Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Faust – “Why Don’t You Eat Carrots?” (1971; Polydor, Inglaterra)

“Why Don’t You Eat Carrots?” é a faixa de introdução ao Faust. Primeira música do primeiro disco. Em 1971, a linguagem do rock e do pop se complexificava com faixas de grande duração, progressões melódicas, arranjos rebuscados e, em geral, um enorme panorama de “música séria” sendo criado. Nas partilhas dos talentos e das propostas, o enciclopedismo construtivo valia mais que a rebeldia inconseqüente. Havia exceções, claro, que realizavam suas pesquisas musicais fora dos cânones melódicos (caso do Velvet Underground e principalmente de Frank Zappa). Mas eram raros aqueles que flertavam de forma abusivamente irreverente com o não-saber e a cacofonia. “Why Don’t You Eat Carrots?” já começa com um feedback barulhento que acaba com a mesma gratuidade que começou, e em seguida permite alguns fraseados de piano que descambam numa melodia de órgão com guitarra distorcida e bateria marcial acompanhando. Entra um sax solando e até quatro minutos o equilíbrio é mantido. Depois, começa um carnaval lisérgico com melodia de saxofone, guitarra repetindo as notas e batidas na caixa da bateria, com direito a inúmeras intervenções – feedbacks, sinos, barulhos de navio, conversas, sons eletrônicos e, principalmente, bruscas subidas e descidas de volume. Uma confusão divina, que não faz nada de acordo com os parâmetros comuns. As coisas não desaguam umas nas outras, elas parecem se combater. São como fragmentos sobrepostos, conflitantes, criadores de tensão sonora. Ou seja, o oposto do ideal olímpico de uma certa ideologia do rock progressivo. “Why Don’t You Eat Carrots?” nos apresenta um universo provocador, instável, e amplia nossas concepções de equilíbrio e sonoridade para além dos belos sons; a música está dizendo que é a própria concepção, mais que a execução, que é musical. As vozes em coro bêbado, a melodia de coreto, o irrefreável sentimento de bagunça instalado pela desarmonia do todo nos mergulham numa festa de desorientação dos sentidos que só atinge toda graça porque não faz sentido nenhum.

Mas é uma rebeldia, diria, construtiva: ela busca novas associações entre instrumentos, novas maneiras de trabalhar entre caos e ordem, novas formas de fazer uma duração variar, seja entre movimentos distintos, seja dentro do mesmo movimento. O Faust costuma ser reverenciado mais por suas posturas negativas do que positivas (mais pela liberdade que a audição ocasiona do que pelos resultados atingidos a partir do processo). Mas podemos identificar até hoje ressonâncias sonoras: tomemos “Kaikyo”, de Asa-Chang & Junray, o modo de fazer melodia tradicional virar outra coisa, a dinâmica criada entre sopro e percussão, as intervenções externas (barulho de mar, em especial). A mim, ao menos, essa faixa é uma prova inequívoca de que, mais do que somente a banda mais aloprada do saco de gatos circunscrito pelo termo krautrock, o Faust é uma senhora banda que estendeu suas influências a uma plêiade de músicos e admiradores com alguns dos achados sonoros e conceituais mais magníficos de sua ou de qualquer outra época. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 8 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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