More Guts and Blood”, todos os outros títulos evocam algo de uma lenta deterioração, menos por evanescência que por corrosão dolorosa; seja a decadência física da vítima de Guillain-Barre, o inverno e o fim do romance, ou pelo menos os machucados resultantes. É pouco alentador que a única faixa onde alguma agressividade escapa denomine-se “We All Get It in the End” e a catarse final, após cerca de 100 minutos de imersão assemelha-se justamente ao afogado sendo resgatado das do silêncio aquático e jogado de volta ao mundo dos ruídos atmosféricos.

Acaso Sheer Hellish Miasma seja o monumento impenetrável sendo implodido, Imperial Distortion nos deixa justamente nos escombros dessa suposta fortaleza. Essa distorção imperial que de início parecia grandiosa termina por parecer a trilha sonora para uma elegia, ou melhor, o resíduo sonoro (melancólico?) do fim do império, tão distorcido quanto destruído. (Marcus Martins)

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“Guillain-Barre” é o nome de uma síndrome grave, autoimune, que atinge o sistema nervoso. É um mal raro, que em geral manifesta-se inicialmente com dor e fraqueza muscular dos membros inferiores, evoluindo para perda de movimentos. À medida que o problema fica mais agudo, podem surgir distúrbios do sistema digestivo, renal, ou até paradas cardiorrespoiratórias, o que põe em risco a vida de quem sofre da doença. A síndrome não costuma ser fatal, embora possa matar. Porém, muitas vezes deixa a vítima com tremores ou dificuldades motoras permanentes.
Calma, leitor. A “Camarilha” não ser tornou um site de medicina de uma hora para a outra. É que “Guillain-Barre” é o nome da primeira faixa de Imperial Distortion, o monumento mais recente erguido por Kevin Drumm. Uma opção curiosa, a de Kevin Drumm. A idéia de paralisia lenta, gradual e possivelmente fatal da síndrome de Guillain-Barre não deixa de ser um problema diante da massa sonora que o artista erige na canção, que começa evocando sons de sinos para então derivar para um drone que se avoluma e diminui no percurso de mais de 17 minutos. Mas é apenas o primeiro passo do disco, que se revela ainda mais complexo nas cinco faixas seguintes.
Em Imperial Distortion, o próprio conceito de distorção parece provocativamente distorcido. Os drones são antes suaves e, em vez de linhas, traçam planos sonoros ao longo da extensa duração de cada música. Planos densos e lisos como pode ser um oceano, e tal como um oceano, as canções são entrecortadas por imensos transatlânticos em forma de notas uivantes e sutis variações de volume e timbre. Uma proposta sonora que induz a uma placidez perturbante, que chega ao ápice na peça dupla “Snow”. Mas não se trata da placidez paralisante de uma síndrome de Guillain-Barre. E, para lembrar disso, o encerramento do disco se dá com o recadinho: “We All Get It In The End”, que acaba com o esporro de uma estática impiedosa aos ouvidos, na marca de 12min15s. Got it. (Tiago Campante)
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Um comentário em “Kevin Drumm – Imperial Distortion (2008; Hospital Productions, EUA)

  1. Bernardo
    29 de julho de 2011

    O Kevin faz dois shows em SP no meio de agosto:

    http://www.noropolis.net/kevin-drumm.php

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Publicado às 4 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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