Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Gas – Nah und Fern (2008; Kompakt, Alemanha)

Wolfgang Voigt é um prolífico produtor e compositor de música eletrônica, oriundo da cidade de Colônia, na Alemanha. Juntamente com Michael Mayer and Jürgen Paape, fundou o selo Kompakt, especializado em microhouse e adjacências. Conhecido por inúmeros pseudônimos, seu projeto mais influente é o Gas, cujos quatro primeiros álbuns – Gas (96), Zauberberg (97), Königsforst (99), e Pop (2000) – foram relançados na caixa Nah und Fern.

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A cidade de Colônia, na Alemanha, representa uma espécie de plataforma de pesquisa avançada no que diz respeito à manipulação eletrônica do som. Foi em Colônia que, por volta de 1953, e sob a influência de Messiaen e Milhaud, o compositor Karlheinz Stockhausen desenvolveu no Westdeutscher Rundfunk o chamado “serialismo integrado”; lá, György Ligeti se refugiou de uma Romênia conturbada politicamente, para experimentar outros parâmetros da produção sonora; lá também surgiu um grupo visionário como Can. Em todos esses casos, uma característica comum: a pesquisa e a criação em favor da expansão do som e do deslocamento crítico dos cânones da música ocidental. Era de se esperar que, neste ambiente propício, surgisse, em meados da década de 90, produtores e compositores que procurassem redimensionar o espectro sonoro do techno, visto que a turma de Detroit, notoriamente ligada a Derrick May, tinha como objetivo central a produção de músicas para fins de festa e celebração. E aqui, ocorre mais um capítulo curioso das trocas que marcaram a produção cultural dos últimos cinqüenta anos: se por um lado, os produtores de Chicago e Detroit beberam neste ambiente experimental, por outro, a consolidação do techno proporcionou a matéria-prima adequada para que alguns produtores, como os alemães Moritz Von Oswald e Mark Ernestus, do Basic Channel e o produtor de ponta Wolfgang Voigt, entre outros, criassem uma série de álbuns minimalistas, intelectualizados e extremamente reflexivos. No caso de Voigt, esta inflexão se deu de forma contundente através do projeto Gas. Lançados a princípio pelo pioneiro selo alemão Mille Plateaux, seus quatro álbuns foram luxuosamente reeditados pelo selo de Voigt, o Kompakt, acompanhado por um livro de fotos e outro breguetés que, obviamente, não vieram no P2P (por enquanto…).

Através do Gas, Voigt criou uma sonoridade intrincada, que opera mais sobre a organicidade do som do que sobre a harmonia e a melodia, construindo massas sonoras que desenham fluxos e intensidades ora sobre o quatro por quatro cardíaco do techno, ora sob a característica forma ambient (aquele hipnótico “tãããããã…”). Pode-se dizer, entretanto, que Gas, Zauberberg e Königsforst diferem de Pop em relação à timbragem e ao tipo de construção harmônica. Os três primeiros obedecem a critérios rigorosamente determinados; ao passo que Pop é mais livre, joga mais abertamente com as dissonâncias, se utiliza menos do baticum techno (apenas em duas faixas) e até arrisca algo próximo de um reggae na quarta faixa. Entretanto, esses aspectos gerais não traduzem exatamente a genialidade do projeto. Aqui, a estrutura importa menos que a experiência singular, pois, a cada faixa, somos conduzidos a um território sonoro exclusivo, ao qual poderíamos votar as mais sinestésicas expressões. Às vezes a percepção nos prega uma peça, e entrevemos uma melodia aqui, um tema acolá, quando o que ocorre é uma prodigiosa sucessão de diferentes imbricações harmônicas, que atestam a filiação de Voigt ao mais alto e complexo pensamento musical germânico. A música do Gas impressiona pela forma sucinta e singular com que ele condensa a emancipação tonal característica do dodecafonismo de Arnold Schöenberg, a parcimônia nebulosa da ambient de Brian Eno e a pulsação segura do techno. Ao final da audição dos quatro volumes, tive a nítida impressão de estar diante de um universo sonoro autônomo, com regras e dinâmicas próprias. E, sobretudo, com uma densidade rara na música contemporânea.

