Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

David Byrne & Brian Eno – “Strange Overtones” (2008; Independente, EUA/Inglaterra)

Eu poderia começar esse texto com aquele velho papo introdutório, descrevendo as façanhas de cada um dos participantes, suas glórias reconhecidas por aqueles que sempre se interessaram por música de invenção (ou com algum grau de invenção…). Também poderia abordar a questão do ponto de vista do gosto mais ordinário e imediato, identificando os motivos pelos quais chegamos a tal e tal veredito: se positivo, a sonoridade, a letra inspirada e a experimentação como método; se negativo, o abuso do conteúdo pop, a batida fora de moda (como reconhece a letra: “his groove is out of fashion / these beats are twenty years old”) e o pandeirinho do refrão, arroz de festa da instrumentação mundial. Mas não. A notícia é simples e singela: com o sugestivo título Everything that happens will happen today , David Byrne e Brian Eno reeditam a parceria que rendeu, entre outras coisas, a obra-prima My life in the bush of ghosts e o melhor disco dos Talking Heads, Remain in light. E soltaram a primeira faixa pela internet, “Strange overtones”. A faixa é boa. Mas devo notar que, como escreveu o Campante há algumas semanas atrás, o convívio prolongado com certos artistas nos torna um pouco “parentes”, trazendo uma série de problemas previsíveis e sentimentos confusos. Pois apesar de parentes serem, de fato, serpentes, o grau de envolvimento impede que se reelabore o tipo de relação que travamos com eles, para admitir, por exemplo, que o parente enlouqueceu, envelheceu, morreu, ou mesmo que continuará exatamente da mesma maneira… Em suma, os velhos problemas não se convertem em novos, mas adquirem outras formas. Mais ou menos como se Brian Eno reeditasse um projeto como The Passengers, ou Byrne, o péssimo Rei Momo. E aí, por mais que, no frigir dos ovos, “Strange Overtones” carregue um sabor deveras desagradável, a forma altiva e irônica com que Byrne e Eno constróem a canção, com seu jeitão deliberadamente datado, com sua verve mezzo U2, mezzo Coldplay, irrita e enternece ao mesmo tempo. Afinal, que importa se é bom ou ruim quando se trata do mais encarnado parentesco de espírito, da mais comezinha relação familiar? (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 15 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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