Nah und Fern é um pavoroso testemunho do caráter singular que reveste toda a arte relevante de hoje, que tanto delicia pela exuberância, quanto intriga pela autonomia. E aqui, peço licença para uma divagação. Como escreveu o filósofo italiano Giorgio Agamben, “tudo nos conduz a pensar que, caso se confie atualmente aos próprios artistas o dever de julgar se a arte deve ser admitida na cidade, julgando a partir de sua própria experiência, eles concordariam com Platão sobre a necessidade de bani-la.” O “terror divino” ⎯ expressão utilizada por Platão para explicar o êxtase da criação artística ⎯ devidamente deslocado de seu contexto platônico e aplicado à cultura de massas, representaria justamente a cristalização de um processo caro à estética ocidental, e que constituiria uma gradativa reação dos artistas frente à vitória do espetáculo. Se, como supõe Agamben, os artistas contemporâneos desejam banir a arte da cidade, é sobretudo porque, como previra Hegel, e a despeito de seu esforço, a arte se tornou, para o espectador, um projeto autônomo e, para o artista, uma terrível e abismal “promessa de felicidade”. O terror divino não é somente o delírio da representação, o prazer do êxtase e do encanto que estimulou críticas severas de Santo Agostinho contra os jogos cênicos, mas sobretudo uma reação dos artistas ao projeto regulador dos filósofos, notadamente da filosofia alemã. Se a arte contemporânea se torna gradativamente menos “interessada” que “interessante”, é porque o artista, desembaraçando-se do caráter regulatório da estética prescritiva, assume o terror. Em outras palavras, a arte hoje segue o rumo da singularidade radical, e é para afirmar o interesse do artista como irrepresentável que o terror pode ser considerado nos dias de hoje. Não sei se Voigt seria expulso da cidade, nem se aceitaria se colocar neste contexto de singularização da experiência criativa. Mas não há dúvida que Nah und Fern encerra um dos mais pavorosos e irredutíveis ecossistemas musicais da atualidade. (Bernardo Oliveira)

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“… Os alemães são mais inapreensíveis, mais amplos, mais contraditórios, mais desconhecidos, mais imprevisíveis, mais surpreendentes e mesmo mais apavorantes para si mesmos do que outros povos (…) É próprio dos alemães nunca deixar de se perguntar ‘o que é alemão?'”

Quando fui escrever sobre Nah und Fern, talvez não por acaso, abri o “Além do Bem e do Mal”, de Friedrich Nietzche, e encontrei o trecho acima, do 244º aforismo. Pareceu-me uma epígrafe apropriada para abrir a caminhada por esta compilação que reúne os quatro discos que o alemão Wolfgang Voigt fez sob o codinome Gas entre 1996 e 2000. De cara, Nah und Fern impressiona pelo caráter simultaneamente múltiplo – nas sutis variações que fornecem o calor no meio das densas camadas de drones – e coeso – na exploração de signos até de música clássica da própria Alemanha e adjacências conjugados nos tempos verbais do ambient e do techno.

Se num momento surgem sonoridades etéreas, em outros destaca-se a pancada techno. E chama a atenção o desdobramento que Voigt propõe a partir de recortes de orquestrações e temas que são retorcidos e revirados a ponto de ficarem quase irreconhecíveis na solução liquefeita da linguagem eletrônica do ambient. Aqui, permitam-me destacar o terceiro disco, Königsforst, em que o buraco me pareceu mais fundo, com o oceano de drones se deixando invadir por sons de uma usina, caso da segunda faixa, para citar um exemplo.

Pode soar estranho mas, ao longo dos quatro discos, Gas mede-se mais em termos de densidade, ou seja, de uma grandeza intensiva, do que em termos extensivos. Talvez por isso as faixas sequer tenham nomes, identificação. Nem por isso deixam de ter uma identidade. O som alemão de Gas se encaixou nos adjetivos do “alemão” de Nietzsche: amplo, contraditório, desconhecido, imprevisível, surpreendente, apavorante e, sobretudo, inapreensível. Um projeto que, se às vezes esbarra no limite da rigidez germânica, nos engole num movimento de voltar-se para dentro, como que remexendo o próprio solo de onde brotou. (Tiago Campante)

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Que desenho singular cria uma faixa do Gas? A que mundos ela nos apresenta? Nah und Fern, uma caixa que compila os quatro long-plays lançado por Wolfgang Voigt em seu projeto Gas, nos dá quase cinco horas de música para encontrar padrões sonoros e conceituais, estudar permanências e mudanças, estratégias e interesses. A começar, algumas sensações que tornam-se rapidamente patentes: o alto poder sugestivo de imagens e o convite à imersão, no limite ao imbricar-se de tal forma naquele mundo de forma a perder-se, ou a sentir-se desorientado. Assinaturas-padrão do Gas, reconhecíveis na maioria das faixas: um som de bumbo realmente abafado, como se o ouvinte estivesse no cômodo vizinho ao da fonte sonora, e sons geralmente distorcidos e atmosféricos de teclado/cordas que flertam com Angelo Badalamenti (imagine “Laura Palmer’s Theme” amplificado ao limite da transformação em drone). Esses drones, quase sempre envolventes e calorosos, aparecem e somem, ou permanecem o tempo inteiro da faixa, às vezes com variações sutis. Ao longo de cada disco, uma estratégia distinta é montada entre faixas com batida e faixas sem batida. Em linhas gerais, é como se apresenta formalmente cada faixa e disco do Gas.

Há variações entre os discos, claro. O primeiro disco, epônimo, é de todos o mais contido e clássico, o que mais flerta com o techno ao trabalhar com dois elementos distintos de percussão (bumbo/prato) em todas as faixas com batida. Em seguida Voigt reduzirá o padrão a apenas um bumbo, bem mais abafado, sonado independente do “tac” de resposta. Zauberberg é resultado desse exercício de supressão, e contém como característica mais própria o uso de estalos de vinil em volumes quase acintosos, além de glitches eletrônicos mais perceptíveis nesse disco do que nos outros. Königsfort, dos quatro, é o que mais parece abrir para outro ramo, o do dub atmosférico, usando os sons graves do bumbo abafado como marca distintiva. Também é o disco que parece apresentar um espectro de humores mais largo, indo da quase estóica terceira faixa à sensualíssima quinta faixa (vale lembrar que nenhuma das faixas em todos os quatro discos tem nome), com sua brilhante dinâmica entre bumbo e chocalho. Se todos os discos do Gas parecem evocar paisagens e/ou espaços abertos, Pop leva isso aos últimos limites, incorporando sons que evocam o vento e a água escorrendo. Esses últimos, aliás, são a presença mais discernível na primeira metade do disco. À sua maneira, Pop é o disco em que os drones cativam menos pelo poder de envolvimento caloroso do que pela originalidade timbrística. É sem dúvida o disco mais “duro” dos quatro, mas que sabiamente entrega ao final um autêntico crowdpleaser com a última faixa, que adiciona batida ao drone intermitente que aparecia na faixa anterior e assume, pela sua posição dentro do disco (e, em Nah und Fern, de toda obra), dimensões épicas.

Como obra ambient, o sucesso da audição será proporcional à instalação de cada um no regime de tempo e nas proposições de imagem – necessariamente abertas à imaginação do ouvinte – evocadas pela música. A chave para degustar os sons do Gas não é a versatilidade e tampouco a originalidade dentro do espectro ambient – nesse quesito ele toma de lavada de Brian Eno e de Aphex Twin, só para mencionar dois marcos definidores do conceito ambient. Ao contrário, ele é único por sua insistência, que cria um poder de instauração incomum, além do poder evocativo e, digamos, aconchegante que cada faixa tem – um raro poder emocional dentro de uma aparente armadura de impessoalidade. A despeito de limitar as possibilidades de abrangência e dinamismo dentro de seu universo, a cosão e o rigor de Voigt em seu projeto Gas atingem dimensões surpreendentes e cativantes. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 11 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , , .
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